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CAPÍTULO II

Em Nova York, o tempo estava encoberto, mas quando passamos Peekskill, voando rumo ao norte, o céu ficou limpo. Lá embaixo, sobre as montanhas, a neve brilhava ao sol. Eu tinha levado o pequeno Cessna ao Aeroporto de Teterboro, para pegar o charter de Nova Jersey, e, atrás de mim, escutava os passageiros dando-se mutuamente parabéns pelo céu azul e pela neve fresca. Voávamos baixo, a apenas dois mil metros, e os campos formavam como que tabuleiros de xadrez, com as árvores pretas contra o branco impecável da neve. Eu não me cansava daquele vôo. O fato de reconhecer fazendas, cruzamentos de estradas e o curso de um riacho aqui e ali tornava a curta viagem agradável e familiar. O norte do Estado de Nova York é bonito visto do chão, mas num belo dia do início do inverno, visto de cima, transforma-se num dos panoramas mais belos deste mundo. Uma vez mais, agradeci nunca ter cedido à tentação de aceitar emprego numa das grandes companhias aéreas, onde se passa a melhor parte da vida a uma altitude de mais de dez mil metros, com o mundo lá embaixo, apenas um vasto mar de nuvens ou um mapa impessoal, abrindo-se lentamente aos nossos pés.

Eu levava apenas três passageiros, a família Wales, pai, mãe e uma meninota gorducha, de aparelho nos dentes e doze ou treze anos de idade, chamada Didi. Eram entusiastas do esqui, e eu já os transportara umas quatro ou cinco vezes. Havia uma linha aérea regular para Burlington, mas o Sr. Wales era um homem muito ocupado, explicava, que esquiava quando tinha tempo e não gostava de ficar preso a horários. Tinha uma firma de publicidade em Nova York e parecia não se incomodar com dinheiro. Quando contratava um charter, sempre fazia questão de que o piloto fosse eu. A razão, em parte – ou, talvez, toda a razão -, para essa preferência era o fato de eu de vez em quando esquiar com eles em Stowe, Sugarbush e Mad River, guiando-os pelas trilhas que eu conhecia melhor do que eles e, ocasionalmente, mostrando-lhes, com tato, como melhorar o seu desempenho. Wales e a esposa, mulher nova-yorquina, dura e atlética, estavam sempre competindo um com o outro e esquiavam depressa demais, descontroladamente. Dizia para mim mesmo que alguém ainda acabaria com uma perna partida. Sabia quando estavam furiosos um com o outro pelos tons diferentes em que se chamavam mutuamente "meu bem".

Didi era uma criança séria e solene, sempre com um livro nas mãos. Segundo seus pais, começava a ler tão logo apertava o cinto de segurança e só parava quando o avião aterrava. Naquele vôo, estava mergulhada em O Morro dos Ventos Uivantes. Em garoto, eu também devorava livros – quando minha mãe se aborrecia comigo, dizia: "Puxa, Douglas, pare de se comportar como uma personagem de livro" – e divertia-me vendo o que Didi lia.

Ela era, de longe, a melhor esquiadora da família, mas seus pais obrigavam-na a descer sempre atrás deles. Eu tinha esquiado uma manhã sozinho com ela, numa tempestade de neve, quando o casal Wales ficara dormindo após uma festa, e ela parecia outra, sorrindo e descendo alegremente a montanha comigo, semelhante a um animalzinho selvagem a quem tivessem aberto a gaiola.

Wales era um sujeito generoso e fazia questão de sempre me dar um presente após cada vôo: um suéter, um novo par de luvas de esqui, uma carteira, coisas assim. Eu ganhava o bastante para comprar tudo de que precisava e não me agradava a idéia de receber gorjetas, mas sabia que ele se sentiria insultado se eu recusasse os seus presentes. Não era um sujeito desagradável. Apenas demasiado bem-sucedido.

– Linda manhã, hem, Doug? – disse Wales atrás de mim. Era um homem irrequieto, que até num avião pequeno parecia estar sempre andando. Daria um péssimo piloto. Trouxe para a cabina um cheiro de álcool. Sempre viajava com uma garrafinha revestida de couro.

