39384.fb2 Plant?o Da Noite - читать онлайн бесплатно полную версию книги . Страница 20

Plant?o Da Noite - читать онлайн бесплатно полную версию книги . Страница 20

CAPÍTULO XVIII

Havia cinqüenta convidados na festa, sentados a mesas de seis e oito lugares instaladas no enorme living do chalé, todo ele decorado em estilo rústico e confortável, apesar do seu tamanho. No menu, lagostas frescas, mandadas nessa mesma tarde, de avião, da Dinamarca. Dois Renoir e um Matisse, nada rústicos, adornavam as paredes. As luzes eram baixas, para favorecer as damas, mas não tão tênues que não se visse o que se comia. Quanto às damas, nenhuma delas precisava de luz baixa. Todas pareciam já ter sido fotografadas pelo meu amigo do Women's Wear Daily. A acústica da sala devia ter sido perfeitamente planejada, porque, mesmo quando todo mundo parecia estar falando ao mesmo tempo, o som nunca ultrapassava um polido e agradável zumbido.

O anfitrião, homem alto e grisalho de cara de ave de rapina, era, segundo me tinham dito, um banqueiro aposentado de Atlanta. Uma agradável cadência sulista lhe suavizava a maneira de falar, e tanto ele quanto sua jovem esposa, uma beldade sueca, pareciam genuinamente encantados de que eu estivesse presente. O motivo da festa era comemorar os seus quinze anos de casamento. Se Didi Wales tivesse sido convidada, poderia ter modificado as suas idéias a respeito dessa instituição.

Havia um ar geral de saúde bronzeada e simpática camaradagem entre os convidados e, embora eu prestasse atenção às conversas, não ouvi ninguém falando mal de outrem. Por mais que secretamente conjeturasse sobre como tantos homens adultos podiam encontrar tempo para conseguir aquele uniforme bronzeado de montanha, não fiz perguntas; nem me perguntaram qual era a minha profissão.

Olhando em volta da sala para os homens impecáveis e as mulheres elegantíssimas, todos evidentemente privilegiados e em ótimos termos com a fortuna, senti, com maior intensidade ainda, o poder dos argumentos de Miles Fabian em favor da riqueza. Se havia diferença, antipatias, ciúmes, não transpareciam, pelo menos aos meus olhos. Reunidos em comemoração, os convidados formavam uma alegre companhia de amigos, seguros contra desastres, acima das preocupações mesquinhas. Ao sentar-me ao lado de Eunice, radiante num longo de seda, tão bela e elegante quanto qualquer outra das mulheres presentes, prestei mais atenção nela. Apertei-lhe a mão por baixo da mesa e recebi dela um sorriso quente e sensual.

A conversa à mesa em que eu e Eunice nos sentamos era em grande parte inconseqüente – as costumeiras anedotas sobre neve e pernas quebradas que sempre se ouvem nas estações de esqui, intercaladas de críticas de peças representadas em Paris, Londres e Nova York e de filmes recentes de várias nacionalidades. No espaço de meia hora, o que se falou naquela mesa sugeriu várias viagens internacionais.

Eu não vira nenhuma das peças e assistira a poucos dos filmes mencionados, de modo que guardei um silêncio discreto, entrecortado apenas por comentários sussurrados para Eunice, que vira todas as peças representadas em Londres e em Paris e falava com autoridade, sendo ouvida com respeito. Lily estava sentada a outra mesa e, na ausência da irmã, Eunice falava com muito mais segurança e liberdade. Pelo visto, em determinada época ela quisera ser atriz e estudara por algum tempo na Academia Real de Arte Dramática. Observei-a com renovado interesse. Se ela não me contara esse fato importante da sua vida, que outras surpresas poderia reservar para mim?

