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CAPÍTULO XXV

Na manhã seguinte, a história estava em todos os jornais de Long Island, ilustrada com a minha foto e, claro, a de Priscilla. Antes de sair para a delegacia, telefonei para o hospital e me disseram que Fabian estava descansando e que provavelmente eu poderia fazer-lhe uma visita de alguns minutos lá para o fim da manhã. Priscilla chegou à delegacia um pouco antes de mim, acompanhada por policiais uniformizados. Devia haver uns dez fotógrafos à nossa espera. Na delegacia, ambos identificamos os dois homens, embora eu não entendesse como Priscilla os podia ter visto bem no carro às escuras e com ela gritando e se debatendo. De qualquer maneira, eles já tinham confessado, e a identificação era mera formalidade.

Os dois pareciam inofensivos, à luz do dia. Ainda não eram propriamente homens. Nenhum dos dois teria mais de dezoito anos e eram magros e assustados, com a pele cheia de espinhas e bocas fingidamente duras, que tremiam quando os policiais lhes dirigiam a palavra. Pouco mais do que pivetes, segundo o policial jovem. Era difícil acreditar que, algumas horas antes, eles tinham ferido um homem, tentado matar-me e quase sido mortos por mim.

Quando saí da delegacia, os fotógrafos pediram-me que posasse ao lado de Priscilla, mas eu continuei a andar. Estava mais do que farto de Priscilla Dean.

Falei com o médico antes de entrar para ver Fabian. O médico estava otimista.

– Reagiu à operação muito melhor do que se podia esperar. Acho que vai escapar.

Fabian estava deitado de costas na cama, com tubos enfiando-lhe soro no braço e algo no peito, por baixo das cobertas. O sol entrava pelo quarto e, através da janela aberta, chegava o cheiro de grama recém-cortada. Quando me viu entrar, sorriu debilmente e ergueu a mão em cumprimento.

– Acabei de falar com o médico – disse eu, puxando uma cadeira para junto da cama -, e ele me disse que você vai ficar logo bom.

– Ainda bem – disse ele, numa voz fraca. – Imagine morrer para salvar a honra de Priscilla Dean! – Não pôde deixar de rir. – O que nós devíamos ter feito era apresentá-la àqueles dois rapazes. – Riu de novo, com esforço. – Podiam ter ido juntos para Quogue e se divertido os três.

– Diga-me uma coisa, Miles – perguntei. – O que deu em você para tentar pegar o diabo da arma?

Ele abanou a cabeça de um lado para outro, sobre o travesseiro.

– Quem é que sabe? O instinto? A bebida? Ou talvez tenha sido um resto de Lowell, Massachusetts…

– Acho que essa é uma explicação tão boa quanto qualquer outra – concordei. – Por falar nisso, o médico diz que você tem uma cicatriz enorme no peito e no abdome. Onde foi que você a conseguiu?

– Trata-se de um souvenir – respondeu ele. – Mas preferia não falar nisso agora, se você não se incomoda. Será que você me fazia um favor?

– Claro.

– Pode telefonar para Lily e perguntar se ela poderia vir passar aqui uns dias? Acho que a presença dela me faria muito bem.

– Vou telefonar-lhe hoje mesmo – prometi.

– Isso é que é ser um bom menino. – Suspirou. – Foi um sucesso a noite de ontem. Toda aquela gente requintada! Você devia telegrafar a Quinn, dando-lhe os parabéns.

– Evelyn vai tratar disso esta manhã – retruquei.

– Mulher sensível! Estava linda, ontem à noite. – Pus-me de pé. – Não, não vá já embora – disse ele. – Acho que naquela gaveta há um bloco e uma caneta. Pode trazê-los até aqui?

Abri a gaveta e dei-lhe o bloco e a caneta. Ele escreveu devagar e com dificuldade. Depois, arrancou a folha do bloco e entregou-me.

