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Esse crepúsculo foi talvez a causa da brusca mudança operada no aspecto do procurador. Pareceu envelhecer de repente, ficou curvado e, além disso, ansioso. Olhou uma vez à sua volta e, por qualquer razão, estremeceu ao pousar o olhar na poltrona sobre cujo espaldar estava caída a sua capa. Aproximava-se a noite de festa, as sombras do crepúsculo cumpriam o seu papel, e o procurador fatigado julgou provavelmente ver alguém sentado na poltrona vazia. Cedendo ao medo, o procurador remexeu a capa, largou-a e começou a andar pelo balcão, ora esfregando as mãos, ora correndo à mesa e agarrando a taça, ora parando e pondo-se a olhar inexpressivamente os mosaicos do chão, como se tentasse ler neles não se sabe que caracteres.
Era já a segunda vez naquele dia que a angústia o atacava. Pressionando a têmpora, onde a dor infernal da manhã deixara apenas uma reminiscência surda, um pouco lancinante, o procurador esforçava-se por compreender a causa daquele sofrimento moral. E depressa a compreendeu, mas tentou enganar-se a si mesmo. Era para ele evidente que naquele dia deixara escapar irremediavelmente qualquer coisa e agora queria corrigir essa falha por meio de acções medíocres, insignificantes, e principalmente demasiado tardias. O auto-engano consistia em que o procurador tentava convencer-se de que essas acções, que ele praticava naquele momento, naquela noite, não eram menos importantes do que a sentença da manhã. Mas conseguia-o muito mal.
Numa dessas idas e vindas ele parou bruscamente e assobiou. Em resposta a esse assobio ouviu-se no crepúsculo um latido abafado, e um gigantesco cão de pêlo cinzento e orelhas aguçadas, com uma coleira chapeada a ouro, saltou para o balcão.
— Banga, Banga — chamou o procurador com voz fraca.
O cão ergueu-se nas patas traseiras e colocou as dianteiras nos ombros do dono, de tal modo que por pouco não o fez cair, e lambeu-lhe a face. O procurador sentou-se na poltrona. Banga, de língua pendente e respiração acelerada, deitou-se aos pés do dono. A alegria que brilhava nos olhos do cão significava que passara a tempestade, a única coisa no mundo que o destemido cão receava, e também que ele estava de novo ali, ao lado do homem que amava, respeitava e considerava o mais poderoso no mundo, senhor de todos os homens, graças ao qual ele próprio, o cão, se considerava como um ser privilegiado, superior e extraordinário. Porém, depois de se deitar aos pés do seu dono sem sequer olhar para ele, mas olhando para o jardim, o cão percebeu imediatamente que alguma desgraça o atingira. Por isso mudou de posição, levantou-se, colocou-se de lado e pousou as patas dianteiras e a cabeça nos joelhos do procurador, manchando de areia molhada as abas da capa. Provavelmente, os movimentos de Banga deveriam significar que ele queria confortar o dono e estava pronto a enfrentar com ele a infelicidade. Ele tentava exprimir isso também com os olhos, virados para o dono, e com as orelhas esticadas e inquietas. E foi assim que os dois, o cão e o homem, que se amavam um ao outro, acolheram a noite de festa no balcão.
Entretanto, o hóspede do procurador estava muito atarefado. Depois de ter abandonado o terraço superior do jardim em frente do balcão, desceu a escada para o terraço seguinte, virou à direita, e dirigiu-se às casernas situadas nos terrenos do palácio. Nessas casernas estavam aquarteladas as centúrias que tinham chegado com o procurador a Jerusalém para as festas, bem como a guarda secreta do procurador, comandada por esse mesmo hóspede. O hóspede permaneceu ali pouco tempo, não mais de dez minutos, mas durante esses dez minutos saíram do pátio das casernas três carroças carregadas de instrumentos de terraplanagem e de uma pipa de água. As carroças eram acompanhadas por quinze homens de capas cinzentas, a cavalo. Sob a sua escolta, as carroças saíram dos terrenos do palácio pelo portão das traseiras, dirigiram-se para oeste, transpuseram a porta da muralha da cidade e seguiram por um atalho primeiro até à estrada de Belém, e depois por ela para norte, chegadas ao cruzamento junto à Porta de Hébron tomaram então pela estrada de Jafa, pela qual passara durante o dia o cortejo com os condenados para a execução. Estava)á escuro àquela hora e a Lua surgia no horizonte.
Pouco depois da partida das carroças com o destacamento que as acompanhava, também o hóspede do procurador, agora vestindo uma túnica escura e usada, partiu a cavalo do recinto do palácio. Dirigia-se não para fora da cidade, mas para o centro. Algum tempo depois podia-se vê-lo aproximar-se da fortaleza antonina, situada a norte e muito perto do grande Templo. Na fortaleza o hóspede demorou-se também muito pouco tempo, e depois o seu rasto foi encontrado na Cidade Baixa, com as suas ruas tortuosas e intrincadas. Mas ali o hóspede ia já montado numa mula.
Conhecendo bem a cidade, o hóspede encontrou facilmente a rua que procurava. Chamava-se ela Rua dos Gregos, dado que nela existiam algumas lojas gregas, entre as quais uma onde se vendiam tapetes. Foi precisamente junto a essa loja que o hóspede deteve a sua mula, desceu e amarrou-a a uma argola junto à porta. A loja já estava fechada. O hóspede entrou por uma cancela situada ao lado da entrada da loja, e achou-se num pequeno pátio quadrado, rodeado de barracões. Contornando o canto do pátio, o hóspede encontrou-se diante de um terraço de pedra, coberto de hera, de uma casa de habitação, e olhou em redor. Tanto na pequena casa como nos barracões estava escuro, ainda não tinham acendi— do as luzes. O hóspede chamou em voz baixa:
— Nisa! A este chamamento uma porta rangeu e, na semiescuridão do anoitecer, surgiu no terraço uma mulher jovem sem véu. Debruçou-se sobre o parapeito do terraço, escrutando com inquietação, procurando reconhecer o visitante. Quando o reconheceu, sorriu-lhe, saudando-o com a cabeça e com a mão.
— Estás só? — perguntou-lhe Afrânio, em grego.
— Estou — murmurou a mulher no terraço. — O meu marido partiu de manhã para Cesareia. — A mulher olhou para a porta e acrescentou num sussurro: — Mas a criada está em casa. Depois fez um gesto que significava: “Entra”.
