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CAPÍTULO XV

– Pronto, está feito – disse Fabian, quando saíamos do escritório do advogado para a neve semiderretida das ruas de Zurique. – Agora estamos ligados pelas correntes da lei. – O contrato que fizéramos acabava de ser legalizado e o advogado prometera passar a nossa sociedade para o Liechtenstein dentro de um mês. Eu descobrira que o Liechtenstein, onde não há impostos e onde as rendas das companhias são como segredos de Estado bem guardados, exercia uma irresistível atração sobre os advogados.

Embora a sociedade fosse formada por Fabian e por mim, com participação igual, por uma razão qualquer relacionada com os meandros da lei suíça, o advogado nomeara-se a si próprio presidente da companhia. Tínhamos de escolher um nome para a firma e eu sugeri "Augustine Investimentos Cia. Ltda." Ninguém votou contra. Pagamos várias despesas relativas à legalização.

Fabian galantemente fizera questão de incluir no contrato a cláusula garantindo-me o direito de retirar os meus setenta mil dólares originais ao fim de um ano. Tínhamos ido ao banco onde Fabian já mantinha conta e abrimos uma conta conjunta, para que nenhum de nós pudesse tirar dinheiro sem o consentimento do outro.

Cada um de nós depositou cinco mil dólares em nosso nome numa conta corrente do Union Bank of Switzerland.

– Para as pequenas despesas – disse Fabian.

Se um de nós morresse, todo o capital da companhia e o dinheiro no banco ficariam para o sobrevivente.

– É um bocado macabro, bem sei – comentou Fabian, quando eu li a cláusula. – Mas não se pode ser reticente em assuntos destes. Caso você estiver mal-impressionado, Douglas, lembre-se de que sou bem mais velho do que você e, por conseguinte, devo deixar este mundo antes.

– Eu sei – repliquei. Só não lhe disse que a cláusula também lhe podia dar a tentação de jogar-me de um precipício abaixo ou de envenenar-me a sopa. – Sim, acho o contrato muito justo.

– Que tal, está satisfeito agora? – perguntou Fabian, enquanto dávamos a volta a um charco. – Sente-se protegido?

– De tudo – respondi -, menos do seu otimismo. – Havia seis dias que estávamos em Zurique, sob um céu cinza e triste e, nesses seis dias, Fabian comprara mais vinte mil dólares em ouro, aplicara no mercado de açúcar, fora duas vezes a Paris e adquirira três litografias abstratas de um artista do qual eu nunca ouvira falar, mas que nos próximos dois anos, segundo ele, iria "explodir". Conforme me dissera, não gostava de deixar o dinheiro parado.

Fabian discutira todos os investimentos comigo e me explicara pacientemente o funcionamento dos diversos mercados, onde as flutuações eram tão imprevisíveis que se podiam fazer ou perder fortunas no espaço de uma tarde e onde ganháramos muito dinheiro entre a quinta e a sexta-feira. Eu entendia ou fingia entender as nossas operações, mas, quando ele me pedia opinião, tinha de deixar as decisões a seu critério. Sentia vergonha da minha ingenuidade e lembrava-me de quando era criança e o professor de matemática me fazia uma pergunta que todos na classe sabiam responder, menos eu. Tudo me parecia tão complicado e perigoso, que eu nem sabia como conseguira sobreviver durante trinta e três anos no mesmo mundo que Miles Fabian habitava.

Ao fim de seis dias, eu não tinha mais a certeza de poder agüentar o desgaste diário dos meus nervos. Todas as manhãs as palmas das minhas mãos ficavam cobertas de suor frio.

