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Na manhã seguinte, eu estava no hall do hotel às oito e meia. Duas horas mais tarde, ela atravessava o hall e saía. Em Florença, eu nunca a vira à luz do dia. Era ainda mais linda do que eu me recordava. Se havia uma mulher feita de encomenda para corresponder ao sonho americano de um fim de semana proibido em Paris, essa mulher era Lily Abbott.
Cuidei para que Lily não me visse e, depois que ela saiu, subi ao meu quarto. Não podia saber quanto tempo ela estaria ausente do hotel, de modo que agi rapidamente. Tinha feito a mala de Fabian, com todos os seus pertences, o paletó quadriculado em cima, conforme o encontrara. Telefonei para a portaria e pedi que mandassem apanhar uma mala no meu quarto e levá-la ao apartamento do Sr. Fabian.
Tinha o abridor de cartas em forma de punhal no bolso, dentro do estojo de couro. A adrenalina espalhava-se pelo meu organismo e minha respiração era ofegante. Não tinha nenhum plano, além de entrar no quarto de Fabian e confrontá-lo com sua valise.
Bateram à porta e abri ao rapaz das malas. Segui-o até o elevador e o vi apertar o botão do sexto andar. Tudo acontece no sexto andar, pensei, enquanto subíamos em silêncio. Quando o elevador parou e a porta se abriu, fui atrás dele pelo corredor. Nossos passos eram abafados pelo pesado tapete. Não encontramos ninguém. Estávamos no silencioso território dos ricos. O homem pousou a mala à porta da suíte e ia bater, quando eu o detive.
– Pode deixar – falei, apanhando a mala – que eu levo. O Sr. Fabian é meu amigo. – Dei-lhe cinco francos de gorjeta, o rapaz agradeceu e foi embora.
Bati de leve na porta. Ela se abriu e apareceu Fabian, todo vestido, pronto para sair. Finalmente, estávamos frente a frente, eu e o parceiro de Sloane baralhando cartas, tardes e noites seguidas, à vontade nos antros dos ricos. Ladrão! Piscou de leve, como se não me pudesse ver bem.
– Sim? – perguntou, delicadamente.
– Acho que isto lhe pertence, Sr. Fabian – disse eu, e fui entrando com a mala num pequeno hall que levava a uma grande sala cheia de jornais em várias línguas. Por todos os lados havia jarros com flores. Eu não queria nem pensar quanto ele estaria pagando por dia naquela suíte. Ouvi-o fechar a porta atrás de mim e pensei se por acaso ele não estaria armado.
– Escute – disse ele, virando-se para mim -, deve haver algum engano.
– Não há engano algum.
– Quem é o senhor? Não nos conhecemos de algum lugar?
– De St.Moritz.
– Ah, claro. O senhor é o jovem que acompanhava a Sra. Sloane. Temo não me lembrar do seu nome. Algo assim como Gr-Grimm, não?
– Grimes.
– Grimes. Desculpe-me. – Estava absolutamente calmo. Sua voz era agradável. Procurei controlar minha respiração. – Eu estava de saída – disse ele. – Mas posso dispor de uns momentos. Queira sentar-se, por favor.
– Prefiro ficar de pé, se não se importa. – Fiz um gesto na direção da mala, que depositara no meio da sala. – Gostaria apenas que o senhor abrisse sua mala e verificasse que nada está faltando…
– A minha mala? Meu caro senhor, eu nunca…
– Sinto ter partido o fecho… – prossegui. – Aconteceu antes de eu verificar que a mala não era minha.
– Não sei de que é que o senhor está falando. É a primeira vez que vejo essa mala. – Se ele tivesse ensaiado um ano para aquele momento, não teria sido mais convincente.
– Quando o senhor tiver acabado de passar em revista a mala e vir que eu não tirei nada – falei -, agradeceria se me desse a minha mala. Com tudo o que estava nela, quando o senhor a pegou em Zurique. Tudo.
Ele deu de ombros.
