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Ele encolheu os ombros.
— Sempre teremos tempo para ver o verdadeiro fundo do oceano, disse ele. Há em nossos tubos ar bastante para a maior parte de um dia. O que nos prejudicará mais serão os produtos residuais. Se nos pudéssemos libertar do anidrido carbônico…
— Isso vejo que é impossível.
— Há um tubo de oxigênio puro. Trouxe-o para caso de acidente. Um pouco disso de tempos a tempos servirá para nos prolongar a vida.
— Mas, para que prolongar a vida? Quanto mais depressa vier o desenlace melhor, disse eu.
— Isso mesmo, exclamou Scanlan. Acabemos com isto logo de uma vez.
— Deixando de contemplar o espetáculo mais extraordinário que olhos humanos já viram! exclamou Maracot. Seria uma traição à ciência. Observemos os acontecimentos até o fim, mesmo que o que virmos esteja condenado a permanecer para sempre enterrado em nossos corpos.
— Seja então, doutor! exclamou Bill Scanlan. Vejamos o espetáculo até o fim.
Sentâmo-nos os três pacientemente nos bancos, que acompanhavam as oscilações e giros de nossa caixa, segurando em suas bordas com os dedos contraídos, enquanto continuávamos a ver os peixes se precipitarem velozmente para cima através dos postigos.
— Já estamos a três milhas de profundidade, observou Maracot. Vou abrir a torneira de oxigênio, Sr. Headlei, pois este já se acha bem rarefeito. Pelo menos uma coisa é certa — acrescentou com sua risada áspera — é que certamente esta depressão se chamará Pélago de Maracot daqui por diante. Quando o Capitão Howie contar tudo, meus colegas reconhecerão que meu túmulo é também o meu monumento. Mesmo Bulow de Giessen… E articulou qualquer queixa científica ininteligível, que nenhum de nós ouviu.
Recaímos novamente em nosso silêncio, observando o ponteiro que caminhava agora para a quarta milha. A certo ponto batemos contra qualquer coisa que abalou tão violentamente nossa caixa, que receei se voltasse de lado. Poderia ter sido um enorme peixe ou então haveríamos possivelmente abalroado com alguma aresta de penedia contra a qual fôramos precipitados. Aquela borda que antes nos parecera tão assombrosamente profunda, parecia-nos agora, das profundezas em que nos achávamos, ser quase a superfície. Cada vez mais nos aprofundávamos, girando e girando por aquelas águas verde-negras. O quadrante registrava agora vinte e cinco mil pés.
— Estamos quase no fim de nossa jornada, disse Maracot. Meu indicador Scott deu-me vinte e seis mil e setecentos pés no ano passado, no ponto mais profundo. Dentro de poucos minutos se decidirá nossa sorte. É possível que sejamos esmagados pelo choque. É também possível…
E naquele momento chegamos ao fundo.
Nem uma criança colocada por sua mãe num leito de penas desceria aí mais suavemente do que nós no extremo fundo do Oceano Atlântico. A espessa e elástica camada de lodo sobre a qual caíramos comportou-se como um verdadeiro pára-choque, que nos preservou do mais leve abalo. Mal nos movêramos no banco em que nos achávamos e foi bom isto, pois descêramos sobre uma pequena elevação recoberta de uma densa camada daquela lama gelatinosa e oscilávamos brandamente de um lado para outro, com quase metade de nossa base em falso. Havia perigo de tombarmos de lado, mas finalmente nossa caixa se estabilizou, imobilizando-se. Assim que isto sucedeu, o Dr. Maracot, olhando através de seu postigo, deu um grito de surpresa e apagou rapidamente nossas luzes.
Observamos cheios de espanto que mesmo assim ainda podíamos ver claramente. Havia do lado de fora uma luz pálida e nevoenta que jorrava para o interior através dos postigos, como a fria claridade de uma manhã de inverno. Contemplávamos aquela estranha cena e sem auxílio de nossas luzes podíamos ver claramente até algumas centenas de jardas para todos os lados. Era impossível, inconcebível, mas a despeito de tudo nossos sentidos nos diziam que era uma realidade. O fundo do grande oceano é luminoso.
