125352.fb2 O Fim da Inf?ncia - читать онлайн бесплатно полную версию книги . Страница 3

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IA Terra e os Senhores Supremos

O secretário-geral das Nações Unidas estava imóvel junto à grande janela, olhando para o trânsito engarrafado da Rua 43. Às vezes, ficava pensando se seria bom para um homem trabalhar tão mais alto que os demais seres humanos. Manter distância era ótimo, mas podia-se descambar facilmente para a indiferença. Ou estaria ele apenas tentando racionalizar a raiva que sentia dos arranha-céus, raiva que persistia, mesmo após vinte anos de Nova York?

Ouviu a porta abrir-se atrás dele, mas não se virou quando Pieter van Ryberg entrou na sala. Houve a inevitável pausa, durante a qual Pieter olhou, com desaprovação, para o termostato, pois todo mundo dizia, brincando, que o secretário-geral gostava de viver numa geladeira. Stormgren esperou que o assistente viesse ter com ele e só então afastou o olhar do panorama familiar, mas sempre fascinante, que se avistava da janela.

— Estão atrasados — disse. — Wainwright deveria ter chegado há cinco minutos.

— Acabei de falar com a polícia. Ele traz uma grande comitiva e o trânsito ficou engarrafado. Deve chegar a qualquer momento.

Van Ryberg fez uma pausa e depois acrescentou, abruptamente: — Continua achando que é boa idéia falar com ele?

— Receio que seja um pouco tarde para recuar. Afinal de contas, concordei, embora você saiba que a idéia não partiu de mim.

Stormgren fora até sua mesa e brincava com seu famoso, peso de papéis de urânio. Não estava nervoso — apenas indeciso. Também estava satisfeito de que Wainwright se tivesse atrasado, pois isso lhe daria uma ligeira vantagem moral, quando se iniciasse a entrevista. Trivialidades desse tipo desempenhavam um papel mais importante nas relações humanas do que a lógica e a razão poderiam desejar.

— Aí estão eles! — disse, de repente, Van Ryberg, encostando o rosto na vidraça. — Estão vindo pela avenida. Acho que são uns três mil!

Stormgren pegou o caderno de notas e colocou-se ao lado de seu assistente. A aproximadamente um quilômetro de distância, uma pequena mas decidida multidão dirigia-se, lentamente, para o Edifício do Secretariado. Carregavam bandeiras, indecifráveis ao longe, mas cuja mensagem Stormgren conhecia bem. Não tardou que ouvisse, erguendo-se acima do barulho do trânsito, o canto, ameaçadoramente ritmado, de muitas vozes. Sentiu-se tomado por uma súbita onda de desagrado. O mundo já tinha tido mais do que sua dose de multidões em marcha e slogans indignados!

A passeata estava agora em frente ao edifício. Deviam saber que ele estava olhando, pois aqui e ali punhos se agitavam, de maneira pouco espontânea, no ar. Não o estavam desafiando, embora sem dúvida o gesto fosse para Stormgren ver. À maneira de pigmeus ameaçando um gigante, aqueles punhos cerrados estavam sendo brandidos contra o céu, cinqüenta quilômetros acima da cabeça dele — contra a reluzente nuvem de prata que era a nau capitânea da frota dos Senhores Supremos.

Muito provavelmente, pensou Stormgren, Karellen estava assistindo a tudo e se divertindo a valer, pois aquele encontro nunca teria tido lugar senão por instigação do supervisor.

Era a primeira vez que Stormgren se encontrava com o líder da Liga da Liberdade. Já não queria saber se a medida era acertada, pois os planos de Karellen muitas vezes eram por demais sutis para a compreensão humana. De qualquer maneira, Stormgren não achava que daí pudesse advir qualquer mal. Se se houvesse recusado a receber Wainwright, a liga teria usado o fato como uma arma contra ele.

Alexander Wainwright era um homem alto e de boa aparência, de quase cinqüenta anos. Stormgren sabia que ele era completamente honesto e, por conseguinte, duplamente perigoso. Contudo, a sua transparente sinceridade tornava difícil não gostar dele, fossem quais fossem os pontos de vista que se pudesse ter a respeito da causa que ele encarnava — e de alguns dos simpatizantes que ele atraíra.

Stormgren não perdeu tempo, após as breves e algo tensas apresentações de Van Ryberg.

— Suponho — disse ele — que o piincipal objetivo da sua visita seja protestar formalmente contra o plano da federação. Estou certo, não?

Wainwright assentiu gravemente.

— Realmente, senhor secretário. Como sabe, durante os últimos cinco anos temos procurado alertar a raça humana para o perigo que ela enfrenta. A tarefa tem sido difícil, porque a maioria das pessoas parecem satisfeitas em deixar que os Senhores Supremos governem o mundo conforme lhes pareça. Não obstante, mais de cinco milhões de patriotas, em cada país, assinaram a nossa petição.

— Não é um número considerável, para os dois bilhões e meio de habitantes do nosso mundo.

— Mas é um número que não pode ser ignorado. E, para cada pessoa que assinou, há muitas que sentem grandes dúvidas quanto à sensatez, para não falar na justiça, desse plano da federação. Até mesmo o Supervisor Karellen, com todos os seus poderes, não pode apagar mil anos de história com uma só penada.

— Que sabem as pessoas dos poderes de Karellen? — retrucou Stormgren. — Quando eu era criança, a Federação Européia era um sonho, mas, quando fiquei homem, ela já se tornara realidade. E isso foi antes da chegada dos Senhores Supremos. Karellen está apenas concluindo a obra que tínhamos iniciado.

— A Europa era uma entidade cultural e geográfica; o mundo, não: eis a diferença.

— Para os Senhores Supremos — replicou Stormgren, sarcástico —, a Terra provavelmente é muito menor do que a Europa parecia aos nossos pais e imagino que a visão deles seja mais amadurecida do que a nossa.

— Não sou propriamente contra a federação como um objetivo final, embora muitos dos meus seguidores possam não concordar. Mas acho que ela deve vir de dentro, e não ser imposta por forças de fora. Devemos resolver o nosso destino. Não deve haver mais interferência nos assuntos humanos!

Stormgren suspirou. Já tinha ouvido tudo aquilo mais de cem vezes e sabia que só podia dar a velha resposta, que a Liga da Liberdade se recusara a aceitar. Tinha fé em Kareílen e eles, não. Essa era a diferença básica e nada podia fazer a respeito. Felizmente, nada havia, também, que a Liga da Liberdade pudesse fazer.

— Deixe-me fazer-lhe algumas perguntas — disse ele. — Por acaso é capaz de negar que os Senhores Supremos trouxeram segurança, paz e prosperidade ao mundo?

— É verdade. Mas tiraram-nos a liberdade. Nem só de pão vive o homem.

— É, eu sei, mas esta é a primeira era em que o homem tem a certeza de conseguir ao menos isso. De qualquer maneira, qual a liberdade que perdemos, comparada com a que os Senhores Supremos nos deram pela primeira vez na história da humanidade?

— A liberdade de controlar as nossas próprias vidas, guiados por Deus.

Até que enfim, pensou Stormgren, chegamos ao ponto crucial. No fundo, trata-se de um conflito religioso, por mais que tentem disfarçá-lo. Wainwright nunca nos deixa esquecer que já foi padre. Embora já não use batina, a gente tem sempre a impressão de que ele está de colarinho clerical.

— No mês passado — recordou Stormgren — uma centena de bispos, cardeais e rabinos assinou uma declaração conjunta em apoio à política do supervisor. As religiões do mundo estão contra os senhores.

Wainwright sacudiu a cabeça em indignada negativa.

— Muitos dos líderes estão cegos: foram corrompidos pelos Senhores Supremos. Quando se aperceberem do perigo, pode ser demasiado tarde. A humanidade terá perdido a iniciativa, ter-se-á tornado uma raça dominada.

Fez-se silêncio por um momento, mas logo Stormgren replicou:

— Daqui a três dias, terei uma nova entrevista com o supervisor. Explicar-lhe-ei as suas objeções, pois é meu dever apresentar-lhe os pontos de vista do mundo. Mas isso não irá alterar nada, posso garantir.

— Há ainda outra coisa — disse lentamente Wainwright. — Temos muitas objeções aos Senhores Supremos, mas, acima de tudo, detestamos o segredo em que se envolvem. O senhor é o único ser humano que conseguiu falar com Karellen e, mesmo assim, nunca o viu! É de se admirar que duvidemos dos motivos dele?

— Apesar de tudo o que ele tem feito pela humanidade?

— Sim, apesar disso. Não sei o que achamos pior: a onipotência de Karellen ou o segredo de que ele se cerca.

Se não tem nada a esconder, por que nunca se mostra? Da próxima vez que falar com o supervisor, Sr. Stormgren, pergunte-lhe isso!

Stormgren ficou calado. Nada havia que ele pudesse retrucar a esses argumentos — nada, pelo menos, capaz de convencer o outro. Às vezes, pensava se ele próprio realmente se convencera.

Tratava-se, naturalmente, de operação muito pequena, do ponto de vista deles, mas, para a Terra, era a maior coisa que já tinha acontecido. As grandes naves tinham vindo das incógnitas profundezas do espaço, sem qualquer aviso prévio. Aquele dia fora inúmeras vezes descrito em ficção, mas ninguém tinha realmente acreditado que algum dia ele chegasse. Agora, porém, chegara: as formas reluzentes e silenciosas que pairavam sobre cada país eram o símbolo de uma ciência que o homem não sonharia sequer igualar senão dali a séculos. Durante seis dias, elas haviam flutuado, imóveis, sobre as cidades dos homens, sem dar a entender que sabiam da sua existência. Mas nem era preciso: não havia coincidência que pudesse ter levado aquelas possantes naves a pairar precisamente sobre Nova York, Londres, Paris, Moscou, Roma, Cidade do Cabo, Tóquio, Canberra…

Antes mesmo de se terem escoado aqueles seis terríveis dias, alguns homens haviam adivinhado a verdade. Aquela não era uma primeira tentativa de contato de uma raça que nada sabia a respeito dos homens. Dentro daquelas naves paradas e silenciosas, mestres em psicologia estudavam as reações da humanidade. Quando a curva de tensão atingisse o máximo, entrariam em ação.

Foi assim que, no sexto dia, Karellen, supervisor encarregado da Terra, se deu a conhecer ao mundo através de uma transmissão que cobriu todas as freqüências radiofônicas. Falou num inglês tão perfeito, que deu início a uma controvérsia destinada a dividir toda uma geração de um lado a outro do Atlântico. O contexto de sua fala foi ainda mais surpreendente do que sua emissão. Era a obra de um autêntico gênio, mostrando um domínio completo e absoluto dos assuntos humanos. Não podia haver dúvida de que sua erudição e seu virtuosismo, os estarrecedores aspectos de um conhecimento ainda inexplorado, tinham o fim deliberado de convencer os homens de que estavam na presença de um extraordinário poder intelectual. Quando Karellen ter- minara, as nações da Terra souberam que seus dias de precária soberania haviam chegado ao fim. Os governos internos, locais, continuariam retendo os seus poderes, mas, no campo mais amplo dos assuntos internacionais, as decisões supremas não mais caberiam aos humanos. Argumentações, protestos, tudo era inútil.

Dificilmente se poderia esperar que todas as nações do mundo se submetessem docilmente a uma tal limitação de seus poderes. Contudo, a resistência ativa apresentava sérias dificuldades, pois a destruição das naves dos Senhores Supremos, mesmo que possível, aniquilaria as cidades situadas abaixo delas. Não obstante, uma das principais potências fizera uma tentativa nesse sentido. Talvez os responsáveis por ela esperassem matar dois pássaros com um só míssil atômico, porquanto o seu alvo estava flutuando sobre a capital de uma nação vizinha e inimiga.

Quando a imagem da grande nave surgira na tela de televisão, na sala de controle secreto, o pequeno grupo de * oficiais e técnicos devia ter sido presa de muitas emoções. Se tivessem êxito — que ação tomariam as naves restantes? Poderiam também ser destruídas, permitindo à humanidade continuar no seu caminho? Ou desencadearia Karellen uma terrível vingança sobre os que tinham ousado atacá-lo?

A tela ficara subitamente branca quando o míssil se destruíra com o impacto, e a imagem passara imediatamente para uma câmara transportada por via aérea, a muitos quilômetros de distância. Na fração de segundo que decorrera, deveria ter-se formado uma bola de fogo, que devia estar enchendo o céu com suas chamas solares.

Mas nada disso acontecera. As grandes naves tinham continuado a pairar, banhadas pela luz crua do sol, na fronteira do espaço. Não só a bomba não conseguira acertá-las, como ninguém pudera jamais chegar a uma conclusão sobre o que acontecera ao míssil. Além do mais, Karellen não tomara qualquer atitude contra os responsáveis ou sequer demonstrara ter tido conhecimento do ataque. Ignorara-os com o maior desprezo, deixando-os preocupados com uma vingança que nunca se concretizou. Fora um tratamento muito mais efetivo e desmoralizante do que qualquer ação punitiva. O governo responsável caíra algumas semanas mais tarde, vítima de recriminações mútuas.

Houvera também alguma resistência passiva à política dos Senhores Supremos. Karellen contornara-a deixando que os implicados agissem como queriam, até descobrirem que só estavam se prejudicando com a recusa a cooperar. Só uma vez tomara medidas diretas contra um governo recalcitrante.

Durante mais de um século, a República da África do Sul fora centro de lutas raciais. De ambos os lados, homens de boa vontade tinham tentado chegar a um acordo que permitisse uma aproximação, mas tudo fora em vão — os temores e preconceitos estavam por demais enraizados para permitir qualquer cooperação. Governos sucessivos só haviam diferido no grau de tolerância. O país estava envenenado pelo ódio e pelas seqüelas de uma guerra civil.

