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À hora a que aconteceu aquela infelicidade a Nikanor Ivanovitch, não muito longe do número 302 B, naquela mesma Rua Sadovaia, no gabinete do director financeiro do Variedades, Rimski, encontravam-se dois homens: o próprio Rimski e o administrador do Variedades, Varenukha.
O vasto gabinete no primeiro andar do teatro tinha duas janelas para a Sadovaia, e uma, precisamente atrás do director financeiro, que estava sentado à secretária, para o jardim de Verão do Variedades, onde se situavam os bufetes, o pavilhão de tiro e o palco ao ar livre. O mobiliário do gabinete, além da secretária, era constituído por um maço de cartazes velhos pendurados na parede, uma mesinha com uma garrafa de água, quatro cadeirões e um suporte a um canto, sobre o qual se erguia uma velha maqueta poeirenta de um qualquer cenário. E, claro, havia, além disso, no gabinete um pequeno cofre velho e esfolado, à prova de fogo, à esquerda de Rimski e junto à secretária.
Rimski, sentado à secretária, estava desde manhã de muito mau humor. Varenukha, pelo contrário, estava bem animado e transbordante de uma actividade um tanto irrequieta. No então, não encontrava escape para a sua energia.
Varenulcha estava agora escondido no gabinete do director financeiro para escapar aos caçadores de bilhetes grátis, que lhe envenenavam a vida, especialmente nos dias de mudança de programa. E aquele era um desses dias.
Mal o telefone começava a tocar, Varenulcha levantava o auscultador e mentia:
— Quem? Varenukha? Não está. Saiu.
— Telefona outra vez para Likhodeev, se fazes favor — disse Rimski, exasperado.
— Ele não está em casa. já lá mandei o Karpov. Não há ninguém no apartamento.
— Que diabo se passará — sibilou Rimski, dedilhando a máquina de somar.
A porta abriu-se e um funcionário arrastou um grosso pacote de cartazes acabados de imprimir. Nas folhas verdes estava impresso em grandes letras vermelhas:
HOJE E NOS PRÓXIMOS DIAS NO TEATRO VARIEDADES EXTRA PROGRAMA — PROFESSOR WOLAND SESSÕES DE MAGIA NEGRA COM A SUA COMPLETA REVELAÇÃO
Varenukha, afastando-se do cartaz que apoiara contra a maqueta, admirou-o e ordenou ao funcionário que procedesse imediatamente à afixação de todos os exemplares.
— Está bom, vistoso — observou Varenukha quando o funcionário saiu.
— A mim não me agrada mesmo nada essa fantasia — resmungou Rimski, irado, olhando o cartaz através dos óculos de aros de tartaruga. — E admiro-me mesmo como é que o deixaram montar uma coisa dessas!
— Não, Grigori Danilovitch, não digas isso. Esta é uma iniciativa muito subtil. Todo o sal está na revelação.
— Não sei, não sei. Não há aqui sal nenhum. E ele anda sempre a Inventar coisas deste género! Se ao menos tivesse mostrado esse mágico. Tu viste-o? Só o Diabo sabe onde foi ele desencantá-lo!
Constatou-se que, tal como Rimski, Varenukha também não vira o mágico. No dia anterior, Stiopa (“COMO UM DOIDO”, segundo a expressão de Rimski) chegou a correr ao gabinete do director financeiro já com o rascunho de um contrato, mandou passá-lo à máquina e entregar o dinheiro. E esse tal mágico sumiu-se, e ninguém o viu além do próprio Stiopa.
Runski puxou o relógio, viu que marcava duas horas e cinco minutos, e ficou fora de si. Francamente! Llkhodeev telefonou por volta das onze horas, disse que estaria lá daí a meia hora, e não só não viera, como desaparecera do apartamento!
— E eu tenho mais que fazer! — rugia Rjmski, espetando um dedo num monte de papéis por assinar.
— Não terá ele ficado debaixo de um eléctrico, como Berlioz?
— disse Varenukha, segurando o auscultador e ouvindo os sinais densos, prolongados e absolutamente desesperantes.
— Isso seria bom… — resmungou Rimski por entre dentes, de modo quase inaudível.