— Por que não? exclamou Maracot, após termos passado um minuto ou dois em muda contemplação. Pois não poderíamos ter previsto isso? O que representa este lodo de pterópodos ou globigerinas? Pois não é formado pelos produtos de degradação, pelos corpos conglutinados de bilhões e bilhões de seres orgânicos? E essa degradação não está comumente associada a fenômenos de fosforescência? Em que parte de toda a criação se poderia esperar encontrar tal espetáculo senão aqui? Ah! é realmente lamentável que tivéssemos ocasião de fazer tal verificação e nos seja impossível transmitir este nosso conhecimento ao mundo.
— Todavia, observei, nós conseguimos cerca de meia tonelada desta geléia de radiolários e não observamos tal luminosidade.
— Certamente a teria perdido em sua longa viagem para a superfície. Além disso, que representa meia tonelada comparada com estas extensas planícies de lenta putrescência? Mas veja, veja — exclamou ele subitamente cheio de agitação — os habitantes das grandes profundidades pastam sobre este tapete orgânico como nossos rebanhos da terra pastam nos prados!
Enquanto ele falava, um bando de peixes negros, de formas pesadas e achatadas, aproximava-se de nós, fossando entre saliências de aspecto esponjoso e mordiscando aqui e além no seu caminho. Um grande peixe vermelho, como uma estranha vaca do oceano, ruminava pacientemente seu alimento em frente de meu postigo, e outros estavam pastando aqui e além, levantando a cabeça de tempos a tempos para olhar aquele extravagante objeto que tão subitamente surgira entre eles.
Admirava-me o devotamento de Maracot, que sentado a respirar aquela atmosfera viciada, sob a sombra da morte próxima, ainda obedecia ao apelo da ciência e garatujava observações em sua caderneta. Embora sem seguir seu método preciso, tomava também minhas notas mentais que permanecerão para sempre estampadas como uma pintura em meu cérebro. As mais profundas planícies do oceano consistem em argila vermelha, mas, no lugar em que estávamos, esta era mascarada por uma camada daquele limo acinzentado, que formava uma planície ondulada até onde nossos olhos podiam alcançar. Esta planície não era inteiramente regular; apresentava numerosas e estranhas elevações como aquela em que nos achávamos, a luzir pàlidamente naquela luz espectral. Por entre estas pequenas colinas desfechavam grandes nuvens de estranhos peixes, muitos dos quais completamente desconhecidos à ciência, exibindo todas as tonalidades de cor, com predominância, contudo, do preto e do vermelho. Maracot observava-os com mal contida agitação e registrava-os em suas notas.
O ar se tornara muito viciado e novamente fomos obrigados a recorrer a um novo desprendimento de oxigênio. E o que é curioso é que estávamos positivamente esfomeados; caímos com a melhor boa vontade do mundo sobre o bife com pão e manteiga, regado a uísque e água com que a previdência de Maracot nos havia provido. Com os sentidos estimulados por esta refeição reconfortadora, sentara-me em frente ao meu postigo ansioso por um cigarro quando meus olhos caíram sobre qualquer coisa que acordou em meu espírito um turbilhão de pensamentos estranhos e reminiscências confusas.
Já disse que a planície que se estendia ao redor de nós estava coberta com elevações que pareciam pequenas colinas. À frente de meu postigo se elevava uma particularmente grande, e eu a via de uma distância de trinta pés. Havia num lado da mesma uma pequena marca, que, examinando melhor, verifiquei com grande surpresa que se repetia numerosas vezes ao seu redor, perdendo-se nas curvas do seu contorno. Quando se está tão próximo da morte, é difícil nos impressionarmos com qualquer coisa que se refira a este mundo, mas perdi o fôlego um momento e meu coração paralisou-se ao notar que era um friso ornamental aquilo que eu estava olhando, e que, apagadas e gastas como estavam, fora sem dúvida a mão do homem que esculpira em alguma remota era aquelas figuras. Maracot e Scanlan precipitaram-se para o meu postigo e contemplaram cheios de espanto aqueles sinais da onipresente energia humana.
