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Segue-me, leitor! Quem te disse que não há no mundo amor verdadeiro, fiel e eterno? Que cortem a esse mentiroso a sua língua imunda. Segue-me, leitor, e segue-me só a mim, e eu te mostrarei um tal amor!
Não! O Mestre estava enganado ao dizer com tanta amargura a Ivanuchka[12], no hospital, que àquela hora, quando passava já da meia-noite, ela o tinha esquecido. Isso não era possível. Ela não o tinha certamente esquecido.
Antes de mais, revelemos um segredo que o Mestre não quis revelar a Ivanuchka. A sua bem-amada chamava-se Margarita Nikolaevna. Tudo aquilo que o Mestre disse a respeito dela ao pobre poeta era a pura verdade. Ele descreveu fielmente a sua bem-amada. Ela era bela e inteligente. A isto devemos acrescentar uma coisa mais: pode-se afirmar com segurança que muitas mulheres dariam tudo para trocar a sua vida pela vida de Margarita Nikolaevna. Com trinta anos de idade e sem filhos, Margarita era casada com um especialista de grande renome que, além disso, fizera uma importantíssima descoberta de grande valor para o país.
O marido era jovem, belo, bom, honesto e adorava a mulher. Margarita Nikolaevna e o marido ocupavam todo o andar superior de uma bela mansão com jardim, numa das ruelas próximas de Arbar. Um sítio fascinante! Qualquer um o pode constatar, se quiser visitar esse jardim. Que fale comigo, eu dou-lhe o endereço, indico-lhe o caminho. A mansão ainda existe.
Margarita Nikolaevna não tinha falta de dinheiro. Podia comprar tudo aquilo que lhe agradasse. Entre as relações do marido havia pessoas interessantes. Margarita Nikolaevna nunca tocara no fogão a petróleo, nem conhecia os horrores da vida num apartamento comunitário. Em suma, era feliz? Nem por um minuto! Desde que aos dezanove anos se casara e fora viver para a mansão, nunca mais conhecera a felicidade. Deuses, meus deuses! De que necessitava esta mulher?! De que necessitava esta mulher, em cujos olhos brilhava sempre uma centelha enigmática, de que necessitava esta feiticeira um pouco estrábica, que naquele dia de Primavera se enfeitara com um ramo de mimosas? Não sei. Ignoro-o. Era evidente que ela falava verdade ao dizer que precisava dele, do Mestre, e não da mansão gótica, nem do jardim privado, nem de dinheiro. Ela amava-o, dissera a verdade. Até a mim, narrador honesto, mas estranho à história, se me aperta o coração ao pensar no que Margarita deve ter sentido quando voltou no dia seguinte à casa do Mestre, sem, feliz— mente, ter conseguido falar com o marido, que não regressara quando o estava previsto, e descobriu que o Mestre já lá não estava.
Ela fez tudo para saber alguma coisa dele, mas, claro, não descobriu absolutamente nada. Então voltou para a mansão e continuou a viver como antes.
Mas quando a neve suja desapareceu das ruas e dos passeios, quando a Primavera começou a soprar pelas bandeiras das janelas lufadas de um vento brando, húmido e importuno, Margarita Nikolaevna caiu, mais ainda que no Inverno, na melancolia. Muitas vezes chorava, em segredo, longa e amargamente. Aquele a quem ela amava estaria vivo, ou morto? Ela não sabia. E à medida que passavam esses dias lúgubres, vinha-lhe cada vez com mais frequência, sobretudo ao cair da noite, o pensamento de que estava ligada a um morto.
Ela devia, portanto, esquecê-lo, ou morrer também. Mas arrastar por mais tempo aquela triste existência era impossível. ImPossível! Esquecê-lo a todo o custo. Esquecê-lo? O mal estava em que ele se não deixava esquecer.
— Sim, sim, sim, exactamente o mesmo erro! — dizia Margarita, no Inverno, sentada junto ao fogão e olhando o lume, aceso em memória do outro que ardia enquanto ele escrevia sobre Pôncio Pilatos. — Porque o abandonei naquela noite? Porquê? Foi uma loucura! Voltei no dia seguinte, honestamente, como tinha prometido, mas era já demasiado tarde. Sim, voltei, mas, como o infeliz Mateus Levi, demasiado tarde!