Afrânio olhou em redor e subiu os degraus de pedra. Depois disso, ele e a mulher desapareceram no interior da casa.
Afrânio demorou-se muito pouco tempo em casa dessa mulher, não mais de cinco minutos. Depois, abandonou a casa e o terraço, puxou o capuz mais para os olhos e saiu para a rua. Nas casas acendiam-se já os castiçais, o tropel de antes da festa era ainda muito grande, e Afrânio, montado na sua mula, perdeu-se na torrente dos transeuntes e dos cavaleiros. Ninguém sabe para onde se dirigiu depois.
Quanto à mulher a quem Afrânio chamara Nisa, ao ficar sozinha, começou a mudar de roupa, fazendo-o com muito pressa. Mas por mais difícil que lhe fosse procurar as coisas de que precisava no quarto escuro, não acendeu o castiçal nem chamou a criada. Só depois de estar pronta e ter já na cabeça um véu escuro, se ouviu na casa a sua voz.
— Se alguém perguntar por mim, diz que fui visitar Enante. Ouviram-se na escuridão os resmungos da velha criada:
— Enante? Oh, essa Enante! Pois o teu marido proibiu-te de ir a casa dela! É uma alcoviteira, essa Enante! Vou dizer ao teu marido…
— Bem, bem, bem, está calada — replicou Nisa e, como uma sombra, deslizou para fora da casa.
As sandálias de Nisa soaram sobre as lajes do pátio. Resmungando, a criada fechou a porta do terraço. Nisa partiu de sua casa.
Nesse mesmo momento, de uma outra ruela da Cidade Baixa, que descia em degraus para um dos lagos da cidade, da cancela de uma casa de aspecto miserável, cuja parede dava para a ruela e as i anelas para o pátio, saía um homem ainda jovem com a barba cuidadosamente aparada e um turbante que lhe caía para os ombros, um talete novo de festa, azul, com borlas na parte inferior, e umas rangentes sandálias novas. Aquele belo jovem de nariz adunco, elegantemente vestido para a grande festa, caminhava, animado, ultrapassando os transeuntes, que se apressavam a regressar a suas casas para a refeição festiva, olhava como se acendiam as janelas umas após as outras. O jovem seguia o caminho que, passando junto ao bazar, conduzia ao palácio do sumo sacerdote Caifás, situado no sopé da colina do Templo.
Pouco depois ele podia ser visto a entrar no palácio de Caifás. E passado mais algum tempo, saía desse mesmo palácio.
Depois da visita ao palácio, onde estavam)'a acesos os castiçais e os archotes, onde decorria a azáfama da festa, o jovem caminhou num passo ainda mais animado e mais alegre, regressando apressadamente à Cidade Baixa. Mesmo na esquina onde a rua desembocava na praça do bazar, no meio da multidão efervescente, ele foi ultrapassado por uma mulher de passo ligeiro, quase dançante, de véu preto puxado até aos olhos. Ao ultrapassar o jovem, essa mulher ergueu o véu por um instante, lançou um olhar na direcção dele, mas não só não abrandou o passo, como, pelo contrário, o acelerou, tentando talvez ocultar-se daquele a quem ultrapassava.
Mas o jovem não só notou essa mulher, como a reconheceu, e, ao reconhecê-la, sobressaltou-se, parou, olhou com perplexidade as costas dela, e lançou-se imediatamente em sua perseguição. Quase derrubando um transeunte que levava urna bilha nas mãos, o jovem alcançou a mulher e, ofegando de emoção, chamou-a:
— Nisa! A mulher voltou-se, semicerrou os olhos, enquanto o seu rosto mostrava uma fria expressão de enfado, e respondeu secamente, em grego:
— Ah, és tu, Judas? Não te reconheci logo. Isso é bom sinal. Diz-se que aquele a quem se não reconhece se tornará rico…
Tão perturbado que o coração lhe pulava no peito como um pássaro sob um véu negro, Judas perguntou num murmúrio entrecortado, receando que os transeuntes o ouvissem:
— Onde vais tu, Nisa?
— E para que queres tu saber? — perguntou Nisa, abrandando o passo e olhando Judas desdenhosamente.
Então, Judas, desconcertado, murmurou, com entoações infantis na voz:
— Mas como?… Nós combinámos. Queria ir visitar-te. Tu disseste que estarias em casa…
— Ah, não, não — respondeu Nisa estendendo caprichosamente o lábio inferior, o que fez com que Judas achasse o rosto dela, o rosto mais belo que ele jamais vira na sua vida, ainda mais bonito. — Estava aborrecida. Vocês têm a vossa festa, e que queres tu que eu faça? Que fique sentada a ouvir-te suspirar no terraço? E ainda por cima recear que a criada vá contar ao meu marido? Não, não, e decidi ir para fora da cidade, escutar os rouxinóis.
— Para fora da cidade? — perguntou Judas, desconcertado.
— Sozinha?
— Claro, sozinha — respondeu Nisa.
— Deixa-me acompanhar-te — pediu Judas, que sufocava. As ideias turvaram-se-lhe, ele esqueceu-se de tudo no mundo e olhava com olhos suplicantes os olhos azuis de Nisa, que agora pareciam negros.
Nisa não respondeu e alargou o passo.
— Porque não dizes nada, Nisa? — perguntou Judas em tom lamentoso, acertando o passo pelo dela.
— E eu contigo não me vou aborrecer? — perguntou Nisa de súbito e parou. Então os pensamentos de Judas confundiram-se por completo. — Bom, está bem — disse por fim Nisa num tom mais suave. — Vamos.
— Mas aonde, aonde?
— Espera… entremos naquele pátio para combinar, se não receio que alguém conhecido me veja e vá depois dizer que eu andava na rua com um amante.
E então Nisa e Judas desapareceram do bazar. Cochichavam junto à entrada de um qualquer pátio.
— Vai ter ao jardim das Oliveiras — murmurou Nisa, puxando o véu para os olhos e virando as costas a um homem que entrava pelo portão com um balde —, em Getsérnani, do outro lado do Cédron, percebeste?
— Sim, sim, sim.
— Eu vou à frente — continuou Nisa —, mas tu não me sigas, separa-te de mim. Eu vou à frente… Quando atravessares a corrente… sabes onde é a gruta?