— Isso foi esculpido, sem dúvida nenhuma! exclamou Scanlan. Calculo que aquilo deveria ter sido o teto de um edifício. Por conseguinte, os outros também deverão corresponder a outros tantos edifícios. Creio, patrão, que fomos cair bem no meio de um burgo qualquer.
— É realmente uma antiga cidade, disse Maracot. A geologia nos ensina que os mares já foram continentes e os continentes mares, mas eu sempre repelira a idéia de que em tempos tão recentes, dentro da era quaternária, se tivesse dado tal cataclismo no Atlântico. A lenda egípcia que Platão nos transmitiu tem portanto uma base real. Estas formações vulcânicas confirmam a opinião de que esta submersão tenha sido devida a atividades sísmicas.
— Há uma certa regularidade na disposição destas cúpulas, observei. Estou inclinado a supor que não sejam casas separadas, mas sim diferentes cúpulas pertencentes a um único e imenso edifício.
— Creio que tem mesmo razão, disse Scanlan. Há quatro maiores nos cantos e outras menores enfileiradas para dentro. Deve ser um edifício único — e de que tamanho! Caberia todo o Merribank e mais alguma coisa dentro dele.
— Foi enterrado até a altura do teto pelo depósito constante de materiais orgânicos vindos das camadas superiores das águas, observou Maracot. Por outro lado, estes não se decompuseram. Temos nas grandes profundidades uma temperatura constante um pouco superior a 32° Fahrenheit que impediria esses processos destrutivos. Mesmo a dissociação desses depósitos que cobrem o leito do oceano e o tornam luminoso deve ser muito lenta. Mas que vejo! Estes sinais não são frisos, mas sim inscrições!
Não havia a menor dúvida de que tinha razão. O mesmo símbolo repetia-se várias vezes aqui e além. Aqueles sinais eram certamente letras de algum alfabeto arcaico.
— Já fiz alguns estudos sobre antigüidades fenícias e vejo nesses caracteres alguma coisa que me é familiar, disse nosso chefe. Pois é isso, meus amigos, pudemos ver uma cidade soterrada de eras remotas e carregaremos conosco para o túmulo a imagem sugestiva desse espetáculo. Não há nada mais que nos interesse ver. Nosso livro de surpresas está fechado. Também concordo agora que quanto mais depressa chegar o fim tanto melhor será.
Este agora não poderia estar longe. A atmosfera que respirávamos era densa e viciada. Tão carregada estava ela de anidrido carbônico que o oxigênio mal podia vencer a pressão e sair dos tubos. Ficando de pé nos bancos, ainda se conseguia respirar um ar mais puro, mas aquela camada mais carregada de produtos impróprios à respiração elevava-se cada vez mais. O Dr. Maracot cruzou os braços em ar de resignação e deixou cair a cabeça sobre o peito. Scanlan já fora vencido e debatia-se agora no assoalho. Eu próprio já sentia a cabeça girar-me e um intolerável peso sobre o peito. Fechei os olhos e a consciência já me abandonava. Pela última vez abri-os para lançar um último olhar àquele mundo que já abandonava, mas, ao fazê-lo, endireitei-me, cambaleando e desferi um brado rouco de espanto.
Um rosto humano nos olhava através do postigo!
