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CAPÍTULO IX

Nos dois dias seguintes, fiz o recepcionista telefonar para o aeroporto uma meia dúzia de vezes. A resposta era sempre a mesma. Ninguém do clube de esqui tinha comunicado a troca de uma mala.

Andando para um lado e para o outro no quarto sombrio, meus nervos a ponto de estalarem, lembrei-me do velho ditado, segundo o qual as coisas más vêm sempre em três. Ferris morrera, Drusack estava no hospital e, agora, isto. Deveria ter tido mais cuidado? Como homem supersticioso, deveria ter ligado mais para a superstição. O quarto de hotel, que à primeira vista me parecera tão acolhedor, agora só fazia aumentar minha depressão, e resolvi dar longos passeios a pé pela cidade, esperando cansar-me o suficiente para, pelo menos, dormir à noite. O clima de Zurique no inverno não conduz à alegria. Sob o céu plúmbeo, até mesmo o lago parecia ter passado séculos numa caixa-forte.

No segundo dia, reconheci-me derrotado e resolvi, finalmente, tirar para fora as coisas da mala que trouxera por engano. Não havia nela nada que identificasse o seu proprietário, nem livros de endereços, nem talões dê cheques, nem livros de espécie alguma, nem contas ou fotografias, assinadas ou não, nem sequer monogramas. Seu dono devia ter uma saúde de ferro… nenhum estojo de barbear de couro, não havia nenhum frasco de remédio que pudesse ter o nome no rótulo, apenas pasta e escova de dentes, gilete, aspirina, talco e um vidro de água-de-colônia.

Comecei a suar. Iria eu ser eternamente perseguido por fantasmas, que penetravam um momento na minha vida, alteravam-na e depois saíam dela, sem se identificar?

Recordando histórias policiais que tinha lido, procurei etiquetas de alfaiates nos paletós dos ternos. Embora as roupas fossem bastante boas, todas pareciam confeccionadas por grandes fabricantes, que as distribuíam a lojas espalhadas pelos Estados Unidos. Algumas camisas tinham marcas de lavanderia.

Era possível que, com tempo, o fbi pudesse seguir essa pista, mas para isso era preciso que eu tivesse coragem de lhe pedir ajuda.

Havia uma calça de esqui vermelho-vivo e um anoraque de náilon amarelo-limão. Abanei a cabeça. Que se poderia esperar de um homem capaz de surgir nas pistas de esqui parecendo uma bandeira de algum pequeno país tropical? Até que combinava com o paletó de quadriculado gigante. Tinha de prestar atenção em todos os esquiadores vestidos de maneira berrante que me surgissem pela frente.

Havia uma pista, se se lhe podia chamar assim. Junto com os dois ternos, a calça de flanela e o paletó quadriculado, havia um smoking. Talvez isso significasse que o meu homem pretendia passar pelo menos parte do seu tempo num lugar elegante, onde as pessoas se vestiam para jantar. O único lugar desse tipo de que eu tinha ouvido falar era o Palace Hotel de St.Moritz, mas devia haver muitos outros. E a presença de um smoking também poderia querer dizer que seu dono pretendia ir a Londres ou a Paris, ou a alguma outra cidade onde precisasse vestir-se a rigor. Afinal de contas, a Europa é muito grande.

Pensei em telefonar para o escritório do clube de esqui, em Nova York, explicando que tinha havido uma confusão de malas no aeroporto de Zurique e pedindo uma cópia da lista com os nomes das pessoas que tinham viajado comigo, bem como os seus endereços. Cheguei a pensar em mandar cartas a cada um dos trezentos e poucos passageiros, contando a troca de malas e pedindo a cada um que me dissesse se, por acaso, não perdera uma mala, para que eu pudesse devolver ao seu legítimo dono a que estava em meu poder. Mas, um minuto ou dois após ter pensado nesse plano, percebi que não adiantaria. Depois daqueles dois dias infrutíferos, tinha certeza de que a pessoa que estivesse com minha mala não estava querendo devolvê-la.

Procurando fazer uma idéia de como o ladrão (que era como eu agora chamava o homem) seria, experimentei algumas de suas roupas. Vesti uma das camisas. No colarinho, assentava-me bem. Já as mangas estavam uns dois ou três centímetros curtas. Que tal eu andar com uma fita métrica e inventar uma razão plausível para medir os colarinhos e os braços de todos os americanos que passavam o inverno na Europa? Na mala, havia também dois pares de bons sapatos, uns marrons e outros pretos, fabricados por Whitehouse & Hardy, com lojas em quase todas as grandes cidades dos Estados Unidos. Experimentei-os.

