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O Sol já descia sobre o monte Calvário e esse monte estava cercado por um cordão duplo.
A ala de cavalaria que cruzara o caminho do procurador por volta do meio-dia, seguia a trote para a Porta de Hébron. O caminho fora já desimpedido. Os soldados de infantaria da coorte da Capadócia tinham empurrado para os lados a multidão de pessoas, mulas e camelos, e a ala, trotando e erguendo para o céu colunas de poeira, chegou ao cruzamento onde confluíam duas estradas: a do Sul, que seguia para Belém e a do Noroeste, para Jafa. A ala tomou a estrada do Noroeste. Os capadócios estavam distribuídos pelas bermas da estrada e tinham desviado previamente dela todas as caravanas que apressadamente se dirigiam à festa de Jerusalém. Multidões de peregrinos, saindo das suas tendas provisórias às riscas, erguidas sobre as ervas, aglomeravam-se atrás dos capadócios. Tendo percorrido cerca de um quilómetro, a ala ultrapassou a segunda coorte da Legião Relâmpago e foi a primeira a chegar, percorrido mais outro quilómetro, ao sopé do monte Calvário. Ao chegar ali, os cavaleiros desmontaram. O comandante dividiu a ala em pelotões, que cercaram toda a base da pequena colina, deixando aberto apenas o acesso vindo da estrada de Jafa.
Pouco depois da ala chegou à colina a segunda coorte, que subiu um pouco mais e rodeou o monte como uma coroa.
Finalmente, chegou a centúria comandada por Marco Mata-Ratos. A centúria avançava em duas filas, uma de cada lado da estrada e, entre essas duas filas, escoltada pela guarda secreta, seguia uma carroça onde iam três condenados com tabuletas brancas ao pescoço, em cada uma delas estava escrito “Bandido e Rebelde” em duas línguas: grego e aramaico. Atrás da carroça dos condenados seguiam outras, carregadas com postes e travessas recentemente cortadas, cordas, pás, baldes e machados. Nessas carroças vinham seis carrascos. Atrás delas, a cavalo, iam o centurião Marco o chefe da guarda do Templo de Jerusalém, e o homem de capuz com quem Pilatos tivera uma rápida conversa na sala escura do palácio. O desfile era encerrado por uma fila de soldados, e atrás deles seguiam cerca de dois mil curiosos, a quem o calor infernal não desanimava, desejosos de assistir ao interessante espectáculo.
A esses curiosos da cidade juntavam-se agora os peregrinos, autorizados a integrarem-se na cauda da procissão. Aos gritos estridentes dos arautos, que acompanhavam a coluna e repetiam aquilo que Pilatos proclamara por volta do meio-dia, a procissão subiu ao monte Calvário.
A ala deixou passar toda a gente para o segundo anel, mas a segunda centúria só deixou chegar até ao cimo aqueles que estavam directamente relacionados com a execução. Depois, actuando rapidamente, dispersou a multidão em volta de toda a colina, de tal modo que ela se achou entre os cordões da infantaria em cima, e a cavalaria, em baixo. Agora podia assistir à execução através do cordão espaçado da infantaria.
Tinham decorrido mais de três horas desde que a procissão subira a colina, e o Sol declinava já sobre o monte Calvário. Mas o calor era ainda insuportável, e os soldados de ambos os cordões sofriam com ele, morriam de tédio e amaldiçoavam intimamente os três bandidos, desejando-lhes uma morte rápida.
O pequeno comandante da ala, que se encontrava na base da colina junto à passagem, com a testa húmida e as costas da camisa branca manchadas de suor, aproximava-se constantemente do balde de couro do primeiro pelotão, tirava dele água com as mãos em concha, bebia e humedecia o turbante. Obtendo assim algum alívio, afastava-se e voltava a percorrer, para cá e para lá, a estrada poeirenta que levava ao cume. A longa espada batia-lhe na bota atada com cordões. O comandante desejava dar aos seus cavaleiros o exemplo de resistência, mas, condoído, permitiu aos soldados que erguessem pirâmides com as lanças, espetando-as no chão, e estendessem sobre elas as capas brancas. E sob essas tendas, os sírios abrigavam-se do sol impiedoso. Os baldes esvaziavam-se depressa, e os cavaleiros dos diferentes pelotões iam por turnos ao barranco do outro lado da colina, onde um regato turvo acabava os seus dias naquele calor infernal à sombra ténue de umas amoreiras enfezadas. Ali estavam também, tentando aproveitar a sombra fugidia, entediados, os arrieiros, segurando os cavalos esgotados.