Seria o delírio? Agarrei Maracot pelos ombros e sacudi-o violentamente. Este levantou a cabeça e olhou paralisado e mudo de espanto para esta aparição. Se ele a via tão bem como eu, não deveria ser apenas uma criação de meu cérebro debilitado. O rosto era longo e fino, de tez amorenada, com uma barba curta e afilada e dois olhos vivos que lançavam de um para outro lado olhares inquisidores, como procurando inteirar-se de todos os detalhes de nossa situação. Via-se impresso nas suas feições o maior espanto. Nossas luzes estavam todas acesas e deveria ter sido realmente um espetáculo bem estranho e impressionante o que se lhe deparava naquela pequena câmara funerária, em que um homem jazia sem sentidos e dois outros o fitavam com feições contorcidas de moribundos, cianosadas pela asfixia incipiente. Nós ambos tínhamos as mãos presas às nossas gargantas e nossos peitos arfantes mostravam bem a angústia que já começara a empolgá-los. O homem fez um gesto com a mão e afastou-se velozmente.
— Ele nos abandonou! exclamou Maracot.
— Ou foi em busca de auxílio. Vamos pôr Scanlan sobre o banco. Ele morrerá logo se o deixarmos no chão.
Arrastamos o mecânico para o banco e fizemos sua cabeça repousar sobre as almofadas. Seu rosto estava purpurado e murmurava em seu delírio frases ininteligíveis, mas o pulso era ainda perceptível.
— Ainda existe esperança para nós, exclamei em voz rouca.
— Mas é loucura! disse Maracot. Como poderia o homem viver no fundo do oceano? Como respiraria? Deve ter sido uma alucinação coletiva. Meu jovem amigo, estamos enlouquecendo.
Olhando para a paisagem sombria e deserta que nos cercava, iluminada por aquela luz frígida e espectral, senti que bem poderia ser que Maracot tivesse razão. Mas subitamente percebi movimento. Sombras se agitavam ao longe, através da água. Agora que se haviam aproximado mais, já podia enxergar vultos distintos caminhando numa massa movediça. Uma multidão de pessoas adiantava-se rapidamente em nossa direção pelo leito do oceano. Dali a um instante se achavam reunidos em frente do postigo e apontavam e gesticulavam em animado debate. Havia várias mulheres entre eles, mas na sua maior parte eram homens, um dos quais, uma imponente figura com uma grande cabeça e basta barba negra, via-se claramente ser uma espécie de chefe. Fez uma rápida inspeção da nossa caixa de aço, e, como parte da base da mesma fazia saliência para fora da elevação em que estávamos, ele pôde ver que havia um alçapão no fundo. Fez voltar um mensageiro correndo, enquanto nos fazia enérgicos e instantes sinais para que abríssemos a porta do lado de dentro.
— Por que não? perguntei. Tanto nos faz morrer afogados como de qualquer outro modo. Não suportarei isto mais tempo.
— Não poderemos ser afogados, disse Maracot. A água entrando por baixo não se poderá elevar acima do nível do ar comprimido. Dê um gole de brande a Scanlan. Ele deve fazer mais um esforço, nem que seja o último.
Despejei um pouco de bebida reconfortante pela boca do mecânico. Ele a engoliu e olhou ao seu redor com olhos surpreendidos. Sustentamo-lo de pé, segurando-o cada um de um lado. Ainda estava meio tonto, mas em poucas palavras expliquei-lhe a situação.
— Há a possibilidade de um envenenamento pelo ácido clorídrico se a água atingir as baterias, disse Maracot. Abra todos os tubos de ar, pois quanto maior a pressão que conseguirmos tanto menor será a quantidade de água que entrará. Agora ajude-me a mover a alavanca.
Pusemos sobre ela todo o nosso peso e levantamos o alçapão circular do fundo, se bem que isto me parecesse como um suicídio enquanto o fazia. A água verde, brilhando sob as nossas luzes, precipitou-se borbulhante pela abertura. Galgou rapidamente nossos pés, nossos joelhos, nossa cintura e aí parou. Mas a pressão do ar era intolerável. Nossos ouvidos zumbiam e sentíamos a cabeça girar. Não poderíamos viver muito tempo em tal atmosfera. Apenas agarrando-nos às saliências da parede é que conseguíamos deixar de tombar na água que se estendia abaixo de nós.