Quanto a Fabian, nada parecia preocupá-lo. Quanto maiores os riscos que assumia, mais sereno ficava. Se havia algo que eu gostaria de aprender com ele, era isso. Pela primeira vez desde os tempos de criança, comecei a sentir o estômago. Enquanto tomava Alka-Seltzer após Alka-Seltzer, tentava convencer-me de que não eram os nervos, e sim a comida demasiado substanciosa que nos serviam duas vezes por dia nos melhores restaurantes da cidade, mais os vinhos que Fabian escolhia. Porém, nem ele nem Lily, nem a irmã dela, Eunice, se queixavam de nada, mesmo depois de um jantar no Kronenhalle, monumento suíço à cozinha e à digestão helvéticas, onde tínhamos comido truta defumada, lombo de veado com Spätzle e molho de murtinho, tudo isso acompanhado primeiro de uma garrafa de Aigle e, depois, de um pesado Borgonha, e seguido por porções de queijo Vacherin e um soufflé de chocolate.

Estava também começando a me preocupar com o peso, pois as calças me apertavam na cintura. Lily parecia não aumentar nem um grama, embora comesse mais do que eu ou Fabian. Eunice, que era gordinha, permanecia gordinha. E Fabian, como por milagre, estava emagrecendo e ficando ainda mais elegante, como se a súbita injeção de dinheiro lhe tivesse feito bem ao metabolismo. Por mais que comesse e bebesse, seus olhos continuavam límpidos, sua pele rosada e saudável, seu andar ágil, seu bigode cheio de virilidade. Os generais que tinham passado anos e anos de obscuridade em tempos de paz deviam reagir da mesma forma, quando subitamente postos a comandar exércitos e a planejar batalhas. Olhando para ele, tive o sombrio pressentimento de que, semelhante a um soldado, eu é que iria sofrer por nós dois.

Eunice era uma moça bonita e agradável, com nariz arrebitado, vulneráveis olhos azuis, um colorido que lembrava um prado na primavera, um salpico de sardas, uma silhueta que teria sido mais apreciada no tempo da Rainha Vitória do que na década de 70, e uma maneira de falar suave, quase hesitante, resultado quase que certo da fala autoritária e decidida de sua irmã mais velha. Era difícil imaginá-la passando em revista a Guarda Irlandesa, como Lily sugerira, ou qualquer outro regimento.

Sempre que os quatro saíamos juntos, as duas mulheres atraíam invariavelmente intensos olhares de admiração masculina, Eunice não ficando atrás da irmã, embora esta fosse bem mais espetacular. Noutras circunstâncias, eu me teria sem dúvida sentido atraído pela moça, mas, confrontado com o voyeurismo semi-inocente de Fabian e perseguido pelo olhar frio e florentino de Lily, eu não conseguia expressar qualquer proposta, ou sequer dar a entender que elas poderiam ter boa acolhida, se viessem da irmã de Lily. Fora educado para acreditar que o sexo era uma aberração privada, não um empreendimento público, e era demasiado tarde para mudar essa concepção. Desde que ela chegara, tinha-me despedido de Eunice castamente, no elevador, sem ao menos lhe dar um beijo na face. Nossos quartos ficavam em andares diferentes.

Foi com alívio que ouvi as duas mulheres se queixarem da prolongada estada em Zurique. Já tinham comprado tudo o que queriam, o clima as oprimia e não sabiam o que fazer durante as longas horas que eu e Fabian passávamos em conferências, em escritórios ou no hall do hotel, com os vários homens de negócios, banqueiros e corretores que Fabian arrebanhava no centro financeiro da cidade, todos eles falando, ou antes sussurrando, inglês com os mais diversos sotaques, nenhum dos quais eu entendia melhor do que Eunice ou Lily, se estivessem no meu lugar. Infelizmente, eu tinha de ficar, não só a pedido de Fabian como por querer estar presente a todas as transações. Mas as duas irmãs tinham partido de trem para Gstaad, onde o sol, segundo o serviço de meteorologia, brilhava, a neve estava ótima e a companhia era divertida. Nós dois iríamos mais tarde, prometera Fabian, tão logo concluíssemos os negócios em Zurique, o que não demoraria, após o que seguiríamos para a Itália. Fabian deu-lhes o equivalente, em francos suíços, a dois mil dólares, sacados da nossa conta conjunta. Dinheirinho para pequenas despesas, segundo ele dizia, fazendo-me estremecer. Para quem levara uma existência precária durante quase toda a vida, ele sem dúvida tinha hábitos senhoriais.

