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Chegamos a Gstaad quando começava a escurecer e a nevar. As luzes estavam se acendendo nos chalés espalhados pelas colinas, contribuindo para uma atmosfera acolhedora. Àquela hora do dia e com aquele tempo, a cidade parecia encantada. Por um instante, tive saudades das vertentes mais íngremes de Vermont, dos nomes das lojas em inglês e não em alemão. O que estaria Pat fazendo nesse momento?
Fabian não voltara a falar em Eunice desde que saíramos de Berna, e eu lhe estava grato por isso. Era um problema que eu não estava ainda pronto a enfrentar. O almoço em Berna fora tão bom quanto ele prometera. Eu tomara os dois martínis e metade de uma garrafa de vinho e sentira as minhas defesas enfraquecidas: podia ter sido facilmente persuadido a fazer algo de que mais tarde viesse a me arrepender.
Na rua principal, fomos obrigados a diminuir a marcha por causa de um grupo de jovens de ambos os sexos, todos vestindo jeans e anoraques de cores vivas, que estavam saindo de uma confeitaria, suas risadas ecoando no ar gelado. Era fácil imaginar as tortas de chocolate e os montes de chantilly que eles teriam consumido, como aperitivo para o jantar.
– Isto é a coisa mais agradável deste lugar – disse Fabian, manobrando para não atropelá-los. – A garotada. Há uns três ou quatro colégios internacionais na cidade. Uma estância de esqui precisa de gente jovem. Dá ao esporte uma atmosfera de inocência. E as roupas são feitas para traseiros juvenis, assim como o clima é para peles adolescentes. Você vai vê-los esquiando, amanhã, e vai lamentar ter ido à escola em Scranton.
O carro galgou uma colina, as rodas derrapando na neve recém-caída. No alto do morro, dominando a cidade, ficava o hotel, uma enorme imitação de um castelo. Por dentro e por fora, o hotel não dava a impressão de inocência.
– A piada corrente – disse Fabian – é que Gstaad tenta ser St. Moritz mas nunca vai conseguir.
– Para mim, está ótimo – disse eu. Não tinha o menor desejo de rever St. Moritz.
Preenchemos as fichas. Como de costume, todos na recepção conheciam Fabian, todos pareciam encantados de vê-lo. Para onde quer que fosse, só recebia exclamações de boas-vindas.
– As senhoras deixaram um recado – disse o recepcionista. – Mandaram dizer que estão no bar.
– Que surpresa! – falou Fabian.
O bar era grande e escuro, mas não tão escuro que eu não pudesse distinguir Lily e Eunice, ao fundo da sala. Estavam ainda vestidas com roupas de esqui e sentadas a uma mesa com cinco homens. Em cima da mesa havia uma garrafa de dois litros de champanha, e Lily estava contando uma história que, de onde eu estava, não conseguia ouvir, mas que terminou com uma explosão de gargalhadas que fez com que as outras pessoas no bar se virassem e olhassem para a mesa deles.
Estaquei junto à porta. Duvidava de que eu ou Fabian fôssemos recebidos com satisfação.
– Elas não perderam tempo, hem? – comentei.
– Nunca pensei que perdessem – retrucou ele, como sempre senhor de si.
– Acho que vou subir e tomar um banho – disse eu. – Chame-me quando estiver pronto para jantar.
Fabian sorriu de leve.
– Medroso – disse ele.
– Bom proveito – retorqui. Saí do bar em meio a outra explosão de risadas masculinas. Fabian dirigiu-se para a mesa.
Ao me aproximar do balcão da recepção, um grupo de jovens entrou no hall, através de uma porta que dava para um boliche. Havia moças e rapazes, estes de cabelos compridos e alguns com barba, embora o mais velho não devesse ter mais de dezessete anos. A conversa era animada e estridente, tanto em francês como em inglês. Lembrei-me do que Fabian dissera sobre eu ter freqüentado a escola em Scranton e senti-me velho e desambientado. Uma das mocinhas, a mais bonita do grupo, olhava fixo para mim. Tinha longos cabelos louros e maltratados, que quase escondiam um rosto pequeno e rosado, e usava jeans muito justos, com flores bordadas em tons pastel sobre os jovens quadris. Empurrou o cabelo para trás num gesto lânguido, de mulher. Usava sombra verde, mas nada de batom. Seu olhar estava me pondo nervoso e virei as costas para pedir a chave do quarto.