Todas estas palavras eram evidentemente absurdas, porque, na verdade, que diferença teria feito se ela nessa noite tivesse ficado com o Mestre? Poderia ela salvá-lo? Que ridículo! Mas como se podem dizer estas coisas a uma mulher desesperada?
Neste sofrimento viveu Margarita Nikolaevna todo o Inverno e chegou até à Primavera. No mesmo dia em que aconteceu todo aquele rebuliço absurdo, provocado pelo aparecimento do mágico em Moscovo, na sexta-feira em que o tio de Berlioz foi expulso de regresso a Kiev, em que prenderam o guarda-livros e em que aconteceram muitas outras coisas estúpidas e incompreensíveis, Margarita acordou por volta do meio-dia no seu quarto, cuja clarabóia dava para a torre da mansão.
Ao acordar, Margarita não chorou, como muitas vezes acontecia, porque acordou com o pressentimento de que nesse dia iria finalmente acontecer alguma coisa. Ao experimentar esse pressentimento, tratou de acalentá-lo e alimentá-lo na sua alma, temendo que ele a abandonasse.
— Acredito! — murmurava Margarita solenemente. — Acredito! Qualquer coisa vai acontecer! Não pode deixar de acontecer, por que razão me seria destinado um perpétuo tormento? Reconheço que menti e enganei e vivi uma vida secreta, escondida das pessoas, mas em todo o caso isso não merece um castigo tão cruel. Qualquer coisa vai acontecer, sem falta, porque nada pode durar eternamente. E, além disso, o meu sonho era profético, sou capaz de jurar.
Assim murmurava Margarita Nikolaevna, olhando os cortinados carmesim inundados de sol, vestindo-se ansiosamente, escovando diante do espelho de três faces os cabelos curtos e frisados.
O sonho que Margarita tivera nessa noite era sem dúvida extraordinário. O facto é que durante todo aquele Inverno de sofrimento nunca sonhara com o Mestre. À noite, ele deixava-a em paz e ela só sofria durante o dia. E, nessa noite, sonhara com ele.
Margarita sonhou com um lugar desconhecido, desolado, tristonho, sob um céu encoberto do princípio da Primavera. Sonhou com aquele céu cinzento, esfarrapado e fugidio, e por baixo dele um bando de gralhas silenciosas. Uma pontezinha tosca, por baixo dela um riacho turvo primaveril. Umas árvores tristonhas, miseráveis, quase nuas. Um álamo solitário e, mais adiante, entre as árvores, para lá de uma espécie de horta, uma pequena construção de troncos, que podia ser uma cozinha isolada, uma casa de banho, ou sabe-se lá o quê. Tudo em redor era como que sem vida e tão triste, que até dava vontade de se enforcar naquele álamo junto à pontezinha. Nem uma aragem, nem o movimento de uma nuvem, nem vivalma. Um lugar infernal para qualquer pessoa!
E eis que, imaginem, se abre a porta daquela cabana de troncos, e ele aparece. Bastante longe, mas bem visível. Esfarrapado, era difícil distinguir o que vestia. Os cabelos desgrenhados, a barba por fazer, os olhos doentios e assustados. Acenou-lhe com a mão, chamando-a. Sorvendo o ar pesado, Margarita correu para ele por sobre os cômoros e, nesse momento, acordou.
“Este sonho só pode significar uma de duas coisas”, dizia Margarita Nikolaevna para si mesma. “Se ele está morto e me acena, isso significa que me veio buscar e que em breve morrerei. Isso é muito bom, porque então os meus tormentos chegarão ao fim. Ou então ele está vivo e, nesse caso, o sonho só pode significar que quer que me lembre dele! Ele quer dizer-me que ainda voltaremos a ver-nos. Sim, voltaremos a ver-nos muito em breve. “
Ainda naquele estado de excitação, Margarita vestiu-se, tentando convencer-se de que na realidade tudo corria de modo muito favorável, e que tais momentos favoráveis devem ser agarrados e aproveitados. O marido partira em serviço e estaria ausente durante três dias. Durante três dias inteiros seria senhora de si própria ninguém a impediria de pensar fosse o que fosse, de sonhar com o que lhe agradasse. Todas as cinco assoalhadas do andar superior da mansão, todo aquele apartamento que dezenas de milhares de pessoas invejariam em Moscovo, estavam à sua inteira disposição.
