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CAPÍTULO XI

Na manhã seguinte bem cedo, tomei o trem para Davos: Davos é uma estação de esqui a umas duas horas de St. Moritz e famosa pelas suas longas pistas, que eu não tinha a menor intenção de conhecer. Começava a odiar o inverno, com todos aqueles rostos alegres e vermelhos, o ranger de botas na neve, o tilintar de sinos dos trenós, as cores vivas dos gorros. Ansiava pelo conforto de um clima meridional, no qual as decisões pudessem ser adiadas até o dia seguinte. Antes de comprar o bilhete na estação ferroviária, outra detestável estrutura típica no meio do vale, fora tentado pela idéia de mandar tudo às favas, rumar para a Itália, Tunísia, a costa mediterrânea da Espanha, e lá acabar de gastar meus últimos vinténs. Mas o primeiro trem a sair da estação ia para Davos. Tomara isso como um sinal do destino e, ajudado por um carregador, embarcara nele. Estava fadado a passar o inverno num país frio.

O trem passou por algumas das paisagens mais espetaculares do mundo, picos impressionantes, gargantas dramáticas, altas e frágeis pontes atravessando rios caudalosos. O sol brilhante coloria tudo, e o céu estava limpidamente azul. Mas não achei graça em nada.

Mal cheguei a Davos, entrei num táxi e fui diretamente para o hospital tirar o gesso da perna. Resisti a todas as tentativas dos dois médicos para me radiografar.

– Quando e onde – perguntou um dos médicos, ao verme pular para fora da mesa – lhe colocaram este gesso?

– Ontem – respondi. – Em St.Moritz.

– Ah! – disse ele. – Em St.Moritz. – Os dois médicos trocaram olhares significativos. Era óbvio que nunca escolheriam St.Moritz para se tratar.

O mais jovem dos dois médicos acompanhou-me até a caixa, junto da porta, para se certificar de que eu pagava a operação. Cem francos suíços. Uma pechincha. O médico olhou para mim espantado quando abri a mala grande que deixara na entrada, tirei uma meia e um sapato e os calcei. Quando saí porta afora carregando as minhas malas, tenho certeza de que ouvi dizer "Amerikanische" para a caixa, como se isso explicasse, todas as excentricidades.

Havia um táxi à porta do hospital, trazendo uma criança engessada. Eu estava na zona dos ossos partidos, o que combinava com meu estado de espírito. Entrei no táxi e, após alguma luta com o idioma alemão, consegui fazer com que o chofer entendesse que desejava um hotel de preços módicos. Atravessando a cidade, passamos por vários hotéis, todos com grandes varandas em cada quarto, que em outros tempos tinham sido usadas para repouso dos tuberculosos de todo o mundo, pois Davos fora, antes da guerra, a capital mundial da tuberculose. Agora, os hotéis abrigavam apenas gente que vinha esquiar, mas nas circunstâncias em que me encontrava, era fácil imaginar aquelas varandas cheias de milhares de infelizes envoltos em mantas, tomando o sol frio dos Alpes e tossindo sangue.

O motorista levou-me para uma pequena pensão, propriedade do seu cunhado, com uma bela vista dos trilhos da estação. O cunhado falava inglês e as nossas negociações foram amistosas. O preço de um quarto com banheiro no fundo do corredor não era exatamente agradável, mas, após os estragos do Palace, podia ser considerado amistoso.

A estreita cama não tinha coberta de seda e o quarto era tão pequeno que não havia lugar para a minha mala grande. O dono explicou que, depois que eu tirasse as coisas, podia deixar a mala no corredor, com as roupas que não coubessem no minúsculo armário e na diminuta cômoda. Não precisava ficar preocupado, acrescentou; na Suíça não havia ladrões. Fiz força para não rir.