Da posição mais alta em que nos colocáramos não podíamos mais olhar através dos postigos nem podíamos imaginar as providências que estavam sendo tomadas para nossa libertação. Parecia absurdo esperar que nos pudessem prestar algum auxílio efetivo, mas havia qualquer coisa na atitude resoluta daquela gente, e especialmente na daquele chefe, que inspirava vagas esperanças. Subitamente percebemos seu rosto a espiar-nos debaixo, através das águas, e, dali a um instante, ele passava através da abertura circular do alçapão e subia sobre o banco, postando-se ao nosso lado. Não era mais alto que meu ombro e nos olhava com grandes olhos castanhos, que exprimiam jovial confiança e pareciam dizer: «Pobres coitados! Vocês se julgam em situação desesperadora, mas eu saberei libertá-los».
Só agora notava uma circunstância surpreendente. Aquele homem — se realmente era da mesma humanidade que nós — estava munido de um invólucro transparente que lhe recobria a cabeça e o corpo, ao passo que deixava seus braços e pernas livres. Tão transparente era o mesmo que não se conseguia distingui-lo na água, mas agora que se achava ao nosso lado luzia com um brilho metálico, se bem que permanecesse tão límpido como o mais puro cristal. Em cada ombro trazia um curioso objeto arredondado, abaixo do invólucro protetor. Era uma espécie de caixa oblonga, atravessada por numerosos orifícios, que lhe davam a aparência de estar usando dragonas.
Depois de nosso amigo se haver reunido a nós, apareceu outro rosto na abertura do fundo e atirou para cima qualquer coisa semelhante a uma grande bola de vidro. Três destas foram sucessivamente passadas pelo fundo de nossa caixa e flutuaram sobre a superfície da água. Seis pequenas caixas foram em seguida entregues ao nosso novo amigo, que prendeu uma a cada um de nossos ombros, como as que ele mesmo trazia. Começava já a suspeitar de que possivelmente não haveria infração das leis naturais na vida daquele estranho povo e que enquanto uma das caixas era de qualquer maneira produtora de ar, a outra absorveria os produtos residuais. Tomando aquelas vestes transparentes ele as passou sobre nossas cabeças e sentimos que no-las prendia firmemente nos braços e na cintura por meio de faixas elásticas, de modo que nenhuma água pudesse penetrar. Respirávamos no interior com toda a facilidade e fiquei alegre ao ver que Maracot me olhava detrás de seus óculos com seu olhar vivo do costume, enquanto a fisionomia de Bill Scanlan me assegurava que o oxigênio vivificante havia feito sua obra e que ele voltara a ser o mesmo ente jovial de sempre. Nosso salvador olhou para cada um de nós em ar de grave satisfação e em seguida nos acenou para que o seguíssemos através do alçapão para o leito do oceano. Uma dezena de mãos prestadias se ofereceram para nos ajudar a sair e amparar nossos primeiros passos vacilantes por aquele chão pouco firme.
Até agora ainda isso me maravilha! Achávamo-nos os três sãos e salvos no fundo de um abismo coberto por cinco milhas de água. Onde estava a terrível pressão a que se referiam tantos cientistas? Não nos sentíamos mais incomodados por ela que os delicados peixes que nadavam ao nosso redor. É verdade que nossos corpos se achavam protegidos por aqueles delicados invólucros de vidrina que eram realmente mais resistentes que o aço mais forte, mas mesmo em nossos membros, que estavam inteiramente expostos, nada mais sentíamos além de uma impressão de constrição forte mas facilmente tolerável por parte da água, que com o tempo se aprendia a ignorar. Era um belo espetáculo o que se deparou a nossos olhos quando reunidos fora olhamos para o compartimento de que havíamos saído. Havíamos deixado as baterias em ação e era um espetáculo impressionante vê-lo irradiando jorros de luz dourada para todos os lados, enquanto nuvens de peixes enxameavam em frente de cada postigo. Em dado momento, enquanto ainda o observávamos, o chefe tomou Maracot pela mão e nós os seguimos através do pântano submarino, caminhando pesadamente sobre sua superfície viscosa.