– Sr. Grimes… – A voz era hesitante, estridente, infantil.
Olhei em volta. Ela deixara o resto do grupo sair pela porta da frente e ficara sozinha.
– O senhor é Douglas Grimes, não é? – perguntou.
– Sou.
– O piloto?
– Sou – respondi, no presente.
– O senhor não se lembra de mim, não é?
– Acho que não, desculpe-me.
– Meu nome é Didi Wales. Dorothea. Claro, já faz tanto tempo! Três anos. Tinha os dentes para fora e usava aparelho. – Sacudiu a cabeça e os longos cabelos louros taparam-lhe o rosto. – Eu não esperava que o senhor se lembrasse. Ninguém se lembra de uma garota de treze anos. – Atirou o cabelo para trás e sorriu, mostrando não mais precisar de aparelho. Seus dentes eram lindos, brancos, bem americanos. – Stowe – disse ela. – O senhor às vezes esquiava com minha mãe e meu pai.
– Claro! – exclamei, lembrando-me. – Como vão eles? Seu pai, sua mãe?
– Estão divorciados – respondeu ela. A notícia não me espantou. – Mamãe está se recuperando do choque em Palm Beach. Com um tenista. – Ela riu. – E eu estou confinada aqui.
– Não me parece assim tão mau – falei.
– Se o senhor soubesse! – disse ela. – Costumava ver o senhor esquiar. O senhor nunca se exibia, como os outros rapazes.
"Rapaz", pensei. Miles Fabian era a única pessoa que me tinha chamado "rapaz" depois que eu passara dos vinte anos.
– Eu distinguia o senhor – continuou a menina – mesmo a um quilômetro de distância. O senhor costumava esquiar com uma moça muito bonita. Ela está aqui com o senhor?
– Não – respondi. – A última vez que nos vimos, você estava lendo O Morro dos Ventos Uivantes.
– Coisa de criança – falou ela. – Uma vez o senhor desceu comigo a Suicide Six no meio de uma tempestade de neve. Lembra-se?
– Claro que me lembro – respondi, mentindo.
– O senhor é muito gentil em dizer que se lembra. Mesmo que não seja verdade. Foi a minha façanha do ano. O senhor acaba de chegar?
– Sim. – Era a primeira pessoa que me havia reconhecido desde que eu viera à Europa e esperava que fosse a última.
– Vai ficar muito tempo aqui? – Ela parecia uma meninazinha com medo de ficar só à noite, quando os pais saíssem.
– Alguns dias.
– Conhece Gstaad?
– Não. É a primeira vez que venho.
– Talvez eu o pudesse guiar, desta vez. – De novo o gesto lânguido de empurrar o cabelo para trás.
– Muito gentil da sua parte, Didi – disse eu.
– Espero que o senhor não tenha outros planos – retrucou ela, formal.
Um rapazinho barbado voltou ao hall e gritou:
– Didi, será que você vai ficar toda a noite aí, batendo papo?
Ela fez um gesto impaciente com a mão.
– Estou falando com um velho amigo da minha família. Caia fora! – Sorriu suavemente para mim. – Esses garotos de hoje! Pensam que são donos da gente. Bestas cabeludas! Nunca vi garotos tão mimados. O que será do mundo quando eles forem homens?
Procurei não sorrir.
– O senhor me acha engraçada, não é? – perguntou, num tom de acusação, agressivo e claro.
– Absolutamente.
– O senhor precisava vê-los chegando a Genebra depois das férias – disse ela. – Nos jatos particulares dos pais. Ou chegando à escola em Rolls-Royces. É uma autêntica parada de corrupção.
Dessa vez, não pude deixar de sorrir.
– O senhor acha graça na minha maneira de falar – disse ela, dando de ombros. – É que eu leio muito.
– Eu sei.
– Sou filha única – continuou ela -, e meus pais estavam sempre muito ocupados.
– Você alguma vez já fez análise? – perguntei.
