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A viagem de volta a Porto Ercole, na manhã seguinte, foi bastante silenciosa. Nenhum dos dois falou muito. Eu estava ocupado com meus pensamentos e acho que Evelyn também estava com os dela. Ia sentada no extremo do assento, mãos no colo, rosto grave. Pat, não mencionada e a milhares de quilômetros de distância, nas neves de Vermont, era uma presença escura na ensolarada manhã italiana. Eu tinha dito a Evelyn que iria a Vermont vê-la. "Quanto mais cedo, melhor", retrucara Evelyn. Eu teria de telefonar para Fabian, dizendo-lhe que chegaria a Nova York. Via Nova Inglaterra.
Quando chegamos ao Pellicano, disseram-me que Quadrocelli tinha estado à minha procura na noite anterior. Pedi à moça da recepção que me ligasse com ele.
– Bem-vindo! – disse Quadrocelli, quando ouviu minha voz. – Que tal, gostou de Roma?
– Mais ou menos.
– Você está ficando blasé – falou ele, rindo. Não parecia um homem cuja gráfica fora sabotada. – Está uma linda manhã. Achei que seria um bom dia para irmos a Genuttri. O mar está calmo. Que tal a idéia?
– Vou perguntar à minha amiga. – Evelyn estava a meu lado. – Ele quer levar-nos a dar um passeio no seu barco. Você quer ir?
– Por que não? – retrucou Evelyn.
– Ótima idéia – disse eu ao telefone.
– Muito bem. Minha mulher vai nos preparar um lanche. Infelizmente, não nos acompanhará. Odeia barcos e transmitiu esse ódio às filhas dela! – Tudo isso ele disse numa voz entrecortada de risos. – Estou sempre à cata de boa companhia. Sabe onde fica o cais do Iate Clube?
– Sei.
– Será que podem estar lá dentro de uma hora?
– Quando você quiser.
– Dentro de uma hora, então. Vou preparar o barco. Tragam agasalhos, pode esfriar…
– Por falar nisso, foram muitos os estragos na gráfica? – perguntei.
– Normais – respondeu ele. – Para a Itália. Por acaso, sabe de alguém que queira comprar uma gráfica muito bem montada, mas à beira da falência?
– Não – respondi.
– Nem eu. – Ainda estava rindo quando desligou.
A idéia de navegar até a ilha que se via no horizonte me atraía. Não tanto pelo passeio em si, como pelo fato de que, durante uma tarde inteira, eu e Evelyn não ficaríamos a sós. Resolvi convidar Quadrocelli e sua esposa para jantarem conosco. Isso daria conta da noite, também.
Evelyn subiu para mudar de roupa e eu pedi uma ligação para Fabian. Enquanto esperava, li o Rome Daily American daquela manhã. Numa coluna social, havia uma notícia sobre David Lorimer. Ia ser transferido para Washington, e estavam organizando uma festa de despedida em sua honra. Joguei fora o jornal. Não queria que Evelyn o lesse.
– Puxa vida, homem! – exclamou Fabian, quando ouviu minha voz. – Você sabe que horas são?
– Meio-dia.
– Na Itália – retrucou Fabian. – Aqui são seis da manhã. Que pessoa civilizada é capaz de acordar um amigo às seis da matina?
– Desculpe – disse eu. – Estava ansioso por lhe dar a boa notícia.
– Que boa notícia? – perguntou ele, num tom desconfiado.
– Vou voltar aos Estados Unidos.
– E o que há de bom nisso?
– Eu lhe direi quando nos virmos. Assunto particular. Está me ouvindo? A ligação está péssima.
– Estou ouvindo, sim – disse ele. – Bem demais.
– A verdadeira razão por que lhe estou telefonando é para saber onde você quer que eu deixe o carro.
– Por que você não espera aí onde está até que eu volte e possamos falar calmamente?
– Não posso esperar – falei. – E estou calmo.
– Não pode esperar. – Ouvi-o suspirar do outro lado do fio. – Muito bem… pode levar o carro até Paris? Peça ao recepcionista do Plaza-Athénée que o guarde na garagem para mim. Preciso tratar de uns negócios em Paris.
Podia ter mencionado um lugar mais conveniente: por exemplo, Fiumicino. Era um homem que tinha negócios em todas as partes – Roma, Milão, Nice, Bruxelas, Genebra, Helsínqui. Estava sendo propositalmente inconveniente para me punir. Mas eu não estava com vontade de discutir com ele.