Contudo, tendo obtido a liberdade por três dias inteiros, de todo aquele apartamento luxuoso Margarita escolheu um lugar que estava longe de ser o melhor. Depois de beber o chá, dirigiu-se ao quarto escuro, sem janelas, onde se guardavam as malas e toda a espécie de velharias em dois grandes armários. Acocorando-se, abriu a gaveta inferior do primeiro dos armários e debaixo de um monte de retalhos de seda retirou a única coisa valiosa que possuía na vida. Nas mãos de Margarita estava um velho álbum de couro castanho no qual havia uma fotografia do Mestre, uma caderneta da caixa económica com um depósito de dez mil rublos em nome dele, as pétalas de uma rosa seca entre folhas de papel de seda, e parte de um caderno escrito à máquina e com as extremidades inferiores queimadas.
Voltando ao quarto com aqueles tesouros, Margarita Nikolaevna colocou a fotografia no espelho de três faces e ficou ali sentada cerca de uma hora, segurando sobre os joelhos o caderno danificado pelo fogo, folheando-o e relendo aquilo que, depois de queimado, não tinha princípio nem fim: “… trevas, vindas do mar Mediterrâneo, cobriram a cidade odiada pelo procurador. Desapareceram as pontes suspensas que ligavam o Templo à medonha torre antonina, do céu desceu uma voragem que submergiu os deuses alados que dominavam o hipódromo, o palácio dos Asmoneanos com as suas ameias, os bazares, os caravançarais, as ruelas, os lagos… Jerusalém, a grande cidade, desaparecera como se nunca tivesse existido…”
Margarita queria ler a continuação, mas não havia mais nada, para além da franja irregular e carbonizada.
Limpando as lágrimas, Margarita Nikolaevna pôs de lado o caderno, apoiou os cotovelos no toucador e, reflectida no espelho, ficou ali sentada durante muito tempo, sem afastar os olhos da fotografia. Depois, as lágrimas secaram-se-lhe. Margarita arrumou cuidadosamente os seus bens e, passados alguns minutos, estes estavam de novo sepultados sob os retalhos de seda, e a fechadura dava um estalido sonoro na sala escura.
No vestíbulo, Margaríta Nikolaevna vestiu o casaco para. ir dar um passeio. A bela Natacha, sua empregada doméstica, perguntou o que havia de fazer para o almoço, e, recebendo como resposta que isso era indiferente, iniciou, para se distrair, uma conversa com a patroa e pôs-se a contar só Deus sabe que história, Por exemplo, que na noite anterior, no teatro, um ilusionista fizera uns tru— ques que deixaram toda a gente de boca aberta, distribuíra a todos dois frascos de perfume estrangeiro e meias, gratuitamente, e depois, quando a sessão terminou, os espectadores saíram para a rua e… estavam todos nus! Margarita Nikolaevna deixou-se cair numa cadeira em frente do espelho no vestíbulo e desatou a rir.
— Natacha! Que vergonha! — disse Margarita Nikolaevna. Você, uma rapariga instruída e inteligente… nas bichas conta-se toda a espécie de idiotices e você repete-as!
Natacha corou e objectou acaloradamente que não era mentira nenhuma e que ela mesma vira, nessa manhã, num armazém de produtos alimentares da Arbat, uma cidadã que entrara calçada e que quando foi à caixa para pagar os sapatos desapareceram-lhe dos pés e ela ficou em meias. A mulher arregalou os olhos e tinha um buraco no calcanhar. E esses sapatos eram mágicos, recebidos nessa mesma sessão.
— E saiu assim?
— E saiu assim! — exclamou Natacha, corando ainda mais por ver que não acreditavam nela. — Ontem à noite, Margarita Nikolaevna, a milícia prendeu cerca de cem pessoas. Algumas cidadãs saídas dessa sessão corriam em calcinhas pela Rua Tverskaia.
— Isso, claro, foi Daria que te contou — disse Margarita Nikolaevna. — Eu já há muito reparei que ela é uma grande mentirosa.
A ridícula conversa terminou com uma surpresa agradável para Natacha. Margarita Nikolaevna foi ao quarto e voltou com um par de meias e um frasco de água-de-colónia nas mãos. Dizendo a Natacha que também queria fazer um truque, Margarita Nikolaevna ofereceu-lhe as meias e o frasco e disse-lhe que lhe pedia apenas uma coisa: que não corresse em meias pela Rua Tverskaia e não escutasse Daria. E, beijando-se, a patroa e a criada separaram-se.