– Não. – Deu novamente de ombros. – Claro que eles tentaram. Eu não os amava o suficiente, de modo que eles acharam que eu era neurótica. Tant pis 1 para eles. O senhor fala francês?
– Não – respondi. – Mas acho que sei o que "tant pis" quer dizer.
– É uma língua supervalorizada – disse ela. – Tudo nela rima. Bem, gostei muito de bater papo com o senhor. Quando eu escrever para casa, mando lembranças suas para quem, para minha mãe ou para meu pai?
– Para os dois – disse eu.
– Para os dois – repetiu ela. – Que piada! Bom, bem-vindo à Terra-do-Nunca, Sr. Grimes! – Estendeu a mão e apertei-a. Era uma mão pequena, macia e seca. Desapareceu porta afora, agitando as flores bordadas no seu gorducho bumbum.
Meneei a cabeça, com pena dos pais dela, pensando que talvez ir à escola em Scranton não fosse assim tão mau. Peguei o elevador, subi e tomei um banho quente. Deitado na banheira, pensei em escrever um bilhete a Fabian e embarcar calmamente no próximo trem a sair de Gstaad.
Ao jantar, essa noite, estávamos só nós quatro à mesa, eu, Lily, Eunice e Fabian. O mais discretamente possível, pus-me a observar Eunice, procurando imaginar como seria sentar-se diante dela à mesa do café, dali a dez, vinte anos. Como seria tomar uma garrafa de vinho do Porto com o pai dela, que caçava três vezes por semana. Estar ao lado dela junto à pia batismal, durante o batismo dos nossos filhos. Miles Fabian como padrinho? Visitando nosso filho em… onde é que ele estudaria… Eton? Tudo quanto eu sabia dos colégios ingleses fora lido em livros escritos por homens como Kipling, Waugh, Orwell, Connolly. Decidi não matricular meu filho em Eton.
Aqueles poucos dias esquiando tinham dado a Eunice uma linda cor de verão. Estava usando um vestido de seda estampado que lhe marcava a silhueta. Com o busto que já tinha, como seria ela mais tarde? Como Fabian lembrara, o ditado dizia que era tão fácil amar uma moça rica quanto uma moça pobre. Mas seria mesmo?
Ver e ouvir Eunice e Lily rodeadas de jovens ociosos e arrogantes (ou, pelo menos, assim me pareciam) à mesa, com a garrafa dupla de champanha no meio, fizera-me fugir do bar. Não havia dúvida de que Eunice era uma bonita moça e provavelmente haveria sempre jovens como aqueles à sua volta. Como eu encararia isso, se ela fosse minha mulher? Nunca me dera ao trabalho de pensar a que classe eu pertencia ou a que classe outras pessoas podiam pensar que eu pertencia. Miles Fabian podia virar as costas a Lowell, Massachusetts, e fingir que era um fidalgo inglês. Já eu duvidava de que alguma vez me pudesse livrar de Scranton, Pennsylvania, e fingir que era mais do que eu era – um piloto incapacitado de voar, um homem que freqüentara uma escola técnica superior e que sempre vivera do ordenado. O que não cochichariam a meu respeito os convidados ao casamento, quando eu estivesse diante do altar, numa igreja do interior da Inglaterra, esperando que a noiva chegasse? Poderia convidar meu irmão Hank e a sua família? Meu irmão, locutor em San Diego?
Fabian podia educar-me até um certo ponto, mas havia limites, quer ele os reconhecesse, quer não.
Quanto ao aspecto sexual… Ainda influenciado pelos meus devaneios daquela tarde, ao volante, eu não duvidava de que seria pelo menos muito agradável. Mas o desejo apaixonado que, na minha opinião, era o único fundamento verdadeiro de qualquer casamento… alguma vez eu seria estimulado a algo sequer parecido, por aquela moça plácida, reservada e estrangeira? E os laços de família? Lily como cunhada, com a lembrança daquela noite em Florença sempre viva a cada encontro? Naquele mesmo momento, tive vontade de que a sala ficasse vazia, de que eu ficasse a sós com Lily. Estaria eu sempre fadado a me aproximar do que queria, mas nunca daquilo que eu queria realmente?