– Está bem – disse eu. – Deixo o carro em Paris.
– Sabe que me estragou o dia, não sabe?
– Vai haver outros dias – retruquei.
Quando chegamos ao porto e estacionamos o carro, avistei Quadrocelli enrolando corda no deck do seu pequeno iate branco, ancorado na doca do Iate Clube. A maioria dos outros barcos estava ainda coberta com encerados e, exceto por ele, a doca estava deserta.
Evelyn ia cantarolando, a caminho da doca. Fizera-me parar numa farmácia e comprar Dramamine. Desconfiei de que ela gostava tanto do mar quanto a Sra. Quadrocelli.
– Tem certeza de que não vai me afogar, quando estivermos no meio do mar? – perguntou ela. – Como aquele fulano no filme Uma Tragédia Americana, quando descobre que Shelley Winters está grávida?
– Montgomery Clift – disse eu. – Só que não sou Montgomery Clift nem você é Shelley Winters. E o filme não se chamava Uma Tragédia Americana e sim Um Lugar ao Sol.
– Disse isso só de brincadeira – falou ela, sorrindo para mim.
– Que brincadeira! – Mas sorri também. Fora uma brincadeira sem graça, mas pelo menos mostrava que ela estava pronta a fazer um esforço para não estragar o resto dos nossos dias na Europa. O longo percurso através da França seria difícil, se ela ficasse sentada no canto do carro, calada e distante, como fizera nessa manhã ao virmos de Roma. Depois de falar com Fabian, dissera-lhe que teria de guiar até Paris e perguntara-lhe se ela queria vir comigo.
– Você quer que eu vá? – replicou ela.
– Quero.
– Então, eu vou – respondera ela, secamente. Quadrocelli viu-nos tão logo chegamos à doca e pulou agilmente do barco para vir ao nosso encontro, robusto e náutico na sua velha calça de veludo e em seu suéter de marujo.
– Subam, subam – disse ele, inclinando-se para beijar a mão de Evelyn e apertando cordialmente a minha. – Está tudo pronto. Já preparei tudo. O mar, como podem ver, está calmo como um lago e azul como nos calendários. A cesta com o lanche está pronta. Frango, ovos cozidos, queijo, frutas, vinho. Comida adequada a quem vai navegar…
Estávamos a uns vinte metros do barco, quando ele explodiu. Pedaços de madeira, de vidro e de arame voaram à nossa volta, forçando-nos a nos estendermos ao comprido no chão. Depois, tudo ficou num silêncio de morte. Quadrocelli levantou-se lentamente e olhou para seu iate. A popa fora arrancada e flutuava no mar, formando um estranho ângulo com a doca, como se o barco tivesse sido partido ao meio.
– Você está bem? – perguntei a Evelyn.
– Acho que sim – respondeu ela, num fio de voz. – E você?
– Ok – respondi.
Levantei-me e passei o braço pelos ombros dela. – Giuliano… – comecei a falar.
Mas ele não olhou para mim. Não tirava os olhos do barco.
– Fascisti – murmurou. – Fascisti! Miseráveis! – Começou a sair gente dos prédios em frente ao cais e logo nos vimos cercados por uma multidão, todo mundo falando ao mesmo tempo, fazendo perguntas. Quadrocelli parecia não ver ninguém. – Leve-me para casa, por favor – disse-me ele. – Acho que não vou conseguir guiar. Quero ir para casa.
Abrimos caminho por entre a multidão até o nosso carro. Quadrocelli não voltou a olhar para o seu barquinho, que afundava lentamente nas águas cheias de óleo do cais.
Já no carro, começou a tremer. Violentamente, incontrolavelmente. Sob o bronzeado, seu rosto estava mortalmente pálido.
– Eles podiam ter matado vocês, também – disse, batendo os dentes. – Se tivessem chegado dois minutos mais cedo… Perdoem-me. Perdoem-nos a todos. Dolce Itália. Paraíso dos turistas. – Ria como se estivesse louco.
Quando chegamos à casa dele, não quis que entrássemos, nem mesmo que saíssemos do carro.
– Por favor – disse ele -, preciso falar com minha mulher. Não quero parecer mal-educado, mas precisamos ficar a sós.
Vimo-lo caminhar, lentamente, parecendo um velho, até a porta da casa.