— Sei, sei…
— Passas em frente do lagar de azeite, sobes e viras para a gruta. Eu estarei lá. Mas não te atrevas a seguir imediatamente atrás de mim, tem um pouco de paciência, espera aqui. — E com estas palavras Nisa saiu do portão, como se nunca tivesse falado com Judas.
Judas ficou sozinho por algum tempo, tentando reunir os seus pensamentos em debandada. Entre eles havia o pensamento sobre como iria ele explicar a sua ausência no jantar de festa com a família. Judas pensava numa qualquer mentira, mas na sua perturbação era incapaz de inventar qualquer coisa conveniente, e as suas pernas levaram-no por si próprias para longe do portão.
Agora mudara de rumo, já não se dirigia para a Cidade Baixa, mas voltara para trás em direcção ao palácio de Caifás. Judas via agora mal aquilo que o rodeava. A cidade estava já em festa. À sua volta, não só as janelas estavam iluminadas, como se ouviam já os cânticos. Os retardatários apressavam os burros, fustigavam-nos, gritavam com eles. As pernas de Judas andavam por si mesmas, e ele passou sem dar por isso junto às medonhas torres musgosas da torre antonina, não ouviu o som das trombetas no interior da fortaleza, não prestou nenhuma atenção a uma patrulha de cavalaria que iluminava o seu caminho à luz trémula de um archote. Ao passar pela torre, Judas, voltando-se, viu brilhar a uma altitude espantosa por cima do Templo dois gigantescos castiçais de cinco braços. Mas também a estes Judas os viu de um modo confuso, parecendo-lhe que por cima de Jerusalém se tinham acendido dez lâmpadas de dimensões inauditas, que rivalizavam com a luz da única lâmpada que se erguia cada vez mais alto sobre Jerusalém: a lâmpada da Lua. Judas não tinha agora tempo para se ocupar de nada. Precipitava-se para a Porta de Getsémani, queria sair rapidamente da cidade. De vez em quando parecia-lhe ver surgir à sua frente, entre as costas e os rostos dos passantes, uma silhueta dançante que o atraía atrás de si. Mas isso era uma ilusão — Judas compreendia que Nisa tinha um grande avanço sobre ele. Passou rapidamente diante das lojas de câmbios, e chegou finalmente à Porta de Getsérnani. Aí, embora ardendo de impaciência, foi obrigado a parar. Uma cáfila de camelos entrava na cidade, seguida de uma patrulha militar síria, que judas amaldiçoou em pensamento…
Mas tudo tem um fim. O impaciente Judas estava já fora dos muros da cidade. Ã sua esquerda viu um pequeno cemitério e, ao lado dele, algumas tendas listradas de peregrinos. Atravessando a estrada poeirenta, inundada de luar, Judas dirigiu-se para a corrente do Cédron, a fim de atravessá-lo. A água murmurava suavemente debaixo dos pés de Judas. Saltando de pedra em pedra, ele atingiu finalmente a margem oposta, do lado de Getsérnam e com grande alegria constatou que a estrada que passava junto aos jardins estava deserta. Não longe dali viam-se já os portões meio destruídos do Jardim das Oliveiras.
Depois da atmosfera sufocante da cidade, Judas foi surpreendido pelos aromas inebriantes da noite primaveril. Por sobre a cerca do jardim transbordava uma onda de odores da murta e das acácias das clareiras de Getsémani.
Ninguém guardava os portões, não havia ali vivalma, e, ao fim de alguns minutos, Judas corria já à sombra misteriosa das enormes oliveiras. A estrada conduzia ao cimo do monte, Judas subia, ofegante, passando de vez em quando das sombras para tapetes rendilhados de luar, que lhe faziam lembrar os tapetes que vira na loja do ciumento marido de Nisa. Pouco depois avistou à sua esquerda, numa clareira, o lagar de azeite com a sua pesada mó de pedra e um montão de barris. Não havia ninguém no jardim. Os trabalhos paravam ao anoitecer. Não havia vivalma no jardim, e agora soavam por cima da cabeça de Judas os coros dos rouxinóis. O objectivo de Judas estava próximo. Ele sabia que à sua direita, na escuridão, começaria a ouvir daí a pouco o suave murmúrio da água que caía na gruta. E assim foi. O ar tornou-se mais fresco.
Então, ele abrandou o passo e chamou em voz baixa:
— Nisa! Mas em vez de Nisa, viu destacar-se do grosso tronco de uma oliveira e saltar para o caminho a figura atarracada de um homem, em cujas mãos qualquer coisa brilhou e logo se extinguiu.
Judas saltou para trás exclamando debilmente:
— Ah! Um segundo homem barrou-lhe o caminho.
O primeiro, que estava à frente, perguntou a Judas:
— Quanto recebeste agora? Responde, se tens amor à vida! Uma esperança raiou no coração de Judas, e ele gritou desesperadamente:
— Trinta tetradracmas! Trinta tetradracmas! Tenho comigo tudo o que recebi. Aqui está o dinheiro! Levem-no, mas deixem-me a vida!
O homem da frente arrancou imediatamente a bolsa das mãos de Judas. E, nesse mesmo instante, nas suas costas, uma faca cortou o ar como um relâmpago e atingiu o amoroso abaixo da omoplata. Judas foi precipitado para a frente, e lançou para o ar as mãos de dedos crispados. O homem da frente apanhou Judas na sua faca e cravou-lha até ao cabo no coração.
— Ni… sa… — proferiu Judas, não já com a sua voz alta e clara de jovem, mas com uma voz baixa e carregada de censura, e não emitiu nem mais um som, e o seu corpo bateu com tanta força no chão que este ressoou.
Então, uma terceira figura surgiu no caminho. Este terceiro homem usava uma capa com capuz.
— Andem depressa — ordenou ele. Os assassinos embrulharam a bolsa juntamente com uma nota escrita entregue pelo terceiro homem, numa pele, que amarraram com um cordão. O segundo homem meteu o embrulho debaixo da camisa, depois os dois assassinos afastaram-se da estrada e foram tragados pela escuridão entre as oliveiras. O terceiro acocorou-se ao lado do morto e contemplou-lhe o rosto. Na sombra parecia branco como a cal, e de uma beleza espiritual. Alguns segundos depois não havia ninguém vivo no caminho. O corpo sem vida jazia de braços abertos. O pé esquerdo encontrava-se numa mancha de luar, de modo que se via distintamente cada correia da sandália. Entretanto, por todo o jardim de Getsémani ressoava o canto dos rouxinóis.