Quando se tornou claro que nenhuma tentativa seria feita para pôr fim à discriminação, Karellen dera o aviso. Marcara apenas uma data e um prazo — nada mais. Isso causara apreensão, mas não propriamente medo ou pânico, pois ninguém acreditava que os Senhores Supremos tomassem qualquer atitude violenta, que envolvesse ao mesmo tempo inocentes e culpados.

E não tomaram. Aconteceu apenas que, quando o sol passou pelo meridiano da Cidade do Cabo, ele como que se apagou. Ficou apenas visível um fantasma pálido e arroxea-do, que não irradiava luz ou calor. Não se sabia como, no espaço, a luz do sol fora polarizada por dois campos atravessados, que evitavam a passagem de qualquer radiação. A área afetada era perfeitamente circular e tinha um diâmetro de quinhentos quilômetros.

A demonstração durou trinta minutos. Foi mais do que suficiente: no dia seguinte, o governo da África do Sul anunciava que todos os direitos civis seriam restituídos à minoria branca.

Excetuando-se esses incidentes isolados, a raça humana aceitara os Senhores Supremos como parte da ordem natural das coisas. Num espaço de tempo surpreendentemente curto, o choque inicial passou e o mundo continuou como antes. A maior mudança que um moderno Rip van Winkle teria notado, se acordasse de repente, seria uma certa expectativa, um olhar disfarçado, enquanto a humanidade esperava que os Senhores Supremos se deixassem ver e desembarcassem das suas reluzentes naves.

Cinco anos depois, a humanidade continuava esperando. Nisso, pensou Stormgren, estava a causa de tudo.

Quando o carro de Stormgren chegou ao campo de aterrissagem, havia o costumeiro círculo de curiosos, câmeras a postos. O secretário-geral trocou algumas palavras finais com seu assistente, pegou a pasta e atravessou pelo meio da roda de espectadores.

Karellen nunca o fazia esperar muito. Um súbito «Oh!» elevou-se da multidão ali reunida e uma bolha prateada deslocou-se, com enorme velocidade, no céu, acima deles. Uma rajada de ar fez esvoaçar a roupa de Stormgren quando a diminuta nave pousou a cinqüenta metros dali, flutuando delicadamente alguns centímetros acima do solo, como se temesse o contato com a Terra. Avançando lentamente na direção dela, Stormgren viu o já familiar franzido no casco metálico sem emendas, e, logo a seguir, a abertura que tanto intrigara os maiores cientistas do mundo surgiu diante dele. Passou por ela e penetrou no único compartimento da nave, iluminado com luz suave. A abertura fechou-se como se nunca tivesse existido, vedando a entrada de qualquer som e luz.

Cinco minutos mais tarde, voltou a se abrir. Não houvera sensação alguma de movimento, mas Stormgren sabia que estava agora a cinqüenta quilômetros acima da Terra, no interior da nave de Karellen. Estava no mundo dos Senhores Supremos: à sua volta, eles tratavam de seus misteriosos assuntos. Stormgren chegara mais perto deles do que qualquer outro homem; contudo, não sabia mais sobre sua natureza física do que os milhões de habitantes do mundo, lá embaixo.

A pequena sala de conferências ao fundo do curto corredor não tinha móveis, exceto uma única cadeira e a mesa, sob a tela de televisão. Propositadamente, nada dizia das criaturas que a tinham construído. A tela de televisão estava vazia, como sempre. Por vezes, em sonhos, Stormgren imaginara que ela de repente se acendia, revelando o segredo que atormentava o mundo. Mas o sonho nunca se tornara reali-dae: por trás daquele retângulo de escuridão, o mistério era completo. Mas havia também poder e sabedoria, uma imensa e tolerante compreensão para com a humanidade e, coisa absolutamente inesperada, um afeto bem-humorado pelas criaturazinhas que rastejavam lá embaixo, na Terra distante.

Através da grade oculta ouviu-se a voz calma e jamais apressada que Stormgren tão bem conhecia, embora o mundo só a tivesse ouvido uma vez em toda a sua história. Sua profundidade e ressonância davam a única pista que existia para a natureza física de Karellen, pois transmitiam uma impressionante idéia de tamanho. Karellen era grande — talvez muito maior do que um homem comum. Era verdade que alguns cientistas, após terem analisado a gravação da sua única fala, tinham sugerido que a voz saía de uma máquina. Mas isso era algo em que Stormgren jamais pudera acreditar.

— Sim, Rikki, eu escutei a entrevista de vocês. Que achou do Sr. Wainwright?

— É um homem honesto, mas muitos dos que o apoiam não o são. Que vamos fazer com ele? A liga em si não é perigosa, mas alguns dos extremistas que fazem parte dela advogam abertamente a violência. Estive pensando se não seria boa idéia colocar um guarda à porta de minha casa, embora espere que isso não seja necessário.

Karellen fingiu não ouvir, reação irritante que ele às vezes tinha.

— Faz um mês que os detalhes da Federação Mundial são do conhecimento geral. Houve algum aumento substancial nos sete por cento que são contra, ou nos doze por cento que «não sabem»?

— Ainda não. Mas isso não tem importância: o que me preocupa é o sentimento generalizado, mesmo entre seus simpatizantes, de que todo esse segredo deve chegar ao fim.

O suspiro de Karellen foi tecnicamente perfeito, embora lhe faltasse convicção.

— Também pensa assim, não?

A pergunta era tão retórica, que Stormgren não se deu ao trabalho de responder.

— Gostaria de saber se realmente se dá conta — continuou ele — da dificuldade que esse estado de coisas traz à minha missão.

— E à minha também — replicou Karellen, algo irritado. — Gostaria que as pessoas deixassem de pensar em mim como um ditador e se lembrassem de que sou apenas um funcionário, tentando administrar uma política colonial em cuja formação não tive voz ativa.

Uma insinuante descrição, pensou Stormgren, imaginando até que ponto seria verdadeira.

— Não pode ao menos dar-nos alguma razão para nunca aparecer? Nós não entendemos, irrita-nos e dá origem a mil e um boatos.

Karellen soltou uma das suas risadas profundas, demasiado ressonantes para serem cem por cento humanas.

— Que é que dizem de mim, agora? A teoria do robô ainda está de pé? Preferia ser uma massa de tubos eletrônicos a algo parecido com uma centopéia. Oh, sim, vi aquela caricatura que saiu no Chicago Tribune de ontem! Estou pensando em pedir o original.

Stormgren comprimiu os lábios. Havia ocasiões, pensou, em que Karellen encarava seus deveres com certa leviandade.

— A coisa é séria — disse ele, em tom de reprovação.

— Meu caro Rikki — retrucou Karellen —, só não levando a sério a raça humana é que consigo conservar os fragmentos que ainda possuo de meus outrora consideráveis poderes mentais!

Mesmo sem querer, Stormgren sorriu.

— Isso não me ajuda em nada, ajuda? Tenho de voltar e convencer meus irmãos homens de que, embora você não se mostre, nada tem a esconder. Não é trabalho fácil. A curiosidade é uma das mais fortes características humanas. Não vai poder desafiá-la eternamente.

— De todos os problemas com que nos defrontamos quando descemos à Terra, foi esse o mais difícil — admitiu Karellen. — Vocês confiaram em nossa sabedoria em outros assuntos; também podem, sem dúvida, confiar em nós agora.

— Eu confio em vocês — disse Stormgren —, mas Wainwright, não, e nem os que o apoiam. Serão eles culpados de interpretá-los mal, se vocês se recusam a mostrar-se?

O silêncio reinou durante um momento, mas logo Stormgren ouviu um leve ruído (seria um estalo?) que poderia ter sido causado pelo supervisor, movendo ligeiramente o corpo.

— Sabe por que Wainwright e os de seu tipo me temem, não sabe? — perguntou Karellen. Sua voz era agora sombria, como um grande órgão tocando no alto da nave central de uma antiga catedral. — Você encontrará homens como ele em todas as religiões do mundo. Sabem que nós representamos a razão e a ciência e, por mais confiança que tenham em suas crenças, temem que lhes derrubemos os deuses. Não necessariamente mediante um ato deliberado, mas de forma mais sutil. A ciência pode destruir a religião de duas maneiras: ignorando-a ou deitando abaixo seus dogmas. Ninguém jamais demonstrou, até onde eu saiba, a não-exis-tência de Zeus ou de Thor; mas hoje em dia eles têm poucos seguidores. Os Wainwright também temem que a gente conheça a verdade sobre as origens de suas fés. Há quanto tempo, pensam eles, vimos observando a humanidade? Teremos visto Maomé dar início a Hégira, ou Moisés dando aos judeus as Tábuas da Lei? Saberemos acaso o que há de falso nas histórias em que eles acreditam?

— E vocês sabem? — murmurou Stormgren, quase para si mesmo.

— Esse, Rikki, é o medo que os atormenta, embora eles jamais o confessem abertamente. Creia-me, não temos nenhum prazer em destruir a fé dos homens, mas nem todas as religiões do mundo podem estar certas, e eles sabem disso. Mais cedo ou mais tarde, o homem terá que ficar sabendo a verdade; o momento, porém, ainda não chegou. Quanto ao segredo de que nos cercamos, e que você corretamente acusa de agravar seus problemas, é assunto que escapa ao nosso controle. Lamento tanto quanto você a necessidade que nos leva a não nos mostrarmos, mas as razões são mais do que suficientes. Não obstante, procurarei conseguir uma declaração dos meus… superiores… que talvez o satisfaça e possa aplacar a Liga da Liberdade. Agora, que tal voltarmos à nossa agenda e começarmos de novo a gravar?

— Que tal? — perguntou Van Ryberg, ansioso. — Algum resultado?

— Não sei — respondeu Stormgren jogando os dossiês em cima da mesa e deixando-se cair na cadeira. — Karellen está no momento consultando seus superiores, sejam eles quem forem. Não quer fazer nenhuma promessa.

— Escute — disse Pieter, abruptamente —, acabei de ter uma idéia. Que motivo temos nós para crer que haja alguém além de Karellen? Suponha que todos os Senhores Supremos, como nós os batizamos, estejam aqui mesmo, na Terra, a bordo dessas suas naves? Podem não ter mais nenhum lugar para onde ir, mas querem esconder esse fato de nós.

— É uma teoria interessante — riu Stormgren —, mas que colide com o pouco que sei, ou penso que sei, a respeito dos antecedentes de Karellen.

— E que é que você sabe?

— Bem, ele costuma referir-se a sua posição aqui como algo temporário, mas que o impede de se dedicar a sua verdadeira ocupação, que julgo seja alguma forma de matemática. Certa vez, mencionei a citação de Acton sobre a corrupção pelo poder e a corrupção absoluta do poder absoluto. Quis ver como ele reagiria a isso. Deu uma de suas risadas cavernosas e disse: «Não há perigo de que tal aconteça comigo. Em primeiro lugar, quanto mais cedo eu terminar meu trabalho aqui, mais cedo poderei voltar a minha terra, que fica a muitos anos-luz daqui. Em segundo lugar, não tenho poderes absolutos. Sou apenas um supervisor». Naturalmente, ele podia não estar sendo sincero comigo. Isso eu nunca poderei saber.

— Ele é imortal, não é?

— Sim, por nosso padrões, embora haja algo no futuro que ele parece temer. Não posso imaginar o que seja. E é tudo o que sei a respeito dele.

— Não leva a muitas conclusões. Minha teoria é de que sua pequena frota se perdeu no espaço e está à procura de um novo porto. Ele não quer que a gente saiba quão poucos ele e seus camaradas são. Talvez todas essas naves sejam automáticas e não haja ninguém dentro delas. Talvez não passem de uma fachada imponente.

— Acho que você tem lido demasiada ficção científica — disse Stormgren.

Van Ryberg riu, meio velhacamente.

— A «Invasão que veio do espaço» não saiu exatamente conforme se esperava, hein? Minha teoria explicaria pelo menos por que Karellen nunca se mostra. Não quer que a gente saiba que não há mais Senhores Supremos.

Stormgren abanou a cabeça, em bem-humorado desacordo.

— Como de costume, suas explicações são por demais engenhosas para serem verdadeiras. Embora só possamos imaginar sua existência, deve haver uma grande civilização por trás do supervisor: uma civilização que há muito, muito tempo, conheça a humanidade. O próprio Karellen deve nos vir estudando há séculos. Veja, por exemplo, seu domínio do inglês. Ele me ensinou a falá-lo idiomaticamente!

— Você já descobriu algo que ele não saiba?

— Oh, sim, muitas vezes, mas só coisas triviais. Acho que ele tem uma memória perfeita, mas há coisas que não se deu ao trabalho de aprender. Por exemplo, o inglês é a única língua que ele compreende inteiramente, embora nos últimos dois anos tenha me falado um bocado em finlandês, só para mexer comigo. E ninguém aprende finlandês de uma hora para outra! É capaz de citar grandes trechos do Kalevala, ao passo que eu me envergonho de confessar que só conheço uns poucos versos. Sabe também as biografias de todos os estadistas vivos e, às vezes, consigo identificar as referências que ele utilizou. Seu conhecimento de história e de ciência parece total: você sabe o quanto já aprendemos com ele. Entretanto, tomados um por um, não creio que seus dotes mentais estejam muito além do alcance humano. Só que nenhum homem poderia fazer todas as coisas que ele faz.