– Pobre homem! – foi tudo quanto Evelyn pôde dizer.
Voltamos para o hotel. Não dissemos nada do que acontecera a ninguém. Logo ficariam sabendo. Tomamos cada um uma dose de conhaque, no bar. Dois mortos, pensei, um em Nova York, outro na Suíça, e por um triz que não morreu mais ninguém na Itália. Evelyn pegou o seu copo com mão firme. A minha não estava.
– À bela Itália – brindou ela. – O sole mio. Acho que está na hora de ir embora, você não acha?
– Acho – respondi.
Subimos, fizemos as malas, pagamos e saímos do hotel, rumo ao norte, tudo em vinte minutos. Não paramos, exceto para pôr gasolina, até depois da meia-noite, quando já tínhamos passado a fronteira e estávamos em Monte Cario. Evelyn insistiu em ver o cassino e tentar a sorte na roleta. Eu não tinha vontade de jogar, nem mesmo de apreciar, de modo que fiquei à espera no bar. Dali a pouco, ela voltou, sorridente. Tinha ganho quinhentos francos e pagou a minha conta para festejar. Quem acabasse casando com ela teria uma mulher de nervos de aço.
Evelyn acompanhou-me a Orly no carro alugado, com chofer. O Jaguar ficara na garagem, à espera de Fabian. Evelyn ia ficar mais uns dias em Paris. Havia anos que não ia a Paris e achava uma pena não aproveitar. De qualquer maneira, eu ia para Boston e ela viajaria direto para Nova York. Durante a viagem através da França, ela se mostrara carinhosa e despreocupada. Tínhamos viajado sem pressa, parando para visitar lugares e fazer refeições nos arredores de Lyon e Avallon. Ela tirara fotos minhas diante do Hospice de Beaune, onde visitamos as adegas, e no pátio de Fontainebleau. Passáramos a última noite perto de Paris, em Barbizon, numa velha e encantadora estalagem. Tínhamos jantado maravilhosamente bem. Durante o jantar, eu lhe contara tudo. De onde provinha meu dinheiro, como conhecera Fabian, qual o nosso trato. Tudo. Ela escutara sem dizer nada. Quando, por fim, terminei, ela riu.
– Bem – falou -, agora já sei por que você quer se casar com uma advogada. – E, inclinando-se sobre a mesa, beijou-me. – Conhece aquele ditado que diz: "Ladrão que rouba ladrão…"? – disse ela, sem parar de rir. – Não se preocupe, querido. Não sou contra certos tipos de roubo.
Dormimos a noite toda nos braços um do outro. Sem o dizermos, sabíamos que um capítulo das nossas vidas estava terminando e tacitamente adiávamos o fim. Ela não fez mais perguntas sobre Pat.
Quando chegamos a Orly, Evelyn não saiu do carro.
– Detesto aeroportos – explicou – e estações. Quando não sou eu que estou partindo.
Beijei-a e ela bateu-me no rosto maternalmente.
– Tome cuidado, em Vermont – falou. – E cuidado também com as mudanças de temperatura.
– Considerando tudo, foram umas boas férias, não foram? – perguntei.
– Considerando tudo, foram umas férias ótimas. Estivemos em lugares lindos.
Eu tinha os olhos marejados de lágrimas. Os dela estavam mais brilhantes do que de hábito, mas secos. Toda ela estava linda, bronzeada e descansada. Tinha o mesmo vestido que usara ao chegar a Porto Ercole.
– Telefono para você – falei, ao sair do carro.
– Telefone! – disse ela. – Você tem o meu número em Sag Harbor.
Enfiei a cabeça no carro e beijei-a de novo.
– Bem, está na hora – falou ela, meigamente.
Segui o carregador que levava minha bagagem e, ao chegar ao balcão, certifiquei-me de que tinha todos os comprovantes de minhas malas.
Peguei um resfriado no avião e estava fungando e com febre quando aterrissamos em Logan. O funcionário da alfândega deve ter ficado com pena de mim, porque não abriu nenhuma mala, de modo que não tive que pagar direitos sobre os cinco ternos feitos em Roma. Achei que era um bom agouro, para contrabalançar o resfriado. Disse ao chofer de táxi para me levar ao Ritz-Carlton, onde pedi um quarto com sol. Aprendera com Fabian a lição do melhor hotel da cidade. Mandei vir uma Bíblia e passei os três dias seguintes metido no quarto, bebendo chá com rum e aspirina, sentindo arrepios, lendo trechos do Livro de Jó e vendo televisão. Nada do que vi na televisão me fazia feliz por ter voltado à América.