O abatimento dos soldados e as pragas que proferiam contra os bandidos eram compreensíveis. Os receios do procurador quanto aos distúrbios que pudessem ocorrer durante a execução na odiada cidade de Jerusalém eram felizmente injustificados. E quando entrou a quarta hora da execução, entre as duas filas, a da infantaria do lado de cima e a de cavalaria do lado de baixo, não restava, contra todas as expectativas, uma única pessoa. O sol abrasou a multidão e forçou-a a regressar a Jerusalém. Atrás do cordão das duas centúrias romanas encontravam-se apenas dois cães que não se sabia a quem pertenciam nem por que razão foram parar à colina. Mas também eles estavam extenuados pelo calor. Estavam deitados, com as línguas de fora, respirando pesadamente e sem prestarem qualquer atenção aos lagartos verdes, únicos seres que não temiam o sol e que corriam de um lado para o outro, entre as pedras escaldantes e uns arbustos de grandes espinhos que serpenteavam pelo chão.
Ninguém tentara libertar os condenados nem em Jerusalém, repleta de tropas, nem ali, na colina cercada, pois de facto não havia nada de interesse naquela execução, enquanto na cidade decorriam já os preparativos para a grande festa da Páscoa que começaria nessa noite.
A infantaria romana, no segundo cordão, sofria ainda mais que a cavalaria. O único alívio que o centurião Mata-Ratos permitiu aos soldados foi que tirassem os capacetes e cobrissem a cabeça com as faixas brancas molhadas, mas manteve os soldados em pé e de lanças nas mãos. Ele próprio usava uma faixa igual, não molhada, mas seca, andava para cá e para lá, não longe do grupo dos carrascos, sem tirar sequer da túnica os peitorais com as cabeças de leão em prata, sem tirar as grevas, a espada ou o punhal. O Sol incidia de chapa no centurião, sem lhe causar qualquer dano, e era impossível olhar para as cabeças de leão — os olhos não suportavam o brilho ofuscante da prata que parecia ferver ao sol.
O rosto mutilado de Mata-Ratos não exprimia nem cansaço, nem descontentamento, e parecia que o centurião gigante era capaz de andar assim todo o dia, toda a noite e ainda mais um dia em suma, todo o tempo que fosse necessário. Caminhar assim, sempre com as mãos no pesado cinto ornado de placas de cobre, olhando severamente ora os postes dos condenados, ora os soldados do cordão, afastando deste modo com a ponta da bota, sempre com a mesma indiferença, os ossos humanos embranquecidos pelo tempo ou os fragmentos de sílex que lhe rolavam debaixo dos pés.
O homem do capuz instalara-se não muito longe dos postes, numa tripeça, e ali estava sentado numa plácida imobilidade. Mas, de vez em quando, para se distrair, esgaravatava na areia com um ramito.
Aquilo que antes se disse — que atrás do cordão dos legionários não havia uma única pessoa — não era inteiramente verdade. Havia um homem, mas nem todos o viam. Ele encontrava-se não no lado onde estava aberta a passagem para o cimo do monte e de onde se podia mais comodamente ver a execução, mas no lado norte, onde a colina não era suave e nem acessível, mas acidentada, onde havia depressões e fendas, onde, agarrando-se numa fissura à terra seca, amaldiçoada pelo céu, uma figueira raquítica tentava viver.
Precisamente debaixo dessa figueira, que não dava qualquer sombra, se instalara esse único espectador, e não participante, da execução, e ali estava sentado numa pedra desde o princípio, ou seja, há já mais de três horas. Sim, para assistir à execução, ele escolhera não a melhor, mas a pior posição. No entanto, também dali os postes eram visíveis, e visíveis eram também para lá do cordão as duas manchas reluzentes no peito do centurião, e isso, pelos vistos, bastava ao homem, que desejava passar despercebido e não ser molestado por ninguém.