— É mais ou menos a conclusão a que eu também cheguei — concordou Van Ryberg. — Podemos especular a respeito de Karellen, mas no fim acabaremos fazendo sempre a mesma pergunta: por que diabo ele não se mostra? Enquanto isso não acontecer, continuarei com minhas teorias e a Liga da Liberdade continuará fulminando.

Deitou um olhar rebelde para o teto.

— Uma noite destas, senhor supervisor, espero que algum repórter pegue um foguete para sua nave e entre pela porta dos fundos, com uma câmera. Que furo não seria!

Se Karellen estava escutando, não deu qualquer sinal. Mas a verdade é que nunca dava.

No primeiro ano de sua chegada, o advento dos Senhores Supremos tinha feito menos diferença do que seria de esperar para a vida dos humanos. Sua sombra estava em todo lado, mas era uma sombra discreta. Embora fossem poucas as grandes cidades da Terra onde os homens não pudessem ver uma das naves prateadas reluzindo contra o zênite, passado algum tempo elas começaram a ser encaradas com naturalidade, como se fossem o sol, a lua ou simples nuvens. A maioria dos homens provavelmente não se dava conta de que os seus cada vez melhores padrões de vida se deviam aos Senhores Supremos. Quando paravam para pensar nisso — o que era raro — percebiam que aquelas naves silenciosas tinham trazido a paz ao mundo pela primeira vez na história e sentiam-se gratos.

Mas eram benefícios negativos e não-espetaculares, aceitos e logo esquecidos. Os Senhores Supremos permaneciam distantes, escondendo seus rostos da humanidade. Karellen podia despertar respeito e admiração, mas não conquistar algo mais profundo, enquanto persistisse na sua atual política. Era difícil não ter ressentimento contra aqueles habitantes do Olimpo, que só falavam com o homem através de circuitos de radiotelex, na sede das Nações Unidas. O que se passava entre Karellen e Stormgren nunca era publicamente revelado, e às vezes o próprio Stormgren se perguntava por que seria que o supervisor considerava aqueles encontros necessários. Talvez achasse que precisava de contato direto pelo menos com um ser humano; talvez sentisse que Stormgren precisava dessa forma de apoio pessoal. Se a explicação era essa, o secretário-geral apreciava-a: não se incomodava com que a Liga da Liberdade se referisse a ele, desprezivelmente, como «o office boy de Karellen».

Os Senhores Supremos nunca tinham tido contato com nações ou governos individuais. Haviam tomado a Organização das Nações Unidas como a tinham encontrado, dado instruções para a instalação do equipamento de rádio necessário e transmitido suas ordens pela boca do secretário-geral. O delegado soviético fizera ver, corretamente e em inúmeras ocasiões, que aquilo não estava de acordo com a Carta. Karellen não parecia preocupado com isso.

Era realmente surpreendente que tantos abusos, tanta loucura e tantos males pudessem ter acabado com aquelas mensagens vindas do céu. Com a chegada dos Senhores Supremos, as nações ficaram sabendo que não precisavam mais temer umas às outras, e adivinharam — antes mesmo que a experiência fosse feita — que as armas existentes eram impotentes contra uma civilização capaz de servir de ponte entre os astros. Isso removera o maior obstáculo à felicidade dos homens.

Os Senhores Supremos pareciam bastante indiferentes às formas de governo, desde que não fossem opressivas ou corruptas. A Terra continuava com democracias, monarquias, ditaduras benevolentes, comunismo e capitalismo. Isso foi uma grande surpresa para muitas criaturas simplórias, profundamente convencidas de que o seu era o único modo de vida possível. Outros achavam que Karellen estava esperando apenas para introduzir um sistema que derrubaria todas as outras formas existentes de sociedade e por isso não se preocupara com pequenas reformas políticas. Mas, como todas as especulações a respeito dos Senhores Supremos, também essa era pura adivinhação. Ninguém conhecia os motivos deles — e ninguém sabia para que futuro eles estavam levando a humanidade.

Stormgren não estava dormindo bem, o que era estranho, pois em breve deveria ver-se para sempre livre das preocupações de seu cargo. Havia quarenta anos que servia

à humanidade, havia cinco anos que servia aos Senhores Supremos e poucos homens poderiam olhar para trás e ver tantas ambições realizadas. Talvez fosse esse o problema: quando se aposentasse — e poderia viver anos aposentado —, não teria mais metas para lhe dar estímulo à vida. Desde que Martha morrera e os filhos haviam formado suas próprias famílias, os elos que o prendiam ao mundo pareciam ter enfraquecido. Também podia ser que ele estivesse começando a se identificar com os Senhores Supremos, tornando-se distante da humanidade.

Aquela era outra das muitas noites de insônia, em que seu cérebro parecia andar à roda, como uma máquina cujo sistema de controle tivesse falhado. Sabia que não adiantava tentar dormir, levantou-se, relutante. Vestindo o robe, saiu para o pequeno terraço de seu modesto apartamento de cobertura. Não havia um só de seus subordinados diretos que não possuísse uma residência muito mais luxuosa, mas aquele apartamento era mais do que suficiente para Stormgren. Chegara a uma posição em que nem bens pessoais, nem honrarias oficiais podiam acrescentar algo a sua estatura.

A noite era quente, de um calor quase opressivo, mas o céu estava claro e uma lua brilhante parecia pairar a sudoeste. A dez quilômetros de distância, as luzes de Nova York coruscavam no horizonte qual uma aurora congelada no ato de romper.

Stormgren ergueu os olhos acima da cidade adormecida, para as alturas às quais só ele, dentre todos os homens, subira. Embora estivesse muito longe, podia ver o casco da nave de Karellen, reluzindo ao luar. Ficou imaginando o que o supervisor estaria fazendo, pois não acreditava que os Senhores Supremos alguma vez dormissem.

Lá em cima, um meteoro cruzou a redoma do céu. Sua trilha luminosa permaneceu por algum tempo, mas logo desapareceu, deixando apenas as estrelas. O aviso foi brutal: dali a cem anos, Karellen continuaria a guiar a humanidade rumo à meta que só ele podia ver, mas dentro de quatro meses outro homem seria secretário-geral. O fato em si pouca importância tinha para Stormgren; significava, porém, que lhe restava muito pouco tempo, se esperava saber o que havia por trás daquela tela às escuras.

Só naqueles últimos dias ousara confessar que o segredo em torno dos Senhores Supremos estava começando a obcecá-lo. Até bem pouco tempo atrás, sua fé em Karellen mantivera-o livre de dúvidas; mas agora ele não podia deixar de admitir que os protestos da Liga da Liberdade estavam começando a fazer efeito sobre ele. Era verdade que toda a grita sobre a escravização do homem não passava de mera propaganda. Poucas pessoas acreditavam seriamente nisso, ou desejavam realmente voltar aos velhos tempos. Os homens tinham se acostumado ao governo imperceptível de Karellen — mas estavam ficando impacientes por saber quem os governava. E quem podia culpá-los por isso?

Embora fosse a maior de todas, a Liga da Liberdade era apenas uma das organizações que se opunham a Karellen e, conseqüentemente, aos humanos que cooperavam com os Senhores Supremos. As objeções e políticas desses grupos variavam muito: alguns baseavam-se num ponto de vista político, enquanto outros expressavam simplesmente um sentimento de inferioridade. Sentiam-se, com toda a razão, mais ou menos como um indiano culto do século XIX deveria ter se sentido, ao contemplar o raj britânico. Os invasores tinham trazido paz e prosperidade à Terra — mas quem poderia dizer qual seria o preço a pagar? A história estava longe de ser tranqüilizadora: até mesmo os mais pacíficos contatos entre as raças de níveis culturais muito diferentes tinham freqüentemente resultado na destruição da sociedade mais atrasada. As nações, como os indivíduos, podiam perder seu espírito de luta, quando confrontadas por um desafio ao qual não podiam corresponder. E a civilização dos Senhores Supremos, embora envolta em mistério, era o maior desafio que o homem já enfrentara.

A máquina fac-símile na sala ao lado emitiu um débil «clique», ao ejetar o sumário enviado, de hora em hora, pela Central de Notícias. Stormgren entrou e passou, meio desanimado, os olhos pelas folhas. No outro lado do mundo, a Liga da Liberdade inspirara uma manchete não muito original. O homem É governado por monstros? perguntava o jornal, e prosseguia: «Falando num encontro realizado hoje em Madras, o Dr. C. V. Krishnan, presidente da Divisão Oriental da Liga da Liberdade, disse o seguinte: 'A explicação para o comportamento dos Senhores Supremos é muito simples. O seu aspecto físico é tão estranho e repulsivo, que eles não ousam mostrar-se à humanidade. Desafio o supervisor a negar o que afirmo' ».

Stormgren pousou o jornal, aborrecido. Mesmo que a acusação fosse verdadeira, que interesse tinha? A idéia não era nova, mas nunca o preocupara. Não acreditava que existisse qualquer forma biológica, por mais estranha que fosse,

que ele, com o tempo, não pudesse aceitar e talvez até achar bonita. O que importava não era o corpo, e sim a mente. Se conseguisse convencer Karellen disso, os Senhores Supremos talvez mudassem a sua política. Sem dúvida não podiam ser tão horrendos quanto os desenhos imaginativos que tinham enchido os jornais, logo após sua chegada à Terra! Contudo, não era apenas — e Stormgren sabia disso — consideração por seu sucessor o que o tornava ansioso por ver o fim daquele estado de coisas. Ele era suficientemente sincero para confessar que, em última análise, seu principal motivo era simples curiosidade humana. Acostumara-se a considerar Karellen como uma pessoa e nunca ficaria satisfeito enquanto não descobrisse que tipo de criatura ele era.

Quando, na manhã seguinte, Stormgren não chegou à hora de costume, Pieter van Ryberg ficou surpreso e algo irritado. Embora o secretário-geral muitas vezes fizesse alguns telefonemas antes de ir para o escritório, nunca deixava de avisar antecipadamente. Essa manhã, para piorar ainda mais as coisas, tinha havido vários recados urgentes para Stormgren. Van Ryberg ligou para meia dúzia de departamentos, tentando localizá-lo, e acabou desistindo, aborrecido.

Ao meio-dia, alarmado, resolveu mandar um carro até a casa de Stormgren. Dez minutos mais tarde, mais alarmado ficou ao ouvir uma sirene e ver um carro da polícia subir disparado a Alameda Roosevelt. As agências de notícias deviam ter amigos naquele veículo, porque, ao mesmo tempo em que Van Ryberg o via aproximar-se, o rádio anunciava ao mundo que ele já não era apenas assistente, e sim secretário-geral em exercício das Nações Unidas.

Se Van Ryberg não tivesse tantos problemas nas mãos, teria achado divertido ver as reações da imprensa ao desaparecimento de Stormgren. Durante todo aquele mês, os jornais do mundo se haviam dividido em dois grupos bem definidos. A imprensa ocidental, de modo geral, aprovava o plano de Karellen, transformando todos os homens em cidadãos do mundo. Os países do Leste, por outro lado, estavam passando por violentos, embora sintéticos, espasmos de orgulho nacional. Alguns eram independentes havia pouco mais de uma geração e sentiam-se despojados do que haviam conquistado. As críticas aos Senhores Supremos eram unânimes e enérgicas: após um período inicial de extrema cautela, a imprensa descobrira que podia desferir os ataques que quisesse contra Karellen, sem temor a represálias, e agora parecia querer exceder-se.

A maioria desses ataques, embora veemente, não era representativa da grande massa popular. Ao longo das fronteiras, em breve destinadas a desaparecer, o número de guardas tinha sido dobrado, mas os soldados olhavam-se uns aos outros com uma amizade ainda pouco articulada. Os políticos e os generais podiam gritar e bradar, mas a maioria silenciosa, os milhões que esperavam, achava que, dentro em pouco, um longo e sangrento capítulo da história chegaria ao fim.

E agora Stormgren sumira, ninguém sabia para onde. O tumulto cedeu de repente, quando o mundo percebeu que perdera o único homem através do qual os Senhores Supremos, por alguma estranha razão, falavam à Terra. Uma espécie de paralisia pareceu cair sobre a imprensa e os comentaristas radiofônicos. Em meio ao silêncio, porém, podia-se ouvir a voz da Liga da Liberdade, protestando inocência ansiosamente.

A escuridão era completa, quando Stormgren despertou. Durante um momento, o sono não o deixou aperceber-se da estranheza do fato. Mas, quando por fim acordou, sentou-se, sobressaltado, e tateou com a mão, à procura do interruptor ao lado de sua cama.

No escuro, a mão encontrou uma parede de pedra, nua e fria ao toque. Ficou gelado, o corpo e a mente paralisados pelo impacto do inesperado. Depois, mal acreditando em seus sentidos, ajoelhou-se na cama e começou a explorar, com as pontas dos dedos, aquela parede tão chocantemente estranha.

Havia apenas um momento que estava fazendo isso, quando se ouviu um súbito «clique» e uma parte da escuridão como que deslizou para um lado. Logo ele avistou um homem recortado contra um fundo pouco iluminado; depois, a porta tornou a fechar-se e a escuridão voltou a envolver tudo. A coisa aconteceu tão rapidamente, que ele não teve tempo de ver nada do quarto em que jazia.

Dali a um momento, sentiu-se ofuscado pela luz de uma potente lanterna elétrica. O facho de luz percorreu-lhe o rosto, fixou-se por um instante nele e depois mergulhou, ilumi- nando toda a cama, que nada mais era, via ele agora, do que um colchão apoiado em tábuas grosseiras.

Em meio à escuridão, uma voz falou-lhe num inglês excelente, mas com um sotaque cuja origem Stormgren não conseguiu, a princípio, identificar.

— Ah, senhor secretário, fico satisfeito de ver que o senhor acordou. Espero que se sinta perfeitamente bem.