No quarto dia, o resfriado se fora. Saí do hotel, pagando com dinheiro, e aluguei um carro. O tempo estava úmido e ventoso, com enormes nuvens negras correndo pelo céu. Não estava um bom dia para guiar, mas eu estava com pressa. Fosse o que fosse que tinha que acontecer, eu queria que acontecesse logo.
Eu ia à toda. A paisagem, entre uma estação e outra, estava como que morta, desolada, as árvores nuas, os campos lamacentos, sem a graça da neve, as casas fechadas. Quando parei para pôr gasolina, um avião voava, baixo mas invisível, entre as nuvens espessas. Parecia preparar-se para jogar bombas. Centenas de vezes eu tinha atravessado aquela região aos controles de um avião. Apalpei o dólar de prata em meu bolso.
Cheguei a Burlington pouco antes das três da tarde e fui direto para o ginásio. Estacionei o carro em frente da escola, desliguei o motor e fiquei à espera, as janelas todas fechadas por causa do frio. Ouvi a sineta das três e vi o mar de jovens sair pelos portões. Finalmente, Pat saiu também. Usava um casacão e uma echarpe na cabeça. Míope como ela era, eu sabia que não distinguiria meu carro a distância, nem poderia saber se havia gente ou não dentro dele. Ia abrir a porta do carro para sair e me dirigir a ela, quando um dos alunos a deteve, um garoto gordo e alto. Ficaram de pé, à luz cinzenta da tarde, falando, o vento açoitando-lhe o casaco e as pontas da echarpe. O vidro do meu lado estava começando a ficar embaçado com minha respiração e então desci-o para vê-la melhor.
Pat e o garoto pareciam não ter pressa e eu fiquei ali, olhando para ela, durante o que me pareceu muito, muito tempo. Conscienciosamente, nesse momento procurei analisar o que sentia ao vê-la. Vi uma moça simpática, bonitinha, que dentro de alguns anos teria uma aparência austera, que não tinha nada a ver comigo, que não me podia dar nem alegria nem pena. Havia uma lembrança desbotada, quase obliterada de prazer e arrependimento.
Liguei o motor e passei lentamente por ela e pelo garoto, ainda conversando. Pat não olhou para o carro. Ainda estavam no mesmo lugar da rua ventosa quando olhei pela última vez, através do retrovisor.
Do hotel, pedi uma ligação para Sag Harbor.
– Amor, amor! – repetia Fabian, irritado. Estávamos no living da sua suíte no St. Regis. Como de costume, mesmo que ele estivesse só um dia em cada hotel, havia vários jornais em diversas línguas espalhados pelo ambiente. Estávamos sozinhos. Lily tivera de voltar à Inglaterra. Eu fora direto para Nova York. Dissera a Evelyn, por telefone, que chegaria a Sag Harbor no dia seguinte.
– Pensei que você tinha, pelo menos, vencido isso – dizia Fabian. – Parece um garoto de ginásio. Quando tudo ia tão bem, você faz tudo ir pelos ares…
Recordando a manhã no cais de Porto Ercole, não gostei daquela expressão. Mas não disse nada. Ia deixá-lo acabar de falar.
– Sag Harbor, pelo amor de Deus! – disse ele, andando de um lado para outro da grande sala. Lá fora, o ruído do trânsito na Fifth Avenue chegava até nós, coado pelas grossas paredes e pelos pesados cortinados. – Fica a duas horas de Nova York. Você ainda vai acabar com uma bala na cabeça. Já esteve em Sag Harbor no inverno, por acaso? Quando a paixão esmorecer, o que você espera fazer lá?
– Encontrarei algo para fazer – repliquei. – Talvez fique lendo. E deixando você trabalhar para mim.
Ele grunhiu e eu sorri.
– De qualquer maneira – falei -, talvez esteja mais seguro nos Estados Unidos, rodeado por milhões de outros americanos, do que na Europa. Você viu como eu me distingo dos europeus.
– Eu esperava ensiná-lo a integrar-se no cenário.
– Nem em cem anos, Miles – disse eu. – E você sabe disso.