Nesse mesmo instante entrou no gabinete uma mulher de blusão de uniforme, boné, saia preta e sapatilhas. De uma bolsa que trazia à cintura retirou um quadrado de papel branco e um caderno, e perguntou:
— E aqui o Variedades? Telegrama expresso. Assine aqui. Varenukha traçou um rabisco no caderno da mulher, e assim que a porta se fechou atrás dela, abriu o telegrama. Leu-o, pestanejou e passou-o a Rimski.
O telegrama dizia o seguinte: “Ialta. Moscovo. Variedades. Hoje onze e trinta perturbado mental cabelo castanho apareceu secção judiciária dizendo-se Likhodeev director Variedades. Telegrafe judiciária Ialta onde está director Likhodeev”.
— Olha que uma destas! — exclamou RÁmski, e acrescentou:
— Mais uma surpresa!
— Um falso Demétrio — disse Varenukha. E para o telefone:
— Telégrafo? Para a conta do Variedades. Tome nota de um telegrama expresso… Está a ouvir?… “Ialta, secção judiciária… Director Likhodeev em Moscovo. Director financeiro Rimski…”
Apesar da informação do impostor de Ialta, Varenukha pôs-se de novo a procurar Stiopa pelo telefone e, como é natural, não o encontrou em parte nenhuma. Precisamente no momento em que Varenukha, segurando no auscultador, pensava para onde mais poderia telefonar, entrou a mesma mulher que trouxera o primeiro telegrama, e entregou-lhe um novo sobrescrito. Abrindo-o apressadamente, Varenulcha leu o conteúdo e assobiou.
— Que mais temos? — perguntou Rimski, com um esgar nervoso.
Varenukha entregou-lhe o telegrama, em silêncio, e o director financeiro leu estas palavras: “Rogo acreditem atirado para Ialta hipnose Woland telegrafem judiciária confirmação identidade Likhodeev”.
Rimski e Varenukha, de cabeças encostadas, releram o telegrama, e depois de o relerem ficaram a fitar-se um ao outro em silêncio.
— Cidadãos! — disse a mulher, subitamente zangada. — Assinem, e depois podem ficar para aí calados o tempo que quiserem! Eu tenho telegramas para entregar.
Varenukha, sem desviar os olhos do telegrama, garatujou de esguelha no caderno, e a mulher saiu.
— Mas tu falaste com ele pelo telefone pouco depois das onze? — disse o administrador, perplexo.
— Mas isto é ridículo! — gritou estridentemente Rimski. Que falasse ou não falasse, ele não pode estar agora em Ialta! Isto é ridículo!
— Está bêbado… — disse Varenukha.
— Quem está bêbado? — perguntou Rimski, e de novo se fitaram um ao outro.
Que de Ialta telegrafara um impostor ou um louco, isso não havia dúvida, mas uma coisa era estranha: como é que o mistifica— dor de Ialta conhecia Woland, que só chegara a Moscovo no dia anterior? Como sabia ele da ligação entre Likhodeev e Woland?
— “Hipnose… “ — repetia Varemikha a palavra do telegrama. Como soube ele da existência de Woland? — Pestanejou e, de súbito, gritou resolutamente: — Não, isto é absurdo, absurdo, absurdo!
— Onde é que ele pára, esse tal Woland, que o Diabo o carregue? — perguntou Rimski.
Varenulcha ligou imediatamente para o Turismo e, para grande surpresa de Rlinski, informaram que Woland se instalara no apartamento de Likhodeev. Marcando em seguida o número do apartamento de Likhodeev, Varenukha escutou longamente o intenso zumbido do telefone. Entre esse zumbido ouvia-se, muito longe, uma voz grave e melancólica cantando: “… Rochedos, meu refúgio… “ e Varenukha concluiu que uma voz de um qualquer teatro radiofónico interferira na rede telefónica.
— Do apartamento não respondem — disse Varenukha, pousando o auscultador. — Talvez devesse tentar de novo…
Não concluiu a frase. À porta surgiu a mesma mulher e os dois, Rimski e Varenukha, levantaram-se e foram ao seu encontro, enquanto ela tirava da bolsa uma folha já não branca, mas escura.
— Isto começa a tornar-se interessante — disse Varenukha entre dentes, seguindo com o olhar a mulher que saía apressada. Rimski foi o primeiro a apoderar-se da folha de papel.
Sobre o fundo escuro do papel de fotocópia destacavam-se claramente as linhas escritas a negro:
“Provem minha caligrafia minha assinatura. Telegrafem confirmação. Vigiem secretamente Woland. Llkhodeev.”