– É… 1… linda – respondi. Desde garoto eu gaguejava e por isso procurava falar o mínimo possível. Às vezes, ficava pensando no que a minha vida poderia ter sido se eu não tivesse esse defeito, mas não me deixava abater por causa disso.

– Deve estar ótimo para esquiar – disse Wales.

– É, ótimo – concordei. Não gostava de falar quando estava pilotando, mas não podia dizer isso a Wales.

– Vamos a Sugarbush – continuou ele. – Você vai estar lá neste fim de semana?

– A… a… acho que sim – respondi. – C… combinei com uma garota esquiar c… com ela. – A garota chamava-se Pat Minot. O irmão dela trabalhava nos escritórios da companhia de aviação, e eu a conhecera através dele. Ensinava história no ginásio e eu combinara encontrar-me com ela às três, quando as aulas terminassem. Esquiava muito bem e era, além disso, muito bonita, miúda, morena e interessante. Conhecia-a havia mais de dois anos e fazia quinze meses que tínhamos um caso bastante irregular, pelo menos no que dizia respeito a ela, pois durante semanas a fio ela me mantinha a distância, com um pretexto ou outro, e quase não reparava em mim quando nos encontrávamos por acaso. Depois, de repente, sugeria que saíssemos juntos. Pelo sorriso em seu rosto, eu já sabia quando é que ela estava entrando numa fase não irregular.

Era uma garota popular, que teimava em permanecer solteira; segundo seu irmão, todos os amigos dele lhe tinham feito a corte. Se tinham sido bem sucedidos ou não, eu nunca descobrira. Sempre fui tímido com as garotas e não me podia gabar de ter andado atrás dela. Tampouco podia dizer que ela andava atrás de mim. Tudo aconteceu simplesmente, depois de esquiarmos juntos um longo fim de semana em Sugarbush. Após a primeira noite, eu lhe dissera:

"Esta foi a melhor coisa que já me aconteceu".

Ao que ela replicara apenas:

"Pss".

Nunca soube se estava ou não apaixonado por Pat. Se ela não estivesse sempre insistindo para que eu curasse a gagueira, acho que lhe teria pedido para casar-se comigo. O próximo fim de semana, pensava eu, seria decisivo. Mas estava resolvido a ser cauteloso, a deixar abertas todas as saídas.

– Ótimo! – exclamou Wales. – Vamos jantar juntos esta noite!

– Obrigado, G… George – respondi. Desde o início ele insistira para que eu os tratasse pelos nomes de batismo. – S… seria ótimo. – Jantar com outro casal adiaria decisões, dar-me-ia tempo para sondar os sentimentos de Pat e reavaliar os meus.

– Vamo-nos pôr a caminho logo que aterrarmos – continuou Wales. – Assim, poderemos começar a esquiar ainda esta tarde. E você? Quer que a gente o espere na pensão?

– A… acho que n… não. Tenho exame m… médico marcado, esta tarde, e n… não sei quando vou f… ficar livre.

– Mas você janta conosco? – insistiu Wales.

– J… janto.

– Doug – disse Wales -, será que você tem três semanas livres seguidas? No inverno, claro?

– N… não – respondi. – Estamos em plena temporada. P… por quê?

– Eu e Beryl vamos a Zurique num charter em princípios de fevereiro. – Beryl era a mulher dele. – Damos sempre um jeito de passar três semanas nos Alpes… Você já esquiou lá?

– N… nunca saí dos Estados Unidos. Exceto uns d… dias que estive no Canadá.

– Você ficaria maluco – disse ele. – Umas encostas de sonho! Gostaríamos que fosse conosco. Sou sócio de um clube e a viagem sai baratíssima. Menos de trezentos dólares ida e volta. O nome do clube é Christie Ski Club. E não é só por ser barato, lógico! A companhia é espetacular, a melhor turma do mundo para se viajar, sem falar na bebida grátis. E não é preciso preocupar-se com excesso de bagagem ou com a alfândega suíça. Eles deixam você passar com um sorriso. A pessoa tem de ser sócia do clube pelo menos há seis meses, mas eles não ligam muito para isso. Conheço uma moça que trabalha na secretaria, o sobrenome dela é Mansfield, ela arranja tudo. É só você lhe dizer que é meu amigo. No inverno, há vôos quase todas as semanas. No ano passado, estivemos em St.Moritz e este ano vamos para St. Anton. Você botaria os austríacos no chinelo e as austríacas ficariam caidinhas.