Recostada no banco macio e confortável do autocarro, Margarita Nikolaevna percorria a Rua Arbat e ora pensava nos seus problemas, ora escutava aquilo que murmuravam dois cidadãos sentados à sua frente.
E estes, voltando-se de vez em quando cautelosamente, a ver se alguém os escutaria, cochichavam entre si acerca de um qualquer disparate. O que ia sentado do lado da janela, grande e entroncado, com uns olhinhos vivos de suíno, dizia ao seu pequeno vizinho que tinha sido necessário cobrir o caixão com um pano negro…
— Não é possível — murmurava o homenzinho, pasmado. — Isso é uma coisa inaudita… E que fez Jeldibine?
Entre o ruído monótono do troleibus ouviam-se palavras que entravam pela janela: — Investigação criminal… um escândalo… enfim, uma autêntica mistificação!
A partir destes fragmentos, Margarita Nikolaevna conseguia compor uma história coerente. Aqueles cidadãos falavam de um qualquer morto, cujo nome não disseram, ao qual naquela manhã haviam roubado a cabeça do caixão! E era por isso que esse tal Jeldibine estava agora tão preocupado. E aqueles que cochichavam no troleibus tinham também uma qualquer relação com o defunto roubado.
— Ainda vamos a tempo de comprar flores? — inquietou-se o mais pequeno. — Dizes que a cremação é às duas?
Por fim, Margarita Nikolaevna cansou-se de ouvir aquela tagarelice misteriosa sobre uma cabeça roubada do caixão e alegrou-se quando chegou a altura de sair.
Alguns minutos mais tarde, Margarita Nikolaevna estava sentada junto ao muro do Kremlin, num banco que lhe permitia ver o picadeiro.
Margarita semicerrava os olhos ao sol luminoso, pensando no sonho da noite anterior e lembrando-se de como, há exactamente um ano, no mesmo dia e à mesma hora, estivera sentada ao lado dele naquele mesmo banco. E, tal como então, a malinha preta estava pousada a seu lado no banco. Ele não estava a seu lado nesse dia, mas Margarita Nikolaevna falava mesmo assim mentalmente com ele: “Se foste desterrado, por que razão não dás notícias? Pois deixam as pessoas dar notícias. Deixaste de me amar? Não, por qualquer razão, não acredito. Portanto, foste desterrado e morreste… Nesse caso, peço-te, liberta-me, dá-me finalmente liberdade para viver, para respirar”. Margarita Nikolaevna deu ela mesma a resposta por ele: “Tu és livre… Acaso te prendo?”. Depois replicou-lhe: “Não, mas que resposta é essa? Não, sai da minha memória, e então eu serei livre”.
As pessoas passavam ao lado de Margarita Nikolaevna. Um homem olhou de soslaio para a mulher bem vestida, atraído pela sua beleza e solidão. Ele tossicou e sentou-se no extremo daquele mesmo banco em que Margarita Nikolaevna estava sentada. Ganhando ânimo, ele falou:
— Decididamente, o tempo está hoje muito bom… Mas Margarita lançou-lhe um olhar tão sombrio, que ele levantou-se e foi-se embora.
“Aqui tens um exemplo”, disse mentalmente Margarita àquele que a possuía. “Por que razão repeli eu afinal aquele homem? Estou aborrecida e não há nada de mal naquele galanteador, a não ser talvez a estúpida palavra “decididamente”. Porque estou aqui sozinha, como uma coruja, sentada junto ao muro? Por que razão estou desligada da vida?”
Deixou pender a cabeça, invadida por uma grande tristeza.
Mas, de súbito, a mesma vaga de esperança e de excitação que sentira de manhã voltou a inundar-lhe o peito. “Sim, acontecerá!” A vaga atingiu-a uma segunda vez, e então ela compreendeu que essa vaga era sonora. Por entre o ruído da cidade ouvia-se cada vez mais distintamente o rufar de tambores que se aproximavam e o som de clarins um pouco desafinados.