Algo nessa última frase chamou a atenção de Stormgren, fazendo com que as perguntas indignadas que ele estava a ponto de desferir lhe morressem nos lábios. Olhou para a escuridão e retrucou calmamente:

— Quanto tempo estive inconsciente? O outro riu.

— Vários dias. Prometeram-nos que não haveria reações posteriores. Folgo em ver que é verdade.

Em parte para ganhar tempo e em parte para testar suas reações, Stormgren pôs as pernas para fora da cama. Usava ainda a roupa de dormir, mas toda amassada e parecendo bastante suja. Ao se mexer, sentiu uma ligeira tontura — não o suficiente para ser desagradável, mas sim para convencê-lo de que realmente tinha sido dopado.

Virou-se para a luz.

— Onde estou? — perguntou indignado. — Wain-wright sabe disso?

— Não fique nervoso — respondeu a pessoa a sua frente. — Não vamos falar já dessas coisas. Imagino que esteja com muita fome. Vista-se e venha jantar.

O facho de luz deslizou pelo quarto e, pela primeira vez, Stormgren pôde fazer idéia das suas dimensões. Mal se podia dizer que fosse um quarto, pois as paredes pareciam abertas na rocha viva, se bem que tivessem sido desbastadas. Compreendeu que estava debaixo da terra, talvez a uma grande profundidade. E, se estivera inconsciente durante vários dias, podia encontrar-se em qualquer lugar do planeta.

A lanterna elétrica iluminou uma pilha de roupas, dobradas sobre uma mala de viagem.

— Deve chegar — disse a voz vinda do escuro. — Lavar roupa aqui é um problema, de modo que pegamos dois ternos seus e meia dúzia de camisas.

— Quanta consideração! — comentou Stormgren, sarcástico.

— Pedimos desculpas pela ausência de móveis e de luz elétrica. Este lugar é conveniente sob certos aspectos, mas não tem nenhum conforto.

— Conveniente para quê? — perguntou Stormgren, vestindo uma camisa. O contato do pano, seu velho conhecido, tranqüilizou-o surpreendentemente.

— Apenas conveniente — retrucou a voz. — E, a propósito, já que provavelmente vamos passar bastante tempo juntos, pode me chamar de Joe.

— Apesar da sua nacionalidade — replicou Stormgren —, porque você é polonês, não é? acho que seria capaz de pronunciar seu verdadeiro nome. Não pode ser pior do que muitos nomes finlandeses.

Fez-se uma breve pausa e a luz tremulou por um momento.

— Bem, eu devia ter esperado isso mesmo — disse Joe, em tom resignado. — O senhor deve ter muita experiência nesse tipo de coisa.

— É um hobby útil para um homem na minha posição. Aposto como você foi criado nos Estados Unidos, mas não saiu da Polônia até…

— Basta — disse Joe, com firmeza. — Parece que já terminou de vestir-se. Vamos indo.

A porta abriu-se assim que Stormgren se dirigiu para ela, sentindo-se satisfeito pela sua pequena vitória. Joe afastou-se para deixá-lo passar e Stormgren ficou pensando se o outro não estaria armado. Era quase certo que sim e, de qualquer maneira, não estaria só.

O corredor era parca e intermitentemente iluminado por lamparinas, e pela primeira vez Stormgren pôde ver Joe claramente. Era um homem dos seus cinqüenta anos e que devia pesar mais de cem quilos. Tudo nele era enorme, desde t o uniforme de batalha manchado, que podia ter vindo de meia dúzia de forças armadas, até o grande anel de sinete em sua mão esquerda. Um homem daquele tamanho provavelmente nem se daria ao trabalho de andar armado. Não seria difícil seguir-lhe a pista, pensou Stormgren, se conseguisse sair deste lugar. Sentiu-se um pouco deprimido ao lembrar-se de que Joe também devia estar perfeitamente cônscio disso.

As paredes do corredor, embora aqui e ali revestidas de concreto, eram quase que inteiramente de rocha viva. Não havia dúvida de que estavam numa mina abandonada e Stormgren pensou que poucas prisões seriam mais eficientes. Até então, o fato de ter sido seqüestrado não o preocupara grandemente. Achara que, acontecesse o que acontecesse, os imensos recursos dos Senhores Supremos não tardariam a localizá-lo e a resgatá-lo. Agora, porém, já não estava tão certo disso. Fora seqüestrado havia já vários dias — e nada acontecera. Devia existir um limite até mesmo para o poderio de Karellen e, se realmente estivesse enterrado ern algum continente remoto, nem toda a ciência dos Senhores Supremos poderia ser capaz de descobrir onde ele estava.

Havia mais dois homens sentados à mesa, na sala nua e mal iluminada. Olharam com interesse e certo respeito, ao verem Stormgren entrar. Um deles estendeu-lhe um embrulho com sanduíches, que Stormgren aceitou ansiosamente. Embora sentisse muita fome, teria preferido uma refeição mais completa, mas provavelmente os seus captores não tinham jantado mais do que aquilo.

Enquanto comia, olhou de relance para os três homens. Joe era, de longe, o que mais se destacava, e não só pelo tamanho. Via-se que os outros dois eram seus assistentes — indivíduos comuns, cujas origens Stormgren descobriria quando os ouvisse falar.

Tinham servido um pouco de vinho num copo não muito limpo e Stormgren bebeu-o para ajudar a descer o último sanduíche. Sentindo-se mais dono da situação, virou-se para o enorme polonês.

— Bem — disse ele —, que tal me explicar o que quer dizer tudo isso e que esperam conseguir?

Joe pigarreou.

— Gostaria de esclarecer uma coisa — falou. — Isso nada tem a ver com Wainwright. Ele vai ficar tão surpreso quanto os demais.

Stormgren já esperava por isso, embora não soubesse por que razão Joe confirmava suas suspeitas. Havia muito desconfiava da existência de um movimento extremista dentro — ou, por assim dizer, nas fronteiras — da Liga da Liberdade.

— Só por curiosidade — disse ele —, como foi que vocês me seqüestraram?

Não esperava uma resposta e ficou surpreendido com a presteza — quase ansiosa — com que o outro respondeu.

— Foi como num filme de suspense de Hollywood — disse Joe, entusiasmado. — Não tínhamos a certeza de que Karellen o vigiasse, de modo que tomamos certas precauções extremas. O senhor foi intoxicado por gás, colocado no con-dicionador de ar… até aí foi fácil. Depois, foi carregado para o carro; mais uma vez, nenhum problema. Tudo isso, devo dizer, não foi feito pela nossa gente. Contratamos profissionais para esse serviço. Karellen talvez os pegue, já esperamos por isso, mas não vai adiantar nada. Quando partiu de sua casa, o carro entrou num longo túnel, a menos de mil quilômetros de Nova York. Saiu, dentro do horário, na outra extremidade, ainda transportando um homem dopado e extraordinariamente parecido com o secretário-geral. Bem mais tarde, um grande caminhão, carregado de caixas metálicas, emergiu do lado oposto e dirigiu-se para um determinado aeroporto, onde as caixas foram postas a bordo de um avião-cargueiro, numa operação perfeitamente legal. Tenho a certeza de que os donos das caixas ficariam horrorizados se soubessem o emprego que lhes demos.

«Entretanto, o carro que realmente executou o serviço prosseguiu em sua missão despistadora, rumo à fronteira canadense. Talvez a essas horas Karellen o tenha interceptado; não sei e nem me interessa. Como vê — e espero que aprecie minha franqueza — todo o nosso plano dependia de uma única coisa. Temos a certeza de que Karellen pode ver e ouvir tudo o que acontece na superfície da Terra, mas, a menos que utilize magia e não ciência, não pode ver o que se desenrola debaixo dela. Assim, não vai saber do traslado dentro do túnel, pelo menos não antes que seja demasiado tarde. Naturalmente, corremos um risco, mas havia também uma ou duas outras garantias das quais não vou falar agora. Podemos precisar usá-las de novo e seria uma pena abrir o jogo.»

Joe contara tudo aquilo com tal euforia, que Stormgren não pôde deixar de sorrir. No fundo, porém, sentia-se muito preocupado. O plano fora engenhoso e era bem possível que Karellen tivesse sido logrado. Stormgren nem sequer tinha a certeza de que os Senhores Supremos mantivessem qualquer forma de vigilância protetora sobre ele. Era evidente que Joe tampouco tinha essa certeza. Talvez por isso tivesse sido tão franco, talvez quisesse testar as reações de Stormgren. Muito bem, ele procuraria aparentar confiança, fossem quais fossem seus verdadeiros sentimentos.

— Vocês devem ser muito idiotas — disse com desprezo — se pensam que podem enganar os Senhores Supremos com tanta facilidade. De qualquer maneira, que vantagem tirarão de tudo isso?

Joe ofereceu-lhe um cigarro, que Stormgren recusou, acendeu um e sentou-se na beira da mesa. Ouviu-se um estalo e levantou-se mais que depressa.

— Os nossos motivos — disse ele — são mais do que óbvios. Esgotamos todos os argumentos e resolvemos recorrer a outros meios. Antes de nós, já houve vários movimentos clandestinos e até mesmo Karellen, por mais poderes que tenha, não vai achar fácil lidar conosco. Estamos dispostos a lutar pela nossa independência. Não me entenda mal. Não vai ser nada violento — pelo menos, a princípio —, mas os Senhores Supremos vão ter que empregar agentes humanos e nós podemos tornar as coisas muito difíceis para eles.

Começando por mim, pensou Stormgren. Ficou pensando se o outro lhe teria contado mais do que uma fração da história toda. Acreditariam realmente que aqueles métodos de gângsteres teriam alguma influência sobre Karellen? Por outro lado, não havia dúvida de que um movimento de resistência bem organizado podia tornar a vida um bocado difícil. Joe tinha posto o dedo no único ponto fraco do domínio dos Senhores Supremos. No fundo, todas as ordens deles eram executadas por agentes humanos. Se uma ação terrorista os levasse à desobediência, todo o sistema poderia ir por água abaixo. Era apenas uma longínqua possibilidade, pois Stormgren tinha confiança em que Karellen não tardaria a encontrar uma solução.

— Que é que vocês pretendem fazer comigo? — perguntou, por fim, Stormgren. — Sou um refém ou o quê?

— Não se preocupe, nós cuidaremos do senhor. Esperamos algumas visitas dentro de uns dias e, até lá, procuraremos tratá-lo da melhor maneira possível.

Acrescentou algumas palavras em sua língua e um dos outros dois puxou um baralho novinho em folha.

— Compramos este baralho especialmente para o senhor — explicou Joe. — Li recentemente no Time que o senhor era um ótimo jogador de pôquer. — A voz dele tornou-se subitamente grave. — Espero que tenha bastante dinheiro na carteira — disse, ansioso. — Não tivemos a idéia de olhar. Naturalmente, não podemos aceitar cheques.

Perplexo, Stormgren ficou olhando para seus captores. Depois, à medida que se foi apercebendo do aspecto humorístico da situação, teve a sensação de que todas as preocupações e responsabilidades de seu cargo lhe tinham sido tiradas dos ombros. De agora em diante, o fardo recairia sobre as costas de Van Ryberg. Acontecesse o que acontecesse, não havia nada, absolutamente nada, que ele pudesse fazer — e, agora, aqueles incríveis criminosos estavam ansiosos para jogar pôquer com ele!

Atirou a cabeça para trás e riu como havia anos não fazia.

Não havia dúvida, pensou Van Ryberg, sombriamente, de que Wainwright estava dizendo a verdade. Podia suspeitar de algo, mas não sabia quem tinha raptado Stormgren. Nem aprovava a idéia do seqüestro. Van Ryberg desconfiava de que os extremistas da Liga da Liberdade viessem há muito tempo fazendo pressão sobre Wainwright para que adotasse uma política mais ativa. Agora, tinham resolvido agir por conta própria.

O seqüestro fora muito bem organizado, isso ninguém podia contestar. Stormgren podia estar em qualquer ponto da Terra e parecia haver pouca esperança de descobrir onde. Contudo, algo tinha que ser feito, decidiu Van Ryberg, e depressa. Apesar de todas as caçoadas que fizera, ele tinha por Karellen um sentimento de temor e respeito. A idéia de ter que falar diretamente com o supervisor assustava-o, mas não parecia haver outra alternativa.

O Setor de Comunicações ocupava todo o andar superior do grande edifício. Fileiras de máquinas fac-símile, algumas silenciosas, outras trabalhando, perdiam-se na distância. Através delas passavam intermináveis dados estatísticos — números de produção, resultados de censos e toda a contabilidade de um sistema econômico mundial. Em algum lugar da nave de Karellen devia haver o equivalente daquela enorme sala — e Van Ryberg ficou pensando, com um arrepio na espinha, no tipo de formas que se movimentariam de um lado para outro, coletando as mensagens que a Terra enviava aos Senhores Supremos.

Mas nesse dia não estava interessado naquelas máquinas, nem na rotina que elas representavam. Dirigiu-se para a pequena sala particular na qual apenas Stormgren tinha licença para entrar. Segundo suas instruções, o trinco fora forçado e o chefe do Setor de Comunicações já estava lá, à espera dele.

— É um teletipo comum, com um teclado standard — disse-lhe o chefe. — Há também uma máquina fac-símile, se o senhor quiser enviar fotos ou informações em forma de quadros, mas o senhor disse que não iria precisar disso.

Van Ryberg assentiu, distraído.

— Muito bem, obrigado — disse. — Não espero ficar aqui muito tempo. Tranque novamente a sala e me dê todas as chaves.