Uma vez as duas irmãs fora da circulação, Fabian conseguiu arranjar tempo para algumas das outras atrações da cidade. Passamos longas horas no museu de arte, dando especial atenção a um nu de Cranach que Fabian corria a admirar, segundo dizia, cada vez que passava por Zurique. Nunca procurava explicar-me os seus gostos, mas parecia satisfeito com que eu o acompanhasse nos seus tours pelas galerias de arte da cidade. Fomos a um concerto de música de Brahms, mas tudo o que ele disse foi:

– Na Europa central, é preciso ouvir Brahms.

Levou-me até o cemitério onde James Joyce, que morreu em Zurique, estava enterrado, o túmulo marcado por uma estátua do escritor, e lá ficou sabendo que eu nunca lera Ulisses. Quando voltamos à cidade, Fabian levou-me direto a uma livraria e comprou-me o livro. Pela primeira vez na minha vida, suspeitei que as prisões deste mundo pudessem estar cheias de homens que tinham lido Platão e apreciavam música, literatura, pintura moderna, bons vinhos e cavalos puros-sangues.

Passou-me pela cabeça que ele estaria tentando, por algum motivo particular, corromper-me. Mas, nesse caso, fazia-o de uma maneira toda especial. Desde que deixáramos Paris, ele me tratava de um jeito meio afetuoso, meio condescendente, como se fosse um tio sofisticado encarregado da educação mundana de um sobrinho oriundo de algum lugar atrasado. As coisas tinham-se passado tão rapidamente e o futuro que ele pintava parecia tão brilhante, que eu não tinha nem tempo nem vontade de me queixar. A verdade é que, naqueles primeiros dias, apesar dos momentos de pânico, eu me sentia feliz por ter trocado de mala com ele. Esperava não demorar muito a poder comportar-me como ele. Em outras épocas, celebravam-se nos heróis virtudes tão comuns como a coragem, a generosidade, a astúcia, a fidelidade e a fé. O autodomínio, o aplomb <emphasis><strong>[6]</strong></emphasis>, a confiança em si mesmo, quase nunca eram incluídos. Mas, nos nossos tempos, quando quase ninguém sabe onde põe os pés ou pode dizer com segurança se está caindo ou subindo, avançando ou recuando, se é amado ou odiado, desprezado ou adorado, o aplomb tem, pelo menos para gente como eu, uma importância capital.

Miles Fabian podia ter falhas, mas tinha, e de sobra, aplomb.

– Surgiu algo – anunciou Fabian. – Em Lugano. – Estávamos no living da sua suíte, como sempre cheia de jornais americanos, ingleses, franceses, alemães e italianos, todos abertos nas páginas financeiras. Ele ainda estava de robe, tomando o seu café da manhã. Eu já tinha tomado o meu Alka-Seltzer da manhã no meu quarto, situado no andar de baixo.

– Pensei que íamos para Gstaad – falei.

– Iremos depois. – Mexeu vigorosamente o café. Pela primeira vez, reparei que suas mãos pareciam mais velhas do que sua cara. – Claro que, se você quiser, pode ir a Gstaad sem mim.

– Você vai a Lugano a negócios?

– De certa maneira – respondeu ele, displicentemente.

– Então vou a Lugano com você.

– Sócio! – comentou, com um sorriso.

Uma hora mais tarde, estávamos no Jaguar azul recém-comprado, com Fabian ao volante, rumo ao colo de San Bernardino. Ele guiava velozmente, mesmo quando começamos a subir os Alpes e passamos por pedaços de gelo e de neve. Quase não disse palavra até termos atravessado o enorme túnel e saído na vertente sul da cadeia de montanhas. Parecia absorto e eu já o conhecia o suficiente para saber que estaria debatendo algo em sua cabeça, provavelmente o quanto lhe caberia do negócio atual.