Primeiro surgiu um miliciano a cavalo, avançando a passo ao lado da grade do jardim, e atrás dele três outros milicianos a pé. Seguia-se um camião com os músicos, avançando lentamente. Vinha depois um carro funerário, aberto, novo, e sobre ele uma urna coberta com coroas de flores e, nos cantos da plataforma, quatro pessoas de pé: três homens e uma mulher. Mesmo à distância, Margarita discernia. Via que os rostos das pessoas que iam de pé no carro funerário, acompanhando o defunto na sua última viagem, estavam estranhamente perturbados. Isso era bem visível na cidadã que seguia no canto traseiro esquerdo da carreta. As gordas faces dessa cidadã pareciam ainda mais dilatadas do interior por um qualquer segredo picante, nos seus olhos inchados brincavam cintilações ambíguas. Parecia que dali a nada a cidadã, não se contendo mais, piscaria o olho ao defunto e diria: “já se viu uma coisa assim? Uma autêntica mistificação!”. Igualmente perplexos eram os rostos dos acompanhantes a pé, os quais, em número de cerca de trezentas pessoas, caminhavam devagar atrás do carro funerário.
Margarita seguia o cortejo com o olhar, escutando como se extinguia ao longe o melancólico tambor turco, repetindo sempre o mesmo “bum, bum, bum”, e pensava: “Que funeral tão estranho… E que nostálgico aquele bum, bum! Era capaz de entregar a minha alma ao Diabo só para saber se ele está vivo ou não! Interessante, quem será que vão enterrar com tão surpreendentes rostos?”.
— Berlioz, Mikhail Alexandrovitch — ouviu ela a seu lado uma voz de homem, um tanto nasalada — presidente da MASSOLIT.
Surpreendida, Margarita Nikolaevna voltou-se e viu no seu banco um cidadão que, pelos vistos, se sentara silenciosamente enquanto ela olhava o cortejo e, é de crer, por distracção fizera em voz alta a sua última pergunta.
Entretanto, o cortejo parara, provavelmente detido pelos semáforos.
— Sim — continuou o cidadão desconhecido —, eles estão num estado de espírito surpreendente. Acompanham o defunto, mas só pensam onde terá ido parar a cabeça!
— Qual cabeça? — perguntou Margarita, olhando atentamente o inesperado vizinho.
Esse vizinho era de pequena estatura, com um cabelo ruivo flamejante, um dente canino saído, camisa engomada, fato às riscas de boa qualidade, sapatos de verniz e chapéu de coco. A gravata era berrante. O espantoso era que do bolsinho onde os homens usam habitualmente um lenço ou uma caneta de tinta permanente, aquele cidadão trazia um osso limpo de frango.
— Sim, está a ver — explicou o ruivo —, esta manhã na sala da Griboedov roubaram a cabeça do defunto de dentro do caixão.
— Como pode isso ser? — perguntou Margarita, enquanto se lembrava do cochichar no troleibus.
— Só o Diabo sabe! — respondeu o ruivo com desenvoltura. — Eu, de resto, acho que seria melhor perguntar isso a Beliemot. Roubaram-na com uma habilidade estarrecedora. Uma escandaleira assim! E o pior é que não se percebe quem precisaria daquela cabeça e para quê!
Preocupada como estava com os seus problemas, Margarita Nikolaevna ficou, no entanto, impressionada com as estranhas fábulas do cidadão desconhecido. — Desculpe! — exclamou ela de súbito. — Qual Berlioz? Aquele, que nos jornais de hoje…
— Pois claro, pois claro…
— Portanto, nesse caso, aqueles que o acompanham são escritores? — perguntou Margarita, arreganhando de súbito os dentes.
— Pois são, claro!
— Conhece-os pessoalmente?
— A todos — respondeu o ruivo.
— Diga-me — e a voz de Margarita tornou-se surda —, não está entre eles o crítico Latunski?
— Como não havia de estar? — respondeu o ruivo. — Lá vai ele, no extremo da quarta fila.
— Aquele loiro? — perguntou Margarita, semicerrando os olhos.
— Cor de cinza… Veja, levantou os olhos para o céu.
— O que parece um padre?
— Esse, esse! — Margarita, fitando Latunski, não perguntou mais nada.
— Pelo que vejo — disse o ruivo, sorrindo —, odeia esse Latunski.
— Há mais alguém ainda que eu odeio — respondeu Margarita por entre dentes. — Mas não interessa falar disso.
Entretanto, o cortejo avançara. Atrás dos que iam a pé avançavam principalmente automóveis vazios.
— Pois, é claro, que pode isso ter de interessante, Margarita Nikolaevna!
— Conhece-me? — admirou-se Margarita. Em vez de responder, o ruivo tirou o chapéu de coco. “Tem mesmo cara de bandido!”, pensou Margarita, fitando o seu interlocutor de acaso.