– A verdade é que estas férias estão sendo sensacionais – disse Eunice, enquanto passava manteiga no seu terceiro pãozinho do jantar. Da mesma forma que a irmã, tinha um ótimo apetite. Se nos casássemos pelo menos nossos filhos nasceriam com tendência a belas digestões. – Quando penso naqueles pobrezinhos lá em Londres! – continuou ela. – Tive uma idéia… – Percorreu toda a mesa com seu olhar inocente, azul e infantil. – Por que não ficamos aqui, sob este sol gostoso, até que tudo derreta?
– O recepcionista diz que vai nevar outra vez amanhã – disse eu.
– É só uma maneira de falar, Alma Gentil – disse Eunice. Começara a me chamar de Alma Gentil no segundo dia, em Zurique. Eu ainda não sabia ao certo o que ela queria dizer com isso. – Mesmo quando neva, aqui a gente tem sempre a sensação de que o sol está brilhando. Em Londres, no inverno, é como se o sol tivesse sumido de vez.
Fiquei pensando se ela teria tanta vontade de continuar de férias com o Alma Gentil e seus amigos se tivesse ouvido a conversa cínica sobre o seu futuro que tivera lugar no carro, a caminho de Berna.
– Não é uma pena sair daqui para aquela Roma caindo aos pedaços e barulhenta, quando nos estamos divertindo tanto aqui? – perguntou Eunice, acabando de passar manteiga no pão. – Afinal de contas, todos nós já estivemos em Roma.
– Eu nunca estive – falei.
– Roma não vai sumir do mapa tão depressa – declarou ela. – Você não acha, Lily?
– Acho – disse Lily. Estava comendo espaguete; talvez fosse a única mulher que eu conhecera que, mesmo comendo espaguete, ficava graciosa. As irmãs tinham entrado em ordem errada na minha vida.
– Miles – perguntou Eunice -, você está assim com tanta pressa de ir para Roma?
– Não – respondeu Fabian. – Preciso ver umas coisas aqui.
– Que coisas? – perguntei. – Pensei que estávamos de férias.
– E estamos – disse ele. – Mas há férias de todo tipo, não há? Não se preocupe, você vai poder esquiar à vontade.
Quando terminamos de jantar, já tínhamos resolvido ficar em Gstaad pelo menos mais uma semana. Eu disse que estava querendo respirar um pouco e perguntei a Eunice se gostaria de dar uma volta a pé comigo, achando que, se ficássemos a sós, talvez pudéssemos falar abertamente, mas ela abriu a boca e disse que o exercício e o ar frio a tinham deixado exausta e que só queria mesmo era jogar-se na cama. Acompanhei-a até o elevador, beijei-a no rosto e desejei-lhe uma boa noite. Não voltei para o salão de jantar; peguei o meu sobretudo e fui dar uma volta a pé, sozinho, a neve rodopiando em torno de mim em meio à noite escura.
O recepcionista se enganara. No dia seguinte, a manhã estava azul, fria e transparente. Aluguei botas e esquis e desci a montanha com Lily e Eunice, cuja maneira de esquiar, britanicamente imprudente, ainda acabaria por jogá-las numa cama de hospital. Fabian não veio conosco. Disse que precisava dar uns telefonemas. Não me disse para quem ou sobre que assunto, mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde acabaria descobrindo e procurei não pensar em quanto da nossa fortuna conjunta estaria sendo arriscado em perigosos empreendimentos, antes de nos reunirmos para o almoço. Ele nos dissera que se encontraria conosco por volta de uma e meia no Eagle Club, numa montanha chamada Wassengrat, para podermos almoçar juntos. Tratava-se de um clube fechado, mas Fabian naturalmente conseguira que todos nós pudéssemos freqüentá-lo durante nossa estada em Gstaad.
Estava uma manhã maravilhosa: o ar brilhante, a neve perfeita, as moças belas e felizes ao sol, a velocidade inebriante. Só isso, pensei, fazia com que tudo o que me acontecera desde aquela noite no Hotel St. Augustine quase valesse a pena. Havia apenas uma coisa chata. Um jovem americano, cheio de máquinas fotográficas, não parava de tirar fotos de nós, subindo nos teleféricos, ajustando os esquis, rindo, começando a descer montanha abaixo.