O tempo estivera encoberto desde Zurique, mas quando saímos do túnel o sol brilhava, só de vez em quando obscurecido por altas e apressadas nuvens brancas. O sol parecia ter influído em Fabian, que agora assobiava baixinho enquanto guiava.

– Imagino – falou – que você queira saber por que estamos indo a Lugano.

– Sou todo ouvidos – retruquei.

– Há um senhor alemão, meu conhecido – começou ele -, que está morando lá. Desde o "milagre econômico alemão", tem havido um grande afluxo de alemães ricos a essa região. Parece que o clima do Ticino lhes agrada. E os bancos também. Você já ouviu falar no "milagre econômico alemão"…?

– Já. E o que esse senhor alemão seu conhecido faz?

– É difícil explicar. – Fabian estava agora dissimulando e ambos sabíamos disso. – Faz um pouco de tudo. Negocia com quadros dos velhos mestres. Aumenta sua fortuna. Fizemos um ou dois pequenos negócios. Ontem à noite, ele me telefonou para Zurique e pediu que eu lhe fizesse um pequeno favor, em troca do qual ele me demonstraria sua gratidão. Mas nada está ainda decidido. É tudo muito vago. Não se preocupe… se resultar em algo, você ficará a par de todos os detalhes.

Quando ele falava assim, não adiantava fazer-lhe mais perguntas. Liguei o rádio e descemos para o verde Ticino, acompanhados por um soprano que cantava uma ária da Aída.

Em Lugano, hospedamo-nos num hotel novo, situado à margem do lago. Por todo o lado havia flores. As frondes das palmeiras balançavam suavemente ao vento sul e, no terraço, ao ar livre, pessoas em roupa de verão tomavam chá. Era quase como se estivéssemos no Mediterrâneo e não era difícil entender por que o clima do Ticino agradava a uma raça nórdica e refrigerada. Na piscina envidraçada, anexa ao terraço, uma robusta loura nadava metodicamente.

– Todos os hotéis tiveram que instalar piscinas – disse Fabian. – Não se pode mais nadar no lago. Está poluído.

O lago estendia-se azul e aparentemente límpido ao sol da tarde. Lembrei-me do velho no bar de Burlington queixando-se de que o lago Champlain dali a cinco anos estaria tão poluído quanto o lago Erie.

– Quando estive pela primeira vez na Suíça, depois da guerra – disse Fabian -, podia-se nadar em todos os lagos, em todos os rios. – Suspirou. – O tempo não melhora nada. Agora, se você tiver a bondade de pedir ao garçom que traga uma garrafa de Dezaley, eu poderei telefonar para o meu amigo, a fim de combinar com ele. Não demoro.

Mandei vir o vinho e fiquei ali, sentado ao sol do fim da tarde, apreciando a paisagem. As negociações que Fabian estava fazendo ao telefone deviam ser complicadas porque eu já tinha bebido quase metade da garrafa de vinho quando ele voltou.

– Tudo em ordem – anunciou, sorridente, ao mesmo tempo em que se sentava e se servia de um copo de vinho. – Vamo-nos encontrar com ele às seis, na sua villa. O nome dele, por falar nisso, é Steubel. Não lhe vou dizer mais nada sobre ele por ora…

– Até agora, você não me disse nada – lembrei-lhe.

– Isso mesmo. Não quero que você tire conclusões antecipadas. Espero que não tenha preconceitos contra os alemães…

– Que eu saiba, não tenho.

– Ótimo! – disse ele. – Muitos americanos ainda estão combatendo na Segunda Guerra Mundial. Oh, antes que me esqueça, a fim de explicar a sua presença, disse ao Sr. Steubel que você era o Professor Grimes, do departamento de arte da Universidade de Missouri.