– I… imagine! – falei, com um sorriso.

– Pense no assunto – disse Wales. – Vai divertir-se como nunca.

– P… pare de tentar um pobre trabalhador – falei.

– Que diabo! – exclamou Wales. – Todo mundo tem direito a férias.

– V… vou pensar no c… caso – prometi.

Ele voltou para o seu assento, deixando o cheiro de uísque na cabina. Quanto a mim, conservei os olhos no horizonte, nitidamente delineado contra o azul brilhante do céu hibernai, tentando não ter inveja de um homem como Wales, sem jeito nenhum para esquiar, mas que podia deixar de trabalhar três semanas e gastar milhares de dólares para esquiar nos Alpes.

Depois de passar pelo escritório e confirmar que não havia serviço naquele fim de semana, dirigi-me à cidade no meu Volkswagen para o exame médico rotineiro que fazia duas vezes por ano. O Dr. Ryan era especialista em oftalmologia, mas fazia também clínica geral. Um velho agradável, de movimentos lentos, que há cinco anos me auscultava, tirando-me a pressão arterial e examinando-me os olhos e os reflexos. Exceto numa ocasião, em que eu adoecera de gripe, nunca me receitara sequer uma aspirina. "Em forma para o Grande Prêmio", dizia-me sempre, quando terminava de me examinar. Compartilhava do meu interesse por corridas de cavalos e, de vez em quando, telefonava para minha casa, quando descobria um animal muito pouco cotado e que, na sua opinião, era uma barbada.

O exame seguiu a rotina habitual, com o médico anuindo confortavelmente a cada teste. Foi só quando me examinou os olhos que sua expressão mudou. Li as letras bem, mas, quando ele utilizou os instrumentos para me ver os olhos, seu rosto tornou-se sério. A enfermeira entrou duas vezes no consultório para lhe dizer que havia pacientes esperando com hora marcada, mas ele mandou-a embora com um gesto brusco. Aplicou-me uma série de testes que eu não conhecia, fazendo-me olhar em frente, enquanto ele conservava as mãos no colo, e depois erguendo lentamente as mãos e pedindo-me para lhe dizer quando elas entrassem no meu campo de visão. Finalmente, pôs de lado os instrumentos, sentou-se pesadamente à sua escrivaninha, suspirou e passou a mão fatigadamente pelo rosto.

– Sr. Grimes – disse, por fim -, sinto ter de lhe dar más notícias.

As notícias que o velho Dr. Ryan me deu naquela manhã de sol, no seu consultório démodê, modificaram toda a minha vida.

– O nome científico da doença – continuou ele – é retinosquise. Trata-se de uma fissura das dez camadas da retina, dando origem a um quisto. Na maioria dos casos, não progride, mas é irreversível. Às vezes, podemos deter a doença operando com raio laser. Uma de suas manifestações é o bloqueio da visão periférica. No seu caso, da visão periférica para baixo. Para um piloto, que tem de estar alerta a todo um conjunto de mostradores à frente e em volta, bem como ao horizonte na direção do qual avança, é uma doença incapacitadora… Fora disso, para todos os outros fins, como ler, praticar esportes, etc, o senhor pode considerar-se normal.

– Normal – repeti. – Normal! O senhor sabe que a única coisa normal para mim, doutor, é voar. Foi sempre a única coisa que eu quis fazer, a única coisa para a qual me preparei…

– Vou mandar o relatório ainda hoje, Sr. Grimes – disse Ryan. – Com profundo pesar. Naturalmente, o senhor pode consultar outro médico. Outros médicos. Acho que não vão poder ajudá-lo, mas essa é apenas a minha opinião. No que me diz respeito, a partir deste momento o senhor não vai poder mais voar. Nunca mais. Sinto muito.