Tirei as coisas da mala ao acaso, enfiando os ternos do desconhecido no armário. Deixei o smoking na mala. Usara-o várias vezes em St.Moritz e as lembranças que ele me trazia não eram de molde a dar saudades. Se um ladrão se lembrasse de aparecer na Suíça e gostasse do smoking, não me incomodaria que o carregasse.

Tomei um banho bem quente e esfreguei a perna que estivera engessada e que começara a coçar. De volta ao quarto, vesti uma cueca que encontrara na mala. Era de seda azul-pálida e tinha de enrolá-la na cintura para não cair, mas me recusara a mandar lavar roupa no Palace, de modo que a pouca roupa de baixo que eu tinha na mala pequena estava toda precisando lavar. O paletó que usara na viagem de avião, em Zurique e em St. Moritz, quando não vestia o smoking, estava todo amassado. Hesitei um momento e depois tirei o paletó quadriculado do cabide e vesti-o, esperando não encontrar nenhum conhecido em Davos. Enfiei a carteira com tudo o que sobrara da minha fortuna no bolso interno do paletó e, ao fazê-lo, ouvi um barulhinho. Meti a mão e puxei para fora uma folha de papel dobrado, cor-de-rosa e perfumado, escrito com letra de mulher.

Minhas mãos começaram a tremer. Deixei-me cair na cama e comecei a ler. Não havia endereço ou data.

"Amor", assim começava a carta. "Espero que você não fique muito desapontado, mas não vou poder ir a St. Moritz, este ano…"

Senti um tremor perpassar-me o corpo todo, como se uma avalanche se houvesse precipitado do alto de um dos picos circundantes e sacudido as fundações da cidade.

"O pobre Jock caiu do seu fiel corcel ao regressar a casa após uma caçada, fraturou o quadril e desde então, faz já três dias, tem estado em agonia. O feiticeiro local, cuja clientela é toda de antes da Guerra da Criméia, limitou-se a dar gritinhos alarmados quando lhe pedimos um diagnóstico, de modo que levamos Jock para Londres, onde os cirurgiões estão debatendo se devem ou não operar e, entrementes, o pobrezinho geme sem parar no seu leito de dor. Naturalmente, sua dedicada esposa não pode voar para os Alpes enquanto o drama está tão tremendamente fresco. De modo que vivo correndo para o hospital, levando flores e gim, acalmando a testa febril e garantindo-lhe que ele vai poder caçar no ano que vem, o que, como você sabe, é a sua principal e praticamente única ocupação na vida.

"Mas nem tudo está perdido. Prometi visitar a minha velha tia Amy em Florença, aonde devo chegar no dia XIV de fevereiro. Até lá, a situação deve ter melhorado e tenho certeza de que o bom Jock vai insistir que eu vá. A tia Amy está com a casa cheia de hóspedes, de modo que vou ficar no Excelsior, o que é ainda melhor. Espero ver o seu rosto sorridente esperando por mim no bar. Ansiosamente, L."

Reli a carta, para ter uma impressão mais clara, e não muito lisonjeira, da mulher que a escrevera. Considerava uma afetação de sua parte não pôr a data na carta, escrever XIV em romanos, em vez de simplesmente 14, e assinar apenas com a inicial. Tentei imaginar como ela seria. Uma dessas frias beldades inglesas, de trinta a quarenta anos, com ar importante e uma atitude inspirada em grande parte nas obras de Sir Noel Coward e Michael Arlen. Mas, fosse qual fosse a sua aparência e a sua atitude, eu estaria no Hotel Excelsior, em Florença, à espera dela, junto com o seu amante, no dia 14 de fevereiro… Dia de São Valentim, dia dos namorados e de um famoso massacre.