Esperou que o chefe do Setor de Comunicações saísse e depois sentou-se diante da máquina. Sabia que era raramente usada, já que quase todos os contatos entre Karellen e Stormgren tinham lugar durante as suas reuniões semanais. Como aquele era um circuito de emergência, esperava uma resposta rápida.

Após um momento de hesitação, começou a bater sua mensagem com dedos pouco práticos. A máquina ronronou suavemente e as palavras brilharam por alguns segundos na tela escurecida. Van Ryberg recostou-se na cadeira e esperou pela resposta.

Mais ou menos um minuto depois, a máquina começou de novo a ronronar. Como tantas vezes acontecera, Van, Ryberg se perguntou se o supervisor nunca dormiria.

A mensagem-resposta foi breve e desanímadora: «NENHUMA INFORMAÇÃO. O ASSUNTO FICA INTEIRAMENTE A SEU CRITÉRIO. K.»

Com bastante amargura e sem qualquer satisfação, Van Ryberg deu-se conta de quanta responsabilidade caíra sobre seus ombros.

Nos últimos três dias, Stormgren tivera oportunidade de fazer uma análise bastante acurada de seus captores. Joe era o único que tinha alguma importância. Os outros eram anônimos — a ralé que todos os movimentos ilegais costumam atrair. Os ideais da Liga da Liberdade nada significavam para eles: sua única preocupação era ganhar a vida com um mínimo de trabalho.

Joe era uma criatura bem mais complexa, embora por vezes parecesse a Stormgren um bebê gigante. Suas intermináveis partidas de pôquer eram pontilhadas de violentas discussões políticas e não demorou que Stormgren se apercebesse de que o enorme polonês jamais pensara seriamente nas causas pelas quais estava lutando. A emoção e o extremo conservadorismo obscureciam-lhe o pensamento. A longa luta que seu país travara pela independência condicionara-o de tal maneira, que ele ainda vivia no passado. Era uma espécie de sobrevivente, uma dessas pessoas que não sabem o que fazer com uma vida organizada. Quando o seu tipo desaparecesse, se é que alguma vez desapareceria, o mundo tornar-se-ia um lugar mais seguro mas muito menos interessante.

Já quase não havia dúvidas, no que dizia respeito a Stormgren, de que Karellen não conseguira localizá-lo. Tinha procurado blefar, mas não convencera seus captores. Estava quase certo de que o mantinham ali para ver se Karellen agiria, e agora, vendo que nada acontecera, podiam prosseguir com seus planos.

Stormgren não ficou espantado quando, quatro dias após sua captura, Joe lhe disse que esperasse visitas. Havia algum tempo que o grupo se mostrava cada vez mais nervoso, e o prisioneiro deduziu que os líderes do movimento, vendo que não havia mais perigo, viriam finalmente buscá-lo.

Já estavam à espera dele, reunidos ao redor da precária mesa, quando Joe o fez entrar na sala. Stormgren observou, divertido, que o seu carcereiro estava usando, de maneira ostensiva, uma enorme pistola, que antes nunca exibira. Os dois capangas tinham desaparecido e o próprio Joe parecia algo contido. Stormgren viu imediatamente que tinha agora diante dele homens de muito maior calibre e o grupo a sua frente lembrou-lhe uma foto que vira de Lênin e seus colaboradores, tirada nos primeiros dias da Revolução Russa. Havia a mesma força intelectual, a mesma determinação férrea, a mesma inexorabilidade naqueles seis homens. Joe e os da sua espécie eram inofensivos: ali estavam os cérebros ocultos da organização.

Com um breve aceno de cabeça, Stormgren dirigiu-se para a única cadeira vazia e procurou aparentar segurança. Ao se aproximar, o homem idoso e atarracado, sentado no outro extremo da mesa, inclinou-se para a frente e fixou nele os olhos cinzentos e penetrantes. Aquele olhar desconcertou de tal maneira Stormgren, que ele falou primeiro, coisa que não pretendia fazer.

— Suponho que tenham vindo discutir os termos de meu resgate. Quais são eles?

Reparou que, um pouco atrás, alguém anotava suas palavras num bloco de estenografia. Tudo muito comercial.

O líder replicou, num sotaque musical, que Stormgren identificou como sendo galês:

— Pode pôr as coisas assim, senhor secretário-geral, mas nós estamos interessados em informações, não em dinheiro.

Então é isso, pensou Stormgren. Ele era um prisioneiro de guerra e aquele era seu interrogatório.

— O senhor conhece nossos motivos — continuou o outro com sua voz suave. — Pode nos chamar um movimento de resistência, se quiser. Acreditamos que, mais cedo ou mais tarde, a Terra terá que lutar pela sua independência, mas compreendemos que essa luta só poderá utilizar métodos indiretos, como a sabotagem e a desobediência. O senhor foi seqüestrado em parte para mostrar a Karellen que não estamos brincando e somos bem organizados, mas principalmente porque o senhor é o único homem capaz de nos dizer algo sobre os Senhores Supremos. Sabemos que é um homem inteligente, Sr. Stormgren. Coopere conosco e terá de volta a liberdade.

— O que, exatamente, desejam saber? — perguntou cautelosamente Stormgren.

Aqueles olhos extraordinários pareciam penetrar-lhe a mente. Stormgren nunca vira olhos iguais. A voz cantada respondeu:

— Saber quem, ou o quê, são os Senhores Supremos! Stormgren por pouco não sorriu.

— Creiam — disse ele — que estou tão curioso por descobrir isso quanto os senhores.

— Isso quer dizer que responderá a nossas perguntas?

— Não prometo nada. Talvez.

Joe deixou escapar um suspiro de alívio e um sussurro de antecipação perpassou a sala.

— Temos uma idéia geral — continuou o outro — das circunstâncias em que o senhor se encontra com Karellen. Mas gostaríamos que as descrevesse minuciosamente, sem deixar de lado nenhum pormenor importante.

Não havia nada de mal naquilo, pensou Stormgren. Já o tinha feito muitas vezes e daria a impressão de que estava cooperando. Estava em presença de intelectos aguçados e talvez eles pudessem revelar-lhe algo de novo. Apreciariam qualquer informação que pudessem tirar dele — desde que lhes fosse útil. Stormgren não acreditava que pudesse prejudicar Karellen.

Apalpou os bolsos e retirou um lápis e um velho envelope. Desenhando ao mesmo tempo que falava, principiou:

— Sabem, sem dúvida, que uma pequena máquina voadora, sem quaisquer meios visíveis de propulsão, vem me buscar a intervalos regulares e me leva à nave de Karellen. Penetra o casco; devem ter visto os filmes telescópícos que foram tomados dessa operação. A porta volta a se abrir — se se lhe pode chamar uma porta — e eu entro numa pe-

quena sala, com uma mesa, uma cadeira e uma tela. A disposição é mais ou menos a seguinte.

Empurrou o envelope para o velho galês, mas os estranhos olhos não se mexeram. Continuaram fixos no rosto de Stormgren: algo parecia ter mudado neles. Fizera-se silêncio na sala. Atrás de si, Stormgren ouvia Joe respirar forte.

Intrigado e aborrecido, Stormgren olhou bem para o outro e, ao fazê-lo, entendeu por fim. Foi tal sua confusão, que amassou o envelope numa bola de papel e calcou-a debaixo do sapato.

Sabia agora por que aqueles olhos cinzentos o tinham afetado tanto: o homem à sua frente era cego.

Van Ryberg não fizera mais tentativas de entrar em contato com Karellen. Grande parte do trabalho de seu departamento — a divulgação de informações estatísticas, as relações com a imprensa mundial e coisas afins — continuara como se nada tivesse acontecido. Em Paris, os advogados prosseguiam discutindo a redação de uma Constituição Mundial, mas de momento ele nada tinha com isso. Só dali a uma quinzena o supervisor queria ler a minuta final: se então não estivesse pronta, Karellen sem dúvida agiria como achasse conveniente.

E nada de notícias, ainda, de Stormgren.

Van Ryberg estava ditando, quando o telefone de emergências começou a tocar. Atendeu, impaciente, escutou, com espanto crescente, pousou o fone e correu para a janela. A distância, gritos de surpresa se elevavam das ruas e o trânsito estava se engarrafando.

Era verdade: a nave de Karellen, aquele símbolo imutável dos Senhores Supremos, já não estava no céu. Van Ryberg olhou para todos os lados, mas nem sinal da nave. Então, inesperadamente, foi como se se tivesse feito noite de repente. Vindo do norte, seu ventre negro como uma nuvem prenhe de trovoada, a grande nave voava, baixo, por sobre os arranha-céus de Nova York. Instintivamente, Van Ryberg recuou. Sabia quão enormes eram as naves dos Senhores Supremos — mas uma coisa era vê-las ao longe, no espaço, e outra, muito diferente, vê-las passar tão baixo, como se fossem nuvens tocadas pelo demônio.

Na escuridão daquele eclipse parcial, ficou olhando para a nave e para a sombra monstruosa que ela deitava, até desaparecer para os lados do sul. Não se ouvia qualquer ruído, nem mesmo um zumbido no ar, e Van Ryberg compreendeu que, apesar da aparente proximidade, a nave passara pelo menos a um quilômetro acima de sua cabeça. De repente, o edifício estremeceu, atingido pela onda de choque e ouviu-se o barulho de vidros partidos, de uma janela que batera com força.

Na sala, atrás dele, todos os telefones começaram a tocar, mas Ryberg não se mexeu. Permaneceu encostado ao peitoril da janela, sempre olhando para o sul, paralisado pela presença de um poderio ilimitado.

Stormgren falava e tinha a sensação de que sua mente operava ao mesmo tempo em dois níveis. Por um lado, tentava desafiar o homem que o capturara, ao passo que, por outro lado, esperava que o ajudassem a desvendar o segredo de Karellen. Era um jogo perigoso, mas, para sua surpresa, ele estava se divertindo.

O galês cego se encarregara da maior parte do interrogatório. Era fascinante ver aquele cérebro ágil tentar uma. entrada após outra, testando e rejeitando todas as teorias que Stormgren havia tanto tempo abandonara. Por fim, endireitou-se na cadeira e suspirou.

— Continuamos na estaca zero — disse, resignado. — Queremos mais fatos e isso significa ação e não discussão. — Os olhos sem vida pareciam fitar Stormgren. Durante um minuto, tamborilou nervosamente na mesa, o primeiro sinal de insegurança que Stormgren observara. Depois, prosseguiu:

— Senhor secretário, estou um pouco surpreso de que nunca tenha feito qualquer esforço para saber mais a respeito dos Senhores Supremos.

— O que me sugere? — perguntou Stormgren friamente, procurando disfarçar seu interesse. — Já lhe disse que existe apenas uma saída da sala em que tenho as minhas entrevistas com Karellen, e ela leva diretamente de volta à Terra.

— Talvez seja possível — meditou o outro — desenvolver instrumentos que nos possam esclarecer algo. Não sou cientista, mas podemos pensar no assunto. Se lhe devolvermos a liberdade, o senhor concordaria em colaborar num plano desses?

— Permitam-me, de uma vez por todas — disse Stormgren, em tom zangado —, tornar a minha posição perfeita- mente clara. Karellen está trabalhando para tornar o mundo unido e eu nada farei para ajudar seus inimigos. Quais são seus planos finais, não sei, mas acredito que sejam bons.

— Que provas concretas temos disso?

— Todas as suas atitudes, desde que suas naves surgiram em nossos céus. Desafio-os a mencionar um só ato que, em última análise, não tenha sido benéfico. — Storm-gren fez uma pausa, permitindo-se, por um momento, voltar atrás nos anos. Sorriu.

— Se quiser uma prova da, como direi, benevolência básica dos Senhores Supremos, pense naquele seu gesto contra a crueldade para com os animais, um mês depois de sua chegada. Se eu tinha alguma dúvida a respeito de Karellen, ela desapareceu depois disso, embora me tenha trazido mais problemas do que qualquer outra coisa que ele já fez!

E não estava exagerando, pensou Stormgren. Fora um incidente extraordinário, a primeira revelação de que os Senhores Supremos detestavam a crueldade. Isso e sua paixão pela justiça e pela ordem pareciam ser emoções dominantes em suas vidas, pelo menos até onde se podia julgá-los através de seus atos.

Fora a única vez que Karellen mostrara indignação ou, pelo menos, um simulacro disso. «Vocês podem matar-se uns aos outros, se quiserem», dissera a mensagem, «esse é um assunto entre vocês e suas leis. Mas se vocês matarem, exceto para comer ou em legítima defesa, os animais que compartilham de seu mundo, vocês terão que se haver comigo.»

Ninguém tinha, na altura, se apercebido da extensão da ameaça ou do que Karellen poderia fazer para impor sua ordem. Mas não tinham precisado esperar muito.

A Plaza de Toros estava cheia, quando os matadores e seus ajudantes entraram na arena. Tudo parecia como de costume: o sol brilhante fazia refulgir os trajes de luces, a multidão saudou seus favoritos como sempre fazia. Contudo, aqui e ali, alguns rostos se voltavam, ansiosos, para o céu, para a forma prateada, cinqüenta quilômetros acima de Madri.

Os picadores tinham tomado seus lugares e o touro entrou, bufando, na arena. Os esquálidos cavalos, as ventas frementes de pavor, forçados pelos cavaleiros, aproximaram-se do inimigo. A primeira banderilla brilhou ao sol, penetrou no touro e, nesse momento, da Plaza de Toros se ergueu um grito como jamais se ouvira em toda a Terra.