Cabiam-me perfeitamente. Pelo menos, meus pés ficariam secos nesse inverno.

O paletó quadriculado também me assentou bastante bem – um pouco largo, mas não muito. Seu dono devia ser jovem, visto não ter barriga… mas, afinal de contas, o homem esquiava e devia estar em boa forma física, qualquer que fosse a sua idade. A calça também me ficava um pouco curta. Isso significava que o dono era um pouco mais baixo do que eu. Pelo menos, não precisava perder meu tempo procurando gigantes, homens gordos ou anões.

Esperava que o ladrão fosse tão econômico quanto eu pretendia ser e usasse as roupas que estavam em minha mala, embora não lhe ficassem cem por cento, como me acontecia com as dele. Tinha certeza de que, se visse passar um terno meu, eu o reconheceria. Compreendi que me estava atendo a possibilidades muito tênues… com setenta mil dólares no bolso, naquela hora ele provavelmente estaria tirando as medidas nos melhores alfaiates da Europa. Senti a mesma espécie de dor que imaginava que um marido poderia ter se soubesse que, naquele exato momento, sua bela esposa estava na cama com outro homem. Com angústia, percebi que me havia casado com um certo número de notas de cem dólares. Não era racional. Afinal de contas, eu estava mais rico do que fora havia apenas duas semanas. Mas que se podia fazer? Era difícil ser racional.

Entrementes, eu tinha cerca de cinco mil dólares em dinheiro comigo. Tinha cinco mil dólares de tempo para encontrar um homem cujo pescoço medisse quarenta e dois centímetros de diâmetro, com braços de oitenta e cinco centímetros, sapatos tamanho 10 e nenhuma intenção de devolver setenta mil dólares que lhe tinham caído, quase literalmente, do céu.

Enquanto refazia cuidadosamente a mala, colocando o paletó esporte em cima, conforme o encontrara, pensei: "Bem, pelo menos resta um consolo… não vou precisar gastar dinheiro em roupas para substituir as que perdi. O Senhor me deu e o Senhor me tirou". Não sei o que teria feito se a mala estivesse cheia de roupas de mulher.

Paguei a conta do hotel, peguei um táxi para o Behnhof e comprei uma passagem de primeira classe para St. Moritz. As únicas pessoas com quem eu tinha falado no avião eram o casal que ia esquiar no Corvatch, em St. Moritz. Não me haviam dito seus nomes ou onde iam hospedar-se. Sabia que as chances de eles me poderem fornecer qualquer informação útil, se eu os encontrasse, eram quase ínfimas. Mas tinha de começar por algum lugar. Zurique já não tinha quaisquer encantos para mim. Chovera nos dois dias que eu passara lá.

Em Chur, a uma hora e meia de Zurique, tive de baldear para a linha de bitola estreita que levava ao Engadine. Percorri o carro de primeira classe até descobrir um compartimento vazio. Entrei e pus o meu sobretudo e as duas malas no porta-bagagens, sobre os assentos.

A atmosfera naquele trem era muito diferente da que reinara no expresso de Zurique, cheio de cidadãos sérios e sólidos, lendo as páginas financeiras do Züricber Zeitung. Embarcando nas carruagens de brinquedo, en route para as estações de esqui, viam-se grupos de jovens, muitos já com as roupas de esquiar, e mulheres bonitas e bem vestidas, com caros casacos de pele e acompanhantes endinheirados. Havia no ar um clima de férias que eu não estava disposto a compartilhar. Viera à caça, queria pensar e esperava que ninguém entrasse no compartimento e me perturbasse. Para desencorajar companhia, fechei a porta corrediça. Mas, pouco antes de o trem partir, um homem abriu a porta e perguntou, em inglês:

– Desculpe, mas esses lugares estão ocupados?

– Acho que não – respondi, o mais rispidamente possível.

– Meu bem – disse o homem para alguém no corredor. – Aqui. – Uma loura vistosa e consideravelmente mais jovem do que o homem, vestindo um casaco de pele de leopardo e um chapéu igual, entrou no compartimento. Lamentei brevemente todos os animais ameaçados de extinção. A loura carregava um custoso porta-jóias de couro e tresandava a perfume almiscarado. Um enorme anel de brilhante quase lhe escondia a aliança. Se o mundo fosse mais bem organizado, haveria um motim de carregadores e de outros trabalhadores num raio de dez quadras a partir da estação. Mas isso era impensável na Suíça.