Nos seus vinte anos de teatro Varenulcha vira toda a espécie de coisas. Mas agora sentia-se como se uma cortina de fumo lhe toldasse o cérebro e não conseguiu dizer nada além de uma frase banal e completamente absurda:
— Isto não é possível! Rimski procedeu de modo diferente. Levantou-se, abriu a porta, e gritou para a contínua, sentada num banco:
— Não deixe entrar ninguém além dos carteiros! — E fechou o gabinete à chave.
Depois tomou uma pilha de papéis da secretária e começou a comparar cuidadosamente a letra grossa, inclinada para a esquerda, da fotocópia com a letra das resoluções e das assinaturas de Stiopa, que terminavam com um floreado em espiral. Varenukha, debruçado sobre a secretária, lançava ao rosto de Rimski o seu bafo quente.
— É a letra dele — disse por fim o director financeiro com firmeza, e Varenukha respondeu, como um eco:
— É dele. Fixando atentamente o rosto de Rimski, o administrador surpreendeu-se com a mudança nele operada. O já de si magro director financeiro parecia ter emagrecido ainda mais e mesmo envelhecido, e os seus olhos, atrás dos óculos de aros de tartaruga, tinham perdido o brilho mordaz habitual, e exprimiam não, apenas ansiedade, mas também consternação.
Varenulcha fez tudo o que é de esperar que um homem faça em momentos de grande assombro. Andou para cá e para lá no gabinete, abriu por duas vezes os braços como um crucificado, bebeu um copo cheio de água amarelada da garrafa e exclamou:
— Não percebo! Não percebo! Quanto a Rimski, olhava pela janela e pensava intensamente em qualquer coisa. A posição do director financeiro era muito difícil. Era preciso inventar ali mesmo, imediatamente, explicações vulgares para fenómenos extraordinários.
Semicerrando os olhos, o director financeiro imaginou Stiopa em camisa de noite e sem botas, subindo nessa manhã, por volta das onze e meia, para um qualquer misterioso avião superveloz e depois o mesmo Stiopa, e também às onze e meia, em palmilhas no aeroporto de Ialta… Sabe o Diabo o que era aquilo!
Talvez não fosse Stiopa que falara com ele pelo telefone nesse dia? Não, era Stiopa que falava! Não conhecia ele a voz de Stiopa! Mas mesmo que não fosse Stiopa quem falara nessa manhã, ainda na noite anterior ele viera do seu gabinete e entrara ali, naquele mesmo gabinete, com aquele contrato idiota e exasperara o director financeiro com a sua frivolidade. Como podia ele ter partido sem dizer nada no teatro? Mas mesmo que tivesse tomado o avião na noite anterior, não chegaria lá antes do meio-dia. Ou chegaria?
— Quantos quilómetros são daqui a Ialta? — perguntou Rimski.
Varenukha interrompeu a sua correria e berrou: — Já pensei! Já pensei nisso! Até Sebastópolis são cerca de mil e quinhentos quilómetros de comboio. Junta-lhe mais oitenta quilómetros até Ialta. Mas, claro, de avião é menos.
Hum… Sim… O comboio está fora de questão. Mas o quê, então? Um avião de caça? Quem é que admitiria Stiopa descalço num avião de caça? Para quê? Talvez ele tenha descalçado as botas depois de chegar a Ialta? Mas põe-se a mesma questão: para quê? E mesmo de botas não o admitiam num avião de caça! Mas também o caça estava fora de questão. Pois no telegrama dizia que ele aparecera na secção judiciária às onze e meia da manhã, e em Moscovo falara pelo telefone… deixa ver… e aqui diante dos olhos de Rimski surgiu o mostrador do seu relógio… Lembrou-se da posição dos ponteiros. Que horror! Eram onze e vinte. Que significava então aquilo? Supondo que depois da conversa pelo telefone Stiopa tivesse seguido logo para o aeroporto e lá tivesse chegado, digamos, em cinco minutos, o que de resto era também impensável, significava que o avião, levantando imediatamente, cobrira mais de mil quilómetros em cinco minutos Por conseguinte, numa hora ele faria mais de doze mil quilómetros!!! Isso era impossível e, portanto, Stiopa não estava em Ialta.