– Meu Deus, Miles! – exclamei, quase espirrando o vinho. – Se ele entender alguma coisa de arte, em dez segundos perceberá que eu sou um completo ignorante. – Agora eu sabia por que razão Fabian passara a primeira metade da viagem calado e pensativo. Estivera inventando uma falsa identidade para mim.

– Eu não me preocuparia – disse Fabian. – É só você parecer grave e consciencioso, examinar com atenção tudo o que ele nos mostrar. E, quando eu lhe pedir sua opinião, hesite… você sabe como hesitar, não sabe?

– Continue – disse eu, sombrio. – Depois de hesitar, o que eu faço?

– Você diz: "À primeira vista, Sr. Fabian, parece autêntico". Mas então você acrescenta que gostaria de voltar amanhã, a fim de examinar melhor a obra, à luz do dia.

– Qual a vantagem disso?

– Quero que ele passe a noite sem dormir – explicou calmamente Fabian. – Ficará mais generoso amanhã. Lembre-se de não mostrar um entusiasmo indevido.

– Essa vai ser a coisa mais fácil que eu já fiz, desde que nos conhecemos – retruquei, azedo.

– Sei que posso confiar em você, Douglas.

– E quanto é que isto vai nos custar?

– Isso é o melhor de tudo – respondeu Fabian, alegremente. – Nada.

– Explique – exigi, cruzando os braços.

– Preferiria não explicar, por ora – disse Fabian, visivelmente irritado. – Seria muito melhor deixarmos as coisas correrem. Espero que entre nós haja uma certa confiança…

– Explique ou eu não vou – ameacei.

Ele abanou a cabeça, irritado.

– Muito bem, já que você insiste… Por motivos lá dele, o Sr. Steubel está se desfazendo de uma coleção de família. Acredita que, agindo dessa forma, poderá evitar contestações legais por parte de parentes afastados. E, naturalmente, ele prefere não pagar os impostos absurdos que os diversos governos cobram sobre esse tipo de transações. Para não falar das dificuldades com a alfândega, quando se pretende despachar obras de arte de um país para outro…

– Por acaso você está querendo me dizer que eu e você vamos contrabandear obras de arte para fora da Suíça?

– Devia me conhecer melhor, Douglas – disse ele, num tom de censura.

– Diga-me, então – pedi. – O que vamos fazer: comprar ou vender?

– Nem uma coisa nem outra – respondeu Fabian. – Somos simplesmente agentes. Agentes honestos. Há um ricaço sul-americano, que por acaso é meu conhecido…

– Mais um conhecido.

– Exatamente – disse Fabian. – Sei que ele é louco por pintura do Renascimento e está disposto a pagar regiamente por telas autênticas. Os países sul-americanos são famosos por sua discrição na importação de obras de arte. Deve haver milhares de grandes quadros europeus que atravessaram silenciosamente o oceano e agora enfeitam paredes sul-americanas, sem que ninguém saiba disso aqui na Europa.

– Você me disse que não íamos contrabandear nada da Suíça – falei. – A última vez que olhei no mapa, a Suíça não ficava na América do Sul.

– Não me venha com ironias, Douglas – pediu Fabian. – Não combinam com você. O sul-americano de que estou falando está atualmente em St.Moritz. É muito amigo do embaixador do seu país e a mala diplomática está sempre aberta para ele. Deu a entender que está disposto a pagar um máximo de cem mil dólares e acredito que o Sr. Steubel poderá ser convencido a nos pagar uma boa comissão sobre esse preço.

– O que é que você chama de uma boa comissão? – perguntei.

– Vinte e cinco por cento – disse, imediatamente, Fabian. – Vinte e cinco mil dólares apenas por atravessar de carro, uma das regiões mais pitorescas da bela Suíça… e tudo dentro da mais completa legalidade. Agora você entende por que em Zurique eu lhe disse que só depois iríamos a Gstaad?

– Entendo – disse eu.