Mas, quatro horas antes, no início da execução, esse homem comportara-se de maneira totalmente diferente e pôde ser muito notado, e talvez por esse motivo mudara o seu comportamento e se isolara.
Nessa altura, mal o cortejo tinha chegado ao cimo, para lá do cordão, ele apareceu pela primeira vez, como um homem que chegava atrasado. Ofegante, avançava para a colina mais correndo que caminhando, acotovelando, e ao ver que à sua frente, como à frente de todos os outros, o cordão de soldados se fechava, fingindo não compreender as admoestações irritadas, fez uma tentativa ingénua de passar entre os soldados para o próprio local da execução, onde os condenados estavam já a ser retirados da carroça. Isso valera-lhe uma forte pancada no peito com a haste de uma lança e ele dera um salto para trás, gritando não de dor mas de desespero. Lançou ao legionário que o agredira um olhar turvo e completamente indiferente a tudo, como um homem insensível à dor física.
Tossindo e ofegando, levando as mãos ao peito, correu em volta da colina, procurando descobrir do lado norte uma abertura no cordão por onde pudesse introduzir-se. Mas era tarde de mais. O cordão fechara-se. E o homem, com o rosto desfigurado pelo sofrimento, teve que renunciar às suas tentativas de chegar até às carroças, donde já estavam a ser retirados os postes. Essas tentativas não levariam a nada, a não ser à sua prisão, e ser preso nesse dia não fazia de modo nenhum parte dos seus planos.
Por isso afastou-se para aquela ravina onde havia mais sossego e ninguém o incomodava.
Agora, sentado numa pedra, aquele homem de barba negra, com os olhos inflamados do sol e do sono, estava melancólico. Ora suspirava, abrindo o talete, surrado das suas vagabundagens e que de azul se tornara cinzento-sujo, e mostrava o peito machucado pela lança e pelo qual escorria o suor sujo, ora, torturado por uma mágoa insuportável, erguia os olhos ao céu, seguindo três abutres que há muito planavam nas alturas em grandes círculos, pressentindo o festim iminente, ora fixava o seu olhar desesperado na terra amarela, onde via o crânio meio destruído de um cão e os lagartos que corriam em volta dele.
O sofrimento do homem era tão grande que, de vez em quando, falava sozinho.
— Oh, que louco eu sou! — murmurava, balançando-se sobre a pedra, atormentado, arranhando com as unhas o peito moreno.
— Louco, mulher doida, cobarde! Sou um pedaço de carne podre, e não um homem!
Calava-se, baixava a cabeça, e depois de beber um pouco de água tépida do cantil de madeira, reanimava-se e agarrava, ora a faca, oculta no peito debaixo do raleie, ora o bocado de pergaminho estendido à sua frente sobre uma pedra, ao lado do qual havia um estilete e um frasquinho de tinta.
Nesse pergaminho estavam já escritas estas notas: “Correm os minutos, e eu, Mateus Levi, encontro-me no monte Calvário, mas a morte ainda não chegou!”
E mais:
“O Sol declina, e a morte não vem.” Depois, Mateus Levi, desesperado, escreveu com o estilete aguçado o seguinte: “Deus! Porque viras a tua cólera contra ele? Envia-lhe a morte.”
Depois de escrever isto, soltou um soluço, sem lágrimas, e de novo feriu o peito com as unhas.
A causa do desespero de Levi era a grande desgraça que os atingira, a leshua e a ele próprio, e, além disso, o erro terrível que ele, Levi, achava ter cometido. Dois dias antes, leshua e Levi encontravam-se em Bethphage, perto de Jerusalém, onde se hospedaram em casa de um hortelão que gostara muito das pregações de leshua. Os dois hóspedes passaram toda a manhã a trabalhar na horta, ajudando o anfitrião, e preparavam-se para seguir para Jerusalém pelo fresco do entardecer. Mas, por qualquer razão, Ies,hua mostrou-se apressado, dizendo que tinha assuntos inadiáveis na cidade, e partiu sozinho por volta do meio-dia. Este fora o primeiro erro de Mateus Levi. Porquê, porque o deixara partir sozinho?
