120473.fb2 A cidade submarina - читать онлайн бесплатно полную версию книги . Страница 10

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— Loucura! exclamou Maracot.

Scanlan dirigiu-se ao seu armário. Quando se voltou tinha na mão um grande revólver de seis tiros.

— Que acham disto? disse ele. Trouxe-o quando estivemos no navio naufragado. Pensei que talvez se tornasse útil mais tarde. Tenho aqui uns doze cartuchos. Talvez que se eu lhe fizer na carcaça outros tantos buracos, ele deixará escapar alguma coisa de sua magia. Santo Deus! Que é isto!

O revólver cairá ruidosamente no chão e Scanlan se contorcia de dor, segurando com a mão esquerda o punho direito. Terríveis cãibras lhe haviam empolgado o braço e procurando aliviá-lo podíamos sentir seus músculos retesados e duros como as raízes de uma árvore. Um suor agônico escorria pela testa de nosso pobre companheiro. Caiu finalmente sentado sobre o seu leito, abatido e exausto.

— Isto quase acaba comigo, disse ele. Estou esgotado. Sim, obrigado, a dor já passou. Mas eu aprendi minha lição. Não se combate o inferno com revólveres de seis tiros; nem vale a pena tentar. Terei mais cuidado de agora em diante.

— Sim, você recebeu uma severa lição, disse Maracot.

— Acha então o nosso caso desesperado?

— Que poderíamos fazer quando ele, ao que parece, está ciente de cada palavra e de cada um dos nossos atos? Não devemos contudo desesperar. — Durante alguns momentos permaneceu pensativo. — Acho, Scanlan, continuou, que deve ficar aí deitado por algum tempo. Você teve um abalo de que lhe custará um pouco recobrar-se.

— Se houver alguma coisa a fazer, contem comigo, disse nosso companheiro bravamente, se bem que seu rosto transtornado e seus membros trêmulos denotassem o sofrimento que tivera de suportar.

— Não temos nada a fazer, pelo menos no que se refere a ti. Já vimos que é inútil qualquer violência. Deveríamos trabalhar em outro plano — o plano espiritual. Fique aqui também, Headlei. Vou até a sala que me serve de escritório. Talvez que ficando só eu possa ver um pouco mais claro neste assunto.

Tanto Scanlan como eu aprendêramos a depositar uma grande confiança em Maracot. Se algum cérebro humano pudesse resolver nossas dificuldades, seria o seu. Havíamos todavia chegado a um ponto que parecia escapar totalmente à influência das forças humanas. Achávamo-nos tão perplexos como crianças diante de forças que não podem compreender nem controlar. Scanlan caíra em um sono agitado. O que me perguntava ao sentar-me ao lado dele não era como poderíamos escapar e sim que forma assumiria o golpe que nos iria aniquilar e quando cairia sobre nós. Esperava a todo momento ver desabar aquele sólido teto que nos cobria, aluírem-se as paredes e as águas escuras do pélago precipitarem-se sobre aqueles que as haviam desafiado tanto tempo.

Mas subitamente o grande sino recomeçou a repicar. Suas badaladas retumbantes agitavam violentamente os nervos. Pus-me de pé num salto e Scanlan sentou-se no leito. Não era um apelo comum que ressoava através do velho palácio. Aquele repique agitado, tumultuoso e irregular, era um grito de alarma. Todos deveriam vir e imediatamente. Era ameaçador e insistente. «Venham! Venham imediatamente! Deixem tudo e venham!» bradava o sino.

— Olhe, Bo, acho que nos devemos reunir a eles, disse Scanlan. Decerto estão se preparando para enfrentá-lo agora.

— Mas que poderemos fazer?

— Talvez só a nossa presença já lhes dê um pouco mais de ânimo. De qualquer modo, eles não devem pensar que somos desertores. Onde está o doutor?

— Foi ao escritório. Mas tem razão, Scanlan. Devemos ir ter com os outros para mostrar-lhes que estamos prontos a partilhar o seu destino.

— Essa pobre gente parece ter confiança em nós. Pode ser que sua sabedoria seja maior do que a nossa, mas nós parecemos ter mais sangue-frio. Penso que eles se limitaram a conservar o que lhes foi dado, ao passo que nós tivemos que descobrir as coisas por nós mesmos. Se o dilúvio tem de vir mesmo, que venha.

Mas ao nos aproximarmos da porta deparamos com um espetáculo dos mais inesperados. O Dr. Maracot se achava à nossa frente. Mas seria aquele realmente o Dr. Maracot que conhecíamos — este homem senhor de si mesmo, em que a energia e a intrepidez se refletiam em cada traço de suas feições imperiosas? O sábio pacato desaparecera para dar lugar a um super-homem, um grande chefe, uma alma dominadora capaz de flectir o gênero humano aos seus desejos.

— Sim, amigos, pode ser que necessitem de nós. É possível que tudo possa ainda ser remediado. Mas venham imediatamente antes que seja tarde. Explicarei tudo depois — se é que possa haver algum depois para nós. Sim, sim, já estamos indo.