O tema da política veio à tona com a sobremesa, um sorvete de limão flutuando em champanha. (Num cálculo por alto, estimei que a festa deveria ter custado pelo menos dois mil dólares, embora me envergonhasse de pensar em tais termos.) Entre os homens à mesa havia um americano gorducho, dos seus cinqüenta anos, presidente de uma companhia de seguros, um crítico de arte francês com uma barbicha preta e um volumoso banqueiro inglês. Os governos das três nações foram educadamente deplorados pelos três cavalheiros. O chauvinismo brilhava pela ausência. Se, como dizem, o patriotismo é o último refúgio dos patifes, não havia um único patife à mesa. O francês queixava-se, num inglês quase perfeito, da França: "A política externa da França combina os piores elementos do gaullismo: egocentrismo, escapismo e ilusão"; o banqueiro inglês não ficava atrás: "O trabalhador inglês perdeu toda a vontade de trabalhar. E eu não o censuro"; o segurador americano afirmava: "O destino do sistema capitalista foi selado no dia em que os Estados Unidos venderam dois milhões de toneladas de trigo à União Soviética".

Todos comeram suas lagostas com deleite, mantendo o garçom ocupado a encher ininterruptamente os copos com um delicioso vinho branco. Deitei uma olhadela para o rótulo de uma das garrafas – Corton-Charlemagne – e guardei o nome para futuras ocasiões de gala.

Mantinha-me calado, embora de vez em quando assentisse gravemente, para mostrar que também estava na festa. Hesitava em falar, temendo de algum modo mostrar que estava por fora, que uma única opinião deslocada me pudesse desmascarar como um intrometido, um homem das classes inferiores, pensando talvez em revolução, tornando detectável a perigosa mancha do Hotel St. Augustine, que até ali eu conseguira esconder.

Depois do jantar, dançou-se numa enorme boate instalada no andar térreo. Eunice, que gostava de dançar, não parou, enquanto eu não saí do bar, bebendo, olhando para o relógio, sentindo-me deprimido. Sempre fora um péssimo dançarino, nunca gostara de dançar e não ia dar um vexame entre todos aqueles dançarinos, aparentemente treinados nos passos da moda. Estava mesmo procurando sair sem dar na vista, quando Eunice se afastou do seu par e se aproximou de mim.

– Alma Gentil! – disse ela. – Você não está se divertindo!

– É, não estou.

– Sinto muito. Quer voltar para o hotel?

– Estava pensando nisso. Mas você não tem que ir.

– Não se faça de mártir, Alma Gentil. Detesto mártires. Já me cansei de dançar. – Tomou-me a mão. – Vamos. – Guiou-me pela beira da pista, evitando Lily. Uma vez em cima, pegamos os nossos casacos e saímos sem dizer adeus a ninguém.

Caminhamos pelo atalho cheio de neve, envoltos no frio da noite e no ar cheirando a pinheiros, num belo contraste com o calor e o barulho da festa. Quando já tínhamos andado uns duzentos metros e o chalé era apenas um pequeno foco de luz atrás de nós, estacamos, como se obedecendo a um sinal, e nos beijamos. Uma vez. A seguir, caminhando sem pressa, rumamos para o hotel.

Pegamos nas nossas chaves e entramos no elevador. Sem dizer palavra, Eunice desceu no meu andar. Encaminhamo-nos lentamente pelo corredor atapetado. Era como se ela também quisesse saborear todos os momentos da noite.

Abri a porta do meu quarto e segurei-a para que Eunice pudesse entrar. Ela roçou em mim, a pele gelada e elétrica do seu casaco contra a minha manga. Entrei depois dela e acendi a luz do pequeno hall.

– Oh, meu Deus! – exclamou ela.

Deitada na cama, iluminada pela luz que vinha do hall, estava Didi Wales. Dormindo. E nua. Suas roupas estavam muito bem dobradas numa cadeira, as botas de neve uma ao lado da outra. Sua mãe podia ter falhado em muita coisa, mas via-se que ensinara a filha a ser arrumada.

– Deixe-me sair daqui – disse Eunice num murmúrio, como se temesse o que aconteceria se acordasse a moça adormecida. – A moça é sua.

– Eunice… – disse eu, desolado.

– Boa noite – replicou ela. – Divirta-se. – Passou por mim e saiu porta afora.