– Vocês conhecem aquele sujeito? – perguntei às moças. Não me parecia ser um dos rapazes que vira com elas no bar, na noite anterior.
– Nunca o vi mais gordo – disse Lily.
– Ele está tirando fotos num tributo à nossa beleza – declarou Eunice. – À beleza de nós três.
– Não preciso de tributos à minha beleza – retruquei. A certa altura, quando Eunice caíra e eu estava voltando para ajudá-la a colocar de novo os esquis, o homem apareceu e começou a bater fotos de todos os ângulos. O mais gentilmente possível, perguntei:
– Ei, amigo, você não acha que já tirou fotos demais?
– Não, nunca são demais – disse o homem. Era um rapaz magro e falador, metido em roupas velhas, e continuou a bater fotos e mais fotos. – Lá no jornal gostam de poder escolher.
– Jornal? – retruquei. – Que jornal?
– O Women's Wear Daily. Estou fazendo uma reportagem sobre Gstaad. Vocês são justamente o que preciso. Chiques e fotogênicos. Gente feliz, bem na moda e sem preocupações.
– Isso é o que você pensa – respondi, sombrio. – Há muitas outras pessoas aqui igualmente chiques e fotogênicas. Por que você não as fotografa? – Não me agradava a idéia de ter a minha foto num jornal de Nova York com uma circulação aproximada de cem mil exemplares. Quem podia saber o que os dois homens que tinham visitado Drusack liam todas as manhãs?
– Se as senhoras objetarem – disse o homem, educadamente -, naturalmente a gente não tira mais fotos.
– Não objetamos – respondeu Lily – desde que nos mandem provas. Adoro fotos de mim mesma… desde que me façam justiça, é claro!
– Como não haviam de fazer justiça? – retrucou o rapaz galantemente. Devia já ter tirado mais de mil fotos de mulheres bonitas em toda a sua carreira, e aposto como a timidez não o atrapalhara. Senti inveja dele.
Mas ele saiu esquiando despreocupadamente e não voltamos a vê-lo senão quando estávamos no terraço do clube, tomando um bloody-mary e esperando por Fabian.
A essa altura, outra complicação surgira. Ao meio-dia, reparei num pequeno vulto que nos seguia a distância. Tratava-se de Didi Wales. Nunca se aproximava muito, mas, para onde quer que fôssemos, lá ia ela esquiando atrás de nós, parando quando parávamos, avançando quando avançávamos. Esquiava bem, com leveza e segurança, e, mesmo quando eu aumentava a velocidade, o que fazia com que Lily e Eunice voassem montanha abaixo completamente sem controle, o vultozinho continuava acompanhando-nos, como se estivesse ligado a nós por um cordão comprido e invisível.
Na última descida, pouco antes do almoço, esperei propositalmente na estação do teleférico, deixando que Lily e Eunice subissem juntas numa das cadeiras duplas. Didi entrou no edifício da estação, seus longos cabelos louros agora presos com um laço na nuca e caindo-lhe pelas costas abaixo. Usava os mesmos blue jeans bordados e um anoraque cor de laranja.
– Vamos subir juntos, Didi – disse eu, quando a cadeira chegou e ela subiu com as suas pesadas botas.
– Como quiser – respondeu ela. Sentou-se sem falar e a cadeira saiu para a luz do sol e começou a subir silenciosamente, deixando-nos ver toda a cidade, espalhada embaixo. Os alvos picos das montanhas em volta pareciam catedrais brancas.
– Importa-se se eu fumar? – perguntou ela, tirando do bolso um maço de cigarros.
– Importo-me.
– Ok, papai! – disse ela, e depois riu. – Que tal o dia? Está se divertindo?
– Muito.
– O senhor não está esquiando tão bem como esquiava – disse ela. – Parece estar fazendo um esforço maior.
Eu sabia que isso era verdade, mas não gostei de ouvi-la dizer aquilo.
– Estou um pouco enferrujado – repliquei, com dignidade. – Tenho andado ocupado.
– Está se vendo – disse ela, aparentando desinteresse. – E essas moças que o acompanham – acrescentou, com um muxoxo – ainda vão acabar se matando.