A idéia de ter podido estar lado a lado com o adúltero no salão de jantar do Palace Hotel ou nas montanhas de St.Moritz torturou-me, e cheguei a pensar em voltar lá. Era horrível pensar que o amante da Sra. L. poderia estar mais uma semana em St.Moritz, calmamente queimando o meu dinheiro. Mas, se antes não o descobrira, não havia razão para crer que o pudesse descobrir agora. A única pista que eu tinha, pela carta, era a de que provavelmente ele não era casado ou, pelo menos, viera à Europa sem a mulher, que tinha uma certa instrução, pois devia saber ler algarismos romanos, e que a sua companheira de pecado esperava dele um rosto sorridente. Todas essas informações não tinham valor prático no momento. Eu teria de ser paciente e esperar mais sete dias.

Despedi-me de Davos, com suas legiões de fantasmas expectorantes, feliz por conseguir sair das regiões da neve. O trem de Zurique a Florença passava por Milão e resolvi desembarcar e pernoitar nesta última cidade, aproveitando para ir ver A última ceia perder tristemente as cores, no muro de pedra da igreja em ruínas. Leonardo da Vinci ajudou-me a achar que havia uma saída possível para a comédia. Milão estava coberta de fog e eu me deixei embeber em cicatrizante melancolia.

Tive apenas um momento de preocupação, quando fui seguido, ao longo da arcada que há bem no centro de Milão, por um rapaz moreno de sobretudo comprido que esperava à porta do café onde eu entrara para tomar um espresso. Sentira-me em segurança, embora não à vontade, na Suíça, mas em Milão não pude deixar de pensar no que tinha lido sobre as ligações italianas com o crime organizado, na América. Mandei vir outro espresso e tomei-o bem devagar, mas o homem não se mexeu. Eu não podia ficar toda a vida no café, de modo que paguei e saí, caminhando rapidamente.

O homem do sobretudo comprido atravessou correndo a arcada e segurou-me o cotovelo. Era zarolho, o que o fazia parecer extremamente ameaçador, e sua mão no meu cotovelo era como uma garra de aço.

– Ei, chefe – disse ele, caminhando a meu lado. – Qual a pressa?

– Estou atrasado para um encontro. – Procurei livrar-me dele, mas foi inútil.

Enfiou a outra mão no bolso e temi o pior.

– Quer comprar uma jóia verdadeira? – perguntou. – Uma pechincha? – Soltou-me e puxou algo que tilintava, embrulhado em papel de seda. – Lindo presente para uma dama. – Tirou o papel e vi que era uma corrente de ouro.

– Não tenho dama – respondi, recomeçando a andar.

– Linda jóia – insistiu ele. – O senhor pagaria duas, três vezes mais, na América.

– Desculpe, mas não adianta – atalhei.

O homem suspirou e eu deixei-o embrulhando a corrente e guardando-a de volta no bolso.

Enquanto me afastava, pensava que qualquer esperança que eu pudesse ter tido de passar despercebido entre os povos da Europa era ridícula. Aonde quer que eu fosse, seria apontado, por quem quer que tivesse algum interesse em mim, como americano. Pensei em deixar crescer a barba.

No dia seguinte, sentindo que talvez nunca mais tivesse essa oportunidade, tomei o rápido para Veneza, cidade que, acreditava, e não me enganava, seria mais triste que Milão naquela época do ano. Os canais brumosos, o lamento das buzinas dos barcos, a água escura e o musgo, à luz cinzenta do inverno adriático, contribuíram para restaurar o meu sentido de dignidade e apagar a lembrança da atlética frivolidade de St.Moritz. Li, com satisfação, que Veneza estava afundando no mar. Hospedei-me numa pensão barata e fiquei visitando igrejas, bebendo um vinho branco e leve, chamado soave, em cafés adjacentes à Piazza San Marco, e observando os italianos, ocupação divertida e agradável. Evitei o Harry's Bar, que eu temia fosse freqüentado por americanos, mesmo fora da estação. Só havia um americano que me interessava e eu não tinha nenhuma razão para crer que ele estivesse em Veneza nessa semana.

O pequeno passeio me fizera muito bem. Meus nervos, que na Suíça tinham ficado arrasados, agora pareciam de novo fortes. Cheguei ao Hotel Excelsior, em Florença, na noite de 13 de fevereiro, confiante em que me sairia bem quando chegasse o momento do confronto.