À tarde, Mateus não pôde ir para Jerusalém. Fora atacado por uma qualquer doença súbita e violenta. Tremia, o seu corpo ardia como fogo, e começou a bater os dentes e a pedir água a todo o instante. Não podia ir a parte nenhuma. Deixou-se cair sobre uma gualdrapa no palheiro do hortelão e ali ficou estendido até ao amanhecer de sexta-feira, quando a doença o abandonou tão subitamente como o atacara. Embora estivesse ainda fraco e as pernas lhe tremessem, atormentado por um pressentimento de desgraça, despediu-se do anfitrião e partiu para Jerusalém. Aí soube que o seu pressentimento o não enganara. A desgraça acontecera. Levi estava entre a multidão e ouviu o procurador proclamar a sentença.
Quando os condenados foram levados para o monte, Mateus Levi correu ao lado das filas de soldados entre a multidão dos curiosos, tentando de algum modo dar a conhecer imperceptivelmente a leshua que, pelo menos ele, Levi, estava ali, que o não abandonara na sua última viagem e que orava para que a sua morte chegasse o mais depressa possível. Mas leshua, olhando em frente, para o lugar aonde o levavam, não viu evidentemente Levi.
E quando o cortejo já tinha percorrido cerca de meio quilómetro do caminho, Mateus, apertado entre a multidão mesmo junto ao cordão de soldados, teve uma ideia simples mas genial e, irritado, amaldiçoou-se a si próprio por isso lhe não ter ocorrido mais cedo. Os soldados não seguiam em fila cerrada. Havia intervalos entre eles. Com muita agilidade e um cálculo preciso era possível, curvando-se, passar entre dois legionários, chegar até à carroça e saltar para ela. Então, leshua seria poupado à tortura.
Bastava um instante para cravar o punhal nas costas de leshua, gritando-lhe: “leshua! Eu salvo-te e parto contigo! Eu, Mateus, o teu fiei e único discípulo!”.
E se Deus lhe concedesse mais um instante de liberdade, teria tempo para se apunhalar a si próprio, escapando à morte no poste. De resto isso pouco preocupava Levi, o antigo cobrador de impostos. Era-lhe indiferente o modo como morresse. O seu único desejo era que leshua, que nunca fizera mal a ninguém, escapasse ao martírio.
O plano era excelente, mas o problema estava em que Levi não tinha consigo nenhum punhal. E não possuía nem uma única moeda.
Furioso consigo próprio, Levi abriu caminho entre a multidão e correu de regresso à cidade. Na sua cabeça exaltada palpitava uma única ideia febril: obter rapidamente na cidade, por qualquer meio, um punhal, e conseguir voltar a tempo de alcançar o cortejo.
Correu até às portas da cidade, deslizando por entre as caravanas que entravam em tropel, e viu à sua esquerda a porta aberta de uma pequena loja onde se vendia pão. Respirando pesadamente depois da corrida pela estrada escaldante, Levi dominou-se, entrou na loja, saudou a dona que estava atrás do balcão e pediu-lhe que tirasse da mais alta prateleira o pão que estava em cima de todos, que por qualquer razão lhe agradara mais que os outros, quando a mulher se voltou, ele apanhou de cima do balcão, rapidamente e em silêncio, o melhor que podia encontrar — uma grande faca de pão, afiada como uma navalha — e saiu apressadamente da loja. Alguns minutos depois estava de novo na estrada de Jafa. Mas já não via o cortejo. Correu. De vez em quando tinha que se deixar cair na poeira e ficar imóvel, para recuperar o fôlego. E assim ficava deitado, surpreendendo as pessoas que chegavam a Jerusalém a pé ou montadas em mulas. Ficava deitado, escutando como o seu coração martelava não apenas no peito, mas também na cabeça e nos ouvidos. Depois de descansar um pouco, levantava-se de um salto e continuava a correr, mas cada vez mais devagar. Quando, por fim, avistou ao longe a nuvem de poeira levantada pelo longo cortejo, este encontrava-se já no sopé da colina.