O homem não tinha bagagem, levava apenas algumas revistas e um International Herald Tribune debaixo do braço. Jogou as revistas e o jornal no assento em frente ao meu e ajudou a loura a tirar o casaco. Ao procurar colocá-lo no porta-bagagens, a beira do casaco roçou-me o rosto, fazendo-me cócegas e sufocando-me numa onda de perfume.

– Oh! – exclamou a loura. – Desculpe.

Sorri sombriamente, fazendo um esforço para não coçar o rosto.

– É um prazer – menti.

Ela recompensou-me com um sorriso. Não devia ter mais de vinte e oito anos e tinha todas as razões para achar que um sorriso seu era realmente uma recompensa. Eu tinha certeza de que ela não era a primeira mulher daquele homem, talvez nem mesmo a segunda. Antipatizei com ela logo de saída.

O homem tirou o casaco de pele de carneiro que estava usando e o chapéu tirolês, verde com uma peninha, e atirou-os para cima do porta-bagagens. Em volta do pescoço, tinha uma echarpe de foulard de seda, que não tirou. Sentou-se e apanhou uma caixa de charutos.

– Bill – queixou-se a mulher.

– Estou de férias, meu bem. Deixe-me fumar sossegado. – E abriu a caixa de charutos.

– Espero que o senhor não se incomode que meu marido fume – disse a loura.

– Em absoluto. – Pelo menos, abafaria o horrível perfume.

O homem estendeu-me a caixa de charutos.

– Posso oferecer-lhe um?

– Obrigado. Não fumo – menti.

Ele apanhou uma pequena tesoura e cortou a ponta de um charuto. Tinha mãos grossas, brutais, manicuradas, que combinavam com seu rosto avermelhado, de queixo duro e olhos frios e azuis. Eu não gostaria de trabalhar com um homem assim, ou de ser seu filho. Calculei que tivesse bem mais de quarenta anos.

– Puros havanas – comentou ele. – Quase impossíveis de encontrar na nossa terra. Os suíços, graças a Deus, são neutros em relação a Castro. – Usou um isqueiro de ouro para acender o charuto e reclinou-se no assento, fumando confortavelmente.

Olhei pela janela para o campo coberto de neve. Também tinha pensado que ia gozar umas férias. Pela primeira vez, passou-me pela cabeça que talvez devesse saltar na próxima estação e voltar para casa. Mas para casa, onde? Pensei em Drusack, que não estava indo para St. Moritz.

O trem entrou num túnel e dentro do compartimento ficou escuro como breu. Desejei que o túnel nunca mais acabasse. Sentindo pena de mim mesmo, lembrei-me das noites no St. Augustine e pensei: a escuridão é o meu elemento.

Pouco depois de sairmos do túnel, estávamos em pleno sol. Tínhamos saído da nuvem cinzenta que pairava sobre a planície suíça. O sol era como que uma afronta à minha sensibilidade. O homem agora estava cochilando, a cabeça jogada para trás, o charuto apagado no cinzeiro. A mulher lia os quadrinhos do Herald Tribune, uma expressão de êxtase no rosto. Parecia uma boba, lábios apertados, olhos infantis sob o chapéu de leopardo. Era isso o que eu pensara que o dinheiro me compraria?

Ela percebeu que eu a estava observando e olhou para mim, rindo coquetemente.

– Sou tarada por histórias em quadrinhos – falou. – Tenho sempre medo de que o Rip Kirby seja morto.

Sorri sem vontade e olhei para o solitário no dedo dela, ganho, sem dúvida, em honesto matrimônio. Ela olhou para mim de esguelha. Apostei como nunca olhava para ninguém de frente.

– Será que já não o vi antes? – perguntou.

– Talvez – respondi.

– O senhor, não viajou no avião de quarta-feira à noite? No avião do clube?

– Viajei.

– Sabia que o conhecia de algum lugar. Já esteve em Sun Valley?

– Não. Nunca estive lá.

– Essa é a grande vantagem do esqui – falou ela. – A gente encontra sempre as mesmas pessoas.

O homem resmungou, despertado pelo som de nossas vozes. Acordando, seus olhos encararam-me com hostilidade. Tive a impressão de que a hostilidade era a sua condição natural e básica, e de que o tinha surpreendido antes que ele tivesse tido tempo de afivelar a máscara que usava em sociedade.