– Por que esse tom de voz tão sombrio? – censurou Fabian. – Oh, incidentalmente, o quadro que vamos ver é um Tintoretto. Como professor de arte, você deverá saber reconhecê-lo. Não vai esquecer-se do nome, vai?

– Tintoretto – repeti.

– Excelente! – disse ele, sorrindo para mim. – Este vinho é uma delícia! – E encheu de novo ambos os copos.

Já estava escuro quando chegamos à villa do Sr. Steubel. Era uma casa quadrada, de dois andares, feita de pedra e pendurada no alto de uma estrada estreita e não iluminada, sobre o lago. Não se via nenhuma luz por entre as venezianas de madeira das janelas.

– Tem certeza de que é aqui? – perguntei a Fabian. Não parecia a mansão de um homem que se estava desfazendo de uma coleção de velhos mestres que herdara da família.

– Certeza absoluta – respondeu Fabian, desligando o motor do carro. – Ele me deu indicações explícitas.

Saímos do carro e atravessamos um jardinzinho malcuidado. Fabian tocou a campainha, mas não ouvi nada lá dentro. Tive a sensação de que estávamos sendo observados. Fabian tocou novamente a campainha e a porta finalmente se abriu. Uma velhinha de touca e avental de renda disse:

– Buona sera.

– Buona sera, signora – redargüiu Fabian, entrando. A velha mostrou-nos o caminho, coxeando pelo hall mal iluminado. Não havia nenhum quadro nas paredes.

Ela abriu uma pesada porta de carvalho e entramos numa sala de jantar iluminada por um lustre de cristal por cima da mesa. Um homem enorme e careca, com uma grande pança e uma barba de capitão de baleeiro, estava de pé à nossa espera, metido num terno de veludo cotelé amassado que incluía um par de calções curtos sob os quais se viam os seus maciços tornozelos, envoltos em meias de lã vermelhas. Atrás dele, sem moldura, iluminada pelo lustre, pendia uma tela escura, presa por tachas à parede amarelada. A tela representava uma madona e o menino, e devia ter uns setenta e cinco centímetros de largura por quase um metro de altura.

O homem saudou-nos em alemão, com uma pequena curvatura, e a velha saiu, fechando a porta atrás dela.

– Infelizmente, Sr. Steubel – disse Fabian -, o Professor Grimes não entende alemão.

– Nesse caso, vamos falar inglês – disse o Sr. Steubel. Seu inglês tinha apenas um leve sotaque alemão. – Ainda bem que o senhor pôde vir. Posso lhes oferecer algo de beber?

– Muito obrigado, Sr. Steubel – replicou Fabian. – Mas acho que não temos tempo. O Professor Grimes precisa telefonar às sete horas para a Itália. E, depois, para a América.

O Sr. Steubel pestanejou e esfregou as mãos, como se elas estivessem suadas.

– Espero que o professor consiga logo a ligação para a Itália – disse ele. – O sistema telefônico daquele país… – Não terminou a frase, mas eu tive a impressão de que ele não queria que ninguém telefonasse para lugar algum.

– Com licença – disse eu, dando um passo na direção da tela.

– Por favor. – O Sr. Steubel saiu do caminho.

– Naturalmente, o senhor tem os documentos? – perguntei.

Ele voltou a esfregar as mãos, só que agora com mais força.

– Claro que tenho. Mas não aqui comigo. Estão na… na minha casa, em… em Florença.

– Entendo – disse eu, friamente.

– Seriam precisos alguns dias – disse Steubel. – E o Sr. Fabian diz que tem pressa… – Voltou-se para Fabian. – O senhor não me disse que o cavalheiro em questão vai embora no fim da semana?

– Talvez tenha dito – respondeu Fabian. – Sinceramente, não me lembro.

– De qualquer maneira – falou Steubel -, aqui está a tela. Tenho certeza de que não preciso dizer ao professor do seu valor.