Olhei para Didi. Sua longa cabeleira loura quase lhe cobria o rosto, e sua respiração compassada levantava-lhe e abaixava-lhe as pontas dos cabelos. À luz elétrica, sua pele era infantilmente rosada, exceto na garganta e no rosto, escurecidos pelo sol. Seus seios eram pequenos e cheios, suas pernas fortes, atléticas, pernas de colegial. As unhas dos pés estavam pintadas de vermelho. Podia ter posado para um anúncio de alimentos infantis, se tivesse mais roupas e as unhas sem pintar. Seu ventre era um pequeno monte macio, e o cabelo abaixo dele, uma sombra encaracolada. Tinha os braços estendidos ao longo dos flancos, o que lhe dava um estranho ar de estar em guarda. Se fosse um quadro, em vez de uma jovem de carne e osso, poderia ter representado perfeitamente a inocência.

Mas não era um quadro e sim uma jovem de dezesseis anos cujos pais, pelo menos em teoria, eram meus amigos, e não havia possibilidade de que as suas intenções, entrando no meu quarto e deitando-se na minha cama, fossem inocentes. Tive o impulso covarde de esgueirar-me para fora do quarto e deixá-la passar ali a noite. Em vez disso, tirei o casaco e cobria-a com ele.

Ao fazer isso, acordei-a. Ela abriu os olhos lentamente e olhou para mim, afastando o cabelo do rosto. Depois, sorriu, um sorriso que a fez parecer ter apenas dez anos.

– Diabos, Didi – disse eu. – Em que tipo de colégio você estuda?

– Um tipo de colégio onde as moças pulam pelas janelas à noite – respondeu ela. – Achei que seria agradável surpreendê-lo. – Sua voz estava muito mais controlada do que a minha.

– Muito bem, você me surpreendeu.

– E você não gostou?

– Não – respondi. – Não gostei nada.

– Quando você se acostumar com a idéia – disse ela -, talvez mude de opinião.

– Por favor, Didi…

– Se está com medo de que eu seja virgem – declarou, muito séria -, pode ficar sossegado. Já tive um caso com um homem bem mais velho do que você. Um velho grego.

– Não quero conversa – disse eu. – Quero é que você saia dessa cama, vista-se, dê o fora daqui e volte a pular a tal janela.

– Sei que não é isso o que você quer – disse ela, calmamente. – Está falando tudo isso porque me conheceu quando eu tinha treze anos. Acontece que eu não tenho mais treze anos.

– Sei quantos anos você tem – retruquei -, e não são bastantes.

– Nada me chateia mais do que as pessoas fingirem que sou uma criança. – A não ser pelo afastar dos cabelos, ainda não se arredara da cama. – Qual é a idade mágica para você? Vinte anos, dezoito?

– Não tenho idade mágica, como você lhe chama. – Minha voz foi crescendo de exasperação e sentei-me em frente dela para manter a dignidade e mostrar que estava pronto a ser razoável. – Não tenho por hábito ir para a cama com moças de qualquer idade, depois de ter falado com elas dez minutos.

– E eu, que pensei que você era sofisticado! – exclamou ela, pondo nessa palavra todo o desprezo possível. – Com aquelas damas elegantes e aquele Jaguar!

– Ok – disse eu. – Não sou sofisticado. Agora, quer se levantar e se vestir?

– Não acha que sou bonita? Muita gente me disse que meu corpo é lindo. Conhecedores.

– Acho que você é muito bonita. Linda. Mas isso nada tem a ver com o caso.

– Metade dos rapazes desta cidade estão procurando dormir comigo. E, para falar a verdade, muitos homens, também.

– Não duvido, Didi. Mas isso também nada tem a ver com o caso.

– Você falou comigo muito mais do que dez minutos, por isso não me venha com essa desculpa. Tivemos uma longa conversa no Suicide Six. Se você não se lembra, eu me lembro.

– Tudo isto é ridículo – disse eu, o mais firmemente possível. – Sinto vergonha por ambos.