– Bill – disse a mulher -, este senhor veio no avião conosco. – Pela maneira com que ela o disse, parecia que tinha sido um enorme prazer para todos nós.

– Ah, sim? – perguntou ele.

– Adoro viajar com americanos – continuou a mulher. – Por causa da língua e de tudo o mais. Os europeus fazem a gente se sentir tão burra! Acho que devíamos comemorar. – Abriu o estojo de jóias, que pousara no assento a seu lado, e dele tirou uma elegante garrafinha de prata. Havia também três pequenos copos de metal, um dentro do outro, que ela distribuiu entre nós. – Espero que o senhor goste do conhaque – disse ela, enchendo cuidadosamente os copos. Minha mão estava tremendo e um pouco de conhaque derramou sobre ela.

– Oh, desculpe – disse a loura.

– Não foi nada – retruquei. Minha mão estava tremendo porque o homem tirara a echarpe de foulard e, pela primeira vez, eu lhe vira a gravata: vermelho-escura e de lã. Ou era uma gravata que eu tinha posto na mala, ou outra exatamente igual. Cruzou as pernas e olhei para os seus sapatos. Não eram novos, mas eram iguais a um par que eu tinha na mala perdida.

– O primeiro brinde é para aquele que primeiro partir uma perna, este ano – disse o homem, erguendo seu copo de metal e rindo brutamente. Eu tinha certeza de que ele nunca partira nada. Era o tipo do homem que nunca estivera doente e que não carregava nada além de aspirina, quando viajava.

Tomei meu conhaque de um só gole. Estava mesmo precisando; e gostei, quando a loura voltou a encher meu copo. Ergui-o galantemente à saúde dela e forcei um sorriso, esperando que o trem descarrilhasse e ela e o marido ficassem esmagados, de modo a que eu pudesse revistá-los, e à bagagem, tranqüilamente.

– Não há dúvida de que vocês sabem viajar – disse eu, num tom de exagerada admiração.

– Estar sempre preparado, em terra estrangeira – sentenciou o homem. – Essa é a nossa divisa. – Estendeu-me a mão. – Meu nome é Bill. Bill Sloane. E a mocinha aí é Flora.

Apertei a mão dele e disse-lhe meu nome. Sua mão era dura e fria. A "mocinha" (que devia ter mais de vinte e cinco) sorriu coquetemente e serviu-me um pouco mais de conhaque.

Quando chegamos a St. Moritz, já parecíamos velhos amigos. Fiquei sabendo que moravam em Greenwich, Connecticut; que o Sr. Sloane era bamba no golfe, empreiteiro e um self-made man; que, como eu tinha imaginado, Flora não era a sua primeira mulher; que ele tinha um filho estudando em Deerfield, o qual, graças a Deus, não usava o cabelo comprido; que votara em Nixon e fora por duas vezes à Casa Branca; que o escândalo Watergate estaria esquecido dali a um mês e os democratas se arrependeriam de tê-lo trazido à baila; que aquela era a terceira vez que eles iam a St. Moritz, que tinham ficado dois dias em Zurique para que Flora pudesse fazer umas compras, e que iam hospedar-se no Palace Hotel.

– Onde você vai ficar, Doug? – perguntou Sloane.

– No Palace – respondi, sem hesitar. Estava muito acima das minhas atuais posses, mas eu não ia perder de vista os meus novos amigos. – Ouvi dizer que é ótimo.

Quando chegamos a St.-Moritz, fiz questão de esperar com eles até que as suas malas fossem desembarcadas do bagageiro. A expressão deles não mudou, quando tirei a mala azul do porta-bagagens.

– Sabe que sua mala está aberta? – perguntou Sloane.

– O fecho está quebrado – respondi.

– É melhor mandar consertá-lo – disse ele. – St. Moritz está cheia de italianos. – Aquele interesse poderia significar algo. Ou nada. Os dois podiam ser os melhores atores do mundo.

Entre os dois, tinham oito malas, todas novas, nenhuma igual à minha. Isso também podia não significar nada. Tivemos que chamar um táxi extra para carregar a bagagem e o carro seguiu-nos, ladeira acima, através das ruas nevadas e movimentadas da cidade, até o hotel.