— Oh, meu Deus… — gemeu Levi, compreendendo que chegava tarde de mais.
E chegava realmente tarde de mais. Quando passou a quarta hora da execução, os tormentos de Levi atingiram o auge e ele enfureceu-se. Levantando-se da pedra em que estava sentado, arremessou ao chão a faca roubada que agora lhe parecia inútil, esmagou com o pé o cantil de madeira, privando-se de água, tirou o turbante da cabeça, arrancou os seus cabelos ralos e começou a amaldiçoar-se.
Amaldiçoava-se, proferindo palavras sem nexo, rugindo e cuspindo, injuriando o pai e a mãe, que puseram no mundo um tal imbecil.
Vendo que as maldições e as pragas eram inúteis e que não mudavam nada debaixo do Sol, fechou os olhos, cerrou os punhos magros erguendo-os ao céu, para o Sol, que estava cada vez mais baixo, alongando as sombras e afastando-se para mergulhar no mar Mediterrâneo, e exigiu de Deus um milagre imediato. Exigiu que Deus enviasse depressa a morte a leshua.
Abrindo os olhos, verificou que na colina nada mudara, à excepção das manchas de luz no peito do centurião, que se tinham extinguido. O Sol lançava agora os seus raios nas costas dos condenados, cujos rostos estavam virados para Jerusalém. Então Levi gritou:
— Eu te amaldiçoo, Senhor! Com voz rouca, gritou que achava Deus injusto e já não podia acreditar nele. — És surdo! — bramia Levi. — Se não fosses surdo, ouvir-me-ias e dar-lhe-ias uma morte rápida.
Cerrando os olhos, ficou à espera do fogo que do céu caísse sobre ele e o abatesse. Mas isso não aconteceu e, sem descerrar as pálpebras, Levi continuava a gritar para o céu palavras mordazes e ofensivas. Gritava a sua completa desilusão, e que existiam outros deuses e religiões. Não, um outro deus não permitiria nunca que um homem como leshua fosse queimado pelo calor do sol, amarrado a um poste.
— Eu estava enganado! — gritava Levi completamente enrouquecido. — Tu és o Deus do mal! Ou terão os Teus olhos sido completamente cegados pelo fumo dos incensórios do Templo, e os Teus ouvidos deixaram de ouvir tudo o que não seja o som das trombetas dos sacerdotes? Tu não és o Deus omnipotente! És um Deus pérfido. Amaldiçoo-te, Deus de ladrões, seu protector e sua alma!
E, então, qualquer coisa soprou no rosto do antigo cobrador de impostos e qualquer coisa sussurrou a seus pés. Novo sopro e, abrindo os olhos, Levi viu que tudo no mundo mudara, ou por influência das suas maldições, ou por quaisquer outras causas. O Sol desaparecera antes de chegar ao mar, onde todas as tardes mergulhava. A nuvem de tempestade que o engolira erguia-se no céu, ameaçadora e firme, vinda do Ocidente. As suas extremidades ferviam de espuma branca, e as volutas do seu bojo negro lançavam reflexos amarelos. A nuvem troava e, de vez em quando, saíam dela traços de fogo. Ao longo da estrada de jafa, pelo pobre vale de Hinom, sobre as tendas dos peregrinos, avançavam colunas de poeira impelidas pelo vento que subitamente se levantara. Levizcalou-se, tentando perceber se a tempestade, que estava prestes a cobrir Jerusalém, traria alguma mudança no destino do infeliz leshua. E, imediatamente, olhando as linhas de fogo que fendiam a nuvem, começou a pedir que um raio atingisse o poste de leshua. Contemplando, arrependido, o céu limpo ainda não engolido pela nuvem e onde os abutres se erguiam nas asas para fugir à tempestade, Levi pensou que fora insensatamente precipitado nas suas maldições. Agora Deus não o escutaria.