– Não há nada de ridículo no amor.

– Que amor, Didi? – explodi.

– Eu estava apaixonada por você há três anos atrás… – A voz dela começou a tremer e lágrimas, reais ou forçadas, vieram-lhe aos olhos, brilhando à luz do abajur. – E depois, quando o vi de novo, senti que ainda estava… Será que você se acha demasiado velho e gasto para acreditar no amor?

– Nada disso. – Resolvi apelar para a crueldade. – Apenas tenho um certo código. E ele não inclui fornicar com menininhas bobas, que se atiram nos meus braços.

– Que palavra tão feia para descrever uma emoção tão bela! – Agora, ela estava mesmo chorando. – Nunca pensei que você fosse capaz de falar assim.

– Sou capaz de ficar furioso – disse eu, em voz bem alta. – E de me sentir um idiota. É o que está acontecendo comigo neste momento.

– Seria bem-feito – disse ela, entre soluços – se eu começasse a gritar e a pedir socorro, dizendo que você tinha tentado violar-me.

– Não seja monstruosa, mocinha. – Levantei-me, a fim de ameaçá-la. – Para seu governo, quando entrei no quarto, eu estava com uma amiga…

– Amiga! – repetiu ela. – Ah! Uma daquelas coroas!

– Isso não interessa. Se você começar a gritar, ela dirá a todo mundo o que viu quando entrou no quarto… você, dormindo nua, na minha cama. Isso acabaria com sua história, e você teria de sair da cidade a toque de caixa.

– Quero mesmo sair desta horrível cidade. E o que interessa é o que a gente tem na consciência.

Procurei outra forma de ataque.

– Didi, minha filha…

– Não me chame "minha filha". Não sou sua filha.

– Está bem, não vou chamá-la "minha filha". – Sorri para ela. – Didi, você não quer que eu seja seu amigo?

– Não, quero que você seja meu amante. Todo mundo consegue o que quer – choramingou ela. – Por que só eu é que não?

Dei-lhe meu lenço para ela limpar as lágrimas. Também assoou o nariz e dei graças a Deus pelo fato de a porta se fechar automaticamente e ninguém poder abri-la por fora. Não lhe disse que, quando ela fosse da minha idade, saberia que nem todos conseguem o que querem… pelo contrário.

– Você hoje me beijou, quando saímos do teleférico – choramingou. – Por que fez isso, se não estava com vontade?

– Há beijos e beijos – respondi. – Desculpe se você não entendeu.

De repente, ela se descobriu e sentou-se na cama, braços estendidos.

– Tente outra vez – falou.

Recuei um passo, involuntariamente.

– Vou-me embora – falei, o mais convincentemente que pude. – Se você ainda estiver aí quando eu voltar, vou telefonar para sua escola para virem buscá-la.

Ela riu.

– Covarde! – falou. – Covarde, covarde!

Dona da situação, ela continuava dizendo "covarde" quando saí do quarto.

Desci até o bar. Estava precisando de um drinque. Felizmente não havia ninguém conhecido, e sentei-me num banco, contemplando meu copo. Pensara que podia viver de acidente em acidente, pegando tudo o que se me deparava: o tubo de papelão no chão do quarto 602; Evelyn Coates em Washington; Lily em Florença; a extraordinária proposta daquele provável lunático, Miles Fabian, algo ensangüentado no lugar onde eu lhe acertara com o abajur; comprar um cavalo de corrida; investir num filme pornográfico francês; negociar com soja e ouro; dizer "Por que não?" quando Fabian sugerira convidar uma inglesa desconhecida para nos acompanhar; especular com terras suíças; entrar com metade do dinheiro numa aposta "pra valer" contra um rico e vingativo jogador americano.