Ouvi-o respirar ofegante, quando me aproximei da tela para olhá-la. Se o plano de Fabian era enervar o homem, estava acertando em cheio.

Após mais ou menos um minuto de silencioso escrutínio, sacudi a cabeça e virei-me.

– Naturalmente, eu posso me enganar – falei. – Mas, após um exame superficial, eu diria que não se trata de um Tintoretto. Talvez seja da escola de Tintoretto, mas até disso eu duvido.

– Professor Grimes! – exclamou Fabian, numa voz sentida. – Decerto o senhor não teve tempo… em apenas um minuto… à luz artificial…

A respiração do Sr. Steubel era cada vez mais ofegante e ele se apoiara à mesa de jantar.

– Sr. Fabian – retruquei, inflexível -, pediu-me que lhe desse a minha opinião. Foi o que fiz.

– Mas, por atenção ao Sr. Steubel… – Fabian estava à procura de palavras e puxava furiosamente o bigode. – Por simples cortesia… acho que o senhor devia voltar amanhã. À luz do dia. Ora… isto é absurdo. Absurdo. O Sr. Steubel diz que tem os documentos…

– Tenho os documentos – gemeu Steubel. – Berenson em pessoa autenticou o quadro. Berenson…

Eu não tinha a menor idéia de quem era Berenson, mas resolvi arriscar.

– Berenson está morto, Sr. Steubel – falei.

– Quando ainda estava vivo – disse Steubel. Eu atirara no verde para colher maduro. Minhas credenciais como perito em arte estavam confirmadas.

– Naturalmente, o senhor pode pedir outras opiniões – disse eu. – Posso dar-lhe uma lista de colegas meus.

– Non prrecisa de nenhum colega seu, prrofessor – gritou Steubel, já sem cuidado algum de falar bem inglês. Por um momento, receei que ele fosse bater-me com uma das suas enormes mãos. – Non prrecisa de nenhum maldito amerricano para me fir falar de Tintoretto.

– Acho que vou ter que ir andando – disse eu. – Como o senhor observou, não é fácil conseguir ligação para a Itália. Vem também, Sr. Fabian?

– Sim, eu também vou – disse Fabian, como se praguejasse. – Eu lhe telefono mais tarde, Sr. Steubel. Podemos marcar um encontro para amanhã, para conversar com mais calma.

– Venha sozinho! – foi tudo quanto Steubel disse, quando saímos para o hall às escuras. A velhinha de touca rendada estava a apenas alguns metros de distância, como se tivesse estado de ouvido alerta para o que se dizia na sala de jantar. Abriu-nos a porta da rua sem uma palavra. Mesmo que não tivesse entendido o que se dissera na sala, os gritos que decerto ouvira e a rapidez da conferência deviam tê-la impressionado mal.

Fabian bateu a porta do carro, tão logo se sentou ao volante do Jaguar. Sentei-me ao lado dele e fechei a porta com cuidado. Fabian não disse nada enquanto ligava o motor e saía como um louco. Ao dar marcha à ré para entrar na estrada principal, ouvi o estilhaçar de vidro: ele batera com a lanterna traseira numa mureta. Não falei nada. Ele também não abriu a boca até chegarmos ao lago. Aí, estacionou o carro e desligou o motor.

– Agora – disse ele, fazendo um esforço para não elevar a voz -, diga-me que história foi aquela!

– Qual história? – perguntei, inocentemente.

– Como diabo você pode saber se um Tintoretto é falso ou verdadeiro?

– Eu não sei – falei. – Mas estava recebendo maus fluidos daquele tal Sr. Steubel.

– Fluidos! Corremos o risco de perder vinte e cinco mil dólares e você vem me falar em fluidos! – explodiu Fabian.

– Esse seu Sr. Steubel é um vigarista.

– E nós, o que somos? Monges trapistas?

– Se nos tornamos vigaristas, foi por acidente – retruquei, não inteiramente sincero. – Steubel é vigarista de nascimento, por vocação e opção.

