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Tomei um táxi para casa, após contar ao meu colega do dia o que se passara, ou quase tudo. Deixei, como de hábito, o envelope para o bookmaker meu amigo, com um bilhete dizendo-lhe para apostar cinco dólares em Ask Gloria, no segundo páreo das corridas de Hialeah. Enquanto fosse possível, convinha aparentar que aquele era um dia igual a todos os outros.
Mesmo no East Eighties, onde eu morava, não eram raros os assaltos a qualquer hora. O táxi era um luxo, mas aquele não era um dia para ser assaltado. Tinha tirado o tubo da prateleira, aproveitando que o meu colega estava ocupado no balcão. Não havia ninguém no hall quando eu saí e, mesmo que houvesse, que havia de extraordinário no fato de um homem sair com um tubo de papelão embrulhado em papel pardo?
Minha mente funcionava bem e eu não estava nem um pouco com sono. Geralmente, quando o tempo estava bom, caminhava as trinta e poucas quadras até meu apartamento, parando para tomar o café da manhã numa cafeteria da Second Avenue, antes de me deitar e dormir até as duas da tarde. Mas hoje eu sabia que não ia poder dormir, que não tinha necessidade de dormir.
Quando abri a porta do meu apartamento conjugado, as janelas deixando entrar a fria luz cinzenta do inverno, fui direto à geladeira da kitchenette, tirei uma garrafa de cerveja e abri-a, sem sequer despir o sobretudo. A seguir, bebendo de vez em quando um gole de cerveja, rasguei o papel que embrulhava o tubo de papelão. Com uma faca, consegui abrir um dos lados do tubo. Estava cheio, de cima a baixo, de notas de cem dólares.
Tirei as notas uma por uma, alisei-as e agrupei-as em pilhas de dez, sobre a mesa da cozinha. Quando terminei, havia cem pilhas. Cem mil dólares, que cobriam toda a mesa. Acabei com a cerveja. Não sentia nenhuma emoção, nem medo, euforia ou remorso. Olhei para o relógio de pulso. Vinte para as nove. Os bancos só abririam dali a vinte minutos.
Tirei uma maleta do armário e coloquei dentro o dinheiro.
Ninguém mais tinha a chave do apartamento, mas para que correr riscos? Mala na mão, desci e saí para a avenida. Na quadra seguinte havia uma papelaria e comprei uma caixa de elásticos e três grandes envelopes pardos, os maiores que havia na loja.
Depois, voltei ao apartamento, tranquei a porta, despi o sobretudo e o paletó e pus metodicamente um elástico em volta de cada pilha de notas, antes de enfiá-las num dos envelopes. Reservei mil dólares, que guardei na carteira, para uso imediato.
Fechei os envelopes, fazendo uma careta ante o gosto da cola na língua. Tirei depois outra garrafa de cerveja da geladeira, enchi um copo e fui bebendo calmamente, sentado à mesa, diante da pilha formada pelos grossos envelopes.
Alugara o apartamento mobiliado e só os livros eram meus. Mesmo assim, não eram muitos. Quando terminava de ler um livro, geralmente jogava-o fora. O aquecimento era deficiente, e, quando me sentava na única poltrona esgarçada para ler, costumava vestir o anoraque, que pendia de um gancho atrás da porta de entrada. Nessa manhã, embora fizesse o frio de sempre e embora eu estivesse em mangas de camisa, sentia-me perfeitamente bem.
Sabia que ia ter de me mudar. E largar o emprego. E sair da cidade. Não tinha ainda nenhum plano, mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém apareceria, à procura de cem mil dólares.
No banco, fizeram-me assinar duas vezes em cartões separados. Minha letra estava bastante firme. Os envelopes fechados, contendo o dinheiro, estavam em cima da mesa, diante do jovem subgerente que me atendia, com um rosto assexuado de seminarista. A conversa entre nós foi curta e estritamente comercial. Tinha-me barbeado e vestido adequadamente. Conservava ainda dois ternos decentes, relíquias dos velhos tempos, e tinha posto uma roupa sóbria, cinzenta, com uma camisa azul-clara e gravata azul-escura. Queria dar a impressão de que era um cidadão acomodado, talvez não rico, mas modestamente próspero, um homem cauteloso, industrioso, que podia ter algumas ações e letras de câmbio demasiado valiosas para guardar em casa.
– Seu endereço, por favor? – pediu o subgerente.
Dei o endereço do St. Augustine. Se alguém chegasse a me procurar no banco, o que era pouco provável, não encontraria nenhuma pista do meu paradeiro.
– O senhor vai ser a única pessoa autorizada a ter acesso ao cofre?
"Claro, irmão!", pensei. Mas respondi apenas:
– Sim.
– São vinte e três dólares anuais. Prefere pagar em dinheiro ou em cheque?
– Em dinheiro. – Dei-lhe uma nota de cem dólares. A expressão dele não se alterou. Sem dúvida, achava que eu parecia o tipo de homem capaz de andar com uma nota de cem dólares no bolso. Tomei isso como um bom sinal. O subgerente alisou cuidadosamente a nota com um gesto litúrgico e pediu a um dos caixas para fazer o troco.
Permaneci sentado à mesa, acariciando um dos envelopes pardos com as pontas dos dedos. Não gaguejara uma só vez em toda a manhã.
O subgerente voltou, deu-me o troco e fez um recibo, que dobrei e guardei na minha carteira. Depois, segui o homem até a câmara subterrânea, onde ficavam as caixas-fortes. Havia no ar um silêncio higiênico quase religioso, que fazia com que a gente hesitasse em falar mais alto do que num sussurro. Vitrais de igreja não me pareceriam deslocados, ali. A parábola dos talentos. O encarregado dos cofres entregou-me uma chave e conduziu-me por um silencioso corredor de dinheiro.