– Não estou entendendo nada. Se o senhor quiser, pode revistar o apartamento e ver, com os seus próprios olhos, que…
Enfiei a mão no bolso e puxei a carta de Lily Abbott.
– Isto estava no seu paletó – disse. – Tomei a liberdade de lê-la.
Ele mal olhou para a carta.
– Isto está ficando cada vez mais misterioso – comentou, fazendo um gesto como quem diz que é demasiado bem-educado para ler cartas de outras pessoas. – Não há nomes, não há datas. – Atirou a carta para cima de uma mesa. – Pode ter sido escrito para qualquer pessoa, por qualquer pessoa. De onde o senhor tirou a idéia de que essa carta poderia relacionar-se comigo? – Seu tom de voz estava ficando impaciente.
– Lady Abbott deu-me a idéia – respondi.
– Ah, sim? – retrucou ele. – Devo confessar que ela é minha amiga. Como está ela?
– Há dez minutos atrás, quando a vi no hall do hotel, ela estava muito bem – disse eu.
– O quê, Grimes? Não me diga que Lily está aqui no hotel!
– Chega de fingimento – falei. – O senhor sabe muito bem por que estou aqui. Quero os meus setenta mil dólares.
Ele soltou uma gargalhada quase autêntica.
– O senhor está brincando, não está? Foi Lily quem o mandou aqui? Ela adora pregar peças.
– Quero os meus setenta mil dólares, Sr. Fabian – insisti, num tom de voz o mais ameaçador possível.
– O senhor deve estar louco – disse Fabian, irritado. – Sinto muito, mas tenho que sair.
Agarrei-o pelo braço, lembrando-me do zarolho de Milão.
– O senhor não vai sair daqui enquanto eu não receber de volta o meu dinheiro – falei, numa voz que não saiu como eu queria. A situação requeria um baixo e eu era apenas um tenor… e esganiçado.
– Tire as mãos de cima de mim. – Fabian soltou-se e sacudiu a manga. – Não gosto que me toquem. E, se o senhor não sair imediatamente, chamo a gerência e peço que me comuniquem com a polícia…
Peguei um abajur e bati-lhe com ele na cabeça. A lâmpada espatifou-se. Fabian fez uma expressão de surpresa ao tombar lentamente para o chão, o sangue escorrendo-lhe da testa. Puxei da minha faca de papel e ajoelhei-me ao lado dele, esperando que voltasse a si. Dali a uns quinze segundos, abriu os olhos. A expressão do seu olhar era vaga, como se não conseguisse focalizar os olhos. Encostei a ponta fina do punhal em sua garganta. De repente, ele recuperou plenamente a consciência. Não se mexeu, mas olhou para mim apavorado.
– Não estou brincando, Fabian – disse eu. E não estava.
Naquele momento, eu o teria matado. Estava tremendo, mas ele também estava.
– Muito bem – falou ele. – Não é preciso chegar a extremos. Eu peguei sua mala. Agora, deixe-me levantar.
Ajudei-o a se levantar. Ele cambaleou um pouco e deixou-se cair numa poltrona. Levou a mão à testa e olhou apreensivo para o sangue. Tirou um lenço do bolso do paletó e limpou a testa.
– Meu Deus! – falou, numa voz sumida. – Você podia ter me matado com esse abajur.
– Você teve sorte – repliquei.
Ele deu uma risadinha, mas sem tirar os olhos da faca na minha mão.
– Sempre detestei facas – falou. – Você deve ser louco por dinheiro.
– Mais ou menos – disse eu. – Creio que tanto quanto você.
– Eu nunca mataria por dinheiro.
– Como é que você pode saber? – perguntei, acariciando a lâmina do punhal. – Eu também nunca pensei que seria capaz. Até esta manhã. Onde está o dinheiro?
– Não o tenho – respondeu ele.
Dei um passo à frente, ameaçador.
– Recue. Por favor, recue. Está… bem… Digamos que no momento não o tenho, mas que é fácil consegui-lo. Por favor, não continue apontando-me essa coisa. Tenho certeza de que podemos entrar num acordo sem derramamento de sangue. – E enxugou de novo a testa.