Voltando o olhar para o sopé da colina, Levi fixou-o no lugar onde estavam, dispersos, os soldados do regimento de cavalaria, e viu que tinham ocorrido aí mudanças significativas. Lá do alto, Levi podia ver os soldados azafamados, arrancando as lanças do chão e lançando as capas sobre os ombros, via os arrieiros que corriam a trote para a estrada, levando os cavalos pelas rédeas. Era evidente que o regimento estava de partida. Levi, cuspindo e protegendo-se com a mão contra a poeira que lhe batia na cara, tentava compreender o que poderia significar a retirada da cavalaria. Olhou um pouco mais para cima e distinguiu uma figura envergando uma clâmide militar púrpura, que subia para o campo de execução. E então o coração do antigo cobrador de impostos ficou gelado, no pressentimento do fim radioso.
Aquele que subia a colina na quinta hora do suplício dos proscritos era o comandante da coorte, que viera de Jerusalém a galope acompanhado de uma ordenança. A um gesto de Mata-Ratos o cordão de soldados abriu-se e o centurião saudou o tribuno. Este, puxando Mata-Ratos de parte, murmurou-lhe qualquer coisa. O centurião saudou outra vez e dirigiu-se ao grupo dos carrascos, sentados em pedras junto aos postes. O tribuno caminhou na direcção do homem que estava sentado na tripeça, o qual se levantou cortesmente e foi ao encontro do tribuno. O tribuno disse-lhe também qualquer coisa, e os dois dirigiram-se aos postes. A eles juntou-se o chefe da guarda do Templo.
Mata-Ratos, lançando um olhar enojado aos andrajos sujos caídos no chão junto aos postes, andrajos que ainda há pouco haviam sido o vestuário dos criminosos e que os carrascos tinham recusado, chamou dois dos carrascos e ordenou:
— Sigam-me! Do poste mais próximo veio um canto rouco e sem sentido. Gestas, que ali estava pendurado, tinha enlouquecido ao fim da terceira hora por causa do sol e das moscas e agora cantava suavemente qualquer coisa sobre uvas. Mas a sua cabeça, coberta pelo turbante, ainda se agitava de vez em quando e então as moscas levantavam preguiçosamente do seu rosto para logo voltarem a poisar.
Dismas, no segundo poste, sofria mais que os outros dois, por— que não perdera os sentidos, e balançava a cabeça cadenciadamente, ora para a direita, ora para a esquerda, até bater com as orelhas nos ombros.
Mais feliz que os outros dois era leshua. Logo na primeira hora começara a ter desfalecimentos, e depois perdera a consciência, deixando pender a cabeça, com o turbante meio desfeito. As moscas e os tavões cobriam-lhe por isso completamente o rosto, de tal modo que este desaparecera sob uma massa negra e movediça. Os gordos tavões haviam-se-lhe instalado nas virilhas, no ventre e nas axilas, e sugavam o corpo nu e amarelo.
Obedecendo aos gestos do homem do capuz, um dos carrascos agarrou na lança, enquanto outro levava para junto do poste um balde e uma esponja. O primeiro dos carrascos ergueu a lança e tocou com ela, primeiro num e depois no outro braço de leshua, estendidos e amarrados com cordas à barra transversal do poste. O corpo, com as costelas salientes, estremeceu. O carrasco passou-lhe a ponta da lança pelo ventre. Então, leshua ergueu a cabeça, as moscas voaram zumbindo, e o rosto do homem ficou visível, entumecido pelas picadas, de olhos inchados, um rosto irreconhecível.
Deslocando as pálpebras, Ha-Nozii olhou para baixo. Os seus olhos, habitualmente límpidos, estavam agora turvos.
— Ha-Nozri! — disse o carrasco. Ha-Nozri moveu os lábios inchados e respondeu na sua voz rouca de proscrito:
— Que queres? Porque te aproximas de mim?
— Bebe! — disse o carrasco. A esponja molhada ergueu-se na ponta da lança até aos lábios de leshua. A alegria brilhou nos olhos deste. Segurou a esponja com os lábios e começou a sugar sofregamente a humidade. No poste ao lado ouviu-se a voz de Dismas:
— É uma injustiça! Eu sou tão proscrito como ele! Dismas retesou-se, mas não conseguiu mover-se, tinha os braços amarrados por cordas à trave em três lugares, Contraiu o ventre, cravou as unhas nas barras, mantendo a cabeça voltada para o poste de leshua, com os olhos flamejando de raiva.