Que é que restava? A hipnose? Não há no mundo hipnose capaz de arremessar um homem a mil quilómetros de distância! Portanto, parecia-lhe que estava em Ialta! A ele podia parecer-lhe, mas à judiciária de Ialta, também lhe parecia?! Bah, não, desculpem-me, essas coisas não acontecem!… Mas se telegrafaram de Ialta?!
O rosto do director financeiro estava horrível. Entretanto, do lado de fora, alguém rodava e puxava o manípulo da porta, e ouvia-se a voz da contínua gritar desesperadamente.
— Não pode! Não permito! Nem que me mate! Estão em reunião!
Rimski dominou-se como pôde, pegou no telefone e disse:
— Ligue-me urgentemente para Ialta. “Bem pensado!”, exclamou mentalmente Varenukha. Mas não houve conversação com Ialta. Rimski pousou o auscultador e disse:
— Parece de propósito, a linha está avariada. Era evidente que a avaria da linha o afligia particularmente e até o fazia meditar. Depois de ter meditado um pouco, de novo pegou no auscultador com uma das mãos e com a outra pôs-se a escrever aquilo que ia dizendo para o telefone:
— Tome nota de um telegrama urgente. Variedades. Sim. Ialta. Judiciária. Sim. “Hoje cerca onze trinta Likhodeev telefonou-me Moscovo, ponto. Depois disso não compareceu no serviço e não conseguimos encontrá-lo pelo telefone, ponto. Confirmo a caligrafia, ponto. Tomo medidas vigilância artista referido. Director financeiro Rimski.”
“Muito inteligente!”, pensou Varenukha, mas não concluíra ainda o pensamento, quando lhe passou pela cabeça uma outra ideia: “Estupidez! Ele não pode estar em Ialta!”.
Entretanto, Rimski fez o seguinte: juntou cuidadosamente num maço todos os telegramas recebidos e uma cópia do que expedira, meteu-os num sobrescrito, colou-o, escreveu nele algumas palavras e entregou-o a Varenukha, dizendo:
— Ivan Savelievitch, leva isto já, pessoalmente. Eles que os examinem.
“É realmente muito inteligente!”, pensou Varenukha e meteu o sobrescrito na sua pasta. Depois, só por causa das dúvidas, marcou uma vez mais o número do apartamento de Stiopa, escutou e começou a piscar o olho misteriosamente e a fazer caretas. Rimski esticou o pescoço.
— Posso falar com o artista Woland? — perguntou Varenulcha docemente.
— Estão ocupados — respondeu uma voz trémula. — Quem deseja falar com ele?
— Varenukha, administrador do Variedades.
— Ivan Savelievitch? — gritou o telefone alegremente. Enorme prazer em ouvir a sua voz! Como vai essa saúde?
— Merci — respondeu Varenulcha pasmado. — Com quem estou a falar?
— Koroviev, o assistente, assistente e intérprete — crepitou o auscultador. — Inteiramente ao seu dispor, amável Ivan Savelievitch! Disponha de mim como desejar. Faça favor?
— Desculpe, Stepan Bogdanovitch Likhodeev não está em casa?
— Não, infelizmente não está! — gritou o auscultador. Partiu.
— E para onde?
— Para fora da cidade, foi passear de automóvel.
— C… como? Pa… passear?… E quando regressa?
— Ele disse que ia apanhar um pouco de ar fresco e que depois voltava!
Pois… — disse Varenukha, confuso. — Merci. Tenha a bondade de comunicar a Monsieur Woland que a actuação dele hoje será na terceira parte.
— Às suas ordens. Pois claro. Sem falta. Imediatamente. Impreterivelmente. Transmito-lhe isso — crepitou o auscultador aos sacões.
— Passe bem — disse Varenulcha, aturdido.
— Peço-lhe que aceite — disse o auscultador — os meus melhores e mais calorosos cumprimentos e votos! Êxitos! Boa sorte. Felicidades. Tudo!
— Pois claro! Eu bem dizia! — gritou o administrador excitado. — Ele não foi para Ialta, foi para os arredores da cidade!
— Bem, se é assim — começou o director financeiro, empalidecendo de raiva —, trata-se de uma partida indecente, inqualificável!
De súbito, o administrador saltou e gritou de tal modo que Rimski estremeceu:
— Agora me lembro! Agora me lembro! Em Puchkino abriu o Restaurante Ialta! É claro. Foi para lá, embebedou-se e agora envia telegramas!