De repente, comecei a tremer violentamente, horrorizado pelo que tinha feito. Estivera a ponto de matar. Deixei cair o punhal em cima da mesa. Se naquele momento Fabian tivesse dito que se recusava a me dar um centavo, eu teria saído pela porta afora e procurado esquecer tudo aquilo.
– Acho que – disse ele -, no fundo, eu sabia que um dia alguém viria pedir-me o dinheiro. – Havia um eco, naquelas palavras, que eu não podia deixar de reconhecer. Como se teria comportado Drusack quando lhe haviam ido pedir o dinheiro? – Tomei muito bem conta dele – continuou Fabian -, mas receio que você vá ter que esperar um pouco.
– O que isso quer dizer… esperar um pouco? – Procurei manter um tom ameaçador, mas sabia que não estava conseguindo.
– Tomei certas liberdades com o seu pequeno capital, Grimes – disse ele. – Fiz alguns investimentos. – Sorriu como um médico anunciando um câncer inoperável. – Não acredito em deixar dinheiro parado. E você?
– Não sei, é a primeira vez que tenho dinheiro.
– Ah! – exclamou. – Fortuna recente. Bem me parecia. Incomoda-se se eu for ao banheiro lavar a testa? Lily pode entrar a qualquer momento e não gostaria de assustá-la.
– Pode ir. – Sentei-me. – Eu espero.
– Sem dúvida. – Levantou-se da poltrona e encaminhou-se, com passo pouco seguro, para o banheiro. Ouvi a água correr. Devia haver uma porta comunicando o quarto com o corredor, mas eu estava certo de que ele não fugiria. Mesmo que quisesse fugir, eu não teria feito nada para impedi-lo. Sentia-me sem forças. Investimentos. Imaginava várias cenas possíveis, enquanto seguia a pista do homem que levara meu dinheiro, mas nunca pensara que, quando finalmente o pegasse, o nosso encontro se transformaria numa conferência financeira.
Fabian saiu do quarto com o cabelo úmido e acabado de pentear. Seus passos eram agora firmes e não havia nele nada que indicasse que, havia apenas alguns minutos, jazera no chão, inconsciente e sangrando.
– Antes de mais nada – disse ele -, que tal um drinque?
– Muito bem – respondi.
– Acho que ambos estamos precisando. – Dirigiu-se a um bar na parede, abriu-o e serviu duas doses de uísque. – Soda? – perguntou. – Gelo?
– Não. Prefiro uísque puro.
– Ótima idéia! – exclamou, num sotaque tipicamente britânico. De vez em quando, passava de americano a inglês e vice-versa. Entregou-me o uísque, que eu bebi de um só trago. Tomou o dele lentamente e sentou-se diante de mim, na poltrona, girando o copo na mão. – Se não fosse Lily, você provavelmente nunca me teria descoberto.
– Provavelmente.
– Mulheres! – suspirou. – Você dormiu com ela?
– Prefiro não responder.
– Talvez tenha razão. – E suspirou de novo. – Bem… Imagino que você queira que eu comece do princípio. Tem tempo?
– De sobra – respondi.
– Posso impor-lhe uma condição, antes de começar? – perguntou ele.
– Qual é?
– Que você não diga nada a Lily sobre… sobre tudo isto. Como você deve ter deduzido pela carta, ela me tem em alta estima.
– Se eu receber o meu dinheiro de volta – prometi – não direi uma palavra.
– Acho a proposta justa. – Suspirou de novo. – Em primeiro lugar, se você não se importa, gostaria de lhe falar um pouco a meu respeito.
– Não me importo.
– Não vou demorar – disse ele.