– Nunca se sabe o que vai acontecer, Douglas – disse-me ele. – Eu… – Estacou, como se tivesse dificuldade em escolher as palavras. – Essa nota que você tem na mão é para o banco em Zurique. Além da nossa conta conjunta, tenho uma conta particular, nesse banco. O número está aí, bem como a minha assinatura. O que lhe estou querendo dizer é que, de tempos em tempos, eu… eu, bem… retirei uma quantia considerável. Para falar francamente, Douglas, eu estava trapaceando com você. Essa nota vai devolver-lhe o dinheiro que eu tirei.

– Meu Deus! – exclamei.

– Eu lhe avisei, logo de início – disse ele -, que não era um sujeito admirável.

Bati-lhe de leve na cabeça.

– Ora, o dinheiro não é tudo, meu amigo – falei. – Você me ensinou muitas coisas.

As lágrimas subiram-lhe aos olhos.

– O dinheiro não é tudo – repetiu. E logo depois riu. – Sabe o que estou pensando? Que foi uma sorte eu ficar ferido. De outra maneira, ninguém iria acreditar que tudo não passava de uma farsa publicitária para promover Priscilla Dean.

A enfermeira entrou no quarto e olhou severamente para mim, de modo que me levantei.

– Cuide dos negócios – disse Fabian, à guisa de despedida.

Lily chegou na tarde do dia seguinte. Fui esperá-la no Aeroporto Kennedy para levá-la ao hospital. Como sempre, ela estava muito elegante, no mesmo casaco marrom que usara em Florença. Quase não falou, durante o caminho. Mas fumou sem parar. Tive de comprar dois maços de cigarros na estrada. Dissera-lhe que o médico considerava boas as chances de Fabian se recuperar, mas ela limitara-se a assentir com a cabeça.

– O médico também disse – falei eu, quebrando o silêncio, quando passávamos por Riverhead – que Miles tem uma enorme cicatriz no peito e no abdome. Disse que parecia um ferimento a granada. Você sabe do que se trata? Perguntei a Miles, mas ele disse que preferia não falar nisso.

– Claro que sei da cicatriz – retrucou Lily. – Vi-a na primeira vez que fomos para a cama juntos. Ele parecia ter vergonha dela, como se fosse algo que o diminuísse. Você sabe como ele é vaidoso. É por isso que nunca pratica natação e sempre usa camisa e gravata. Não lhe fiz perguntas, mas depois de algum tempo ele mesmo me contou. Foi piloto na guerra… suponho que lhe tenha dito isso…

– Não – disse eu.

Ela sorriu através da fumaça do cigarro.

– Sempre discreto e reservado, o nosso Miles. Bem, ele foi piloto durante a guerra. Deve ter sido um ótimo piloto. Soube, por velhos amigos meus americanos, que o conheceram, que ele tem quase todas as medalhas que um governo grato pode conferir. – Lily torceu ironicamente a boca. – No inverno de 1944, deram-lhe uma missão nos céus da França. Segundo ele me disse, uma missão praticamente suicida, num tempo horrível. Claro que não entendo nada disso, mas numa coisa dessas tendo a acreditar nele. Disse-me que o comandante do seu esquadrão era um louco e irresponsável conquistador de glórias. Seja como for, Miles e seu melhor amigo foram derrubados sobre o Pas de Calais. O amigo morreu e Miles foi feito prisioneiro pelos alemães, que cuidaram dele… à maneira alemã. A cicatriz é resultante disso. Quando o hospital em que ele estava internado foi tomado pelas forças aliadas, ele pesava menos de cinqüenta quilos. Aquele homenzarrão. – Lily ficou por um tempo calada, fumando. – Segundo ele me disse, foi então que decidiu que já tinha feito o suficiente em prol da humanidade. Isso explica um pouco a sua maneira de viver, você não acha?

– Um pouco – concordei. – Você acreditava, quando ele se fazia passar por um rico proprietário inglês?