Após um jantar excelente, caminhei pelas ruas de Florença, parando um momento diante da monumental cópia da estátua do David de Michelangelo, na Piazza delia Signoria, que me fez meditar sobre a natureza do heroísmo e a derrota da vileza. Florença, com sua história de intrigas e vendettas, seus Guelfos e Gibelinos, era a cidade adequada para enfrentar o meu inimigo.

Naturalmente, não dormi bem e acordei antes que a luz da aurora se refletisse no Amo, abaixo da minha janela.

Antes mesmo de tomar o café, interroguei o recepcionista sobre os horários dos vôos Londres-Milão e das chegadas dos trens da linha Milão-Florença. Pelos meus cálculos, a dama chegaria às cinco e trinta e cinco.

A essa hora, eu estaria no hall do hotel, estrategicamente colocado para poder observar qualquer hóspede do sexo feminino que se dirigisse à recepção para assinar a ficha. E qualquer homem um pouco mais baixo do que eu, que pudesse acompanhá-la ou levantar-se para dar-lhe as boas-vindas.

Passei o dia bebendo café bem forte, mas nada de álcool, nem mesmo uma cerveja. Por dever para com o meu papel de turista, percorri a Galleria degli Uffizi, mas a gloriosa mostra de arte florentina não me impressionou fortemente. Teria de voltar numa outra oportunidade.

Fiz apenas uma compra, numa loja de souvenirs: um abridor de cartas, em forma de punhal, com um cabo de prata entalhado. Recusei-me a analisar os motivos exatos da compra, fingindo ter apenas gostado inocentemente do abridor ao vê-lo na vitrina.

Ao fim da tarde, comprei o Rome Daily American e instalei-me numa das adornadas poltronas do hall do hotel, não demasiado perto da porta e da recepção, mas de modo a poder ver claramente a área crítica. Estava usando minha própria roupa. Não queria afugentar ninguém, usando o paletó quadriculado ou as camisas de listras berrantes que havia na mala.

Às seis horas, já tinha lido o jornal duas vezes de fio a pavio. Os únicos novos hóspedes que haviam chegado eram uma família de americanos, pai gordo e barulhento, mãe cansada e com sapatos confortáveis, três crianças magrelas e pálidas, vestindo japonas idênticas. Tinham vindo de Roma de carro, ouvi-os dizer; as estradas estavam cobertas de gelo. Consegui controlar-me para não pedir ao recepcionista que indagasse se o trem de Milão estava atrasado.

Estava lendo a coluna social, que antes me escapara, e me cientificando de que alguém de quem eu nunca ouvira falar tinha dado uma festa para não sei quem, quando uma mulher loura, de seus trinta anos, entrou pela porta seguida por uma quantidade de malas caras. Fiz um esforço para controlar minha respiração. A mulher, notei automaticamente, era bonita, tinha um nariz longo e aristocrático, uma boca fina e bem pintada, e usava um casaco marrom comprido, que mesmo eu, que entendia pouco de roupas, via que estava impecavelmente cortado. Dirigiu-se a passos largos para o balcão da recepção com o ar de quem está acostumada a hotéis de cinco estréias, mas, quando ia dizer seu nome ao funcionário, duas das crianças americanas que tinham ficado no hall romperam numa acalorada discussão sobre quem tomaria banho primeiro, de modo que não pude ouvir o seu nome. "Se alguma vez eu tiver filhos", pensei, "nunca viajarei com eles!"

Fiquei grudado na minha poltrona, enquanto a mulher assinava a ficha e entregava seu passaporte, cuja cor não consegui ver. Depois, em vez de rumar para os elevadores, ela foi diretamente para o bar. Apalpei o dólar de prata que levava no bolso, levantei-me e dirigi-me também para o bar. Mas, quando eu ia entrar, ela saiu. Recuei para deixá-la passar e inclinei ligeiramente a cabeça numa saudação, mas ela nem me ligou, nem eu pude decifrar a expressão em seu rosto.