– Não acho que fosse assim tão impossível – retrucou ele. – Observei alguns sinais de progresso no pouco tempo em que estivemos juntos. Por falar nisso, vejo que você foi ao meu alfaiate.
Eu estava usando um dos ternos feitos em Roma.
– É – confirmei. – Que tal? Você gosta?
– Melhorou muito – disse ele. – E também estou vendo que cortou o cabelo em Roma.
– Nada lhe escapa, hem? – falei.
– Não quero nem pensar em como você vai ficar, depois de um corte de cabelo no barbeiro de Sag Harbor.
– Do jeito que você fala, até parece que eu vou para o meio do mato. Essa parte de Long Island é uma das mais chiques dos Estados Unidos.
– Na minha opinião – disse ele, continuando a andar de um lado para outro -, não há lugares chiques, como você diz, nos Estados Unidos.
– Ora, vamos – retruquei. – Se não me falha a memória, você veio de Lowell, Massachusetts.
– E você veio de Scranton, Pennsylvania – rematou ele. – Ambos devíamos fazer o impossível para esquecer essa desgraça. Entendo que você queira casar-se, que vibre com a idéia de ter um filho. Entendo isso, embora seja contra todos os meus princípios. Já olhou bem para as crianças americanas de hoje?
– Já. São toleráveis.
– Essa mulher deve tê-lo enfeitiçado. Uma advogada! – Grunhiu de novo. – Puxa, eu nunca devia ter deixado você sozinho! Ela alguma vez esteve na Europa? Isto é… antes deste… deste episódio?
– Já – respondi.
– Por que você não lhe propõe o seguinte: vocês se casam, muito bem. Mas ela experimenta viver com você na Europa durante um ano. As mulheres americanas adoram viver na Europa. Os homens dizem-lhes galanteios até elas terem setenta anos… principalmente na França e na Itália. Deixe-a falar com Lily e, depois, ela que decida. Nada mais justo do que isso, não acha? Quer que eu fale com ela?
– Pode falar – repliquei -, mas não a respeito disso. De qualquer maneira, não é só ela que pensa assim. Eu também. Não quero viver na Europa.
– Você quer viver em Sag Harbor – suspirou ele, melodramático. – Por quê?
– Por várias razões… a maioria não relacionada com ela. – Não lhe podia explicar o efeito que os quadros de Ângelo Quinn tinham tido sobre mim, e nem tentei.
– Posso, pelo menos, conhecer a noiva? – perguntou ele, patético.
– Se não procurar convencê-la – respondi. – A respeito de nada.
– Você é mesmo um bom sócio – queixou-se ele. – Desisto. Quando posso conhecê-la?
– Vou a Sag Harbor amanhã de manhã.
– Não vá cedo demais – disse ele. – Tenho uns negócios a tratar, a partir das dez.
– Naturalmente – concordei.
– Explico-lhe tudo que tenho feito, ao jantar. Você vai ficar satisfeito.
– Tenho certeza disso – respondi.
E fiquei a ouvi-lo falar de negócios enquanto jantávamos, num pequeno restaurante francês do East Side, pato com azeitonas, acompanhado por um belo Borgonha. Fiquei sabendo que estava bem mais rico do que quando vira o avião dele decolar de Cointrin, com o caixão de Sloane no bojo. Naturalmente, Miles Fabian também estava mais rico.
Eram quase seis da tarde quando chegamos à casa de Evelyn, atravessando a paisagem rural à beira-mar. Fabian resolvera parar num hotel de Southampton e eu esperara por ele enquanto tomava banho, mudava de roupa e fazia duas ligações transatlânticas. Eu lhe dissera que Evelyn o estava esperando e lhe preparara o quarto de hóspedes, mas ele retrucara:
– Não, meu velho. Não gosto de ficar acordado a noite inteira, ouvindo sons de êxtase. Principalmente quando se é íntimo dos interessados.
Lembrei-me de Brenda Morissey falando sobre o mesmo fenômeno na cozinha do apartamento de Evelyn em Washington, e não insisti.
Quando nos aproximamos da casa, vimos que o lampião junto à porta estava aceso. Evelyn não queria ser apanhada de surpresa.