— Eu não o conheço — disse secamente Margarita.
— Como havia de conhecer-me! E, no entanto, mandaram-me ter consigo por causa de um certo negócio.
Margarita empalideceu e afastou-se.
— Era por aí que devia ter começado — disse ela —, em vez de se pôr a dizer disparates sobre a cabeça cortada! O senhor quer prender-me?
— Nada disso! — exclamou o ruivo. — Que é isso! Se comecei a falar, havia de ser logo para a prender! Tenho simplesmente um assunto a tratar consigo.
— Não percebo nada. Que assunto?
O ruivo olhou em volta e disse misteriosamente:
— Mandaram-me convidá-la a fazer uma visita esta noite.
— Está para aí a delirar. Que visita?
— A um estrangeiro muito ilustre — disse o ruivo significativamente, semicerrando um olho.
Margarita irritou-se.
— Um novo tipo de proxeneta de rua! — disse ela, levantando-se para partir.
— Muito obrigado por estas missões! — exclamou o ruivo, ofendido, e rosnou nas costas de Margarita, que se afastava — Estúpida!
— Canalha! — respondeu ela, voltando-se, e, nesse momento, ouviu atrás de si a voz do ruivo:
— As trevas, vindas do mar Mediterrâneo, cobriram a cidade odiada pelo procurador. Desapareceram as pontes suspensas que ligavam o Templo à medonha torre antonina… Jerusalém, a grande cidade, desaparecera como se nunca tivesse existido… Assim desapareça você também com o seu caderno queimado e a sua rosa seca! Fique aqui sozinha sentada no banco e peça-lhe que a liberte, que a deixe respirar, que lhe saia da memória!
Tornando-se lívida, Margarita voltou ao banco. O ruivo olhou-a, semicerrando os olhos.
— Não percebo nada — começou Margarita Nikolaevna em voz baixa. — Sobre as folhas ainda é possível saber.. infiltrar-se, espreitar… Natacha foi subornada? Sim? Mas como podia o senhor saber os meus pensamentos? — Enrugou dolorosamente a testa e acrescentou: — Diga-me, quem é o senhor? De que organização?
— Olha que maçada — resmungou o ruivo, começando a falar em voz mais alta: — Desculpe, mas eu disse-lhe que não sou de nenhuma organização! Sente-se, por favor.
— Quem é o senhor?
— Muito bem! Chamo-me Azazello, mas de qualquer modo isso para si nada significa.
— E não me diz como soube das folhas e dos meus pensamentos?
— Não lhe digo — respondeu secamente Azazello.
— Mas sabe alguma coisa sobre ele? — perguntou Margarita, suplicante.
— Bem, digamos que sim.
— Suplico-lhe: diga-me só uma coisa, ele está vivo? Não me atormente.
— Bem, está vivo, está vivo — respondeu de má vontade Azazello.
— Meu Deus!
— Por favor, nada de agitações nem de exclamações — disse Azazello, carregando o cenho.
— Desculpe, desculpe — murmurou Margarita, agora submissa. — Eu, evidentemente, zanguei-me consigo. Mas há-de concordar que, quando na rua convidam uma mulher para uma visita… Eu não tenho preconceitos, asseguro-lhe. — Margarita sorriu tristemente. — Mas nunca me encontro com estrangeiros nem tenho qualquer vontade de me relacionar com eles… e, além disso, o meu marido… O meu drama consiste em que vivo com alguém que não amo, mas considero que seria indigno arruinar-lhe a vida. Nunca vi nele nada, além de bondade…
Azazello escutou com visível aborrecimento aquele discurso desconexo e disse severamente:
— Peço-lhe que se cale por um momento.
Margarita calou-se, obediente.
— Convido-a a visitar um estrangeiro inofensivo. E ninguém ficará a saber dessa visita. Isso posso garantir-lho.
— E para que precisa ele de mim? — perguntou ela, insinuante.
— Isso depois o saberá.
— Compreendo… Devo entregar-me a ele — disse Margarita, pensativa.
Azazello fungou com certo desdém e respondeu assim:
— Qualquer mulher no mundo, posso afiançar-lhe, sonharia com isso. — A cara de Azazello contraiu-se num risinho. — Mas eu desiludo-a, isso não acontecerá.
— Quem é esse estrangeiro?! — perguntou Margarita, perturbada, em voz tão alta que os transeuntes que passavam junto ao banco se voltaram para ela. — Que interesse tenho eu em visitá-lo?