Sentei-me a um canto e pedi um uísque com soda. O bar estava vazio e às escuras. Não havia nada que eu pudesse fazer, senão esperar.

Ainda estava sentado no bar quando ela voltou, às sete horas. Usava agora um severo vestido preto, com dois fios de pérolas em volta do pescoço, e carregava o casacão marrom. Era evidente que estava planejando sair. Parou à porta e olhou em volta. A família americana estava sentada a uma mesa, o pai e a mãe tomando martínis, as crianças bebendo Coca-Cola e o pai de vez em quando dizendo:

– Pelo amor de Deus, crianças, vocês não vão parar de gritar?

Um idoso casal inglês estava sentado do outro lado do salão, o senhor lendo o Times londrino de três dias antes, a senhora, num vaporoso vestido florido, olhando para o ar.

Um grupo de italianos conversava sem parar e consegui entender a palavra "desgrazia", usada repetidas vezes e com grande intensidade desde que se tinham sentado, quinze minutos antes. Não havia era jeito de eu saber a que desgraça se referiam.

Só eu estava sozinho.

Uma pequena careta torceu a generosa boca vermelha da mulher junto à porta. Tinha a pele pálida, com um delicado rubor sobre as proeminentes maçãs do rosto. Os olhos eram de um azul escuro, quase violeta; a silhueta, francamente revelada pelo sóbrio vestido preto, era elástica; as pernas, esbeltas e bem-feitas. Decidi que ela não era apenas bonita, mas linda. Bem o tipo de mulher que um homem capaz de furtar setenta mil dólares no aeroporto de Zurique escolheria para roubar, para umas férias ilícitas, de um marido aleijado e confiante.

Ela notou que eu a estava olhando e franziu a testa, o que lhe ficava muito bem. Abaixei os olhos. Dali a pouco, ela atravessou o salão e sentou-se a uma mesa perto da minha, jogando o casaco para cima da outra cadeira e tirando um maço de cigarros e um isqueiro de ouro da bolsa.

O garçom correu para ela e acendeu-lhe o cigarro. Ela era o tipo de mulher que é servida imediatamente em qualquer ocasião. O garçom era um belo rapaz moreno, com olhos ardentes e vivos e dentes esplêndidos, que mostrou num amplo sorriso ao se inclinar para saber o que a senhora desejava.

– Un pink gin, per favore – disse ela. – Sem gelo. – O sotaque era bem britânico.

– Outro uísque com soda, por favor – disse eu ao garçom.

– Prego? – O sorriso do homem desapareceu ao olhar para mim. Não me tinha perguntado o que eu queria.

– Ancora un whiskey con soda – traduziu a mulher, impacientemente.

– Si, signora – disse o garçom, sorrindo de novo.

– Obrigado pela ajuda – disse eu para a mulher.

– Ele entendeu perfeitamente bem o que o senhor disse – retrucou ela. – O senhor é americano, não?

– Acho que se vê de longe – respondi.

– Não é nada que envergonhe – disse ela. – As pessoas têm o direito de ser americanas. Há muito tempo que o senhor está aqui?

– Não o suficiente para aprender italiano. – Senti o coração bater mais rápido. As coisas estavam indo muito melhor do que eu ousara esperar. – Cheguei ontem à noite.

Ela fez um gesto impaciente.

– Estava me referindo aqui ao bar.

– Oh! Há cerca de uma hora.

– Uma hora. – A sua maneira de falar era imperiosa, mas a voz era musical. – Por acaso não viu um outro americano entrar? Um homem de uns cinqüenta anos, embora pareça mais moço. Muito bem proporcionado, um pouco grisalho. Com ar de quem procura alguém.

– Bem, deixe-me pensar – disse eu. – Qual o nome dele?