Este tinha um aroma sutil e indefinível. Um aroma que provinha de dinheiro, dinheiro calmo, sem sobressaltos. O hall era como que uma extensão da caixa-forte do banco, em Nova York. Os hóspedes eram tratados com uma espécie de cautelosa reverência, como se fossem ícones de grande valor, frágeis e dignos de adoração. Tive a sensação de que até mesmo as crianças, lindamente vestidas e acompanhadas de governantas inglesas, que caminhavam comportadamente por sobre os suaves tapetes, sabiam que eu estava fora do meu ambiente.

Todo mundo na recepção apertou a mão do Sr. Sloane e fez uma pequena reverência à sua digna esposa. Via-se que as gorjetas tinham sido principescas, nos anos anteriores. Poderia um homem daqueles, capaz de sustentar uma mulher como Flora e de pagar um hotel como o Palace, ser também capaz de se assenhorear de setenta mil dólares alheios? E de, ainda por cima, usar os sapatos de outro? Provavelmente, a resposta era sim. Afinal de contas, Sloane me confessara ter-se feito por si mesmo.

Quando eu disse ao homem da recepção que não tinha reserva, o seu rosto assumiu logo aquela expressão de "não-há-lugar" dos hoteleiros em plena temporada. Percebera logo o meu disfarce.

– Sinto muito – foi dizendo -, mas…

– É meu amigo – atalhou Sloane. – Dê um jeito de arrumar um quarto para ele.

O recepcionista fingiu que verificava a lista de reservas e acabou dizendo:

– Bem, há um quarto de casal. Talvez…

– Está ótimo – falei.

– Quanto tempo o senhor pensa ficar, Sr. Grimes? – perguntou o homem.

Hesitei. Quanto tempo cinco mil dólares durariam num lugar daqueles?

– Uma semana – respondi. Passaria sem suco de laranja de manhã.

Subimos juntos no elevador. O recepcionista dera-me um quarto ao lado do dos Sloane. Teria sido conveniente, se as paredes fossem mais finas ou eu entendesse de eletrônica.

Meu quarto era grande, com uma enorme cama de casal coberta de cetim rosa e uma vista espetacular do lago e das montanhas, embelezadas mais ainda pelos últimos raios do sol poente. Noutras circunstâncias, eu teria ficado maravilhado, mas na atual situação a natureza me parecia cara e insensível. Fechei as venezianas e deitei-me inteiramente vestido sobre a cama, o cetim farfalhando voluptuosamente sob meu peso. Sentia ainda o cheiro do perfume de Flora Sloane. Tentei pensar em alguma maneira pela qual eu pudesse descobrir, rápida e seguramente, se Sloane era o meu homem. Minha mente parecia vazia. Os dois dias em Zurique tinham-me deixado exausto. Sentia um resfriado se aproximando. Não podia pensar em nada, senão agüentar firme e ficar à espreita. Mas, se eu descobrisse que ele estava usando minha gravata, que estava andando com meus sapatos, o que faria? Minha cabeça começou a doer. Levantei-me da cama, tirei duas aspirinas do estojo de barba e tomei-as.

Depois disso, mergulhei num sono agitado, entrecortado por sonhos nos quais havia um homem que aparecia e desaparecia, e tanto podia ser Sloane quanto Drusack, balançando um molho de chaves.

O telefone tocou, despertando-me. Era Flora Sloane, convidando-me para jantar. Aceitei, fingindo entusiasmo. Não precisava vestir-me para isso, disse ela; íamos jantar na cidade. Bill tinha se esquecido de pôr na mala o seu smoking e mandara-o buscar nos Estados Unidos, mas ainda não tinha chegado. Falei que também preferia não ter de me vestir a rigor, desliguei e tomei um banho frio.

Reunimo-nos para drinques no bar do hotel. Sloane vestia um terno cinza-escuro, que não me pertencia. Trocara de sapatos. À mesa, havia outro casal que viajara no nosso avião e que também era de Greenwich. Tinham esquiado nesse dia e a mulher já estava coxeando.

– Não é maravilhoso? – disse ela. – Nas próximas duas semanas, vou poder passar o tempo deitada ao sol, no Corveglia Club.

– Antes de nos casarmos – atalhou o marido – ela sempre dizia que adorava esquiar.

– Isso foi antes de nos casarmos – disse a mulher.

Sloane mandou vir uma garrafa de champanha. Foi consumida rapidamente e o outro homem mandou vir uma segunda garrafa. Eu tinha de sair de St. Moritz antes que me tocasse a vez. Naquela atmosfera, era fácil amar os pobres.