Azazello inclinou-se para ela e murmurou significativamente:
— Oh, um interesse muito grande… Aproveitará a ocasião…
— O quê?! — exclamou Margarita e os seus olhos arregalaram-se. — Se bem compreendo, está a insinuar que lá poderei saber dele?
Azazello acenou com a cabeça afirmativamente.
— Irei! — respondeu Margarita, enérgica, e agarrou Azazello pelo braço. — Irei seja onde for!
Azazello, respirando aliviado, recostou-se no banco, cobrindo com as costas a palavra Niura nele gravada, e disse ironicamente:
— Que gente difícil, estas mulheres! — Meteu as mãos nos bolsos e esticou as pernas. — Por que razão me mandaram a mim tratar deste assunto? Que mandassem o Beliemot, ele é encantador..
Margarita falou, com um sorriso amarelo e triste:
— Pare de me atormentar e mistificar com os seus enigmas… Sou uma mulher infeliz e o senhor aproveita-se disso. Vou entrar nessa estranha história mas, juro, apenas porque me acenou com palavras a respeito dele! Tenho a cabeça a andar à roda com todos estes enigmas…
— Nada de dramas, nada de dramas — respondeu Azazello, fazendo caretas. — É preciso compreender também a minha posição. Esmurrar o focinho do administrador, ou expulsar um tiozinho do prédio, ou disparar contra alguém, ou qualquer outra brincadeira desse género, faz parte da minha especialidade. Mas falar com mulheres apaixonadas… não, muito obrigado. Há já meia hora que estou a tentar convencê-la. Então, vai?
— Vou — respondeu Margarita Nikolaevna.
— Nesse caso, faça favor de aceitar isto — disse Azazello e, tirando do bolso uma caixinha redonda, de oiro, estendeu-a a Margarita com as palavras: — Guarde-a, não vão as pessoas vê-la. Vai precisar dela, Margarita Nikolaevna. Com o desgosto, envelheceu bastante nestes últimos seis meses. — Margarita corou, mas nada respondeu, e Azazello continuou: — Esta noite, às nove e meia em ponto, faça favor de se despir completamente e de espalhar este unguento pelo rosto e por todo o corpo. Depois, faça o que quiser, mas não se afaste do telefone. Às dez eu telefono-lhe e digo-lhe tudo o que é necessário. Não tem de se preocupar com coisa nenhuma, será levada para onde é preciso e ninguém a incomodará. Compreende?
Margarita ficou em silêncio por momentos, depois respondeu:
— Compreendo. Isto é de oiro puro, vê-se pelo peso. Pois bem, compreendo perfeitamente que me estão a subornar e a arrastar para uma história obscura, pela qual terei que pagar muito caro.
— Que vem a ser isto? perguntou Azazello. — Voltamos ao mesmo?
— Não, espere!
— Dê-me cá o creme. Margarita apertou a caixa na mão com mais força e continuou:
— Não, espere… Eu sei o que vou fazer. Mas estou pronta a tudo por ele, porque não me resta mais esperança em nada neste mundo. Mas quero dizer-lhe que se causar a minha perdição, há-de sentir vergonha! Sim, vergonha! Perder-me-ei por amor! E, batendo no peito, Margarita olhou o Sol.
— Dê cá isso — sibilou Azazello furioso. — Dê cá isso, e que vá tudo para o Diabo! Que mandem cá o Behemot.
— Oh, não! — exclamou Margarita, surpreendendo as pessoas que passavam. — Estou disposta a tudo, estou disposta a essa comédia da fricção com o creme, estou disposta a ir até à casa do Diabo. Não lho devolvo!
— Bah! — berrou subitamente Azazello e, arregalando os olhos na direcção do gradeamento do jardim, apontou com o dedo.
Margarita voltou-se na direcção para onde Azazello apontava, mas não descobriu nada de extraordinário. Então, voltou-se de novo para Azazello, desejando obter explicação para aquele absurdo “Bah!”, mas não havia já quem lhe desse essa explicação: o misterioso interlocutor de Margarita Nikolaievna desaparecera. Margarita meteu rapidamente a mão na algibeira, onde antes daquele grito tinha escondido a caixa, e certificou-se de que ela estava lá. Então, sem pensar em nada, afastou-se rapidamente do jardim Alexandrovski.
Diminutivo de Ivan. (N. do T)