As últimas palavras eram ditas, ao mesmo tempo que acompanhadas por gestos adequados a alguns aterrorizados atlantes que haviam aparecido na porta e nos chamavam ansiosamente por gestos. Várias vezes, como dissera Scanlan, nos havíamos mostrado mais enérgicos e resolutos do que este povo prisioneiro das águas e agora, neste momento de supremo perigo, eles pareciam apegar-se a nós. Pude ouvir um abafado murmúrio de alívio e satisfação ao penetrarmos no salão e tomarmos os lugares reservados para nós na fileira da frente.

Já era tempo de chegarmos, se podíamos realmente levar-lhes algum socorro. O terrível personagem já se achava sobre o tablado, encarando com um sorriso cruel o povo apavorado que se achava à sua frente. A comparação de Scanlan de um bando de coelhos diante de uma doninha voltou-me à memória ao olhá-los. Seguravam-se uns aos outros, cheios de terror, a fitar com os olhos dilatados a temerosa figura que torrejava à sua frente e a implacável face de granito que os contemplava. Nunca me poderei esquecer da impressão que me fizeram aquelas filas semicirculares de rostos convulsos e de olhares que se cravavam apavorados no tablado central. Parecia que ele já proferira a condenação e que toda aquela gente esperava sob a sombra da morte a sua execução. Manda, em atitude de abjeta submissão, suplicava em voz entrecortada compaixão pelo seu povo, mas era visível que as suas palavras apenas serviam para acrescer o prazer do monstro, que o encarava escarnecedoramente. Com algumas palavras ásperas ele o interrompeu levantando a mão direita para o ar, enquanto um alarido de desespero se elevava da assembléia.

E naquele momento, o Dr. Maracot pulou para o tablado. Causava espanto vê-lo. Parecia havê-lo transmudado um milagre. Tinha o porte e a desenvoltura de um jovem e no seu rosto havia uma expressão de domínio e energia como nunca vira em feições humanas. Vimo-lo dirigir-se para o Torvo gigante que o fitava surpreendido.

— Então, homem, que tens a dizer? perguntou ele.

— Tenho isto a dizer, disse Maracot. Chegou a tua hora. Já a ultrapassaste mesmo. Para baixo! Desce imediatamente para o Inferno que já te esperou tanto tempo. És um príncipe das trevas. Vai para onde elas estão.

Os olhos do demônio lançavam sombrios clarões ao responder:

— Quando chegar a minha hora, se esta chegar algum dia, não será dos lábios de um vil mortal que o saberei, disse ele. Que poderes tens para te ousares opor por um momento que seja a um ente que manobra os mais íntimos segredos da Natureza? Eu poderia aniquilar-te no lugar em que estás.

Maracot sustentou sem pestanejar aquele olhar terrível. Pareceu-me que era o do gigante que lhe fugia.

— Infeliz criatura, disse Maracot, sou eu que tenho a vontade e o poder para aniquilar-te onde estás. Já manchaste demasiado o mundo com a tua presença. Foste sempre um pântano pútrido a macular tudo que há de belo e de bom. O coração dos homens sentir-se-á aliviado quando te fores e o sol luzirá com mais brilho.

— Que queres dizer? Quem és? balbuciou o gigante.

— Tu falas de conhecimentos secretos. Deverei dizer-te o que se acha na base dessa sabedoria? É que o bem é sempre mais forte do que o mal da mesma plana. O anjo sempre vencerá o demônio. Encontro-me agora no mesmo nível em que tu tanto tempo estiveste e tenho poderes de conquistador. Eles me foram conferidos. Por isso ordeno-te novamente: Para baixo, já! Desce para o Inferno a que pertences! Para baixo, ordeno-te! Já!

E então ocorreu o milagre. Durante um minuto ou mais — como se poderia avaliar o tempo em tais momentos? — os dois entes, o mortal e o demônio, encararam um ao outro, rígidos como estátuas, olhos nos olhos, ambos com a mesma expressão de inflexível energia no rosto. E subitamente a gigantesca criatura recuou. Com o rosto convulso de furor elevou dois punhos fechados para o ar. «És tu, Warda, tu, maldito! Bem te reconheço! Maldito sejas, Warda! Mil vezes maldito!». Sua voz morreu aos poucos, seu vulto negro tornou-se de contornos indistintos, sua cabeça tombou para o peito, seus joelhos flectiram-se e lentamente caiu, mudando aos poucos de aspecto. A princípio era um abatido ser humano, que se tornou numa massa informe, desfazendo-se subitamente num montão semilíquido de uma matéria negra, pútrida e repulsiva, que manchava o tablado e empestava o ar. Ao mesmo tempo Scanlan e eu precipitamo-nos para a plataforma, pois o Dr. Maracot com um profundo gemido caíra desfalecido para a frente. «Vencemos! Vencemos!» balbuciou ele, e no instante seguinte perdia o conhecimento e tombava semimorto no chão.