Era o grito de dez mil pessoas, sentindo a dor da mesma ferida, dez mil pessoas que, uma vez recuperadas do choque, viram que estavam incólumes. Mas assim terminara aquela tourada, e todas as demais touradas, pois a notícia se espalhara rapidamente. Os aficionados tinham ficado tão abalados, que só um em dez pedira de volta o dinheiro da entrada. O Daily Mirror de Londres piorara ainda mais as coisas, sugerindo que os espanhóis adotassem o críquete como seu novo esporte nacional.

— O senhor pode ter razão — replicou o velho galês. — Talvez os motivos dos Senhores Supremos não sejam maus, de acordo com os seus padrões, que podem ocasionalmente coincidir com os nossos. Mas isso não impede que eles sejam usurpadores. Nós nunca lhes pedimos que viessem e virassem nosso mundo de cabeça para baixo, destruindo ideais — sim, e nações — que gerações e gerações de homens lutaram para proteger.

— Sou de um pequeno país, que teve de lutar para ter direito às suas liberdades — retrucou Stormgren. — Não obstante, sou a favor de Karellen. Vocês podem irritá-lo, podem inclusive retardar a conquista de seus objetivos, mas isso, no fim, não fará nenhuma diferença. Não duvido de que sejam sinceros. Compreendo seu temor de que as tradições e culturas dos pequenos países sejam destruídas com a criação do Estado Mundial. Mas enganam-se: não adianta agarrar-se ao passado. Mesmo antes da chegada dos Senhores Supremos, o Estado soberano já estava moribundo. Eles apenas apressaram seu fim. Ninguém agora pode salvá-lo, e ninguém deve tentar fazer isso.

Não houve resposta. O homem à sua frente não se mexeu nem falou. Ficou sentado, lábios entreabertos, os olhos sem visão agora também sem vida. A sua volta, os outros estavam igualmente imóveis, como que petrificados em atitudes estranhas. Com uma exclamação de horror, Stormgren pôs-se de pé e recuou em direção à porta. Nisso, o silêncio foi quebrado:

— Belo discurso, Rikki! Obrigado. Agora, acho que podemos ir.

Stormgren girou nos calcanhares e olhou para o corredor escurecido. Como que flutuando ao nível dos olhos, via-se uma pequena esfera — sem dúvida alguma, a fonte da misteriosa força que os Senhores Supremos tinham posto em ação. Era difícil dizer ao certo, mas Stormgren imaginou ouvir um leve zumbido, como o de uma colmeia num dia quente de verão.

— Karellen! Graças a Deus! Mas o que foi que você fez?

— Não se preocupe, eles estão bem. Pode-se dizer que estão paralisados, embora a coisa seja muito mais sutil do que isso. Estão simplesmente vivendo mil vezes mais lentamente do que o normal. Quando tivermos ido embora, eles nunca vão saber o que aconteceu.

— Vai deixá-los aqui, até a polícia chegar?

— Não. Tenho um plano muito melhor. Vou deixá-los sair.

Stormgren sentiu-se surpreendentemente aliviado. Deitou uma última olhadela para a pequena sala e seus petrificados ocupantes. Joe estava apoiado num só pé, olhando, estupidamente, para nada. De repente, Stormgren riu e enfiou a mão no bolso.

— Obrigado pela hospitalidade, Joe — disse. — Acho que vou deixar uma lembrança.

Passou em revista os pedaços de papel, até encontrar os números que procurava. Depois, numa folha razoavelmente limpa, escreveu com todo o cuidado:

«Banco de Manhattan

Pague a Joe a importância de cento e trinta e cinco dólares e cinqüenta cents (US$ 135.50).

R. Stormgren.»

Quando punha a tira de papel ao lado do polonês, a voz de Karellen perguntou:

— Quer me dizer o que você está fazendo?

— Nós, os Stormgren, sempre pagamos nossas dívidas. Os outros dois trapaceavam, mas Joe jogava limpo. Pelo menos, nunca o peguei roubando.

Sentiu-se muito alegre, quarenta anos mais jovem, ao se dirigir para a porta. A esfera metálica afastou-se para deixá-lo passar. Presumiu que fosse uma espécie de robô, o que explicava que Karellen tivesse podido chegar até ele, através das desconhecidas camadas de rocha.

— Ande em frente uns cem metros — disse a esfera, falando com a voz de Karellen. — Depois vire à esquerda até que eu lhe dê mais instruções.

Stormgren avançou a passo rápido, embora percebesse

que não havia necessidade de se apressar. A esfera continuava a pairar no corredor, cobrindo-lhe a fuga.

Um minuto mais tarde, passou por uma segunda esfera, à espera dele numa curva do corredor.

— Ainda falta meio quilômetro — disse ela. — Conserve-se à esquerda até que nos voltemos a encontrar.

Por seis vezes encontrou as esferas, a caminho da saída. A princípio, ficou pensando se o robô não estaria dando um jeito de ficar sempre à frente dele; depois, achou que devia haver uma cadeia de esferas, formando um circuito completo nas profundezas da mina. À entrada, um grupo de guardas compunha uma peça de improvável estatuária, vigiados por outra das onipresentes esferas. Na vertente da colina, a alguns metros de distância, jazia a pequena máquina voadora na qual Stormgren fizera todas as suas viagens ao encontro de Karellen.

Stormgren ficou um momento piscando, ofuscado pela luz do sol. Viu então as máquinas utilizadas na mineração enferrujadas à volta dele e, mais além, uma ferrovia em ruínas, descendo pela encosta da montanha. Alguns quilômetros adiante, uma densa floresta cobria a base do morro e, muito ao longe, Stormgren distinguiu o brilho da água de um grande lago. Deduziu que devia estar em algum lugar da América do Sul, embora não soubesse dizer exatamente o que lhe dava essa impressão.

Enquanto subia para a máquina voadora, Stormgren pôde ver, pela ultima vez, a entrada da mina e os homens petrificados a sua volta. Depois, a porta selou-se atrás dele e, com um suspiro de alívio, afundou na poltrona habitual.

Esperou um pouco, até recuperar o fôlego; disse apenas:

— Então?

— Lamento não ter podido resgatá-lo antes, mas você compreende que era importante esperar que todos os líderes estivessem reunidos.

— Vai me dizer — explodiu Stormgren — que você sabia onde eu estava? Se eu soubesse…

— Não tire conclusões apressadas — atalhou Karellen. — Pelo menos, deixe-me acabar de explicar.

— Muito bem — replicou Stormgren, aborrecido. — Estou escutando. — Começava a suspeitar de que não passara de uma isca para pegar os outros.

— Mantive um, acho que o melhor termo talvez seja «rastreador» atrás de você, durante algum tempo — disse

Karellen. — Embora seus amigos não se enganassem ao pensar que eu não podia segui-los debaixo da terra, pude seguir seu rastro até eles o trazerem para a mina. O traslado dentro do túnel foi engenhoso, mas, quando o primeiro carro deixou de dar sinais, o plano deles ficou claro e não demorou que você fosse novamente localizado. Depois, foi só esperar. Sabia que, tão logo eles tivessem a certeza de que eu ignorava seu paradeiro, os líderes viriam até aqui e eu poderia pegá-los todos de uma vez.

— Mas vai deixá-los sair!

— Até agora — explicou Karellen — eu não tinha maneira alguma de saber quem, dentre os dois bilhões e meio de homens que habitam este planeta, eram os verdadeiros cabeças da organização. Agora que eles foram localizados, posso segui-los em qualquer lugar da Terra e vigiar seus movimentos nos mais mínimos detalhes, se assim desejar. É muito melhor do que trancafiá-los. Se resolverem agir, denunciarão o resto de seus camaradas. Estão muito bem neutralizados e eles sabem disso. Seu resgate deve parecer-lhes inexplicável, pois você deve ter praticamente sumido ante os olhos deles.

E a risada sonora ecoou no pequeno compartimento.

— Sob certos aspectos, tudo não passou de uma comédia, embora com um fim sério. Não estou apenas preocupado com os membros dessa organização, tenho que pensar no efeito moral sobre os outros grupos.

Stormgren ficou um momento calado. Não ficara cem por cento satisfeito, mas compreendia o ponto de vista de Karellen e uma parte da sua indignação se dissipara.

— Foi uma pena ter acontecido nas minhas últimas semanas como secretário-geral — disse, finalmente. — Doravante, vou ter um guarda em minha casa. Pieter pode ser o próximo seqüestrado. Que tal ele se arranjou, por falar nisso?

— Observei-o durante toda a semana e evitei, delibe-radamente, auxiliá-lo. De modo geral, saiu-se muito bem, mas não é homem para tomar seu lugar.

— Sorte dele — disse Stormgren, ainda ressentido. — E, a propósito, já soube algo de seus superiores, a respeito de se mostrar? Tenho agora a certeza de que esse é o principal argumento invocado pelos seus inimigos. Disseram-me, repetidamente: «Nunca poderemos confiar nos Senhores Supremos enquanto não pudermos vê-los».

Karellen suspirou.

— Não, não soube de nada. Mas já sei qual será a resposta.

Stormgren não insistiu. Antes talvez tivesse insistido, mas agora um plano estava começando a se formar em sua mente. As palavras de seu interrogador não lhe saíam da memória. Sim, talvez se pudessem inventar instrumentos…

O que ele se recusara a fazer obrigado, poderia tentar fazer de livre e espontânea vontade.

Nunca teria ocorrido a Stormgren, até alguns dias antes, o que agora ele estava planejando. Aquele ridiculamente dramático seqüestro, que, em retrospecto, parecia um desses seriados de terceira classe da TV, tinha, provavelmente, influenciado em muito sua nova maneira de pensar. Pela primeira vez na vida, Stormgren fora exposto a um ato de violência física, em oposição às batalhas verbais travadas numa sala de conferências. O vírus devia ter-lhe entrado no sangue, ou então ele estava se aproximando mais depressa do que podia supor da segunda infância.

A curiosidade pura e simples era também um motivo poderoso, bem como a determinação de se vingar da brincadeira de que fora vítima. Não havia mais dúvidas de que Karellen o usara como isca e, mesmo que isso tivesse sido pela melhor das razões, Stormgren não se sentia inclinado a perdoar logo o supervisor.

Pierre Duval não mostrou surpresa quando Stormgren entrou, sem se anunciar, em seu gabinete. Eram velhos amigos e nada havia de extraordinário no fato de o secretário-geral fazer uma visita pessoal ao chefe da Secretaria de Ciência. Karellen certamente não acharia estranho se, por acaso, ele — ou um de seus subordinados — voltasse seus instrumentos de vigilância para essa secretaria.

Durante algum tempo, os dois amigos falaram de seu respectivo trabalho e trocaram fofocas políticas. Por fim, com alguma hesitação, Stormgren foi direto ao assunto. À medida que ele falava, o velho francês endireitava-se mais e mais em sua cadeira, ao mesmo tempo que as sobrancelhas iam subindo, milímetro a milímetro, até quase se confundi- rem com a raiz dos cabelos. Uma ou duas vezes deu a impressão de que ia falar, mas acabou desistindo.

Quando Stormgren terminou, o cientista olhou, nervosamente, em volta da sala.

— Acha que ele está ouvindo? — perguntou.

— Não creio que possa. Tem o que ele chama um «rastreador» atrás de mim, pretensamente para minha proteção. Mas não funciona debaixo da terra, uma das razões por que vim até esta sua masmorra. É protegida contra todas as formas de radiação, não é mesmo? Karellen não é nenhum mágico. Sabe onde estou, mas isso é tudo.

— Espero que você não se engane. Além disso, não haverá nenhum problema quando ele descobrir o que você está querendo fazer? Porque ele vai descobrir.

— Tenho que assumir esse risco. Além do mais, nós nos entendemos bem.

O físico ficou brincando com o lápis e olhando para o espaço.

— É um belo problema. Gosto dele — disse, por fim. Abriu uma gaveta e dela retirou um enorme bloco, o maior que Stormgren já vira.

— Muito bem — disse, escrevinhando furiosamente no que parecia ser uma espécie de estenografia particular. — Quero ter a certeza de estar de posse de todos os fatos. Diga-me tudo o que você puder a respeito da sala em que vocês têm essas entrevistas. Não se esqueça de nenhum detalhe, por mais trivial que possa parecer.

— Não há muito o que descrever. É uma sala de metal, com cerca de oito metros quadrados e quatro de altura. A tela tem aproximadamente um metro de lado e há uma mesa logo abaixo dela; vou desenhar para você, acho que é mais rápido.

Stormgren fez um esboço da salinha e deu o desenho a Duval. Ao fazer isso, lembrou-se, com um arrepio, da última vez em que o fizera. Ficou pensando no que teria acontecido com o galês cego e seus camaradas e como teriam eles reagido a sua inesperada partida.

O francês estudou o desenho e franziu a testa.

— Isso é tudo o que você me pode dizer?

— É.

Duval fez uma careta.

— E a iluminação? Ou vocês ficam no escuro? E que me diz da ventilação, do sistema de aquecimento…

Stormgren sorriu, acostumado com as explosões do outro.

— O teto é inteiramente luminoso e, pelo que sei, o ar entra pelo mesmo lugar de onde vem a voz. Não sei por onde sai; talvez a corrente de ar se inverta a intervalos re-gulares, mas nunca notei isso. Não há sinais de qualquer aparelho de aquecimento, mas a sala está sempre numa temperatura normal.

— O que significa, se não me engano, que o vapor de água congelou, mas não o gás carbônico.

Stormgren fez o possível para não sorrir daquela piada mais do que velha.

— Acho que já lhe disse tudo — concluiu. — Quanto à máquina que me leva até a nave de Karellen, o compartimento em que viajo é parecido com o interior de um elevador. Se não fosse a poltrona e a mesa, podia ser um elevador.