– Claro que não. Ríamos um bocado. Eu lhe ensinei uma porção de anglicismos. Você se envolveu em muitos negócios com ele, não?

– Em vários – disse eu.

– Lembra-se de que o preveni sobre ele, a respeito de dinheiro?

– Lembro-me.

– Ele o enganou?

– Um pouco.

– A mim também. Querido Miles! – Riu. – Pode não ser muito honesto, mas é um homem que sabe viver e gosta de dar alegria aos outros. Não sei, mas talvez isso seja mais importante do que ser honesto. – Acendeu outro cigarro. – Custa pensar que ele esteja morrendo.

– Talvez não morra – disse eu.

– É, talvez.

Não falamos mais até chegarmos ao hospital.

– Gostaria de estar com ele a sós – disse Lily, quando paramos à porta do belo prédio de tijolos vermelhos.

– Naturalmente – falei. – Vou deixar suas malas no hotel. E estarei em casa, se você precisar de mim. – Beijei a e vi-a entrar no hospital.

Estava escuro, quando cheguei a casa. Havia um carro que eu não conhecia diante do portão. "Mais repórteres", pensei, aborrecido. O carro de Evelyn não estava na garagem e decerto Anna deixara entrar quem quer que fosse. Abri com a minha chave. Um homem estava sentado na sala, lendo um jornal. Levantou-se quando me viu entrar.

– Sr. Grimes…? – perguntou.

– Sim, sou eu.

– Tomei a liberdade de esperar pelo senhor em sua casa – explicou ele. Era um homem magro, de cabelo louro e ar intelectual, corretamente vestido num terno de verão cinza-escuro, camisa branca e gravata colorida. Não parecia um repórter. – Meu nome é Vance – disse ele. – Sou advogado. Vim aqui, a pedido de um cliente, apanhar cem mil dólares.

Dirigi-me ao armário onde guardávamos as bebidas e preparei um uísque para mim.

– Aceita um drinque? – perguntei ao homem.

– Não, muito obrigado.

Trouxe a bebida na mão e sentei-me numa poltrona, diante de Vance. Ele permaneceu de pé, franzino e nada ameaçador.

– Estava sempre à espera de que vocês aparecessem.

– Levou algum tempo – disse ele, numa voz seca, baixa e educada, difícil de agüentar por muito tempo sem entediar. – Não foi fácil segui-lo. Felizmente… – Indicou o jornal. – O senhor se transformou num herói, da noite para o dia.

– Assim parece – concordei. – Não há como uma boa ação para a pessoa brilhar neste mundo perdido.

– Exatamente – assentiu ele.

Olhou em volta da sala. O bebê estava chorando em seu quarto.

– Bela casa! – falou ele. – Gostei da vista.

– Pois é – falei. Sentia-me muito cansado.

– Meu cliente mandou-me avisar-lhe que o senhor tem três dias para entregar o dinheiro. Ele é um homem razoável.

Fiz que sim com a cabeça. Até isso foi com esforço.

– Estarei no Hotel Blackstone. A menos que o senhor prefira o St. Augustine. – Sorriu, um sorriso de caveira.

– O Blackstone está bom – disse eu.

– Nas mesmas condições em que o senhor o encontrou, por favor – disse Vance. – Em notas de cem dólares.

Fiz de novo que sim.

– Bem – disse ele -, acho que está tudo combinado. Agora, preciso ir andando.

Já na porta, ele parou.

– O senhor não perguntou quem é o meu cliente – falou.

– Não.

– Ainda bem. Se tivesse perguntado, eu não lhe poderia dizer. Mesmo assim, posso afirmar-lhe que a sua… a sua fuga… teve as suas vantagens. O sacrifício de devolver o dinheiro pode ser amenizado pelo fato de saber que a sua fuga poupou diversas pessoas importantes… muito importantes, de um considerável embaraço.