Ninguém sabe para onde se dirigiram os dois assassinos de Judas, mas sabe-se qual o caminho seguido pelo terceiro homem. Tendo abandonado a estrada, dirigiu-se para a parte mais densa do olival, caminhando para sul. Saltou o vaiado, longe do portão principal, no canto sul, onde havia uma brecha no muro de alvenaria. Em breve se encontrou na margem do Cédron. Entrou na água e caminhou durante algum tempo na corrente, até avistar ao longe as silhuetas de dois cavalos e de um homem ao lado deles, Os cavalos estavam também dentro do ribeiro, e a água molhava-lhes os cascos. O homem que segurava os cavalos montou num deles, o homem do capuz saltou para o outro, e os dois seguiram a passo pela corrente. Ouvia-se o ranger das pedras sob as patas dos cavalos. Depois os cavaleiros saíram da água, subiram para a margem de Jerusalém e seguiram a passo ao longo da muralha da cidade. Em seguida, o arrieiro afastou-se, partiu a galope e desapareceu da vista, e o homem do capuz parou o cavalo, desmontou na estrada deserta, tirou a capa, virou-a do avesso, tirou de debaixo da capa um capacete sem penacho e pô-lo na cabeça. O homem que agora subiu para o cavalo vestia uma clâmide militar e trazia à cinta uma espada curta. Tocou as rédeas, e o cavalo fogoso partiu a trote, sacudindo levemente o cavaleiro. O caminho era agora curto. O cavaleiro dirigiu-se para a porta sul de Jerusalém.
Debaixo do arco dançavam e oscilavam as chamas inquietas dos archotes. Os soldados de guarda, da segunda centúria da Legião Relâmpago, estavam sentados nos bancos de pedra, jogando aos dados. Ao verem o militar que se aproximava, levantaram-se dos seus lugares de um salto, o militar saudou-os com a mão e entrou na cidade.
A cidade estava inundada de luzes festivas. Em todas as janelas brincavam as chamas dos castiçais, e por toda a parte, misturando-se num coro desordenado, soavam os cânticos. Olhando de vez em quando por uma janela aberta para a rua, o cavaleiro podia ver pessoas sentadas em volta de uma mesa festiva, sobre a qual havia carne de cabrito e taças de vinho entre pratos com ervas amargas. Assobiando uma música suave, o cavaleiro seguia a trote lento pelas ruas desertas da Cidade Baixa, dirigindo-se para a torre antonina, olhando de tempos a tempos aqueles castiçais de cinco braços como nunca se vira em nenhuma outra parte do mundo, que ardiam por cima do Templo, ou a Lua, que pendia ainda mais alta que os castiçais.
O palácio de Herodes, o Grande, não tinha qualquer participação nas solenidades da noite pascal. Nos aposentos anexos, virados para sul, onde estavam alojados os oficiais da coorte romana e o legado da legião, as luzes estavam acesas, e sentia-se que havia um certo movimento e vida, mas a parte dianteira, principal, onde estava o único e involuntário morador do palácio — o procurador — estava toda ela, com as suas colunatas e estátuas douradas, como que ofuscada sob o brilho da Lua. Ali, no interior do palácio, reinava a escuridão e o silêncio. E o procurador, tal como dissera a Afrânio, não quisera lá entrar. Ordenara que lhe preparassem uma cama no balcão, no mesmo lugar onde jantara, e onde de manhã conduzira o interrogatório. O procurador deitou-se no leito que lhe prepararam, mas não lhe vinha o sono. A Lua desnudada pendia, muito alto, no céu limpo, e o procurador não desviou dela os olhos durante várias horas.
Por volta da meia-noite, o sono apiedou-se finalmente do Hégemon. Bocejando intensamente, o procurador desapertou e deixou cair a capa, tirou o cinturão que lhe apertava a túnica e do qual pendia um largo punhal de aço na bainha, colocou-o sobre a poltrona junto da cama, descalçou as sandálias e deitou-se, Banga saltou imediatamente para cima da cama e deitou-se a seu lado, cabeça contra cabeça, e o procurador, colocando a mão no pescoço do cão, fechou finalmente os olhos. Só então o cão adormeceu também.
O leito estava na semiescuridão, oculto da Lua por uma coluna, mas dos degraus do terraço estendia-se até ao leito urna faixa de luar. E assim que o procurador perdeu a ligação com as coisas que o rodeavam na realidade, começou a caminhar para esse caminho luminoso e por ele subiu directamente para a Lua. No seu sonho, ele ria mesmo de felicidade ao ver como nesse caminho azul e transparente tudo se ordenava de modo tão excelente e incomparável. Caminhava acompanhado de Banga, e a seu lado caminhava o filósofo vagabundo. Discutiam sobre qualquer coisa complexa e importante, e nenhum deles conseguia vencer o outro. Não concordavam em nada um com o outro e, por isso, a sua discussão era particularmente interessante e interminável. Como se compreende, a execução desse dia não passara de um mal-entendido, porque o filósofo que inventara uma coisa tão incrivelmente absurda como a ideia de que todas as pessoas são boas, caminhava a seu lado: logo estava vivo. E, naturalmente, seria horrível pensar sequer na execução daquele homem. Não houvera execução! Não! Eis em que consistia o fascínio daquela viagem pela escada da Lua.
Tinham todo o tempo livre que quisessem, e a tempestade viria só ao anoitecer, e a cobardia era incontestavelmente um dos mais terríveis defeitos. Assim fala Ieshua Ha-Nozrl. Não, filósofo, não concordo: esse é o mais terrível dos defeitos.
Assim, por exemplo, não era o actual procurador da Judeia que era cobarde, mas o antigo tribuno da legião quando, na Planície das Virgens, os furibundos germanos quase despedaçaram o gigante Mata-Ratos. Mas, filósofo, desculpe! Será possível que, com a sua inteligência, possa admitir a ideia de que por causa de um homem que cometeu um crime contra César, o procurador da Judeia arruine a sua carreira?