Mas demorou, e bastante. Começou pelos pais, que eram pobres, o pai modesto empregado numa pequena fábrica de sapatos de Lowell, Massachusetts, onde Fabian tinha nascido. Em casa, nunca havia muito dinheiro. Ele não pudera cursar uma faculdade. Durante a Segunda Grande Guerra, servira na Força Aérea americana e ficara baseado nos arredores de Londres. Conhecera então uma moça inglesa, de família rica. A família vivia nas Bahamas, onde tinha fama de possuir grandes propriedades. Ele fora desmobilizado na Inglaterra e lá mesmo, após um romance apressado, casara-se com a moça.
– Acontece – disse ele, para explicar a união – que eu me tinha acostumado a coisas caras, não desejava trabalhar e não tinha outra possibilidade de levar o tipo de vida que queria.
Ele e a esposa tinham ido morar nas Bahamas, e Fabian adotara a nacionalidade britânica. A família da mulher, se não era miserável para com ele, tampouco era generosa, e ele tivera de começar a jogar para aumentar sua mesada. Bridge e gamão eram as suas especialidades.
– Infelizmente – disse ele – caí em vícios afins. Mulheres.
Um dia houve uma reunião de família e o divórcio se seguiu. Desde então ele tivera de se sustentar com os seus ganhos no jogo. Tinha vivido quase sempre bem, mas com muitos momentos de angústia. Durante parte do inverno, podia-se ganhar bem nas Bahamas, mas era forçado a estar sempre viajando. Nova York, Londres, Monte Carlo, Paris, Deauville, St.Moritz, Gstaad. Onde houvesse dinheiro. E onde se jogasse
– É uma existência precária – continuou ele. – Nunca consegui passar sequer um mês sem me preocupar. A toda hora via oportunidades, à minha volta, de ficar rico se dispusesse ao menos de um pequeno capital. Não vou dizer que me sentia amargurado, mas também não estava satisfeito. Tinha feito cinqüenta anos alguns dias antes da viagem a Zurique e não estava contente com o que o futuro me acenava. É frustrador ser obrigado a freqüentar os ricos sem possuir riquezas. Fingir que perder três mil dólares numa noite não é nada. Ir de um "palace-hotel" para outro quando se está "de serviço", e ficar hospedado em pensões baratas quando se está na "entressafra".
O grupo do clube de esqui resultara particularmente lucrativo. Os jogos eram marcados quase de ano para ano. Fabian tornara-se simpático, esquiava o mínimo possível para justificar o seu direito a freqüentar o clube, pagava as dívidas prontamente, dava o seu quinhão de festas, nunca roubava, era agradável com as mulheres e fora apresentado a vários milionários gregos, sul-americanos e ingleses, todos eles jogadores por natureza, orgulhosos disso e imprudentes no jogo.
– Havia também a possibilidade – continuou ele – de conhecer viúvas com fortunas e jovens divorciadas com belas pensões. Infelizmente – disse, com um suspiro – sou terrivelmente romântico, um defeito num homem da minha idade, e não me interessava o que me aparecia e o que eu queria não me era oferecido. Pelo menos – falou, com um quê de vaidade -, não numa base financeiramente aceitável. Sei que não estou traçando um retrato muito heróico de mim mesmo…
– Não – concordei.
– … mas queria que você acreditasse que lhe estou dizendo a verdade, que pode confiar em mim.
– Continue – retruquei. – Ainda não confio em você.
– Bem, assim era o homem que tentou abrir uma mala ostensivamente sua, num quarto caro do Palace Hotel de St.Moritz, e descobriu que o segredo não funcionava.
– Então, você mandou vir uma ferramenta para abrir o fecho – disse eu, recordando minha própria experiência.
– Pedi à portaria para mandar um homem. Assim que ele abriu a mala, vi que não era minha. Não sei por que não lhe disse que a mala era de outra pessoa. Acho que foi um sexto sentido. Ou talvez tivesse sido o fato de ver a pasta 007, novinha em folha, em cima de tudo. Geralmente, ninguém põe uma pasta dessas dentro da mala, leva-a na mão. Agradeci ao homem e dei-lhe uma gorjeta… incidentalmente, não tive coragem de jogar a pasta fora. Está no quarto e, naturalmente, às suas ordens.
– Obrigado.