– Já as avisei.
– Aposto que quando não há nenhum homem com elas, se é que vão a algum lugar sem um homem, engatinham montanha abaixo. Mas têm roupas chiques mesmo. Vi as duas nas lojas, no dia em que chegaram, comprando tudo o que havia.
– São moças bonitas – defendi-as -, e gostam de andar elegantes.
– Se as calças delas fossem um centímetro mais justas – afirmou Didi -, elas não poderiam respirar.
– Suas calças também não são tão largas assim.
– Mas eu sou jovem – retrucou ela. – É diferente.
– Pensei que você tinha dito que ia me guiar, aqui em Gstaad.
– Se o senhor não estivesse ocupado – disse ela. – E o senhor me parece muito ocupado.
– Mas você podia ter vindo conosco – retruquei. – As senhoras teriam gostado.
– Pode ser, mas eu não teria – declarou ela. – Aposto como vocês vão todos almoçar no Eagle Club.
– Como é que você sabe?
– Vão, não vão?
– Sim, por acaso vamos.
– Eu sabia! – disse ela, com uma nota de triunfo e desprezo na voz. – Mulheres que se vestem como elas sempre almoçam lá.
– Você nem sequer as conhece.
– Este é o meu segundo inverno em Gstaad. Aprendi a distinguir os tipos de pessoas.
– Por que você não almoça conosco?
– Obrigada, mas não vou aceitar. Não gosto do tipo de conversa. Principalmente da parte das mulheres. Sempre falando mal umas das outras, roubando os maridos umas das outras. Confesso que me decepcionou um pouco, Sr. Grimes.
– Eu? Por quê?
– Pelo fato de estar num lugar destes. Com mulheres dessas.
– São umas perfeitas senhoras – falei. – Não se meta a censurar todo mundo. Elas não falam mal de ninguém.
– Eu sou obrigada a estar aqui – continuou ela, teimosamente. – Minha mãe acha que uma moça, para ser bem educada, precisa estudar na Suíça. Ah! Ela acha que estou estudando muito! Estou é aprendendo a ser inútil em três línguas. E cara.
A amargura em sua voz era perturbadoramente adulta. Não era o tipo de conversa que se esperava ter com uma bonita jovem americana de dezesseis anos, enquanto se subia lentamente ao sol, tendo aos pés a paisagem de conto de fadas dos Alpes.
– Bem – falei, sabendo que ia soar falso -, tenho certeza de que você não vai ser inútil, mesmo que em várias línguas.
– Farei tudo para não ser – disse ela.
– Quais são seus planos?
– Pretendo ser arqueóloga. Escavar as ruínas de antigas civilizações. Quanto mais antigas, melhor. Quero afastar-me o mais possível da civilização do nosso século. Pelo menos, da versão dos meus pais.
– Acho que você está sendo muito severa com eles – disse eu, defendendo não só os pais dela, como também a mim próprio. Afinal de contas, os dois eram quase da mesma geração que a minha.
– Se o senhor não se importa, prefiro não falar em meus pais – disse ela. – Prefiro falar no senhor. Já se casou?
– Não.
– Também não pretendo casar-me. – Olhou para mim desafiadoramente, como se esperasse que eu fizesse algum comentário.
– Parece que está saindo de moda – falei.
– E com boas razões – retrucou ela. Estávamos chegando ao alto da montanha e preparamo-nos para desembarcar. – Se alguma vez quiser esquiar comigo, a sós… – sublinhou – deixe um recado para mim no hotel. – Pulamos da cadeira e pegamos os nossos esquis. – Mas, se eu fosse o senhor – acrescentou ela, ao sairmos da estação para o sol -, não ficaria aqui muito tempo. Não é o seu habitat natural.
– Em sua opinião, qual é o meu habitat natural?
– Acho que Vermont. – Inclinou-se e pôs-se a colocar os esquis, ágil e competente. – Uma cidadezinha de Vermont, onde as pessoas trabalhem para viver.
Pus meus esquis ao ombro. O clube ficava a uns cinqüenta metros dali, ao nível do teleférico, e um caminho aberto na neve levava até a entrada.