Mas havia limites. E Didi Wales alcançara-os. Disse a mim mesmo que me portara honradamente – nenhum homem decente se aproveitaria da paixão adolescente de uma infeliz menina. Mas ali, no silêncio do bar à meia-noite, uma pequena dúvida me assaltou. Se Eunice não tivesse entrado no quarto comigo e descoberto Didi na cama, porventura eu estaria agora no bar? Ou no meu quarto? Em retrospecto, ali sentado, olhando para o copo, tive que confessar que a jovem era muito atraente. O arrependimento estava latente no mais recôndito da minha consciência. Que teria Miles Fabian feito, numa situação semelhante?

Rido e dito "Que visita encantadora"? Pensado "Este é o meu ano de sorte" e subido para a cama? Sem dúvida.

Resolvi não lhe dizer nada do que acontecera. O seu desprezo, mesclado com piedade pelos meus escrúpulos, seria insuportável. Podia quase ouvi-lo dizer, paternalmente: "Puxa, Douglas, é preciso aprender as regras do jogo".

Eunice. Comecei a suar frio só de pensar na manhã seguinte, quando, reunidos à mesa do café da manhã, eu, Lily e Miles ouvíssemos Eunice dizer, como se nada significasse: "Ontem à noite, quando eu e Alma Gentil voltamos da festa, aconteceu uma coisa incrível…"

Terminei meu drinque, assinei a conta e encaminhei-me para a porta. Quando ia saindo, Lily entrou com três homens enormes, todos com mais de dois metros. Reparara neles na festa e vira-a dançando com um. Aquela parecia estar sendo uma grande noite para ela, em todos os sentidos. Parou, quando me viu.

– Pensei que você tivesse saído com Eunice – disse ela.

– Saí.

– E agora você está sozinho?

– Estou.

Ela sacudiu a cabeça, um brilho divertido no olhar.

– Homem estranho – comentou. – Que tal beber conosco?

– Não sou suficientemente grande – respondi.

Os três gigantes riram, quase fazendo tilintar os copos sobre o balcão.

– Você viu Miles? – perguntou Lily.

– Não.

– Ele disse que procuraria estar aqui à uma, para um último drinque. – Deu de ombros. – Deve estar tão interessado em tirar o último centavo daquele idiota do Sloane, que nem se lembra de mim. Que tal, gostou da festa?

– Esplêndida – respondi.

– Até parecia que estávamos no Texas – disse ela, ambiguamente. – Vamos beber algo, rapazes?

– Vou pedir champanha – disse o mais alto dos gigantes, passando por entre as mesas a caminho do balcão como um transatlântico zarpando de uma doca.

– Boa noite, Alma Gentil – disse Lily. – Insista. – Inclinou-se e beijou-me o rosto. Recordações! Despedi-me e saí.

"No ponto", dissera ela a respeito de Didi Wales. Como tinha razão!

Um minuto mais tarde, eu estava à porta de Eunice. Fiquei um momento à escuta, mas lá dentro não havia nenhum ruído. Nem eu sabia o que esperava ouvir. Choro? Riso? Ruídos de L p? Bati na porta, esperei, voltei a bater.

A porta se abriu e Eunice apareceu, num peignoir de renda.

– Oh, é você – disse ela, num tom nem acolhedor, nem desencorajador.

– Posso entrar?

– Se quiser.

– Quero.

Ela abriu a porta um pouco mais e eu entrei. Suas roupas estavam jogadas ao acaso por todo o quarto. A janela estava aberta, deixando entrar a fria brisa alpina. Estremeci, minha resistência aos elementos enfraquecida pelos acontecimentos da noite.

– Não sente frio? – perguntei.

– Não se esqueça de que sou inglesa – respondeu ela. Mas fechou a janela. Cheia de corpo, descalça, coberta de renda.

– Posso sentar-me?

– Se quiser. – Indicou-me uma poltrona. – Jogue essas roupas em qualquer lugar.

Peguei no vestido de seda que ela usara na festa. Imaginei que ainda estivesse quente da pele dela. Coloquei-o cuidadosamente sobre uma pequena escrivaninha. Sentei-me na poltrona e ela recostou-se nas almofadas da cama, fazendo o peignoir abrir-se e revelar as pernas. Longas, como as da irmã, porém mais cheias. Mais bem torneadas. Havia no ar um leve cheiro de sabonete. Via-se que ela tinha lavado o rosto, sua pele brilhava à luz do abajur. Lamentei a noite perdida.