– Naturalmente – prosseguiu -, quando contei o dinheiro, compreendi que o mesmo tinha sido roubado.
– Naturalmente.
– Isso faz com que o caso mude um pouco de figura, não é assim?
– Um pouco.
– Também significava que a pessoa que tinha atravessado o Atlântico com o dinheiro não iria pedir à Interpol para recuperá-lo. Meu raciocínio não lhe parece correto?
– Sem dúvida.
– Revistei cuidadosamente a mala. Espero que você me perdoe, se lhe disser que não encontrei nada que me fizesse acreditar que o dono da mala não fosse pessoa das mais modestas.
– Sem dúvida – concordei novamente.
– Também não encontrei nenhum indício da identidade do seu proprietário. Nem livrinhos de endereços, nem cartas, nada. Olhei até no estojo de barbear, para ver se havia algum remédio com o nome no rótulo.
Tive que rir.
– Você deve ser extremamente saudável – disse Fabian, em tom de aprovação.
– Tanto quanto você – repliquei.
– Ah! – exclamou ele, sorrindo. – Você fez a mesma coisa.
– Exatamente.
– Passei bem uma hora – continuou ele – tentando recordar se havia algo na minha mala com o meu nome. Achei que não havia nada. Naturalmente, tinha me esquecido da carta de Lily. Pensei que a tinha jogado fora. Mesmo assim, com a sua habitual prudência, sabia que ela nunca teria mencionado nomes. O próximo passo era óbvio.
– Você roubou o dinheiro.
– Digamos antes que o apliquei bem.
– O que você quer dizer com isso?
– Vamos por partes. Até então, eu nunca pudera arriscar o suficiente para garantir um lucro significativo. Em vista dos círculos que freqüentava, as quantias que eu podia arriscar eram ridículas. Mesmo quando ganhava, o que acontecia quase sempre, nunca podia tirar pleno partido da minha sorte. Está me acompanhando, Grimes?
– Parcialmente – respondi.
– Por exemplo, até agora, eu nunca ousara jogar bridge a mais de cinco cents por ponto.
– A Sra. Sloane disse-me que você estava jogando com o marido dela a cinco cents cada ponto.
– Certo. Na primeira noite. Depois, subimos para dez cents cada ponto. E depois, para quinze. Naturalmente, como Sloane estava perdendo muito, mentiu para a mulher.
– Quanto ele perdeu?
– Vou ser franco com você. Quando saí de St.Moritz, tinha na carteira um cheque de vinte e sete mil dólares, assinado por Sloane.
Assobiei e olhei para Fabian com crescente respeito. Meu jogo de pôquer em Washington pareceu-me insignificante. Ali estava um jogador que realmente sabia aproveitar a sorte. Mas depois lembrei-me de que era o meu dinheiro que ele estava arriscando e comecei de novo a ficar furioso.
– E qual a vantagem que isso me dá? – perguntei.
Fabian ergueu a mão num gesto apaziguador.
– Tudo no seu devido tempo, meu caro. – disse ele. – Fui também muito feliz no gamão. Por acaso você se lembra daquele jovem grego com uma mulher muito bonita?
– Vagamente.
– Ficou encantado quando sugeri aumentar as apostas. Um pouco acima de nove mil dólares.
– O que você está me dizendo – atalhei, asperamente – é que aumentou o meu capital em trinta e seis mil dólares. Ótimo para você, Fabian; agora, pode devolver-me os meus setenta, apertamos as mãos, tomamos um drinque e cada qual vai para o seu lado.
Ele meneou tristemente a cabeça.
– Acho que não é tão simples assim.
– Não abuse da minha paciência. Ou você tem o dinheiro ou não tem. E acho melhor você ter.
Fabian levantou-se.
– Acho que devemos tomar mais um drinque – disse ele, dirigindo-se para o bar.