Fez-se silêncio durante alguns minutos, enquanto o físico adornava seu bloco com meticulosos e microscópicos rabiscos. Olhando para ele, Stormgren não pôde deixar de pensar por que um homem como Duval — incomparavelmente mais brilhante, do ponto de vista intelectual, do que ele — nunca se projetara mais no mundo da ciência. Lembrou-se de um comentário venenoso e provavelmente injusto, feito por um amigo do Departamento de Estado norte-americano: «Os franceses produzem os melhores segundos lugares do mundo». Duval era o tipo de homem que exemplificava essa afirmação.

O físico balançou a cabeça, satisfeito, inclinou-se para a frente e apontou o lápis para Stormgren.

— O que o leva a pensar, Rikki — perguntou —, que a tela de visão de Karellen, como você a chama, é realmente o que parece ser?

— Sempre achei que fosse; é igualzinha a uma tela de televisor. Que mais poderia ser?

— Quando você diz que ela é igualzinha a uma tela de televisor, você sem dúvida quer dizer que é igualzinha às nossas, não?

— Claro.

— Acho isso, para começar, suspeito. Tenho a certeza de que os Senhores Supremos não usam nada tão grosseiro quanto uma tela de televisor: provavelmente, materializam as imagens diretamente no espaço. Mas por que razão Karellen se iria dar ao trabalho de utilizar um sistema de

TV? A solução mais simples é sempre a melhor. Não lhe parece mais provável que sua «tela de televisor» nada mais seja do que uma camada de vidro?

Stormgren estava tão aborrecido consigo mesmo que ficou um momento calado, relembrando o passado. Desde o início, nunca desconfiara da história de Karellen — e, contudo, agora que olhava para trás, via que o supervisor nunca lhe dissera que utilizava um sistema de TV. Ele simplesmente partira desse princípio. Tudo não passara de uma ilusão psicológica e ele fora completamente ludibriado. Supondo-se, naturalmente, que a teoria de Duval fosse correta. Mas lá estava ele, de novo, tirando conclusões apressadas: ninguém até ali conseguira provar nada.

— Se você estiver certo — disse ele —, tudo o que tenho a fazer é quebrar o vidro…

Duval suspirou.

— Esses leigos! Você acha que a tal tela é feita de um material que se possa arrebentar sem explosivos? E, mesmo que você conseguisse, acha que Karellen respira o mesmo ar que nós? Não seria ótimo, para ambos, se ele vicejasse numa atmosfera de cloro?

Stormgren sentiu-se um verdadeiro imbecil. Devia ter pensado nisso.

— Bem, que é que você sugere? — perguntou algo exasperado.

— Quero pensar bem na coisa. Em primeiro lugar, temos que saber se minha teoria é correta e, se estiver, ter idéia do material de que é feita essa tela. Vou encarregar dois de meus homens disso. A propósito, imagino que você carregue uma pasta, quando se encontra com o supervisor, não? É essa mesma que você tem aqui?

— É.

— Acho que é suficientemente grande. Não queremos chamar a atenção, substituindo-a por outra, principalmente se Karellen já se acostumou a vê-la.

— Que é que você quer que eu faça? — perguntou Stormgren. — Que carregue um aparelho de raios X escondido?

O físico riu.

— Ainda não sei, mas vamos pensar em algo. Daqui a quinze dias vou poder lhe dizer.

Deu uma risadinha.

— Sabe o que me recorda tudo isso?

— Sei — respondeu Stormgren. — Da vez em que você construiu aparelhos de rádio clandestinos, durante a ocupação alemã.

Duval ficou desapontado.

— Bem, acho que já falei nisso uma ou duas vezes. Mas há uma outra coisa…

— O que é?

— Quando o pegarem, eu não sabia o que você queria fazer com o aparelho.

— O quê? Depois de tudo o que você disse sobre a responsabilidade social dos cientistas pelas suas invenções? Realmente, Pierre, estou decepcionado com você!

Stormgren pousou a grossa pasta com um suspiro de alívio.

— Graças a Deus isso está, finalmente, resolvido! — disse ele. — É estranho pensar que essas centenas de páginas vão determinar o futuro da humanidade. O Estado Mundial! Nunca pensei que pudesse vê-lo, em toda a minha vida!

Enfiou a pasta dentro de sua maleta de executivo, cujo fundo estava a menos de dez centímetros do retângulo escuro da tela. De vez em quando, seus dedos mexiam nos fechos, numa semiconsciente reação nervosa, mas não tencionava apertar o interruptor oculto enquanto o encontro não tivesse terminado. Havia a chance de que algo pudesse sair errado: embora Duval tivesse jurado que Karellen não detectaria nada, nunca se podia ter certeza.

— Você disse que tinha novidades para mim — continuou Stormgren, com maldisfarçada ansiedade. — É sobre..

— É — atalhou Karellen. — Recebi uma decisão algumas horas atrás.

Que quereria ele dizer com aquilo? pensou Stormgren. Era sem dúvida impossível que o supervisor se tivesse comunicado com sua terra distante, através dos incontáveis números de anos-luz que o separavam de sua base. Ou talvez — segundo a teoria de Van Ryberg — ele tivesse apenas consultado algum vasto computador, capaz de predizer o resultado de uma ação política.

— Não acho — continuou Karellen — que a Liga da Liberdade e seus partidários vão ficar muito satisfeitos, mas deverá ajudar a reduzir a tensão. Não vamos gravar isso, por falar no assunto.

«Diversas vezes você me disse, Rikki, que, por mais diferentes que fôssemos fisicamente, a raça humana logo se acostumaria conosco. Isso mostra falta de imaginação de sua parte. Talvez fosse verdade no seu caso, mas não deve esquecer que a maior parte do mundo está ainda muito longe de ser educada e é cheia de preconceitos e superstições que podem levar décadas para ser erradicados.

«Concordará em que conhecemos algo da psicologia humana. Sabemos, com bastante certeza, o que aconteceria se nos mostrássemos ao mundo em seu atual estágio de desenvolvimento. Não posso entrar em detalhes, mesmo com você, de modo que você precisa aceitar minha análise em confiança. Podemos, contudo, fazer uma promessa definitiva que deverá lhe dar alguma satisfação. Daqui a cinqüenta anos — ou seja, dentro de duas gerações — desceremos de nossas naves e a humanidade poderá finalmente ver como somos.»

Stormgren ficou calado, meditando nas palavras do supervisor. A declaração de Karellen não lhe deu a satisfação que antes lhe teria proporcionado. Sentia-se algo confuso pelo seu sucesso parcial e, por um momento, sua resolução fraquejou. A verdade viria com o passar do tempo: seu plano era desnecessário e, talvez, imprudente. Se fosse avante com ele, seria apenas pela razão egoísta de que já não estaria vivo dali a cinqüenta anos.

Karellen devia ter percebido sua indecisão, pois prosseguiu:

— Sinto muito se isso o desaponta, mas pelo menos os problemas políticos do futuro próximo não serão de sua responsabilidade. Talvez você continue achando que nossos temores são infundados, mas, creia-me, temos tido provas convincentes do perigo de agirmos de outra maneira.

Stormgren inclinou-se para a frente, tomado pela emoção.

— Quer dizer que vocês já foram vistos pelo homem!

— Eu não disse isso — retrucou prontamente Karellen. — Seu mundo é o único planeta que nós supervisionamos.

Stormgren não estava disposto a se deixar levar tão facilmente.

— Tem havido muitas lendas, sugerindo que a Terra foi visitada no passado por outras raças.

— Eu sei. Li o relatório do Departamento de Pesquisas Históricas. Faz a Terra parecer a encruzilhada do universo.

— Pode ter havido visitas sobre as quais vocês nada sabem — disse Stormgren, ainda querendo jogar verde para colher maduro. — Embora isso não seja muito provável, pois vocês devem estar nos observando há milhares de anos.

— É, acho que não — replicou Karellen, fazendo o possível para não ajudar. Foi então que Stormgren tomou uma decisão.

— Karellen — disse ele, abruptamente —, vou redigir a declaração e enviá-la para que você a aprove. Mas reservo-me o direito de continuar a aborrecê-lo e, se vir uma oportunidade, farei o possível por descobrir seu segredo.

— Sei muito bem disso — retrucou o supervisor, com uma risada.

— E não se incomoda?

— Em absoluto, embora não tolere armas nucleares, gás venenoso ou qualquer outra coisa que possa pôr em risco nossa amizade.

Stormgren ficou pensando se Karellen teria desconfiado de algo. Por trás dos gracejos do supervisor, reconhecera uma nota de compreensão, ou mesmo — quem poderia dizer? — de encorajamento.

— Fico satisfeito de saber — replicou Stormgren, no tom de voz mais indiferente que conseguiu arrumar. Levantou-se, pondo ao mesmo tempo para baixo a tampa da maleta e fazendo o polegar deslizar pelo fecho.

— Vou fazer logo a minuta da declaração — repetiu — e mandá-la mais tarde, ainda hoje, pelo teletipo.

Enquanto falava, apertou o botão — e viu que todos os seus temores tinham sido infundados. Os sentidos de Karellen não eram mais sutis que os do homem. O supervisor não podia ter detectado nada, pois não houve mudança alguma em sua voz, ao se despedir e dizer as palavras em código que abriam a porta da câmara.

Mesmo assim, Stormgren sentia-se como um cleptomaníaco, saindo de uma loja de departamentos sob o olhar do detetive, e deu um grande suspiro de alívio quando a porta se selou atrás dele.

— Admito — disse Van Ryberg — que algumas de minhas teorias não tenham resultado muito corretas. Mas diga-me o que você pensa desta.

— Preciso dizer? — suspirou Stormgren. Pieter pareceu não ter ligado.

— Na verdade, a idéia não é minha — disse ele, mo- desto. — Tirei-a de uma história de Chesterton. Suponha que os Senhores Supremos estejam escondendo o fato de não terem nada a esconder?

— Isso me parece um pouco complicado — disse Stormgren, começando a interessar-se.

— O que eu quero dizer é o seguinte — continuou Van Ryberg, ansiosamente. — Eu acho que, fisicamente, eles são seres humanos como nós. Compreendem que nós toleramos ser governados por criaturas que imaginamos serem estranhas e superinteligentes. Mas, sendo a raça humana o que é, não toleraria ser mandada por criaturas da mesma espécie.

— Muito engenhoso, como todas as suas teorias — disse Stormgren. — Você deveria pôr-lhes números, para que eu pudesse identificá-las. As objeções que tenho a fazer a essa… — nesse momento, Alexander Wainwright entrou na sala.

Stormgren perguntou a si mesmo o que ele estaria pensando. Perguntou-se também se Wainwright teria estabelecido algum contato com os homens que o haviam seqüestrado. Duvidava disso, pois acreditava que Wainwright era sincero quando se manifestava contra a violência. Os extremistas de seu movimento tinham ficado completamente desacreditados e muito tempo se passaria antes que se ouvisse falar neles.

O líder da Liga da Liberdade ouviu com atenção, enquanto lhe liam a minuta. Stormgren esperava que ele apreciasse esse gesto, que tinha sido idéia de Karellen. Só dali a doze horas o resto do mundo saberia da promessa que fora feita a seus netos.

— Cinqüenta anos — disse Wainwright, pensativo. — É uma espera muito longa.

— Para a humanidade, talvez, mas não para Karellen

— replicou Stormgren. Só agora começava a se dar conta da inteligência da solução dos Senhores Supremos. Tinham-lhes dado a esperança de que eles precisavam e, ao mesmo tempo, desarmado a Liga da Liberdade. Stormgren não imaginava que a liga capitulasse, mas sua posição ficaria seriamente enfraquecida. Sem dúvida Wainwright também compreendia isso.

— Daqui a cinqüenta anos — disse ele amargamente — o mal já estará feito. Os que poderiam lembrar-se de nossa independência estarão mortos: a humanidade terá esquecido sua herança.

Palavras… palavras vazias, pensou Stormgren. As palavras pelas quais os homens tinham outrora lutado e morrido e pelas quais nunca mais morreriam ou lutariam. E o mundo lucraria com isso.

Vendo Wainwright partir, Stormgren ficou pensando quantos problemas mais a Liga da Liberdade ainda causaria nos anos vindouros. Mas isso, pensou, aliviado, cairia sobre os ombros de seu sucessor.

Havia outras coisas mais que só o tempo curaria. Homens perversos podiam ser destruídos, mas nada podia ser feito com homens bons, que estivessem desiludidos.

— Aqui está sua pasta — disse Duval. — Como nova.

— Obrigado — retrucou Stormgren, inspecionando-a, não obstante, cuidadosamente. — Agora, que tal você me dizer do que se trata e o que vamos fazer a seguir?

O físico parecia mais interessado em seus próprios pensamentos.

— O que não posso entender — disse ele — é a facilidade com que nos saímos. Se eu fosse Kar…

— Mas você não é. Vamos ao que interessa, homem. Que foi que descobrimos?

— Ah, meu Deus, essas raças nórdicas, sempre tensas e excitáveis! — suspirou Duval. — Conseguimos bolar um tipo de radar de baixa potência. Além de ondas de rádio de freqüência muito alta, utiliza ondas infravermelhas, todas elas ondas que temos certeza de que nenhuma criatura poderia ver, por mais fantástica que fosse sua visão.

— Como é que vocês podem ter certeza disso? — perguntou Stormgren, intrigado, embora a contragosto, pelo problema técnico.