– Eunice – disse eu. – Vim explicar-lhe.

– Não precisa explicar. Houve uma confusão de intenções, mais nada.

– Você não vai pensar que eu convidei aquela meninazinha a subir ao meu quarto…

– Não penso nada. Só sei que ela estava lá. E não é tão meninazinha assim. Bem desenvolvida, me pareceu. – Seu tom era seco, cansado. – Uma de nós estava demais. E achei que era eu.

– Esta noite – disse eu – achei que, por fim…

– Eu também achei – disse ela, sorrindo melancolicamente.

– Devia ter sido mais ousado – falei -, mesmo antes desta noite. Só que não consigo ser diferente. E, ainda por cima, estávamos sempre acompanhados por Miles e por sua irmã.

– Minha irmã não lhe disse que comigo não eram necessárias preliminares? – perguntou ela, com voz subitamente dura.

– Não lhe vou dizer o que sua irmã me disse.

– Ela gosta de dar a impressão de que eu sou a maior farrista de Londres. Bruxa!

– Como? – perguntei, espantado.

– Nada, não. – Tapou o rosto com os braços cruzados e foi falando, numa voz estrangulada. – Se quer saber, não fui a Zurique por sua causa… embora lhe deva dizer que você se revelou muito mais simpático do que eu poderia imaginar num americano, Alma Gentil.

– Obrigado.

– Sinto tê-lo desapontado.

– Podíamos esquecer o que aconteceu no meu quarto.

Vi a cabeça dela abanar por trás dos braços.

– Não. Eu até devia sentir-me grata àquela mocinha gorda, porque a verdade é que tinha resolvido ir a seu quarto por motivos escusos.

– O que você quer dizer com isso?

– Não fui lá por sua causa. Ou por mim.

– Por quem, então?

– Por Miles Fabian – disse ela, amargamente. – Tinha decidido ter o maior caso com você… só para mostrar a ele…

– O quê?

– Só para mostrar que já não ligava para ele. Que podia ser tão volúvel e cínica quanto ele. – Por trás dos braços, Eunice chorava. Era a minha noite de ver mulheres chorarem.

– Acho melhor você se explicar, Eunice – disse eu, lentamente.

– Não seja burro, americano – retrucou ela. – Estou apaixonada por Miles Fabian. Desde o dia em que o conheci. Pedi-o em casamento há anos atrás. E ele fugiu. Fugiu para os braços da bruxa da minha irmã.

– Oh! – foi tudo o que consegui dizer.

Ela destapou o rosto. As lágrimas tinham-lhe deixado marcas brilhantes nas faces. Mas sua expressão era calma, aliviada.

– Se você se apressar – disse ela -, talvez a meninota gorda ainda esteja no seu quarto. Pelo menos, você não terá perdido a noite.

Mas Didi já tinha ido embora, deixando sobre a mesa um bilhete em letra de colegial. "Levei seu casaco. Queria ter uma lembrança sua. Talvez um dia você queira reavê-lo. Sabe onde me encontrar. Sua Didi."

Quando eu estava acabando de ler, o telefone tocou. Meu primeiro impulso foi não atender. A noite não estava para receber boas notícias pelo telefone. Acabei atendendo.

– Douglas? – Era Fabian.

– Sim?

– Espero não o ter interrompido em algo sério – disse ele, numa voz irônica.

– Não me interrompeu.

– Achei que você gostaria de saber como foi a noite.

– Claro que gostaria!

Ouvi um suspiro do outro lado da linha.

– Acho que não fui tão bem como esperava, meu velho. Sloane teve uma sorte louca. Amanhã vamos ter que ir ao banco.

– Quanto você perdeu?

– Uns trinta mil – disse Fabian, com a maior naturalidade.

– Francos?

– Dólares, Alma Gentil.

– Safado! – exclamei e desliguei.