O lampião derramava uma luz suave e acolhedora sobre o gramado em frente à casa, que fora construída em cima de um penhasco debruçado sobre o mar. Margeando a propriedade, havia grupos de pinheiros e carvalhos, açoitados pelo vento. Não se viam outras casas. A distância, o poente deitava um último fulgor sobre a baía. A casa em si era pequena, feita de ardósia cinzenta no estilo de Cape Cod, com um telhado inclinado e mansardas. Fiquei imaginando se iria viver e morrer lá.
Fabian insistira em trazer duas garrafas de champanha como presente, embora eu lhe tivesse dito que Evelyn gostava de uns drinques e certamente teria bebidas em casa. Não se ofereceu para ajudar-me a carregar minhas malas até a casa. Achava que duas garrafas de champanha já eram carga de sobra para um homem da sua posição.
Ficou olhando para a casa como se para um inimigo.
– Pequena, você não acha? – falou.
– Acho que é suficientemente grande – respondi. – Não partilho das suas manias de grandeza.
– O que é uma pena – disse ele, revirando o bigode.
Percebi, espantado, que ele estava nervoso.
– Vamos! – disse eu.
Mas ele hesitou.
– Não seria melhor se você entrasse sozinho? – sugeriu. – Eu podia dar um passeio e voltar daqui a quinze minutos. Não há nada que você queira dizer à moça a sós?
– Agradeço-lhe o tato – respondi -, mas não é necessário. Disse tudo o que queria dizer pelo telefone, em Vermont.
– Você tem certeza de que sabe o que está fazendo?
– Absoluta. – Peguei-o firmemente pelo braço e encaminhamo-nos para a porta.
Não vou dizer que a noite foi um completo sucesso. A casa estava encantadora, embora decorada e mobiliada com parcimônia, mas era pequena, como Fabian observara. Evelyn pendurara os dois quadros que eu tinha comprado em Roma e eles dominavam a sala de um jeito estranho, quase ameaçador. Evelyn estava esportivamente vestida, com calça escura e suéter, marcando bem o fato, talvez até demasiado, de que não pretendia fazer nada para impressionar o primeiro amigo meu que conhecia. Agradeceu a Fabian o champanha, mas disse que não estava com vontade de tomá-lo e foi à cozinha preparar martínis.
– Vamos deixar o champanha para o casamento – decretou.
– Não é o único champanha que há no mundo, minha cara – disse Fabian.
– Mesmo assim – retrucou Evelyn com firmeza, entrando na cozinha.
Fabian olhou para mim, como se fosse dizer-me alguma coisa, mas suspirou e deixou-se cair numa grande poltrona de couro. Quando Evelyn voltou com os martínis, ele ficou revirando o bigode, pouco à vontade, e fingiu apreciar o drinque. Eu sabia que ele estava todo preparado para tomar champanha.
Evelyn ajudou-me a levar as malas para o nosso quarto, que ficava em cima. Não era uma dessas mulheres americanas que acham que a Constituição lhes garante nunca precisarem de carregar nada mais pesado do que uma bolsa contendo um pente e um talão de cheques. Era mais forte do que aparentava. O quarto era grande, ocupando quase toda a largura da casa, e tinha um banheiro a um dos lados. Havia uma enorme cama de casal, uma penteadeira, estantes de livros e duas cadeiras de balanço de madeira e cana-da-índia. Havia também abajures, bem colocados, para ler.
– Você acha que vai ser feliz aqui? – perguntou ela, num tom estranhamente ansioso.
– Muito. – Tomei-a nos braços e beijei-a.
– Ele é que não está muito feliz, o seu amigo – sussurrou ela. – Não é mesmo?
– Vai ficar. – Procurei fazer com que minha voz soasse confiante. – De qualquer maneira, não é ele que vai se casar com você, e sim eu.
– Espera-se – disse ela, ambiguamente. – Faminto de poder. Conheci muitos assim em Washington. A boca se contrai quando é contrariado. Ele esteve no Exército?
– Esteve.
– Terá sido coronel? Parece um coronel aborrecido porque a guerra acabou.
– Nunca lhe perguntei.
– Dá a impressão de que vocês são muito chegados.
– E somos.
– Como é que você nunca lhe perguntou qual era a patente dele?
– Não sei.
– Maneira estranha de ser chegado – disse ela, saindo dos meus braços.
Fabian estava de pé junto da lareira, olhando para o quadro da rua principal, pintado por Ângelo Quinn. Não fez nenhum comentário, quando nos viu descer a escada para o living, mas estendeu a mão para o martíni meio tomado.