– Já ganhei o dia – falei.

Eram nove horas quando entrei no elevador do apartamento da 52nd Street, East. Pedira a Anna para dizer a Evelyn que fora chamado subitamente à cidade, a negócios, e que só voltaria dali a um dia ou dois. Podia ter telefonado para Evelyn, mas não quis ter que lhe explicar tudo.

Henry abriu-me a porta do apartamento. Peguei-o quando já ia saindo. Ele e Madeleine tinham bilhetes para o teatro, mas, quando eu lhe disse que precisava falar com ele urgentemente, Henry prontamente assentiu. Parecia preocupado, ao me abrir a porta. Madeleine estava na sala, toda pronta para sair. Também ela parecia preocupada.

– Talvez fosse melhor falarmos a sós, Hank – disse eu.

Mas ele sacudiu a cabeça.

– Preferia que ela ficasse, se você não se importa.

– Muito bem – disse eu. – Não vou demorar. Preciso de cem mil dólares, Hank. Em notas de cem. Não tenho tempo de mandar buscar o dinheiro na Europa e não o tenho aqui. Só disponho de três dias. Será que você me pode arranjar cem mil dólares em três dias?

Henry sentou-se. Esfregou os olhos com as costas da mão, num gesto que tinha desde criança.

– Posso – disse ele, numa voz que mal se ouvia. – Claro que posso, apesar de não saber como.

Só foram necessários dois dias.

Liguei para o quarto de Vance, do hall do hotel.

– Vou subir – falei, segurando o telefone com uma das mãos e a pesada mala com a outra.

– Ótimo! – disse ele.

Esperei que ele contasse as notas, o que ele fez lenta e cuidadosamente. Não tinha perguntado a Henry de onde ele tirara o dinheiro, nem ele me dissera.

– Está certo – disse Vance, quando acabou de contar. – Obrigado.

– Pode ficar com a mala – ofereci.

– Muito obrigado. – E acompanhou-me até a porta.

Peguei o carro e saí correndo. Queria chegar ao hospital antes que proibissem a entrada de visitantes. Telefonara ao meio-dia e falara com Lily. Fabian estava descansando tranqüilamente, dissera ela. Queria dizer-lhe que, conforme ele previra, o homem viera exigir os cem mil dólares e que eu fora obrigado a devolvê-los.

Quando entrei no hospital, a recepcionista deteve-me.

– Chegou demasiado tarde, Sr. Grimes – disse-me ela. – O Sr. Fabian faleceu às quatro horas da tarde. Tentamos avisar o senhor, mas…

– Não faz mal – atalhei, espantado com a calma da minha voz. – Lady Abbott está no hospital?

A recepcionista sacudiu a cabeça.

– Acho que ela foi embora. Disse que não tinha mais nada a fazer aqui e que procuraria tomar esta noite mesmo um avião para Londres.

– Muito bem – falei. – Boa noite. Amanhã de manhã voltarei para cuidar do funeral.

– Boa noite, Sr. Grimes – disse ela.

Fui andando lentamente para East Hampton. Agora, já não havia pressa. Não queria voltar já para casa. Dirigi o carro para o celeiro, agora às escuras, com o cartaz recém-pintado "The South Fork Gallery" em pequenas letras sobre a porta. "Cuide bem dos negócios", dissera Fabian. Tirei o chaveiro e abri a porta. Sentei-me num banco no meio da galeria, sem acender a luz, pensando no homem alegre, desonesto, astuto, marcado por uma cicatriz, que morrera naquele dia e que, pelos termos do contrato que tínhamos assinado no escritório do advogado, em Zurique, agora me deixava livre e absurdamente rico. As lágrimas vieram-me lentamente aos olhos.

Levantei-me e acendi as luzes. Depois, fiquei de pé no meio da sala e olhei para os quadros das andanças do pai de Ângelo Quinn brilhando nas paredes.