– Não adianta eu lhe dizer o nome – retrucou ela, deitando-me um olhar duro. Nenhuma adúltera, nem mesmo inglesa, gostava de dizer o nome ou a exata localização de seu amante.

– A verdade é que eu não estava prestando atenção – falei, com ar inocente. – Mas me parece que vi alguém assim junto à porta. Por volta das seis e meia, se não me engano. – Queria manter a conversação a qualquer preço e fazer com que a mulher ficasse o mais tempo possível no bar.

– Que maçada! – exclamou ela. – Os correios andam horríveis!

– Desculpe – disse eu, apalpando a carta no meu bolso.

– Mas não entendi bem. A senhora falou em correios?

– Falei, mas não tem importância – disse ela.

O garçom estava colocando o drinque diante dela e eu não teria ficado surpreso se ele se tivesse ajoelhado. Meu drinque foi servido sem qualquer cerimônia. A mulher ergueu o copo. – Saúde! – exclamou. Via-se que não tinha preconceitos bobos contra falar com desconhecidos em bares.

– A senhora vai ficar aqui muito tempo? – perguntei.

– Nunca se sabe – respondeu ela. Deixara uma marca de batom na beira do copo. Eu estava ansioso por saber seu nome, mas o instinto me dizia que era melhor não perguntar.

– Bela e velha Florença! Já estive em cidades mais alegres. – Ia falando e olhando para a porta. Um casal alemão entrou e ela franziu novamente a testa, ao mesmo tempo em que olhava impacientemente para o relógio. – O senhor está bronzeado – disse-me. – Andou esquiando?

– Um pouco.

– Onde?

– Em St. Moritz, Davos. – A mentira não era grande.

– Adoro St.Moritz! – disse ela. – Toda aquela gente cafona, divertida!

– A senhora também esteve lá? – perguntei. – Esta temporada?

– Não. Houve um contratempo. – Senti vontade de perguntar como ia o marido, para manter a conversa numa base amistosa, mas compreendi que seria loucura. Ela olhou em volta com ar de desgosto. – Este lugar é sombrio! Até parece que Dante está enterrado no hall de entrada. Sabe de algum lugar mais alegre, aqui na cidade?

– Bem, ontem à noite jantei muito bem num restaurante chamado Sabattini's. Se me quiser dar o prazer…

Nesse momento, um empregado do hotel entrou no bar, chamando:

– Lady Lily Abbott, Lady Lily Abbott… "Ansiosamente, L.", lembrei.

– Telephono per la signora – disse o empregado.

– Finalmente – falou ela em voz alta e saiu do bar. Deixou a bolsa em cima da cadeira e eu fiquei imaginando como poderia revistá-la enquanto a mulher estivesse no telefone, sem ser preso como ladrão. O casal alemão não parava de olhar para mim. "Estranho", pensei. Sem dúvida denunciariam quaisquer atividades suspeitas às autoridades competentes. Não mexi na bolsa.

Ela demorou uns cinco minutos e, quando voltou ao bar, a sua expressão era de quem estava contrafeita. Deixou-se cair na cadeira, os pés aparecendo por debaixo da mesa.

– Espero que as notícias não tenham sido más – disse eu.

– Não foram boas – retrucou ela, em tom sombrio. – Alteração nos planos. Alguém vai sofrer. – Bebeu o gim de um só trago e começou a enfiar os cigarros e o isqueiro na bolsa.

– Se a senhora estiver livre… – ataquei. – O que eu estava dizendo, quando a senhora foi chamada ao telefone, Lady Abbott… – Era a primeira vez na minha vida que eu chamava alguém de Lady Fulana e quase gaguejei. – Bem, eu ia convidá-la para jantar comigo num ótimo…

– Sinto muito – disse ela. – O senhor é muito gentil, mas estou convidada para jantar. Há um carro esperando por mim lá fora. – Levantou-se, apanhando o casaco e a bolsa. Levantei-me também. Ela encarou-me firme, bem nos olhos. Tinha tomado uma decisão. – O jantar vai terminar cedo – falou. – Os pobres velhos se deitam cedo. Podemos tomar um drinque, se o senhor quiser.