— Sim, sim — gemeu e soluçou Pilatos no seu sonho. Claro que a arruinaria. Esta manhã ainda o não faria, mas agora, à noite, depois de considerar tudo, concordaria em arruiná-la. Ele faria tudo para salvar da execução esse médico, esse sonhador insensato que decididamente não era culpado de nada!
— Agora estaremos juntos para sempre — dizia-lhe no sonho o esfarrapado filósofo vagabundo, que não se sabe como surgira no caminho do cavaleiro da Lança de Oiro. — Onde estiver um, significa que estará também o outro! Quando falarem de mim, falarão também de ti! Eu, um enjeitado, filho de pais incógnitos, e tu, filho de um rei astrólogo e da filha de um moleiro, a bela Pila.
— Sim, e não te esqueças de falar de mim, filho de um astrólogo — pediu Pilatos no sonho.
E, tendo obtido o assentimento do mendigo de En-Sarid que caminhava a seu lado, o cruel procurador da Judeia chorava e ria de alegria no seu sonho.
Tudo isto era muito bom, mas tornou mais horrível o despertar do Hégemon. Banga pôs-se a rosnar à Lua, e o caminho azul e escorregadio como se rolasse sobre óleo desvaneceu-se diante do procurador. Ele abriu os olhos, e a primeira coisa de que se lembrou foi que a execução tivera lugar. A primeira coisa que o procurador fez foi segurar Banga pela coleira, num gesto habitual. Depois, com os olhos doloridos, procurou a Lua e viu que ela se havia deslocado um pouco para o lado e estava prateada. A sua luz era quebrada por um clarão inquieto e desagradável que brincava no balcão mesmo diante dos seus olhos. Um archote ardia e fumegava nas mãos do centurião Mata-Ratos. Este espreitava pelo canto do olho, com pavor e ódio, o perigoso animal preparado para saltar. — Quieto, Banga — disse o procurador com voz doentia, e tossiu. Protegendo-se da chama com a mão, continuou: — Mesmo de noite, ao luar, não tenho descanso. Oh, deuses! Você também tem uma triste função, Marco. Mutilar soldados…
Marco olhou o procurador com grande estupefacção, e este caiu em si. Para atenuar a impressão causada pelas suas palavras, proferidas sob o efeito do sonho, o procurador disse:
— Não se ofenda, centurião. A minha situação, repito, é ainda pior. Que deseja?
— Chegou o chefe da guarda secreta — anunciou tranquilamente Marco.
— Chame-o, chame-o — ordenou o procurador tossindo para aclarar a garganta e procurando as sandálias com os pés descalços.
A chama vacilou entre as colunas, as caligas do centurião soavam sobre o mosaico. Mata-Ratos saiu para o jardim.
— Mesmo ao luar não tenho paz — disse o procurador para si mesmo, rangendo os dentes.
No balcão surgiu, em vez do centurião, o homem do capuz.
— Banga, quieto — disse suavemente o procurador, apertando o cachaço do cão.
Antes de começar a falar, Afrânio, segundo o seu hábito, olhou em volta, foi espreitar na sombra e, convencendo-se de que além de Banga não havia ali ninguém a mais, disse em voz baixa:
— Peço-lhe que me entregue ao tribunal, procurador. Tinha razão. Eu não consegui proteger Judas de Carioth. Mataram-no. Peço-lhe que me demita e me entregue ao tribunal.
Afrânio teve a sensação de que quatro olhos o fitavam — dois de cão e dois de lobo.
Retirou de sob a sua clâmide uma bolsa manchada de sangue, selada com dois selos.
— Eis o saco de dinheiro que os assassinos atiraram para a casa do sumo sacerdote. O sangue que mancha esta bolsa é o sangue de Judas de Carioth.
— Interessante, quanto tem lá dentro? — perguntou Pilatos, inclinando-se para a bolsa.
— Trinta tetradracmas.
— É pouco — disse o procurador sorrindo.
Afrânio ficou calado.
— Onde está o morto?
— Isso não sei — respondeu com calma dignidade o homem que nunca se separava do seu capuz. — Hoje de manhã começaremos as buscas.
O procurador sobressaltou-se, largou as correias das sandálias, que não conseguia atar.
— Mas tem a certeza de que o mataram?
O procurador obteve uma resposta seca:
— Eu, procurador, trabalho há quinze anos na Judeia. Comecei a servir sob Valério Gratio. Não preciso de ver um cadáver para dizer que um homem foi morto, e anuncio-lhe que aquele a quem chamavam Judas de Carioth foi assassinado há algumas horas.
— Perdoe-me, Afrânio — respondeu Pilatos. — Não estou ainda bem acordado, por isso falei assim. Durmo mal — o procurador sorriu — e vejo constantemente em sonho um raio de luar. Imagine, que cómico. Sonhei que passeava sobre esse raio. Bem gostaria de saber quais são as suas hipóteses em relação a este caso. Onde tenciona ir procurá-lo? Sente-se, chefe dos serviços secretos.
Afrânio inclinou-se, puxou a poltrona para mais perto da cama e sentou-se, fazendo tilintar a sua espada no chão.
— Penso ir procurá-lo nas proximidades do lagar de azeite, no jardim de Getsémani,
— Bem, bem. E porquê justamente aí?
— Segundo os meus cálculos, Hégemon, Judas não foi morto em Jerusalém, mas também não muito longe da cidade. Foi morto nas proximidades de Jerusalém. Considero-o um dos mais eminentes especialistas no seu ofício. Não sei de resto qual é a situação em Roma, mas nas colónias não há quem se lhe compare. Explique-me porquê?
— Não posso em nenhum caso admitir a ideia — disse Afrânio em voz baixa — de que Judas caísse nas mãos de quaisquer indivíduos suspeitos dentro dos limites da cidade. Não é possível assassinar secretamente nas ruas. Portanto, teriam que atraí-lo a uma cave qualquer. Mas os serviços já o procuraram na Cidade Baixa, e se ele aí estivesse encontravam-no de certeza. Mas ele não está na cidade, isso posso-lho garantir. Se o tivessem assassinado longe da cidade, este embrulho com o dinheiro não poderia ter sido lançado fora tão depressa. Ele foi morto perto da cidade. Conseguiram atraí-lo para fora da cidade.
— Não compreendo como seria possível fazê-lo.
— Sim, procurador, esse é o problema mais difícil deste caso, e eu nem sei se conseguirei resolvê-lo.