– Por favor, não se zangue comigo – disse ela, endireitando-se. – Há pouco tempo, tomei a decisão de falar sempre o que penso.
Levado por um impulso que não tentei analisar, inclinei-me e beijei-lhe a face fria e rosada.
– Oh, muito obrigada – disse ela. – Um esplêndido almoço! – Era evidente que tinha ouvido Eunice e Lily falarem. E partiu, esquiando competentemente. Fiquei observando seu vulto brilhantemente colorido afastar-se veloz, e sacudi a cabeça. Depois, carregando os esquis, encaminhei-me para o maciço edifício de pedra que servia de sede ao clube.
Fabian apareceu quando eu, Lily e Eunice estávamos tomando o nosso segundo bloody-mary no terraço do clube. Não vinha vestido para esquiar, mas estava muito elegante, num suéter de gola roulée, casaco tirolês de lã azul, calças de veludo cotelé cor de caramelo e botas de camurça "pós-esqui". Eu estava usando a roupa de esquiar que comprara em St.Moritz por ser a coisa mais barata que havia na loja, e me sentia completamente deselegante ao lado dele. Minhas calças já estavam formando bolsas no assento e nos joelhos. Tinha certeza de que todo mundo no terraço estava murmurando a nosso respeito, surpreso de que alguém vestido como eu estivesse num grupo tão alinhado. O comentário de Didi Wales sobre o meu habitat natural fizera algum efeito.
Lá em cima, no azul brilhante do céu, uma grande ave planava. Podia bem ser uma águia. Fiquei pensando que presa ela encontraria naquele vale de ricos.
– Que tal a manhã? – perguntei a Fabian, enquanto ele beijava as moças e mandava trazer também um bloody-mary para si.
– Só o tempo dirá – respondeu. Ele gostava dos seus misteriozinhos.
Procurei não parecer preocupado.
– Espero que você não fique aborrecido, Douglas – disse Fabian. – Mas marquei encontro para nós na cidade, depois do almoço.
– Se as senhoras me derem licença… – falei.
– Tenho certeza de que encontrarão quem esquie com elas – retrucou Fabian.
– É, sem dúvida – concordei.
– Vai haver uma grande festa esta noite – disse Lily. – De qualquer maneira, marcamos hora no cabeleireiro…
– Estou convidado? – perguntei.
– Claro! – respondeu ela. – Todo mundo sabe que somos inseparáveis.
– Gentileza sua – falei.
Ela olhou severamente para mim.
– Receio que Alma Gentil não esteja se divertindo como devia. – Também Lily me chamava agora de Alma Gentil. – Talvez prefira a companhia de moças mais jovens. – Ela não tinha dito nada, mas a minha subida na cadeira aérea com Didi Wales não passara despercebida.
– Ela é filha de velhos amigos meus – retruquei, com dignidade.
– O que não a impede de estar no ponto – disse Lily. – Bem, que tal entrarmos e almoçarmos? Está frio, aqui fora.
O encontro que Fabian marcara era com um corretor imobiliário que tinha um pequeno escritório na rua principal da cidade. Antes de entrarmos na sala, ele me explicou que nessa manhã estivera olhando terrenos à venda.
– Talvez seja um bom investimento para nós – disse ele. – Como você já deve ter visto, a minha filosofia é muito simples. Vivemos num mundo em que certos elementos básicos estão ficando cada vez mais raros. Soja, ouro, açúcar, trigo, petróleo, etc. A economia do planeta está sofrendo de excesso de população, medo, guerras, consciência pesada e uma superabundância de dinheiro. É só somar essas coisas para o homem moderadamente sensato e pessimista ver que a escassez tende a piorar, e concluir que deve comprar de acordo com essa tendência. A Suíça é um país minúsculo, com um governo estável e praticamente sem qualquer possibilidade de se envolver em aventuras militares. Em breve, estarão vendendo terra aqui, em troca de dinheiro apavorado, a peso de ouro. Sei de dezenas de pessoas, dentre as minhas relações, que adorariam ser donas de um pedacinho que fosse. No momento, devido à lei suíça, não podem comprar. Mas nós temos uma companhia suíça, ou melhor, sediada no Liechtenstein, o que vem a dar na mesma, e nada nos impede de comprar uma opção por seis meses de um bom pedaço deste belo país e espalhar por aí que estamos pensando em construir um chalé de luxo, com vários apartamentos de alto nível, para alugá-los adiantadamente por, digamos, um período de vinte anos. Com o empréstimo que podemos obter de um banco, poderemos ser proprietários de um imóvel altamente lucrativo que, no fim, não nos custará nada e onde até podemos ter um pequeno pied-à-terre, sem qualquer despesa, para as nossas férias. O que você diz da minha idéia? Acha sensata?