Uma nuvem de pó cobriu o local e fez-se escuro. Quando o pó se dissipou, o centurião gritou:
— Silêncio no segundo poste! Dismas calou-se. leshua largou a esponja e, procurando que a sua voz soasse afável e persuasiva, mas sem o conseguir, pediu roucamente ao carrasco:
— Dá-lhe de beber. Escurecia cada vez mais. A nuvem cobria já metade do céu, avançando para Jerusalém. Farrapos de nuvens brancas voavam à frente da enorme nuvem negra carregada de água. Houve um clarão e um raio abateu-se sobre a colina. O carrasco tirou a esponja da ponta da lança.
— Louva o magnânimo Hégemon! — murmurou ele com solenidade e, lentamente, feriu leshua no coração. leshua estremeceu e murmurou:
— Hégemon…
O sangue escorreu-lhe pelo abdómen, o maxilar inferior estremeceu convulsivamente, e a sua cabeça pendeu.
Ao segundo ribombar do trovão já o carrasco dava de beber a Dismas e, com as mesmas palavras, “Louva o Hégemon!”, matou-o também.
Cestas, que perdera o juízo, gritou de medo assim que o carrasco se aproximou dele. Mas quando a esponja lhe tocou nos lábios, resmungou qualquer coisa e cravou nela os dentes. Segundos depois também o seu corpo descaía, tanto quanto lho permitiam as cordas.
O homem do capuz seguia o carrasco e o centurião e, atrás deles, caminhava o chefe da guarda do Templo. Parando junto ao primeiro poste, o homem do capuz observou atentamente leshua, que sangrava, tocou-lhe a planta do pé com a sua mão branca e disse para os seus companheiros:
— Está morto. A mesma coisa repetiu-se junto aos outros dois postes. Depois disto, o tribuno fez um sinal ao centurião e, voltando-se, começou a afastar-se do cimo da colina juntamente com o chefe da guarda do Templo e o homem do capuz. Caía o crepúsculo e os relâmpagos sulcavam o céu, de onde o fogo jorrou subitamente. E o grito do centurião: “Desfazer o cordão!” perdeu-se no meio do ribombar. Felizes, os soldados correram pela colina abaixo, pondo os capacetes. A escuridão caiu sobre Jerusalém.
O aguaceiro desabou e apanhou as centúrias ainda a meio da encosta da colina. A água caía com tanta violência que, enquanto os soldados corriam encosta abaixo, eram seguidos já por torrentes enfurecidas. Os soldados escorregavam e caíam na argila molhada, na pressa de chegarem à estrada plana, pela qual — já quase invisível entre a cortina de água — a cavalaria, molhada até aos ossos, partia para Jerusalém. Alguns minutos depois, só um homem permanecia na colina, entre a massa de tempestade, fogo e água.
Agitando a faca roubada em vão, caindo nas saliências escorregadias, agarrando-se a tudo quanto alcançava, por vezes arrastando-se de joelhos, o homem avançava para os postes. Ora desaparecia na completa escuridão, ora era subitamente iluminado pela luz tremulante.
Tendo chegado aos postes, já com água pelos tornozelos, despiu o talete pesado, encharcado, ficando só em camisa, e caiu aos pés de leshua. Cortou as cordas que lhe prendiam as pernas, ergueu-se até à barra transversal, abraçou leshua e libertou-lhe os braços das amarras superiores. O corpo nu e molhado de leshua caiu sobre Levi e lançou-o ao chão. Levi quis imediatamente pô-lo ao ombro, mas outro pensamento deteve-o. Largou no chão molhado o corpo com a cabeça caída para trás e os braços abertos e, com os pés resvalando na lama argilosa, correu aos outros postes. Cortou as cordas também nestes, e os dois corpos caíram no chão.
Passados alguns minutos, no cimo da colina restavam apenas os três postes vazios e esses dois corpos, açoitados e revolvidos pela água da chuva.
Nem Levi nem o corpo de Ieshua se encontravam já na colina.