— Efectivamente, é um mistério! Numa noite de festa um crente sai da cidade não se sabe porquê, abandonando a refeição pascal, e morre. Quem e como pôde atraí-lo? Não terá sido uma mulher? — perguntou o procurador? Afrânio respondeu tranquilamente e com ar sério: — De modo nenhum, procurador. Essa possibilidade está posta de lado. É preciso raciocinar logicamente. Quem estava interessado na morte de Judas? Uns sonhadores vagabundos, um pequeno círculo em que, antes de mais nada, não havia mulheres. Para casar, procurador, é preciso dinheiro, para pôr um homem no mundo também é preciso dinheiro. Mas para matar um homem com a ajuda de uma mulher, é preciso muito dinheiro, e não há vagabundo que o tenha. Não houve mulher neste caso, procurador. Direi mesmo mais: uma tal explicação do assassínio só pode afastar-me da pista, dificultar-me a investigação e confundir-me.
— Vejo que tem toda a razão, Afrânio — concordou Pilatos. Eu apenas me permiti emitir uma hipótese.
— Ela é infelizmente errónea, procurador.
— Pois bem. Mas, e então?! — exclamou o procurador, encarando Afrânio com ávida curiosidade.
— Penso que é mesmo assim uma questão de dinheiro.
— Notável ideia! Mas quem e porquê poderia propor-lhe dinheiro, de noite, fora da cidade?
— Oh não, procurador, não é isso. Tenho uma única hipótese, e se ela é falsa, não encontrarei provavelmente outras explicações.
— Afrânio inclinou-se para mais perto do procurador e murmurou: — Judas queria esconder o dinheiro num lugar afastado, que só ele conhecesse.
— Explicação muito subtil. Foi pelos vistos assim que as coisas se passaram. Agora compreendo-o: ele foi atraído não por pessoas, mas pelo seu próprio pensamento. Sim, sim, é isso.
— É isso. Judas era desconfiado. Escondia o dinheiro das pessoas.
— Sim! Disse em Getsérnani? E por que razão tenciona procurá-lo precisamente aí? Confesso que não compreendo.
— Oh, procurador, é muito simples. Ninguém esconderá dinheiro nos caminhos, em lugares abertos e desertos. Judas não estava nem na estrada de Hébron, nem na estrada da Betânia. Ele devia estar num lugar abrigado, escondido, com árvores. Isso é muito simples. E a não ser Getsémani, não existem outros lugares assim nas proximidades de Jerusalém. Ele não pode ter ido muito longe.
— Convenceu-me inteiramente. E então, que fazer agora?
— Vou começar a procurar os assassinos que seguiram Judas para fora da cidade, e eu, entretanto, como já lhe anunciei, serei julgado em tribunal.
— Porquê?
— A minha guarda perdeu-o de vista ontem à noite no bazar, depois de ele ter abandonado o palácio de Caifás. Não compreendo como foi que isso aconteceu. Nunca na minha vida me tinha acontecido uma coisa assim. Ele tinha ficado sob vigilância logo depois da nossa conversa. Mas na zona do bazar meteu-se não se sabe por onde, deu tais voltas que desapareceu sem deixar rasto.
— Bem. Declaro-lhe que não acho necessário levá-lo a tribunal. Você fez tudo o que podia, e ninguém no mundo — aqui o procurador sorriu — poderia fazer mais! Castigue os agentes que perderam Judas. Mas previno-o de que não quero que o castigo seja demasiado severo. No fim de contas, nós fizemos tudo o que era possível para proteger esse miserável! Ah sim, esquecia-me de perguntar — o procurador passou a mão pela testa —, como arranjaram eles maneira de atirar o dinheiro a Caifás?
— Sabe, procurador.. Isso não é particularmente complicado. Os vingadores foram pelas traseiras do palácio de Caifás, onde a ruela domina sobre o pátio das traseiras. Atiraram o embrulho por cima do muro.
— Com um bilhete?
— Sim, exactamente como supôs, procurador. Sim, de resto… respondeu Afrânio quebrando o selo do pacote e mostrando o seu conteúdo a Pilatos.
— Que está a fazer, Afrânio? Isso são os selos do Templo.
— O procurador não precisa de se inquietar com essa questão respondeu Afrânio, voltando a fechar o embrulho.
Não me diga que tem todos os selos? — perguntou Pilatos, sorrindo.
— Não pode ser de outro modo, procurador — respondeu Afrânio sem rir, em tom severo.
— Imagino o que terá sido no palácio de Caifás.
— Sim, procurador, isso provocou uma grande emoção. Eles chamaram-me imediatamente.
Mesmo na sombra via-se cintilar os olhos de Pilatos.
— Isso é interessante, interessante…
— Atrevo-me a discordar, procurador, não foi interessante. Foi uma coisa enfadonha e cansativa. Quando perguntei se no palácio de Caifás tinham pago dinheiro a alguém, disseram-me categoricamente que nada disso se passara.
— Ah sim? Pois se não pagaram, não pagaram. Tanto mais difícil será encontrar os assassinos.
— Absolutamente certo, procurador.
— Mas, Afrânio, há uma coisa que agora me ocorreu: não se terá ele suicidado?
— Oh não, procurador — respondeu Afrânio, recostando-se na poltrona, com espanto. — Desculpe, mas isso é absolutamente inverosímil!
— Ah, nesta cidade tudo é verosímil! Estou pronto a apostar que dentro de muito pouco tempo os rumores de suicídio percorrerão toda a cidade.
Afrânio fixou o olhar no procurador, reflectiu e respondeu:
— Isso é possível, procurador. Pelos vistos o procurador continuava a não poder desligar-se daquela questão do assassínio do homem de Carioth, embora tudo estivesse já claro, e perguntou mesmo com um certo tom sonhador:
— Pois eu queria ter visto como o mataram eles.
— Ele foi morto com extrema arte, procurador — respondeu Afrânio, olhando o procurador com alguma ironia.
— E como pode saber isso?
— Faça o favor de prestar atenção à bolsa, procurador — respondeu Afrânio. — Asseguro-lhe que o sangue de Judas jorrou em torrente. Eu, procurador, já vi muitos assassínios na minha vida!
— De modo que ele, evidentemente, não voltará a erguer-se?