— Mas isso é de mais — respondeu Rimski, contorcendo o rosto, e nos seus olhos brilhava uma verdadeira fúria. — Pois bem. Essa passeata vai-lhe sair cara. — E de repente tropeçou, e acrescentou hesitante: — Mas como pode ser, pois se a secção judiciária Isso é absurdo! São partidas dele — interrompeu o expansivo administrador e perguntou: — E o pacote, levo-o? — Sem dúvida — respondeu Rimski.
E de novo se abriu a porta, e entrou a mesma mulher… “Ele!”, pensou Rimski com uma tristeza inexplicável. E ambos se levantaram e foram ao encontro da mulher.
Desta vez o telegrama continha as palavras: “Obrigado confirmação urgentemente quinhentos secção judiciária para mim amanhã parto Moscovo Llkhodeev.”
— Ele enlouqueceu… — disse debilmente Varenukha. Rimski fez tilintar as chaves, tirou o dinheiro da gaveta do cofre forte, contou quinhentos rublos, tocou a campainha, entregou o dinheiro a um estafeta e mandou-o ao telégrafo.
— Desculpa, Grigori Danilovitch — disse Varenukha, não acreditando no que via —, mas acho que estás a enviar o dinheiro para nada.
— O dinheiro será devolvido — respondeu Rimski calmamente. — Mas ele há-de responder por este piquenique. — E acrescentou, apontando para a pasta de Varenukha: — Vai lá, Ivan Savelievitch, não te demores.
E Varenulcha saiu a correr do gabinete com a pasta. Desceu ao piso térreo, viu a longa bicha junto à bilheteira, soube pela empregada da bilheteira que daí a pouco a lotação estaria esgotada, porque o público acorrera aos magotes mal vira o cartaz suplementar, ordenou à empregada que separasse e não vendesse trinta dos melhores lugares nos camarotes e na plateia. Saiu da bilheteira a correr, livrando-se dos importunos caçadores de bilhetes grátis e mergulhou no seu pequeno gabinete para buscar o boné. Nesse momento, tocou o telefone.
— Sim! — gritou Varenukha.
— Ivan Savelievitch? — inquiriu o auscultador numa voz nasalada e antipática.
— Ele não está no teatro! — começou Varenukha a gritar, mas o auscultador interrompeu-o de imediato.
— Não se faça de parvo, Ivan Savelievitch, e oiça. Esses telegramas não os leve a parte nenhuma nem os mostre a ninguém.
— Quem fala? — bramiu Varenukha. — Pare com essas gracinhas, cidadão! Será descoberto depressa! Qual é o seu número?
— Varenukha — respondeu a mesma voz repelente, — tu não percebes russo? Não leves esses telegramas a parte nenhuma.
— Ah, então não pára com isso? — gritou o administrador, furioso. — Tenha cuidado! Há-de pagar por isto! — ainda gritou uma outra ameaça, mas calou-se, sentindo que no aparelho já ninguém o escutava.
E no gabinete começou a escurecer rapidamente. Varenulcha saiu a correr, bateu a porta atrás de si e pela porta lateral alcançou o jardim de Verão.
O administrador estava excitado e cheio de energia. Depois daquele telefonema impertinente, tinha a certeza de que um grupo de rufias andava a pregar partidas de mau gosto e que essas partidas estavam relacionadas com o desaparecimento de Likhodeev. O administrador sufocava no desejo de desmascarar os miseráveis e, por estranho que pareça, começava a antegozar qualquer coisa agradável. Assim acontece quando uma pessoa deseja tornar-se o centro das atenções, levar a qualquer parte uma notícia sensacional.
No jardim, o vento fustigou o rosto do administrador lançando-lhe areia para os olhos, como que a barrar-lhe o caminho, como que a avisá-lo. No segundo andar, uma janela bateu com tanta força que as vidraças quase se estilhaçaram, e as copas dos bordos e das tílias agitaram-se, inquietas. Escureceu e o ar arrefeceu. O administrador esfregou os olhos e viu que uma nuvem de tempestade deslizava, baixa, por cima de Moscovo. Ao longe soava um denso rugido.
Apesar de toda a pressa que tinha, Varenukha sentiu um irresistível impulso de entrar por momentos nos lavabos, para verificar de passagem se o electricista pusera uma rede na lâmpada.