Subitamente ocorreu um incidente inesperado e surpreendente, que causou tanto espanto a estes nossos estranhos companheiros como a nós mesmos. Acima de nossas cabeças apareceu um pequeno objeto escuro, que desceu da escuridão que havia acima até atingir o leito do oceano a uma pequena distância do lugar em que nos achávamos. Era a sonda de grandes profundidades do «Stratford» que explorava aquele abismo submarino com o qual o nome da expedição deveria ser associado. Já a havíamos visto quando a tinham lançado e era-nos fácil compreender que a tragédia de nosso desaparecimento deveria ter suspendido a operação, mas que após uma pausa havia sido prosseguida sem que pudessem suspeitar que iria findar quase a nossos pés. Parecia que eles não haviam percebido ter tocado o fundo, pois a sonda de chumbo permanecia imóvel sobre a lama do solo. Acima de mim se estendia o fio de aço que ia ter através de cinco milhas de água ao convés do navio. Ah! se fosse possível escrever um bilhete e prendê-lo no cabo da mesma! Esta idéia era absurda, mas não seria possível enviar um sinal que mostrasse estarmos ainda vivos? Meu paletó estava coberto pelo invólucro de vidro e por isso não podia mexer-lhe nos bolsos, mas da cintura para baixo eu estava livre e por sorte tinha meu lenço num bolso da calça. Tomei o mesmo e amarrei-o acima do lastro de chumbo da sonda. O lastro separou-se por seu mecanismo automático e dali a pouco via meu lenço branco subindo velozmente para aquele mundo que pode muito bem ser que nunca mais eu veja. Nossos novos amigos examinaram aquelas setenta e cinco libras de chumbo com grande interesse, levando-as consigo quando recomeçamos nossa jornada.
Caminháramos apenas algumas centenas de jardas por entre as elevações que observáramos antes, quando paramos à frente de uma pequena porta quadrada com sólidos pilares de cada lado e uma inscrição ao alto. Estava aberta a passagem através dela para uma grande sala vazia. Possuía uma porta corrediça movida de dentro por uma alavanca, que se fechou logo depois que entramos. Não podíamos ouvir nada de dentro de nossos capacetes de vidro, mas no fim de alguns minutos observamos que uma poderosa bomba deveria estar em ação, pois víamos o nível da água baixando rapidamente acima de nossas cabeças. Em menos de um quarto de hora já nos achávamos a seco sobre o úmido pavimento de pedra, tratando nossos novos amigos de nos libertar de nossas vestes transparentes. Dali a um instante já nos achávamos respirando ar perfeitamente puro numa atmosfera quente e bem iluminada, enquanto os trigueiros habitantes do abismo, sorrindo e chalrando alegremente, se aglomeravam ao nosso redor apertando-nos as mãos e batendo-nos amistosamente nas costas. A linguagem que eles falavam era estranha e áspera e não conseguíamos compreender nada do que diziam, mas o sorriso de seus rostos e a expressão amiga de seus olhos eram bem compreensíveis mesmo debaixo daquela desmesurada espessura de águas. As vestimentas de vidro foram penduradas em cavilhas marcadas da parede e aquela multidão benevolente conduziu-nos para uma porta que havia para dentro e que dava para um longo corredor descendente. Quando esta novamente se fechou atrás de nós, nada mais havia para nos lembrar do espantoso fato de sermos os hóspedes involuntários de uma raça desconhecida no fundo do Oceano Atlântico, e estarmos para sempre separados do mundo a que pertencíamos.