— Não, procurador, ele há-de erguer-se — respondeu Afrânio sorrindo filosoficamente — quando sobre ele soar a trombe— ta do Messias por quem eles aqui esperam. Mas não se erguerá antes disso!
— Basta, Afrânio! Essa questão está clara. Passemos ao enterro.
— Os condenados foram enterrados, procurador.
— Oh, Afrânio, entregá-lo a tribunal seria um crime. Você é digno da mais alta recompensa. Como se passou isso?
Afrânio começou a contar, e contou que enquanto ele próprio se ocupava do caso de Judas, um destacamento da guarda secreta, comandado por um seu ajudante, chegou à colina ao cair da noite. Um dos corpos não se encontrava ali. Pilatos estremeceu e disse em voz rouca:
— Ah, como não previ eu isso?
— Não precisa inquietar-se, procurador — disse Afrânio e continuou o seu relato: — Apanharam os corpos de Dismas e de Gestas, com os olhos perfurados pelos bicos das aves de rapina e iniciaram imediatamente a procura do terceiro corpo. Não tardaram a descobri-lo. Um homem…
— Mateus Levi — disse Pilatos, não em tom interrogativo, mas afirmativo.
— Sim, procurador.. Mateus Levi tinha-se escondido numa gruta da vertente norte do monte Calvário, esperando pela noite. O corpo nu de Ieshua Fla-Nozri estava junto dele. Quando a guarda entrou na gruta com um archote, Levi teve um acesso de raiva e de desespero. Gritava que não cometera nenhum crime e que qualquer homem, segundo a lei, tinha o direito de enterrar um criminoso executado, se o desejasse. Mateus Levi dizia que não queria abandonar aquele corpo. Estava agitado, gritava coisas desconexas, ora pedia, ora ameaçava e amaldiçoava…
— Foi necessário Prendê-lo? — perguntou sombriamente Pilatos.
— Não, procurador, não — respondeu Afrânio num tom muito tranquilizador. — Foi possível acalmar o louco insolente, explicando-lhe que o corpo seria enterrado. Quando compreendeu o que lhe diziam, Levi acalmou-se, mas declarou que não se iria embora e que desejava participar no enterro. Disse que não se iria embora nem que tentassem matá-lo, e ofereceu mesmo para esse fim uma faca de pão que tinha consigo.
— Mandaram-no embora? — perguntou Pilatos numa voz estrangulada.
— Não, procurador, não. O meu ajudante permitiu-lhe que participasse no enterro.
— Qual dos seus ajudantes dirigiu essa acção? — perguntou Pilatos.
— Tolmai — respondeu Afrânio e acrescentou, inquieto: Ele cometeu algum erro?
— Continue — respondeu Pilatos. — Não houve erro nenhum. Eu começo mesmo a ficar embaraçado, Afrânio, pois pelos vistos estou a tratar com um homem que nunca comete erros. E é você esse homem.
— Puseram Mateus Levi sobre uma carroça juntamente com os corpos dos condenados e duas horas depois alcançaram um desfiladeiro deserto a norte de Jerusalém. Aí, o destacamento, trabalhando por turnos, cavou numa hora uma profunda cova e nela enterrou os três corpos.
— Nus?
— Não, procurador, o destacamento levara consigo túnicas para esse fim. E puseram anéis nos dedos dos condenados. A leshua um anel com uma estria, a Dismas com duas e a Gestas com três. A cova foi tapada e coberta com pedras. Tolmai conhece o sinal identificativo.
— Ali, se eu pudesse ter previsto! — disse Pilatos, crispando o rosto. — Pois eu precisava de falar com Mateus Levi…
— Ele está aqui, procurador! Pilatos, arregalando os olhos, fitou Afrânio por algum tempo, e depois disse:
— Agradeço-lhe por tudo o que foi feito neste caso. Peço-lhe que me mande Tolmai amanhã, e que o informe antecipadamente de que estou satisfeito com ele. Quanto a si, Afrânio — o procurador tirou de um bolso do cinturão que estava sobre a mesa, um anel que deu ao chefe dos serviços secretos —, peço-lhe que aceite isto como recordação.
Afrânio indignou-se, murmurando:
— É uma grande honra, procurador. Peço-lhe que recompense o destacamento que procedeu ao enterro. E que repreenda os agentes que perderam Judas. E agora mandem-me Mateus Levi. Preciso dos pormenores sobre o caso de leshua.
— Às suas ordens, procurador — respondeu Afrânio, recuando e inclinando-se, enquanto o procurador batia as palmas e gritava:
— Eh, aqui! Luzes à colunata! Afrânio saíra para o jardim, e atrás de Pilatos brilhavam já as luzes nas mãos dos criados. Três castiçais foram colocados sobre a mesa diante do procurador, e a noite luarenta retirou-se imediata— mente para o jardim, como se Afrânio a tivesse levado consigo. No lugar de Afrânio entrou no terraço um desconhecido de pequena estatura, muito magro, ao lado do gigantesco centurião. Este último, a um olhar do procurador, recuou imediatamente para o jardim e desapareceu.
O procurador estudou o recém-chegado com olhos ávidos e um pouco assustados. Assim se olha alguém de quem muito se ouviu falar, em quem se pensou muito, e que finalmente apareceu.
O recém-chegado, homem dos seus quarenta anos, era escuro, estava esfarrapado, coberto de lama seca, e olhava de través com olhos selvagens Em suma, tinha um aspecto repugnante e parecia antes um mendigo da cidade, como os há em grande quantidade nos terraços do Templo ou nos bazares da suja e ruidosa Cidade Baixa.
O silêncio prolongou-se por muito tempo, e foi interrompido pelo estranho comportamento do homem conduzido à presença de Pilatos. O seu rosto alterou-se, ele vacilou, e se não se tivesse agarrado com a mão suja ao bordo da mesa, teria caído.
— Que tens? — perguntou Pilatos.
— Nada — respondeu Mateus Levi e fez um movimento como de quem engole qualquer coisa, e o seu pescoço nu, magro e sujo dilatou-se e de novo encolheu.
— Que tens tu? Responde — repetiu Pilatos.
— Estou cansado — respondeu Levi olhando sombriamente para o chão.
— Senta-te — murmurou Pilatos e indicou-lhe a poltrona.
Levi olhou o procurador com desconfiança, aproximou-se da poltrona, olhou de soslaio, amedrontado, os braços dourados e sentou-se não na poltrona, mas ao lado desta no chão.