– Agora, crianças – disse ele, com falsa animação -, deixem-me convidá-los para um magnífico jantar de mariscos. Há um restaurante em Southampton que eu…
– Não é preciso ir até Southampton – atalhou Evelyn. – Há um lugar aqui mesmo, em Sag Harbor, que serve as melhores lagostas deste mundo.
A boca de Fabian se contraiu, mas tudo o que ele disse foi:
– Como você quiser, minha cara.
Ela subiu para buscar um casaco e eu e Fabian ficamos sozinhos um momento.
– Gosto de uma mulher – disse ele, com um brilho duro nos olhos – que tem opinião. Pobre Douglas!
– Pobre por quê? – retruquei.
Ele deu de ombros, retorceu as pontas do bigode, virou-se para olhar para o quadro sobre a lareira.
– Onde foi que ela comprou isso? – perguntou.
– Em Roma – respondi. – Eu o comprei para ela.
– Você? – disse ele, num tom de surpresa nada lisonjeira. – Interessante. Lembra-se do nome da galeria?
– Bonelli. Fica na via…
– Sei muito bem onde fica. Conheço o velho da dentadura. Quando for a Roma, talvez dê uma olhada…
Evelyn desceu do quarto, com o casaco no braço, e Fabian correu para ajudá-la a vesti-lo. Via-se que a considerava atraente, pois seus movimentos eram acariciantes, mais de amante do que de maître. Encarei isso como um bom sinal.
A lagosta era tão boa quanto Evelyn prometera, e Fabian mandou vir uma garrafa de vinho branco americano que, segundo ele, era quase tão bom quanto o vinho branco francês. Tão bom, que mandou vir outra garrafa. A essa altura, a atmosfera estava suficientemente relaxada. Fabian brincou comigo a respeito dos meus ternos romanos, elogiou minha maneira de esquiar e disse a Evelyn que ela devia deixar que eu lhe servisse de instrutor, falou de Gstaad, St. Paul-de-Vence e Paris, contou duas piadas engraçadas a respeito de Giuliano Quadrocelli, ouviu-nos, com ar sério, descrever a explosão do iate no cais, não trouxe à baila os nomes de Lily ou Eunice, não falou em negócios, em nenhuma altura interrompeu Evelyn e comportou-se como o mais encantador dos anfitriões. Via-se que decidira conquistar Evelyn, e eu esperava que ele o conseguisse.
– Diga-me uma coisa, Miles – falou Evelyn, quando estávamos terminando o café -, você foi coronel, durante a guerra? Perguntei a Douglas, mas ele disse que não sabia.
– Nada disso, minha cara! – riu Fabian. – Nunca passei de um obscuro tenente.
– Eu estava certa de que você tinha sido coronel – disse Evelyn. – No mínimo.
– Por quê?
– Não sei – respondeu Evelyn, despreocupadamente. Colocou a mão em cima da minha, sobre a mesa. – Talvez porque você tenha um ar de comandante de tropas.
– É um truque que aprendi, minha cara – retrucou Fabian -, para encobrir a minha falta de autoconfiança. Gostariam de um conhaque?
Paga a conta, não quis por nada que o deixássemos no seu hotel, em Southampton.
– E amanhã de manhã – disse-me ele – não se preocupe com levantar cedo. Tenho de estar ao meio-dia em Nova York e o hotel me arranjará uma limusine.
Quando o táxi se aproximou do restaurante, agora semi-encoberto pela neblina que subia da baía, ele disse:
– Que bela noite! Espero repeti-la muitas vezes. Se me dá licença, Alma Gentil… – E inclinou-se para Evelyn. – Gostaria de dar à moça um beijo de boa-noite.
– Claro! – disse ela, sem esperar pela minha permissão, e beijando-o no rosto.
Quando ele entrou no táxi e o carro desapareceu em meio à neblina, Evelyn disse:
– Ufa! – E agarrou-me a mão.
Nessa noite e na manhã seguinte, agradeci a Fabian o fato de ele ter ido para um hotel e não ter pernoitado na casa de Evelyn.
Ele não assistiu ao casamento, pois nessa semana estava na Inglaterra. Mas mandou de Londres uma maravilhosa cafeteira de prata de presente, em mãos de uma aeromoça sua amiga. E, quando o nosso filho nasceu, mandou cinco napoleões de ouro de Zurique, onde se encontrava na ocasião.