Cravei nele um olhar fulminante. Mas, não o tendo matado quando tivera oportunidade, agora quaisquer ameaças tinham perdido muito do seu valor. Também me passou pela cabeça, enquanto olhava para as suas costas bem vestidas (não com as minhas roupas, mas com peças de duas ou três outras malas com que sempre viajava), que tudo aquilo podia ser uma balela, uma história inventada para me sossegar, até que alguém… uma arrumadeira, Lily Abbott, um amigo, entrasse no apartamento. Então, nada o impediria de me acusar de o estar incomodando, de estar fazendo chantagem com ele, de lhe estar tentando vender postais obscenos, qualquer coisa do gênero, para me expulsarem do hotel. Quando me deu o drinque, eu disse:
– Se você estiver mentindo, Fabian, da próxima vez vou vir com um revólver. – Não tinha a menor idéia, claro, de como se podia adquirir um revólver na França. E as únicas armas de fogo que eu manejara tinham sido os rifles 22 das barracas de tiro ao alvo, nos parques de diversões.
– Gostaria que você acreditasse em mim – disse Fabian sentando-se com a bebida na mão, depois de se ter servido de soda. – Tenho planos para nós dois que exigem confiança mútua.
– Planos? – Sentia-me infantilmente manipulado, astutamente manobrado por aquele homem que vivera de expedientes durante quase trinta anos e cuja mão podia estar tão firme alguns minutos após ter escapado a uma morte violenta. – Muito bem, continue – falei. – Você está trinta e seis mil dólares mais rico do que há três semanas atrás e diz que não é simples devolver-me o dinheiro que me deve. Por que não?
– Para começar, fiz alguns investimentos.
– Como, por exemplo…?
– Antes de entrar em detalhes – disse Fabian -, deixe-me apresentar-lhe, em linhas gerais, meu plano. – Deu um longo trago em sua bebida e pigarreou. – Acho que você tem algum direito em estar zangado com o que fiz…
Emiti um pequeno som abafado, que ele ignorou.
– Mas, a longo prazo – continuou -, tenho todas as razões para acreditar que você vai se sentir muito grato. – Eu ia interromper, mas ele, com um gesto, pediu-me silêncio. – Sei que setenta mil dólares parecem muito dinheiro. Principalmente para um jovem como você, que, segundo parece, nunca foi muito próspero.
– Aonde quer chegar, Fabian? – Eu não podia deixar de sentir que, momento a momento, uma espécie de teia estava sendo tecida à minha volta e que, dentro de muito pouco tempo, ficaria incapaz de me mexer ou mesmo de articular um som
A voz continuava, suave, quase britânica, confiante, persuasiva.
– Quanto tempo esse dinheiro lhe duraria? Um ano, dois. No máximo, três anos. Não demoraria e você seria visado por homens mal-intencionados e mulheres rapinantes. Suponho que tenha tido muito pouca experiência, se é que teve, em administrar grandes somas em dinheiro. Só a maneira primitiva… e, se me permite uma pequena crítica, imprudente como você tentou transferir o dinheiro dos Estados Unidos para a Europa já é prova bastante disso…
Como eu não estava em posição de contradizê-lo sobre a minha inépcia, permaneci calado.
– Já eu, pelo contrário… – continuou ele, fazendo girar o gelo no copo e olhando-me bem nos olhos. – Há quase trinta anos venho lidando com somas consideráveis. Enquanto você daqui a três anos estaria depenado, sem um centavo, em algum canto da Europa… Parto do princípio de que você não acharia seguro voltar aos Estados Unidos… – Olhou para mim interrogativamente.
– Continue – falei.
– Eu, com um pouco de sorte e esse capital, não ficaria surpreso se acabasse com mais de um milhão…
– De dólares?
– De libras – respondeu ele.
– Devo dizer – confessei – que admiro a sua audácia. Entretanto, que teria eu a ver com isso?
– Seríamos sócios – disse ele, calmamente. – Eu me encarregaria dos… investimentos e nós dividiríamos os lucros meio a meio. A começar pelo cheque do Sr. Sloane e a contribuição do jovem grego. Não acha a proposta justa?
Procurei pensar claro. Aquela voz baixa, educada, estava me hipnotizando.