– Gostaria muito.

– Que tal às onze? Aqui no bar?

– Combinado.

Ela saiu, deixando atrás de si um rastro de sensualidade, como os ecos das últimas notas do órgão de uma catedral.

Passei a noite no quarto dela. Foi tudo muito simples.

– Vim a Florença para pecar – declarou ela, enquanto se despia… – e vou pecar. – Acho que só quis saber o meu nome por volta das duas da manhã.

Apesar do seu modo imperioso, ela mostrou-se suave e terna no amor, não exigente, agradecida e sem chauvinismo.

– Há um grande reservatório inexplorado de talento sexual na América – declarou a certa altura. – O Novo Mundo em socorro do Velho. Não é uma beleza?

Foi um alívio constatar que o meu medo de ter ficado impotente, alimentado pela horrível Sra. Sloane, era totalmente infundado. Não achei que devesse dizer a Lady Abbott que o meu prazer na sua companhia era aumentado por uma perversa necessidade de vingança.

Ela era a menos curiosa das mulheres. Falamos pouco. Não me fez perguntas sobre o que eu fazia, por que estava em Florença ou para onde ia.

Pouco antes de sair do quarto (ela insistiu para que eu saísse antes que os empregados começassem a andar pelos corredores), perguntei-lhe se não gostaria de almoçar comigo.

– Se não receber um telefonema – respondeu. – Vai embora sem me dar um beijo?

Curvei-me e beijei-lhe a linda boca. Seus olhos estavam fechados e tive a impressão de que ela adormecera antes que eu fechasse a porta.

Atravessando o corredor rumo a meu quarto, senti-me tomado de otimismo. Em Zurique, St.Moritz, Davos, Milão e Veneza, nada de bom me acontecera. Até essa noite. O futuro ainda era incerto, mas havia raios de esperança.

Grande dia de São Valentim!

Exausto pela noite maldormida do meu primeiro dia em Florença e pelas horas de amor, caí na cama e dormi profundamente até quase o meio-dia.

Quando acordei, fiquei deitado olhando para o teto, sorrindo para mim mesmo. Estendi a mão para o telefone e pedi que me ligassem com Lady Abbott. Após uma longa pausa, ouvi a voz do recepcionista.

– Lady Abbott deixou o hotel às dez da manhã. Não, não deixou nenhum recado.

Foram necessárias dez mil liras e uma mentira para obter o endereço de Lady Abbott de um dos auxiliares da recepção. Lady Abbott recomendara que lhe enviassem qualquer correspondência, mas que não dessem seu endereço a ninguém. Ao mesmo tempo em que punha a nota de dez mil liras nas mãos do empregado do hotel, explicava-lhe que a senhora esquecera uma jóia de grande valor no meu quarto e que eu precisava devolvê-la pessoalmente.

– Bem – disse o homem -, é o Hotel Plaza-Athénée, em Paris. Por favor, explique as circunstâncias especiais a Lady Abbott.

– Naturalmente – retruquei.

No dia seguinte ao meio-dia eu estava em Paris, hospedando-me no Plaza-Athénée. Antes de poder perguntar o preço do apartamento, vi Lady Abbott atravessando o hall de braço com um homem grisalho, de bigode britânico e óculos escuros. Os dois riam muito. Não era a primeira vez que eu via aquele homem. Tratava-se de Miles Fabian, o jogador de bridge do Palace Hotel, em St.Moritz.

Eles não olharam em minha direção e saíram pela porta rumo ao dispendioso sol da Avenue Montaigne, um casal de amantes na cidade dos amantes, a caminho de um almoço a dois, esquecidos do resto do mundo, esquecidos de mim, ali, a poucos passos de onde eles tinham passado, com um punhal na maleta e a morte no coração.