— Bem, não podemos ter certeza absoluta — admitiu Duval, relutantemente. — Mas Karellen pode vê-lo à luz normal, não é mesmo? De modo que os olhos dele devem ser semelhantes aos nossos, no que diz respeito ao alcance espectral. Seja como for, deu resultado. Conseguimos provar que hâ uma grande sala por trás daquela tela. A tela tem cerca de três centímetros de espessura e o espaço atrás dela mede pelo menos dez metros de largura. Não pudemos detectar qualquer eco da parede oposta, mas nem esperávamos isso, com a baixa potência que ousamos utilizar. Contudo, conseguimos isto.

Mostrou um pedaço de papel fotográfico, no qual havia uma única linha sinuosa. A certa altura, via-se como que o sinal de um pequeno terremoto.

— Está vendo isto? — Estou. O que é?

— Apenas Karellen.

— Meu Deus! Tem certeza?

— Quase absoluta. Está sentado, de pé, ou seja lá o que for, a cerca de dois metros, do outro lado da tela. Se a decomposição tivesse sido mais bem feita, poderíamos inclusive ter calculado seu tamanho.

Stormgren sentiu-se muito confuso, ao olhar para aquela inflexão escassamente visível. Até então, nunca houvera prova de que Karellen tivesse um corpo material. A prova continuava sendo indireta, mas ele aceitava sem questionar.

— A outra coisa que tivemos que fazer — disse Duval — foi calcular a transmissão da tela para luz comum. Julgamos ter uma idéia bastante razoável a respeito; de qualquer maneira, não interessa se ela não for cem por cento correta. Naturalmente, você sabe que não existe um vidro que só permita ver de um lado. Trata-se apenas de arrumar as luzes. Karellen senta-se numa sala às escuras: você é iluminado, mais nada. — Duval riu. — Bem, vamos alterar tudo isso!

Com o ar de um mágico tirando da cartola toda uma ninhada de coelhinhos brancos, abriu uma gaveta de sua mesa e tirou para fora uma lanterna enorme. A ponta se abria como um bocal bem largo, de modo que todo o aparelho lembrava um antigo bacamarte.

Duval riu.

— Não é tão perigoso quanto parece. Tudo o que é preciso fazer é encostar o bocal na tela e apertar o gatilho. Produz um raio muito poderoso, que dura dez segundos, tempo de sobra para fazê-lo girar em volta da sala e obter uma boa vista. A luz atravessará a tela, iluminando seu amigo.

— Não vai machucar Karellen?

— Não, se você apontar para baixo e só depois dirigir o bocal para cima. Isso dará tempo de ele adaptar os olhos, imagino que tenha reflexos como os nossos e não vamos querer cegá-lo.

Stormgren olhou para a arma com ar de dúvida e sopesou-a na mão. Nas últimas semanas, a consciência vinha-lhe pesando. Karellen sempre o tratara com inconfundível afeto, apesar de sua ocasional franqueza e, agora que a colaboração entre ambos estava chegando ao fim, ele não queria que nada viesse estragar esse relacionamento. Mas o supervisor fora devidamente avisado e Stormgren estava convencido de que, se pudesse escolher, Karellen havia muito se teria mostrado. Agora, a decisão caberia a ele: quando o derradeiro encontro dos dois terminasse, Stormgren olharia para o rosto de Karellen.

Isto é, se Karellen tivesse mesmo um rosto.

O nervosismo que Stormgren a princípio sentira há muito havia passado. Karellen estava praticamente falando sozinho, expressando-se por meio de sentenças complicadas, o que de vez em quando costumava fazer. Outrora, Stormgren tinha achado aquilo o mais maravilhoso e surpreendente dom de Karellen. Agora, já não lhe parecia assim tão maravilhoso, pois sabia que, como acontecia com a maior parte dos dotes mentais do supervisor, era o resultado do seu poder intelectual, e não de qualquer talento especial.

Karellen tinha tempo para se expressar de forma literária, quando diminuía o ritmo de seus pensamentos, de modo a poder acompanhar a cadência da fala humana.

— Você ou seu sucessor não precisam preocupar-se demasiado com a Liga da Liberdade, mesmo que ela venha a se recuperar de sua atual apatia. Esteve muito parada durante todo o mês passado e, embora venha a reviver, nos próximos anos não representará um perigo. Na verdade, como é sempre valioso saber o que seus opositores estão fazendo, a liga é uma instituição muito útil. Se alguma vez passar por dificuldades financeiras, talvez eu venha mesmo a subsidiá-la.

Stormgren estava habituado a nunca ter a certeza de que Karellen estivesse ou não brincando. Manteve a expressão impassível e continuou a ouvir.

— Em breve a liga verá cair por terra outro de seus argumentos. Tem havido muitas críticas, todas bastante infantis, à posição especial que você tem ocupado nestes últimos anos. Foi uma grande ajuda para mim, nos primeiros tempos de minha administração, mas agora que o mundo está marchando conforme planejei, acho que está na hora de mudar. No futuro, todos os meus contatos com a Terra serão indiretos e o cargo de secretário-geral voltará ao que era inicialmente. Durante os próximos cinqüenta anos, haverá muitas crises, mas todas passarão. O traçado do futuro está muito claro e um dia todas essas dificuldades serão esquecidas, mesmo por uma raça com uma memória tão boa como a sua.

As últimas palavras foram ditas com uma ênfase tão especial, que Stormgren ficou como que paralisado. Tinha a certeza de que Karellen nunca cometia gafes acidentais: até mesmo suas aparentes indiscrições eram calculadas. Mas não teve tempo de fazer nenhuma pergunta — que certamente não obteria resposta —, pois o supervisor logo mudou de assunto.

— Você muitas vezes me perguntou quais os nossos planos a longo prazo — prosseguiu ele. — A criação do Estado Mundial é, naturalmente, apenas o primeiro passo. Você viverá para assistir a ela, mas a mudança será tão imperceptível, que poucos se darão conta quando ela se operar. Depois disso, haverá um período de lenta consolidação, enquanto sua raça se prepara para nos conhecer. E então chegará o dia que lhes prometemos. Lamento que você já não esteja no mundo.

Stormgren tinha os olhos abertos, mas seu olhar estava fixo para além da escura barreira da tela. Olhava para o futuro, imaginando o dia que não chegaria a ver, quando as grandes naves dos Senhores Supremos descessem, finalmente, à Terra e se abrissem para o mundo.

— Nesse dia — continuou Karellen — a raça humana experimentará o que podemos chamar de descontinuidade psicológica. Mas não se fará sentir nenhum dano permanente: os homens dessa era serão mais estáveis do que os seus avós. Teremos sempre feito parte de suas vidas e, quando eles nos conhecerem, não lhes pareceremos tão estranhos quanto pareceríamos a vocês.

Stormgren nunca ouvira Karellen falar de maneira tão contemplativa, mas isso não constituiu surpresa para ele. Sabia que nunca «vira» mais do que algumas facetas da personalidade do supervisor: o verdadeiro Karellen era desconhecido e talvez nunca pudesse ser conhecido dos seres humanos. Uma vez mais, Stormgren teve a sensação de que os verdadeiros interesses do supervisor estavam muito longe e de que ele governava a Terra com uma fração apenas de sua mente, tão facilmente quanto um grande mestre de xadrez jogaria uma partida de damas.

— E depois disso? — perguntou Stormgren suavemente.

— Depois poderemos dar início à nossa verdadeira tarefa.

— Muitas vezes me perguntei qual seria ela. Organizar nosso mundo e civilizar a raça humana é apenas um meio, vocês devem ter também um objetivo. Será que alguma vez poderemos subir ao espaço, ver seu universo, e talvez ajudá-los em suas tarefas?

— Acho que pode dizer isso — falou Karellen, e sua voz mostrou uma tristeza tão inexplicável, que Stormgren ficou estranhamente perturbado.

— Mas e se, depois de tudo, sua experiência com o homem falhar? Tivemos casos assim, em nossos contatos com raças humanas primitivas. Sem dúvida vocês também conheceram fracassos…

— Sim — disse Karellen, tão baixo, que Stormgren mal pôde ouvi-lo. — Temos tido nossos fracassos.

— E o que fazem, quando isso acontece?

— Esperamos, e tentamos de novo.

Fez-se uma pausa de uns cinco segundos. Quando Karellen voltou a falar, suas palavras foram tão inesperadas que, por um momento, Stormgren não reagiu.

— Adeus, Rikki!

Karellen tinha-o ludibriado — provavelmente, já era demasiado tarde. A paralisia de Stormgren durou apenas um momento. Logo depois, com um movimento rápido e bem ensaiado, puxou para fora o flash-arma e disparou-o contra o vidro.

Os pinheiros desciam até quase a beira do lago, deixando apenas, na borda, uma estreita faixa de grama, de alguns metros de largura. Todas as tardes, quando não estava muito frio, Stormgren, apesar dos seus noventa anos, caminhava por essa tira até o ancoradouro, via o sol mergulhar na água e voltava para casa, antes que o vento frio da noite subisse da floresta. Aquele simples ritual dava-lhe muita satisfação e tencionava continuar a cumpri-lo enquanto tivesse forças.

Ao longe, por sobre o lago, algo se aproximava, voando baixo e rápido, vindo do oeste. Não era comum ver aviões por aqueles lados, a não ser os grandes aparelhos transpo-lares, que passavam muito alto, de hora em hora, dia e noite. Mas nunca havia sinais de sua passagem, exceto um ocasional rastro de condensação, contra o azul da estratosfera. O que agora vinha vindo era um pequeno helicóptero e não havia mais dúvida de que avançava na direção de Stormgren.

O ex-secretário-geral olhou para a praia e viu que não havia maneira de escapar. Deu de ombros e sentou-se no banco de madeira que havia à cabeceira do ancoradouro.

O repórter mostrou-se tão atencioso, que Stormgren ficou surpreso. Quase havia esquecido que não era apenas um velho estadista mas, mesmo fora de seu país, uma figura quase mítica.

— Sr. Stormgren — disse o intruso —, sinto muito vir incomodá-lo, mas gostaria de saber se o senhor teria algo a comentar sobre o que acabamos de ouvir a respeito dos Senhores Supremos.

Stormgren franziu ligeiramente a testa. Após todos aqueles anos, continuava, como Karellen, a não gostar daquele termo.

— Não acho — respondeu — que possa acrescentar muita coisa ao que já foi escrito.

O repórter olhava para ele com curiosa intensidade.

— Pois eu acho que sim. Acabamos de ter notícia de uma história muito estranha. Parece que há cerca de trinta anos um dos técnicos do Departamento de Ciências fabricou um notável aparelho para o senhor. Gostaríamos de saber se o senhor está disposto a nos contar algo a respeito.

Por um momento, Stormgren ficou calado, remoendo o passado. Não se espantava de que o segredo tivesse sido descoberto. Ao contrário, era de admirar que se tivesse mantido por tanto tempo.

Levantou-se e começou a andar ao longo do píer, com o repórter atrás dele.

— A história — disse — tem uma certa dose de verdade. Na minha última ida à nave de Karellen, levei comigo um aparelho, na esperança de poder ver o supervisor. Foi uma bobagem de minha parte, mas também eu tinha apenas sessenta anos!

Riu consigo mesmo e continuou:

— Não valia a pena você ter feito uma viagem tão longa por causa dessa história. Afinal, não resultou em nada.

— Quer dizer que o senhor não viu nada?

— Absolutamente nada. Receio que vocês tenham que esperar, mas, afinal de contas, faltam apenas vinte anos!

Apenas vinte anos. Sim, Karellen tivera razão. A essa altura, o mundo já estaria pronto, coisa que não acontecera quando ele contara a mesma mentira a Duval, havia trinta anos.

Karellen confiara nele e Stormgren não o traíra. Tinha

quase a certeza de que o supervisor desde o início soubera de seu plano e previra todos os momentos do ato final.

Por que outro motivo a enorme cadeira já estava vazia, quando o círculo de luz a iluminara? Nesse mesmo momento, ele começara a girar a lanterna, temendo ser demasiado tarde. A porta de metal, com o dobro da altura de um homem, estava se fechando rapidamente, quando ele pela primeira vez a vira… fechando-se rapidamente, mas não suficientemente rápido.

Sim, Karellen confiara nele, não desejara que ele passasse o longo crepúsculo de sua vida atormentado por um mistério que jamais conseguiria desvendar. Karellen não ousara desafiar os poderes desconhecidos acima dele (seriam eles da mesma raça?), mas fizera tudo o que pudera. Se lhes havia desobedecido, eles nunca poderiam provar. Stormgren compreendera que essa fora a derradeira prova do afeto que Karellen lhe votava. Embora pudesse ser como o afeto de um homem por um cão dedicado e inteligente, nem por isso era menos sincero, e a vida dera a Stormgren poucas satisfações maiores do que essa.

«Tivemos os nossos fracassos.»

Sim, Karellen, era verdade: e não teria sido você quem fracassara, antes do alvorecer da história do homem? Devia ter sido um fracasso e tanto, pensou Stormgren, para que os seus ecos atravessassem as eras, assombrando a infância de todas as raças humanas. Mesmo no espaço de cinqüenta anos, ser-lhe-ia possível vencer o poder de todos os mitos e lendas existentes no mundo?

Contudo, Stormgren sabia que não haveria um segundo fracasso. Quando as duas raças voltassem a se encontrar, os Senhores Supremos teriam conquistado a confiança e a amizade da humanidade e nem o choque do primeiro encontro poderia abalar esse trabalho. Marchariam juntas em direção ao futuro, e a tragédia desconhecida, que devia ter escurecido o passado, se perderia, para sempre, nos penumbrosos corredores da pré-história.

Stormgren esperava que, quando Karellen tivesse liberdade de voltar de novo à Terra, fosse um dia àquelas florestas setentrionais e se detivesse um pouco junto à sepultura do primeiro homem que fora seu amigo.