– Quer dizer que… em troca dos meus setenta mil dólares, eu receberia metade de trinta e seis mil?
– Menos certas despesas – disse ele.
– Como, por exemplo?
– Hotéis, viagens, despesas diárias. Esse tipo de coisas.
– E sobrou alguma coisa? – perguntei.
– Um bocado. – Ergueu de novo a mão. – Por favor, escute o que tenho a dizer até o fim. Para ser mais do que justo… depois de um ano, você poderia retirar, se assim desejasse, os seus setenta mil dólares originais.
– E se, durante o ano, você perdesse tudo?
– Esse é um risco que ambos teríamos de correr – replicou ele. – Acho que vale a pena corrê-lo. Agora, deixe-me lembrar-lhe outras vantagens. Você, como americano, deduz bastante para o imposto de renda, não é certo?
– Sim, mas…
– Já sei o que vai dizer… que não pretende pagá-lo. Imagino que não tenha declarado os setenta mil dólares que são o objeto da nossa conversa. Se você simplesmente os gastasse, não teria nenhuma dificuldade. Mas se os aumentasse, por meios legais ou mesmo semilegais, teria de ter cuidado com a multidão de agentes americanos espalhados por toda a Europa, de informantes de bancos e de casas comerciais… Estaria sempre com medo de ter o seu passaporte confiscado, de multas, de um processo criminal…
– E você? – perguntei, sentindo-me encurralado pela sua lógica.
– Eu sou um súdito britânico, domiciliado nas Bahamas. Nem sequer preencho um formulário. Deixe-me dar-lhe um exemplo rápido… você, como americano, não pode, legalmente, negociar com ouro, embora o seu governo esteja eventualmente cogitando de alterar isso. Já sobre mim não recaem tais restrições. O mercado de ouro anda muito sedutor. Enquanto eu estava divertindo o Sr. Sloane e o meu amigo grego com os nossos joguinhos, fiz um pequeno investimento nesse setor. Por acaso você tem acompanhado as últimas cotações do ouro?
– Não.
– Pois saiba que já ganhei… já ganhamos… dez mil dólares com esse investimento.
– Em apenas três semanas? – perguntei, incrédulo.
– Em apenas dez dias, para ser exato – replicou Fabian.
– Que mais você fez com meu dinheiro? – Eu ainda me aferrava ao pronome possessivo na primeira pessoa do singular, mas com vigor cada vez menor.
– Bem… – Pela primeira vez, desde que saíra do banheiro, Fabian parecia um pouco nervoso. – Na qualidade de sócio, não pretendo esconder nada de você. Comprei um cavalo.
– Um cavalo! – Não pude deixar de gemer. – Que espécie de cavalo?
– Um puro-sangue. Um cavalo de corrida. Entre outras razões, de que mais tarde falarei, foi por isso que não fui, como combinado, a Florença… para grande aborrecimento de Lily. Tive de vir a Paris fechar o negócio. É um cavalo que me chamou a atenção em Deauville, no verão passado, mas que na ocasião eu não estava em condições de comprar. Além disso – e ele sorriu -, nessa altura também não estava à venda. Um amigo meu, que tem uma coudelaria e um haras no Kentucky, mostrou interesse no potro… um garanhão que mais tarde será também muito valioso na reprodução… e tenho certeza de que ele se mostraria grato de maneira muito lucrativa, se eu lhe comunicasse que sou agora o dono do animal. Por amizade, estou pensando em lhe escrever dizendo que, se ele quiser, eu lhe vendo o cavalo.
– E se ele responder que mudou de idéia? – Quase sem sentir, tinha-me deixado arrastar para o que, apenas quinze minutos atrás, eu teria considerado como um punhado de fantasias de jogador. – E se ele não estiver mais interessado em comprar?
Fabian deu de ombros e retorceu amorosamente as pontas do bigode, num gesto que, mais tarde, eu reconheceria como um tique, útil para ganhar tempo quando ele não tinha uma resposta rápida para uma pergunta.