Fomos jantar num restaurante instalado num chalé em estilo rústico e bebemos um bocado mais de champanha. Os preços no cardápio é que não eram rústicos. Durante o jantar, fiquei sabendo mais do que me poderia interessar a respeito de Greenwich: quem fora expulso do clube de golfe, que mulher tinha feito um aborto com qual ginecologista, quanto as obras na casa dos Powell tinham custado, quem estava liderando a brava luta para evitar que as crianças negras viajassem nos ônibus escolares com as brancas. Mesmo que me tivessem garantido que até o fim da semana eu teria de volta os setenta mil dólares, duvidava que pudesse suportar as refeições necessárias para isso.

Depois do jantar, foi ainda pior. Quando voltamos ao hotel, os dois homens resolveram jogar bridge e Flora pediu-me que a levasse para dançar no Kings Club, no andar térreo. A dama que mancava veio também. Mal nos sentamos a uma das mesas, Flora mandou vir mais champanha, desta vez para pôr na minha conta.

Jamais gostei de dançar, e Flora era uma dessas mulheres que se agarram ao par como querendo impedir que ele fuja. Fazia calor no salão, o barulho era infernal, meu blazer era pesado e estava demasiado justo nas axilas, e o perfume de Flora era de entontecer qualquer um. Ainda por cima, ela trauteava amorosamente no meu ouvido, enquanto dançávamos.

– Que sorte ter encontrado você! – sussurrou ela. – Ninguém consegue arrastar Bill para uma pista de dança. E aposto como você também esquia bem. Move-se como um ótimo esquiador. – A mente da Sra. Sloane parecia gravitar em torno do sexo. – Quer esquiar comigo amanhã?

– Adoraria! – menti. Se pudesse ter escolhido uma lista das pessoas suspeitas de terem roubado minha mala, os Sloane figurariam bem no finzinho.

Pouco depois da meia-noite, consumidas duas garrafas de champanha, consegui finalmente pôr fim à noitada. Assinei a conta e acompanhei as duas damas até onde os respectivos maridos jogavam bridge. Sloane estava perdendo. Eu não sabia se devia ficar alegre ou triste. Se o dinheiro fosse meu, teria chorado. Se fosse dele. teria vibrado. Além do amigo de Greenwich, havia ainda um homem bem-parecido, dos seus cinqüenta anos, e uma velha dama, cheia de jóias, com um sotaque espanholado e uma voz de corvo. O beautiful people do international set.

Enquanto eu olhava o jogo, o homem de cabelos grisalhos e bem-parecido fez um pequeno slam.

– Fabian – queixou-se Sloane -, todos os anos acabo passando-lhe um cheque.

O homem a quem Sloane chamara Fabian sorriu. Tinha um sorriso encantador, quase feminino, e pequenas rugas de riso em volta dos olhos escuros e grandes.

– Devo confessar – disse ele – que estou com sorte. – Sua voz era suave e um pouco rouca, com um sotaque estranho. Pela maneira de falar, não se podia dizer qual a sua nacionalidade.

– Com sorte! – repetiu Sloane. Via-se que era mau perdedor.

– Vou me deitar – anunciou Flora. – Quero esquiar logo de manhã.

– Subo daqui a pouco – disse Sloane, embaralhando as cartas como se as estivesse preparando para usar à guisa de armas…

Acompanhei Flora até a porta do seu quarto.

– Não é bom -: comentou ela – os nossos quartos estarem ao lado um do outro? – Deu-me um beijo de boa-noite, riu e entrou.

Não estava com sono. Sentei-me na cama e comecei a ler. Cerca de meia hora mais tarde, ouvi passos e a porta do quarto dos Sloane abrir e fechar. Seguiram-se uns murmúrios que não consegui distinguir através da parede e, após uns minutos, silêncio.

Esperei mais quinze minutos para dar tempo a que o casal adormecesse e depois abri, sem fazer barulho, a porta do meu quarto. Ao longo do corredor, pares de sapatos estavam alinhados diante das portas dos quartos, mocassins masculinos e femininos, sapatos dourados, de verniz, botas de esqui, todos colocados dois a dois, casais à espera de embarcarem na arca de Noé. Mas diante da porta dos Sloane, havia apenas as elegantes botas de couro que Flora usara no trem. Fosse qual fosse o motivo seu marido não pusera de fora os sapatos marrons de sola de borracha, e presumivelmente número 10, para serem engraxados. Fechei a porta sem fazer barulho, a fim de meditar sobre o significado daquilo.