Lutei para reprimir o ódio que senti por aquele velho bem-posto, sentado entre os seus instrumentos, assinando atestados condenatórios com a sua letra complicada de médico. Sabia que não tinha razão, mas aquele não era o momento para pensar em razões. Saí do consultório sem apertar a mão de Ryan, dizendo "Maldição, maldição" em voz alta para mim mesmo, não ligando para as pessoas na sala de espera e na rua, que me olhavam intrigadas enquanto me dirigia para o bar mais próximo. Sabia que não podia voltar ao aeroporto e dizer o que teria de dizer sem antes me fortalecer. E muito bem.

O bar era decorado como um pub <emphasis><strong>[1]</strong></emphasis> inglês, todo em madeira escura e com canecas de latão nas paredes. Mandei vir um uísque. Um velho magro, de macacão caqui e boné de caçador vermelho, estava encostado ao balcão do bar, com um copo de cerveja à sua frente.

– Estão poluindo todo o lago – dizia ele, num sotaque de Vermont. – A fábrica de papel. Em cinco anos, vai ficar como o lago Erie. E continuam botando sal nas estradas, para esses idiotas de Nova York poderem correr a cento e vinte por hora até Stowe, Mad River e Sugarbush. Quando a neve derrete, o sal escorre para os lagos e os rios. Quando eu morrer, não vai haver nenhum peixe vivo em todo o Estado. E ninguém toma medidas contra isso. Ainda bem que não vou viver para ver.

Pedi outro uísque. O primeiro não me fez qualquer efeito. Nem o segundo. Paguei e entrei no carro. Pensar que o lago Champlain, onde nadara todos os verões e passara tantos dias felizes, velejando ou pescando, ia acabar pareceu-me mais triste do que tudo o que me havia acontecido.

Quando entrei no escritório vi, pela expressão no velho rosto de Cunningham, que o Dr. Ryan já se comunicara com ele. Cunningham era o presidente e único dono da pequena companhia de aviação, além de piloto veterano da Segunda Guerra, de modo que sabia como eu me sentia.

– V… vou-me embora, Freddy – falei. – Você sabe p… por quê.

– Sei – respondeu ele. – E sinto muito – acrescentou, brincando nervosamente com um lápis que havia sobre sua mesa. – Você sabe que sempre lhe podemos arrumar um trabalho aqui. Quem sabe no escritório… na manutenção… – A voz foi sumindo, e ele ficou olhando para o lápis.

– Obrigado – falei. – É muito gentil de sua parte, mas não adianta. – Se havia alguma coisa de que eu tinha a certeza era que não ia poder ficar ali, como um pássaro aleijado, vendo todos os meus amigos decolarem. E não queria acostumar-me com o olhar de piedade no rosto de Freddy Cunningham ou em qualquer outro rosto.

– De qualquer maneira, Doug, pense bem – disse Cunningham.

– N… não é preciso – retruquei.

– Quais são os seus planos?

– Em primeiro lugar – respondi -, ir embora daqui.

– Para onde?

– Para qualquer lugar.

– E depois?

– Depois, vou pensar no que fazer com o resto da minha vida – respondi, gaguejando duas vezes na palavra "vida".

Ele fez que sim com a cabeça, evitando olhar para mim, parecendo muito interessado no lápis.

– Que tal você anda de dinheiro?

– Tenho o bastante… por ora.

– Bem – disse -, se alguma vez… você sabe que pode contar sempre comigo, não?

– Não vou esquecer. – Olhei para o relógio. – Tenho um encontro.

– Droga – disse ele, em voz alta. Depois levantou-se e apertou-me a mão.

Não me despedi de mais ninguém.

Estacionei o carro, saí e fiquei à espera. Do grande edifício de tijolos vermelhos, com uma inscrição em latim na fachada e a bandeira americana flutuando, vinha uma espécie de zumbido. O zumbido do aprendizado, pensei, uma musiquinha que me trouxe à memória a infância.

Pat estaria na sua sala, falando aos alunos sobre as origens da Guerra Civil ou a sucessão dos reis da Inglaterra. Levava a história a sério.

"É a mais importante das matérias", dissera-me ela certa vez. "Tudo o que fazemos hoje em dia é o resultado do que os homens e as mulheres têm feito desde o início da história."

Lembrando-me disso, ri amargamente. Teria eu nascido gago ou ficado incapacitado para voar porque Meade repelira Lee em Gettysburg, ou porque Cromwell mandara decapitar Charles? Seria um bom tema para discussão, quando tivéssemos um momento livre.