– Nesse caso, meu velho – replicou -, nós dois teríamos o início de uma coudelaria. Ainda não escolhi as cores. Você tem alguma preferência?
– Preto e azul – respondi.
Ele soltou uma gostosa gargalhada.
– Ainda bem que você tem senso de humor! – exclamou. – É muito chato ter negócios com gente séria.
– Importa-se de me dizer quanto pagou pelo animal? – perguntei.
– Em absoluto. Seis mil dólares. Deixou de treinar no outono por causa de um problema nos cascos, de modo que foi uma pechincha. O treinador é um velho amigo meu – Eu iria descobrir que Fabian tinha velhos amigos em todas as partes do mundo e em todas as profissões -… e garantiu-me que agora ele estava pronto para outra.
– Pronto para outra – repeti. – Por falar nisso, Fabian, há outros… investimentos em pauta?
Ele revirou de novo o bigode.
– Para falar a verdade, há – respondeu. – Só espero que você não seja demasiado puritano.
Pensei em meu pai e em sua Bíblia.
– Talvez seja um pouco – disse eu. – Por quê?
– Sempre que venho a Paris, faço questão de visitar uma encantadora francesa – começou ele, sorrindo só de pensar na mulher. – Bem, ela se interessa por cinema. Parece que foi atriz, quando mais jovem. Agora é produtora. Um velho admirador a financia, mas, pelo que sei, não suficientemente. No momento, ela está no meio de um filme. Sujo, muito sujo. Vi alguns dos… acho que em linguagem cinematográfica se chamam copiôes. Divertido. Você tem idéia de quanto um filme como Deep tbroat deu a seus produtores?
– Não.
– Milhões, rapaz, milhões. – Suspirou sentimentalmente. – Minha encantadora amiga deu-me o script para ler. Um bocado intelectual. Cheio de fantasias e provocação. Essencialmente inocente, na minha opinião. Quase decoroso, do ponto de vista sofisticado, mas com um pouco de tudo para todos os gostos. Algo assim como uma combinação de Henry Miller e As mil e uma noites. Mas a minha encantadora amiga, que também está dirigindo o filme, comprou o script por quase nada de um jovem iraniano que não pode voltar ao Irã. Porém, embora ela esteja fazendo o filme pelo barato… algumas das mais lucrativas dessas obras de arte não custam mais de quarenta mil dólares… acho que Deep throat não custou mais de sessenta… Como eu estava dizendo, a sua contabilidade não combina com o seu talento… ela é um tiquinho de mulher… e, quando me disse que precisava de quinze mil dólares para completar o filme…
– Você disse que lhe daria.
– Exatamente! – falou ele, com um sorriso. – Por gratidão, ela ofereceu-me vinte por cento dos lucros.
– E você aceitou?
– Não. Exigi vinte e cinco. – Sorriu de novo. – Sou amigo, mas primeiro sou homem de negócios.
– Fabian, não sei se devo rir ou chorar.
– No fim – garantiu ele -, você vai sorrir. Pelo menos sorrir. Esta noite, vão mostrar o que já fizeram até aqui. Estamos todos convidados. Aposto como você vai ficar impressionado.
– Nunca na minha vida vi um filme pornográfico – falei.
– Nunca é tarde para começar, amigo. Agora – mudou ele de assunto – sugiro que desçamos ao bar para esperar Lily. Ela não deve demorar. Enquanto isso, brindemos à nossa sociedade com champanha. E depois o levarei para comer o melhor almoço de sua vida. A seguir, iremos ao Louvre. Você já esteve no Louvre?
– Cheguei a Paris ontem.
– Tenho inveja de sua iniciação – afirmou ele.
Tínhamos terminado uma garrafa de champanha, quando Lily Abbott entrou no bar. Quando Fabian me apresentou como um velho amigo de St. Moritz, ela não demonstrou, nem por um piscar de olhos, que já nos conhecêramos em Florença.
Fabian mandou vir uma segunda garrafa de champanha.
Oxalá o gosto me agradasse!