Passando a correr junto ao pavilhão de tiro, entrou no denso matagal de lilases, onde se encontrava a construção azulada dos lavabos. O electricista mostrou ser um homem cuidadoso, a lâmpada do tecto da parte reservada aos homens já estava envolta numa rede metálica. Mas o administrador ficou desolado ao verificar que, mesmo na escuridão que antecedia a tempestade, se podia ver que as paredes já estavam cheias de inscrições a carvão e a lápis.
— Mas que vem a ser… — começou o administrador e, de súbito, ouviu atrás de si uma voz ronronar:
— É você, Ivan Savelievitch? Varenukha estremeceu, voltou-se e viu atrás de si um sujeito gorducho, de baixa estatura, com uma fisionomia que fazia lembrar um gato.
— Sim, sou eu — respondeu Varenulcha com hostilidade.
— Muito, muito prazer — disse numa voz guinchada o gorducho cara de gato e, de repente, agrediu Varenulcha na orelha com tanta força que o boné lhe voou da cabeça e desapareceu no buraco da sanita.
Com o golpe do gordo, todo o lavabo se iluminou por instantes com uma luz trémula, e no céu repercutiu-se um som de trovão, Depois houve mais um clarão e diante do administrador surgiu um segundo homem — baixo, mas com ombros atléticos, ruivo como o fogo, um olho nublado por uma catarata, e um canino a sair-lhe da boca. Este segundo homem, que pelos vistos era canhoto, agrediu o administrador na outra orelha. E uma vez mais o céu trovejou em resposta, e sobre o tecto de madeira dos lavabos abateu-se uma forte chuvada.
— Que é isso, camar… — murmurou o administrador meio enlouquecido. Compreendendo imediatamente que a palavra “camaradas” não era apropriada para bandidos que atacavam um homem numa casa de banho pública, rouquejou: — Cida — mas percebeu que eles também não mereciam esse tratamento, e recebeu um terceiro golpe terrível, sem saber de qual dos dois, de modo que o sangue lhe escorreu do nariz para a blusa.
— Que tens na pasta, parasita? — gritou estridentemente aquele que parecia um gato. — Telegramas? E não te avisaram pelo telefone que os não levasses a parte nenhuma? Avisaram-te, ou não?
— Avisa… avisaram — respondeu o administrador, ofegante.
— E mesmo assim puseste-te a caminho? Dá cá a pasta, canalha! — gritou o segundo com a mesma voz nasalada que ouvira ao telefone, e arrancou a pasta das mãos trémulas de Varenulcha.
E os dois agarraram o administrador por baixo dos braços, arrastaram-no para fora do jardim e seguiram com ele pela Sadovaia. A tempestade desencadeava-se com toda a força, a água sumia-se com estrondo pelas sarjetas, por toda a parte a água borbulhava, as ondas engrossavam, a água da chuva jorrava para fora dos algerozes, por baixo dos portões escoavam correntes espumejantes. Na Sadovaia não havia vivalma, ninguém que salvasse Ivan Savelievitch. Saltando por cima de rios turvos e iluminados pelos relâmpagos, os bandidos conduziram num segundo o administrador meio morto até ao prédio número 302 B, passaram velozmente o portão, onde duas mulheres descalças, com os sapatos e as meias nas mãos, se comprimiam contra a parede. Depois precipitaram-se para a entrada número 6, e Varenulcha, quase louco, foi içado para o quinto andar e lançado ao chão no vestíbulo, que ele bem conhecia, do apartamento de Stiopa Llkhodeev.
Então os dois bandidos desapareceram e, em vez deles, surgiu no vestíbulo uma rapariga completamente nua, ruiva, de olhos ardentes e fosforescentes.
Varenulcha compreendeu que aquilo era a coisa mais terrível de todas as coisas que lhe tinham acontecido e, gemendo, encostou-se à parede. A mulher aproximou-se do administrador até se encostar a ele e colocou-lhe as palmas das mãos nos ombros. Os cabelos de Varenukha eriçaram-se, porque mesmo através da blusa fria e encharcada sentiu que aquelas mãos estavam ainda mais frias, que estavam frias como o gelo.
— Deixa-me dar-te um beijo — disse a mulher ternamente, e os olhos resplandecentes ficaram junto aos olhos dele, e Varenukha desmaiou e não chegou a sentir o beijo.