– Isso é você quem diz. – Fabian estava agora na defensiva. – Você fala com um homem durante três minutos e inventa-lhe uma história. Fiz negócios com ele e nunca me deixou na mão. Se tivéssemos fechado este negócio, eu lhe garanto que logo teríamos o dinheiro.

– Possivelmente – concordei. – Mas também podíamos acabar na cadeia.

– Por quê? Transportar um Tintoretto, mesmo falso, através da Suíça, não é nenhum crime. Se há coisa que eu detesto num homem, Douglas, permita que lhe diga, é a timidez. E, se quer saber de uma coisa, acho que ele está dizendo a verdade. Que o quadro é um Tintoretto, Professor Grimes, da Universidade de Missouri.

– Já acabou, Miles? – perguntei.

– Por ora. Mas não me responsabilizo pelo futuro.

– Transportar um Tintoretto, mesmo falso, não é, como você diz, um crime – falei. – Mas promover a venda de um Tintoretto roubado é crime. E não quero participar de uma coisa dessas.

– Como é que você sabe que o quadro foi roubado? – perguntou Fabian, sombrio.

– Sinto. E você também deve sentir.

– Eu não sei de nada – disse Fabian, defensivamente.

– Você por acaso perguntou?

– Claro que não. Isso não me diz respeito. E nem lhe devia interessar. O que não sabemos não nos pode atingir. Se você está resolvido a cair fora, pode fazê-lo. Vou telefonar a Steubel assim que chegar ao hotel, para lhe dizer que amanhã irei apanhar o quadro.

– Se você fizer isso – falei, muito sério – mandarei a polícia esperar por você e pelo velho Sr. Steubel na sua mansão de família.

– Você está brincando, Douglas – disse Fabian, incrédulo.

– Experimente para ver. Escute… tudo o que tenho feito, desde que saí do Hotel St. Augustine, tem sido legal, ou quase, inclusive tudo o que tenho feito com você. Posso ser um criminoso, mas um criminoso circunstancial. Se há algo de que me possam acusar, será de fugir ao imposto de renda, mas ninguém leva isso a sério. Não quero ir parar na prisão por causa de ninguém. Meta isso em sua cabeça.

– Se eu lhe provar que o quadro é autêntico e que não foi roubado…

– Você sabe que não pode provar isso.

Fabian suspirou e ligou o motor.

– Vou telefonar para Steubel, avisando-lhe que estarei na casa dele às dez horas da manhã.

– A polícia estará lá, à espera – repeti.

– Não acredito – disse Fabian, olhando para a estrada.

– Pois pode acreditar, Miles – retruquei. – Pode acreditar.

Quando chegamos ao hotel, não trocamos uma palavra. Fabian dirigiu-se para o telefone e eu entrei no bar. Sabia que ele não tardaria a ir ter comigo. Estava no meu segundo uísque quando ele entrou. Nunca o tinha visto tão sério. Sentou-se num tamborete a meu lado.

– Uma garrafa de Moêt et Chandon – disse ele ao garçom. – E duas taças. – Quando o garçom encheu as taças, ele virou-se para mim. – À nossa saúde – brindou, com um sorriso. – Não falei com Steubel.

– Ótimo – repliquei. – Ainda não chamei a polícia.

– Falei com a velha em italiano – disse ele. – Ela estava chorando. Dez minutos depois de nós sairmos, a polícia chegou e prendeu o patrão dela. Levaram também o quadro. Era mesmo um Tintoretto, roubado há dezesseis meses de uma coleção particular perto de Winterthur. – Soltou uma gargalhada. – Sabia que não o tinha convidado à toa para me acompanhar a Lugano, Professor Grimes.

Brindamos e Fabian soltou nova gargalhada, fazendo com que todo mundo olhasse espantado para ele.


  1. <a l:href="#_ftnref6">[6]</a>Equilíbrio. Em francês no original.