Foi assim que a colônia atlante escapou ao perigo mais horrível que a poderia ameaçar e que um ente maléfico foi banido para sempre do mundo. Só dali a alguns dias pôde o Dr. Maracot contar-nos sua história e era ela de tal caráter que se não tivéssemos visto o seu desfecho tê-la-íamos na conta de delírio. Devo dizer que seu poder o havia abandonado depois de passada a ocasião que o solicitara, e que era agora o mesmo pacato homem de ciência que sempre conhecêramos.

— Acontecer isto a mim! exclamou ele. A mim, um materialista, um homem tão embebido de matéria que para mim o invisível não existia! Desmantelaram-se ao meu redor as teorias em que acreditei toda a minha vida.

— Entramos novamente numa outra escola, disse Scanlan. Se algum dia eu voltar para a minha pequena casa da cidade, terei bastante coisa que contar.

— Quanto menos falar tanto melhor para você, a não ser que queira ganhar a fama de ser o maior mentiroso de toda a América, redargüi. Será que eu ou você acreditaríamos nisso tudo se fosse alguém que nos viesse contar?

— É bem possível que não. Mas o senhor fez um trabalho bonito, doutor. Aquela alma negra ganhou o que merecia e o que é melhor é que não voltará mais. Para onde foi, isso é que não sei, mas de qualquer jeito para lá é que eu não quero ir.

— Vou contar-lhes exatamente o que aconteceu, disse o doutor. Lembram-se ainda de que eu os deixei e me retirei para o meu escritório. Tinha poucas esperanças no coração, mas em diversas ocasiões já li bastante coisa a respeito de magia negra e artes ocultas. Sabia já que a branca pode sempre dominar a negra quando pertençam ambas à mesma plana. Ele se achava num nível muito mais forte — não direi mais elevado — do que nós. Nisto é que consistia o mal.

Não via meios de escaparmos. Atirei-me sobre o canapé e orei — eu, o materialista irredutível — orei por socorro. Quando se chega ao extremo do poder humano, que se pode fazer senão estender mãos suplicantes ao invisível que nos cerca? Orei — e minha oração teve uma resposta espantosa.

Senti subitamente que já não me achava só no quarto. À minha frente se achava uma alta figura de tez tão escura como a do ente que combatíamos, mas de fisionomia bondosa e longas barbas veneráveis, que irradiava benevolência e amor. A impressão de força que incutia não era menor que a do outro, mas era a força do bem, a força à frente da qual o mal se desvaneceria como a névoa aos raios do sol. Olhava-me com expressão de imensa bondade e eu limitei-me a fitá-lo surpreendido demais para poder articular qualquer palavra. Qualquer coisa dentro de mim, inspiração ou intuição, dizia-me que era este o espírito daquele atlante grande e sábio que combatera o mal enquanto vivera e que, não podendo impedir a destruição de sua pátria, cuidara de assegurar a sobrevivência dos mais dignos, mesmo tendo que se verem submersos nas profundezas do oceano. E agora este ente assombroso aparecia para impedir a ruína de seu trabalho e a destruição de seus filhos. Com uma abafada exclamação de esperança compreendi tudo isso tão claramente como se ele o tivesse dito. Sempre sorrindo, ele se encaminhou para mim e colocou suas mãos sobre minha cabeça. Era sem dúvida sua própria energia e poder que ele me transmitia. Sentia-os correndo como vivo fogo pelas minhas veias. Nada no mundo me parecia impossível naquele momento. Possuía a vontade e o poder para operar milagres. Naquele instante ouvi o sino tocar a alarma, o que me mostrou que a crise chegara. Ao me levantar do canapé, o espírito, com um sorriso de encorajamento, desvaneceu-se à minha vista. Fui ter então com vocês e o resto já sabem.

— Sua reputação entre eles está feita, disse eu. Mesmo se quisesse ser adorado como um Deus, creio que não encontraria dificuldades.

— O senhor se arranjou bem melhor do que eu, doutor, disse Scanlan, pensativo. Como será que aquele sujeito não adivinhou o que estava fazendo? Ele foi bem pronto em me castigar quando peguei no revólver. E no entanto com o senhor ele não desconfiou de nada.

— Suponho que é porque você agiu no plano material, ao passo que eu me elevei a um plano espiritual, disse Maracot pensativo. Tais coisas nos ensinam a sermos humildes. Somente quando entramos em contato com o mais elevado é que verificamos o nível baixo em que nos achamos entre as numerosas possibilidades da criação. Recebi minha lição. Assim possa minha vida futura mostrar que me aproveitou.

E foi esse o fim de nossa suprema aventura. Pouco tempo depois é que tivemos a idéia de enviar notícias nossas à superfície e mais tarde, por meio de bolas de vidrina cheias de levigênio, subirmos nós mesmos, sendo recolhidos da maneira já narrada. O Dr. Maracot fala atualmente em voltar. Há certos pontos de ictiologia sobre os quais necessita detalhes mais preciosos. Mas Scanlan, ao que soube, casou-se com sua namorada de Filadélfia e foi promovido a chefe de obras de Merribank, não procurando mais aventuras; quanto a mim, as profundezas marinhas já me deram uma preciosa pérola — e nada mais lhes peço.