— Explica-me, porque não te sentaste na poltrona? — perguntou Pilatos.
— Estou enlameado, iria sujá-la — respondeu Levi, olhando para o chão.
— Vão já trazer-te de comer.
— Não quero comer — disse Levi.
— Para quê mentir? — perguntou Pilatos. — Pois se não comeste nada em todo o dia, e talvez há mais tempo. Bom, está bem, não comas. Chamei-te para que me mostrasses a faca que tinhas contigo.
— Os soldados tiraram-ma quando me trouxeram para aqui respondeu Levi e acrescentou, triste: — Têm que ma devolver, devo entregá-la ao dono, a quem a roubei.
— Para quê?
— Para cortar as cordas — respondeu Levi.
— Marco! — gritou o procurador, e o centurião surgiu sob as colunas. — Dê-me a faca dele!
O centurião retirou de uma das duas bainhas que tinha à cintura uma faca de pão suja e entregou-a ao procurador. Depois afastou-se.
— A quem roubaste a faca?
— Numa padaria junto à Porta de Hébron, logo à esquerda de quem entra na cidade.
Pilatos examinou a lâmina larga, verificou com um dedo se a faca estava afiada e disse:
— Quanto à faca não te preocupes, ela será devolvida à pada— ria. Agora preciso de outra coisa: mostra-me o pergaminho que trazes contigo e onde estão escritas as palavras de leshua.
Levi olhou Pilatos com ódio e sorriu com um sorriso tão mau que o seu rosto se deformou completamente.
— Quer tirar-me tudo? Até a última coisa que me resta? perguntou ele.
— Eu não disse: dá-me — respondeu Pilatos. — Disse: mostra-me.
Levi remexeu debaixo da camisa e retirou um rolo de pergaminho. Pilatos pegou-lhe, desenrolou-o, estendeu-o entre as luzes, e apertando os olhos, pôs-se a estudar os sinais quase indecifráveis nele traçados a tinta. Era difícil entender aquelas linhas toscas e Pilatos franziu os olhos e debruçou-se até muito perto do pergaminho, seguindo as linhas com o dedo. Conseguiu em todo o caso compreender que o texto constituía uma sequência desconexa de máximas, de datas, de notas domésticas e fragmentos poéticos. Conseguiu ler alguma coisa: “Não há morte… Ontem comemos figos temporãos doces de Primavera… “.
Com o rosto tenso do esforço, Pilatos continuou a ler, franzindo os olhos: “Nós veremos o rio puro da água da vida… A humanidade olhará o Sol através de um cristal transparente…”
Aqui Pilatos estremeceu. Nas últimas linhas do pergaminho decifrou as palavras: “… maior defeito… cobardia”.
Pilatos enrolou o pergaminho e, num gesto brusco, devolveu-o a Levi.
— Toma — disse ele e, depois de um silêncio, acrescentou: Tu, ao que vejo, és um homem de leituras, e não há razão para errares por aí sozinho, vestido como um mendigo, sem domicílio. Tenho em Cesareia uma grande biblioteca, sou muito rico, e quero tomar-te ao meu serviço. Ordenarás e conservarás os papiros, serás alimentado e vestido.
Levi levantou-se e respondeu:
— Não, não quero.
— Porquê? — perguntou o procurador, de rosto ensombrado. Antipatizas comigo, tens medo de mim?
O mesmo sorriso mau deformou o rosto de Levi, e ele disse:
— Não, porque tu terás medo de mim. Não te será muito fácil encarar-me depois que o mataste.
— Cala-te — respondeu Pilatos. — Toma algum dinheiro. Levi abanou negativamente a cabeça, e o procurador continuou:
— Sei que te consideras discípulo de leshua, mas digo-te que não compreendeste nada daquilo que ele te ensinou. Pois que se assim fosse, aceitarias forçosamente qualquer coisa de mim. Lembra-te de que antes de morrer ele disse que não acusava ninguém.
— Pilatos ergueu significativamente um dedo, o seu rosto tremeu.
— E ele mesmo aceitaria por certo qualquer coisa. Tu és cruel, e ele não era cruel. Aonde vais?
Levi aproximou-se da mesa, apoiou-se nela com as duas mãos e, fixando o procurador com olhos ardentes, murmurou:
— Tu, Hégemon, fica sabendo, que eu vou matar um homem em Jerusalém. Quero dizer-te isto, para que saibas que ainda haverá sangue.
— Também eu sei que ainda haverá sangue — respondeu Pilatos. — As tuas palavras não me surpreendem. Tu, naturalmente, queres matar-me.
— A ti não conseguirei matar-te — respondeu Levi, mostrando os dentes num sorriso. — Não sou assim tão tolo para ter essa esperança. Mas matarei Judas de Carioth, e consagrarei a isso o que me resta de vida.
Os olhos do procurador brilharam de prazer, e ele, chamando com o dedo Mateus Levi para mais perto de si, disse-lhe:
— Não conseguirás fazê-lo, não te incomodes. Judas já foi morto esta noite.
Levi afastou-se da mesa de um salto, de olhar esgazeado, e gritou:
— Quem o fez?
— Não tenhas ciúmes — respondeu Pilatos arreganhando os dentes e esfregando as mãos. — Receio que houvesse outros partidários dele além de ti.
— Quem o fez? — repetiu Levi num sussurro.
— Fui eu — respondeu Pilatos. Levi abriu a boca, olhou o procurador, e este disse:
— Isso é, evidentemente, pouca coisa, mas em todo o caso fui eu que o fiz. — E acrescentou: — E então, agora aceitas alguma coisa?
Levi pensou, cedeu um pouco e, por fim, disse:
— Ordena que me tragam um bocado de pergaminho limpo.
Passou um hora. Levi não estava já no palácio. O silêncio do amanhecer era agora quebrado apenas pelo ruído suave dos passos das sentinelas no jardim. A Lua descoloria-se rapidamente, no outro extremo do céu avistava-se a pequena mancha esbranquiçada da estrela da manhã. As luzes estavam apagadas há muito. O procurador encontrava-se estendido no leito. Com a mão sob a face, dormia e respirava silenciosamente. A seu lado dormia Banga.
Foi assim que Pôncio Pilatos, quinto procurador da Judeia, acolheu o alvorecer do décimo quinto dia de Nissã.