Dentro do edifício, uma sineta tocou. O zumbido da cultura transformou-se no rugido da liberdade, e dali a minutos os alunos começaram a extravasar-se pelas portas, num mar de japonas coloridas e brilhantes gorros de lã.

Como de costume, Pat estava atrasada. Era a mais conscienciosa das professoras e sempre havia dois ou três alunos que lhe faziam perguntas depois que a sineta tocava, às quais ela respondia pacientemente. Quando por fim saiu, o gramado estava deserto, todas as crianças tinham desaparecido como se derretidas pelo pálido sol de Vermont.

Ela não me viu logo. Era míope, mas por vaidade só usava óculos quando estava trabalhando, lendo ou assistindo a um filme. Eu sempre mexera com Pat, dizendo que ela não seria nem capaz de ver um piano de cauda num salão de baile.

Fiquei encostado a uma árvore, sem me mexer ou dizer nada, vendo-a caminhar na minha direção carregando uma pasta com deveres contra o peito, como se fosse uma aluna. Usava saia e meias de lã vermelhas, botas de camurça marrons e um casaco curto de lã azul. Tinha uma maneira de andar concentrada, rápida, nada coquete. A cabecinha, com o cabelo escuro puxado para trás, ficava quase obscurecida pela gola alta do casaco.

Quando me viu, sorriu, um sorriso afetuoso. Ia ser ainda mais difícil do que eu temia. Não nos beijamos. Nunca se sabia quem poderia estar olhando da janela.

– Que pontualidade! – disse ela. – Minhas coisas estão no carro – falou, indicando o estacionamento. Tinha um velho Chevrolet. Boa parte do que ganhava ia para os refugiados de Biafra, os famintos da índia, presos políticos em várias partes do mundo. Acho que não tinha mais de três vestidos. – Parece que está ótimo para esquiar – continuou ela, dirigindo-se para o estacionamento. – Vai ser um fim de semana memorável.

Segurei-lhe o braço.

– U… um m… minuto, Pat – falei, procurando não reparar no ar impaciente que sempre lhe vinha ao rosto quando eu gaguejava. – T… tenho uma c… coisa para lhe dizer. N… não vou poder ir c… com você e… este fim de semana.

– Oh! – exclamou ela em voz desalentada. – Pensei que você tivesse folga.

– Et… tenho – disse. – Mas não vou esquiar. Vou viajar.

– No fim de semana?

– De vez – falei.

Ela me olhou como se, de repente, eu tivesse ficado desfocado.

– Eu tenho algo a ver com isso?

– N… nada.

– Nada! – repetiu ela, em voz áspera. – Pode me dizer para onde vai?

– Não – respondi. – Não sei p… para onde v… vou.

– Pode me dizer por que você vai viajar?

– Você vai saber 1… logo, logo.

– Se você está em apuros – disse ela, suavemente – e eu puder ajudar…

– E… estou em AP… uros – assenti. – Mas você não pode ajudar.

– Vai me escrever?

– Vou tentar.

Ela me beijou, sem ligar para quem pudesse estar olhando. Mas não chorou. E nem disse que me amava. As coisas podiam ter sido diferentes se me tivesse dito, mas não o fez.

– De qualquer maneira, tenho um bocado de coisas para corrigir no fim de semana – falou. – A neve vai durar. – Sorriu um pouco tremulamente. – Felicidades – desejou-me. – Aonde quer que você vá.

Fiquei vendo Pat caminhar para o velho Chevrolet. Depois, entrei no Volkswagen e parti.

Às seis da tarde, fechei pela última vez o pequeno apartamento mobiliado. Metera os esquis, as botas e o resto do equipamento, exceto um anoraque acolchoado, de que gostava, numa sacola de lona, para ser entregue ao irmão de Pat, que tinha mais ou menos o meu tamanho, e dissera à senhoria que podia ficar com todos os meus livros e demais pertences. Quase sem bagagem, dirigi-me para o sul, deixando a cidade onde, agora via, fora feliz durante mais de cinco anos.


  1. <a l:href="#_ftnref1">[1]</a> Taverna, botequim.