– Como sempre – respondi. Na verdade, era mais sensata do que de costume. Eu próprio tinha visto a maneira louca pela qual os preços de pequenas terras abandonadas tinham subido em Vermont, quando se haviam construído teleféricos.
– Caro sócio – disse Fabian, sorrindo. – Alma Gentil.
Ao fim da tarde, tínhamos feito uma oferta para uma opção de seis meses visando à compra de um terreno montanhoso afastado da estrada, a uns oito quilômetros de Gstaad. Seria preciso algum tempo, informou-nos o corretor, para tratar do contrato, mas ele tinha certeza de que não toparíamos com obstáculos importantes.
Eu nunca possuíra nada exceto roupas, mas, quando voltamos ao hotel para o chá, eu estava quase certo, segundo Fabian, de ser co-proprietário de um prédio que dali a um ano valeria bem mais de meio milhão de dólares. Ao atravessar a cidade ao volante do Jaguar, olhei para ela com um novo interesse de proprietário, não despojado de tensões. Fabian parecia apenas satisfeito com as gestões do dia.
– Estamos apenas começando, Alma Gentil – foi tudo o que disse, enquanto eu estacionava o carro diante do hotel.
Estava me vestindo para a festa quando o telefone tocou. Era Fabian.
– Surgiu algo – disse ele – que me impede de ir com vocês. Importa-se de acompanhar as moças?
– O que foi?
– Acabo de encontrar Bill Sloane no hall.
– Oh! Era só o que me faltava! – Senti um arrepio.
Bill Sloane não contribuíra para as minhas lembranças mais agradáveis da Europa.
– Um dia, tem que me dizer o que houve entre vocês dois.
– Um dia – prometi.
– Ele está sozinho. Mandou a mulher de volta.
– Foi a melhor coisa que ele podia fazer. Mas o que ele tem a ver com você não poder vir conosco?
– Está querendo jogar cartas esta noite – respondeu Fabian.
– Você não me disse que nunca mais jogaria bridge? – Agora que ele me introduzira à ciência das altas finanças, jogar bridge me parecia desnecessariamente arriscado. Um baralho não era como lingotes de ouro, arrobas de soja ou um terreno na Suíça.
– Ele não quer jogar bridge – disse Fabian. – Está farto de bridge.
– O que ele quer jogar, então?
– Pôquer, e para valer – respondeu Fabian. – No quarto dele.
– Puxa, Miles! Você não pode lhe dizer que está ocupado?
– Ganhei tanto dinheiro dele – explicou Fabian -, que sinto que lhe devo uma revanche. E também devo algo à minha reputação de cavalheiro.
– A mim, você não deve.
– Confie em mim, Alma Gentil – disse Fabian.
– Que tal é você no pôquer?
– Não fique tão preocupado. Sei cuidar de mim. Principalmente com Bill Sloane.
– Famosas últimas palavras – disse eu. – Todo mundo pode ter sorte uma noite.
– Se você está assim tão preocupado, por que não vem assistir ao jogo?
– Meus nervos não estão muito bons – repliquei. – E duvido de que o Sr. Sloane gostasse de me ver.
– Seja como for, explique a minha ausência às moças, sim?
– Explicarei – falei, secamente.
– Ótimo! Puxa, Douglas, se você está assim tão cético, aposto apenas o meu dinheiro.
Hesitei, tentado, mas logo senti vergonha.
– Pode deixar – respondi. – Entro com a metade.
– Esplêndido! – exclamou ele.
– É – falei.
Desliguei pensando que a festa teria que ser muito boa, para que eu fosse capaz de me divertir.