Com os três grossos envelopes debaixo do braço, não pude deixar de imaginar como todos os tesouros dentro daquelas caixas fechadas, as notas de mil, as ações e obrigações, as jóias, teriam sido acumulados, quanto suor despendido, quantos crimes praticados, por que mãos todas aquelas pedras e todos aqueles papéis teriam passado antes de repousar naquele frio subterrâneo de aço santificado. Olhei para a cara do funcionário, que abria um cofre e puxava a caixa-forte para mim com as duas chaves, a dele e a minha. Era um homem velho e pálido de tanto viver debaixo do chão. Não parecia ter jamais pensado em nada. Talvez essas pessoas fossem escolhidas pela sua falta de curiosidade. Um homem curioso ficaria louco, ali. Acompanhei o homem até um cubículo fechado por uma cortina e com uma mesa dentro, e o funcionário deixou-me a sós com a minha caixa, respeitando a privacidade do dinheiro.
Rasguei os envelopes e acomodei as pilhas de notas na caixa, tentando, sem sucesso, prever o que elas fariam por mim. Era como se olhasse para uma enorme máquina, ora em repouso, mas capaz de desenvolver uma força súbita e brutal. Fechei a caixa com um cliquezinho decisivo. Joguei os envelopes numa cesta de papéis, voltei à fileira de cofres com o funcionário e vi-o enfiar a minha caixa no seu compartimento. Mais uma vez ele utilizou as duas chaves para fechar o cofre. Deixei cair minha chave no bolso do paletó e disse ao homem:
– Obrigado. E um bom dia – acrescentei, cortês como um policial.
– Ah! – retrucou ele. Não devia ter um bom-dia desde que fora criança.
Subi a escada e saí para a avenida ensolarada e fria. "Por hoje, chega", pensei. "Cremical Bank and Trust, confio a você meus bens terrenos."
Voltei para casa a pé e fiz as malas. Além da maleta em que havia levado o dinheiro, tinha uma mala de avião e tudo o que possuía cabia dentro delas, folgadamente. Deixei o velho anoraque pendurado no armário. Quem me sucedesse no apartamento ia precisar mais dele do que eu. Depois, escrevi um bilhete ao senhorio, dizendo que ia deixar o apartamento. Não tinha contrato, de modo que não haveria obstáculo. Dobrei o bilhete, meti-o num envelope junto com a chave e coloquei-o dentro da caixa de correio do senhorio. Carregando as duas malas, saí do edifício sem olhar para trás. Nunca mais teria de me preocupar em como me manter quente naquele apartamento.
Chamei um táxi e dei ao chofer o nome de um hotel no Central Park West, um bairro onde nunca morara e aonde poucas vezes fora. Mesmo com o meu trabalho noturno e os meus hábitos reclusos, no meu antigo bairro do East Side sempre podia haver gente capaz de me reconhecer, o meu bookmaker, o dono do bar da esquina, onde às vezes entrava para beber, a garçonete de um restaurante italiano próximo, outras pessoas que poderiam indicar-me a alguém que eventualmente viesse a perguntar a meu respeito. Sabia que teria de ir para bem mais longe, porém, nesse meio tempo, atravessar o Central Park seria o suficiente. Mas não queria fugir às cegas. Sabia que precisava de pelo menos um dia para pensar e fazer planos.
O hotel que escolhi era de classe média e comercial, não o tipo de lugar que um homem de posse de uma fortuna inesperada iria preferir.
Pedi um quarto de solteiro com banheiro, dei o nome de Theodore Brown, morador em Camden, Nova Jersey, cidade aonde nunca fora, e entrei no elevador com o rapaz das malas. Enquanto subia, estudei o rosto fino e fechado do homem. Era jovem, mas não havia sinal de inocência nos olhos sonsos, nos lábios apertados. Um rosto destinado pela natureza à corrupção. O que não faria com cem mil dólares um sujeito com uma cara daquelas!
Quando chegamos ao quarto, que dava para o parque, o rapaz colocou a mala grande numa cadeira e acendeu a luz do banheiro, ostensivamente reclamando uma gorjeta.
– Será que você pode fazer-me um favor? – perguntei, puxando de uma nota de cinco dólares.
– Depende do favor – disse ele, olhando para a nota. – A gerência não gosta de prostitutas entrando e saindo.
– Não é nada disso – retruquei. – Acontece que estou querendo apostar num cavalo e, como não conheço bem a cidade… – Estava começando vida nova, mas não conseguia desligar-me inteiramente dos velhos hábitos. Ask Gloria relinchava nas cavalariças do meu passado.
O rapaz mostrou os dentes no que ele imaginava ser um sorriso simpático.
– Temos um bookmaker no hotel – falou. – Dentro de quinze minutos ele estará aqui.
– Obrigado. – Dei-lhe a nota de cinco dólares.
– Muito grato – disse o rapaz, fazendo a nota desaparecer. – Poderia dizer-me em que cavalo o senhor vai apostar?
– Ask Gloria, no segundo páreo – respondi. – Em Hialeah.
– É um tremendo azarão – disse ele. Via-se que era um aficionado.
– Isso mesmo – concordei.
– Interessante! – comentou ele. Não havia dúvida do que faria com os meus cinco dólares. Apesar de desonesto, nunca deixaria de ser pobre.
Assim que ele saiu do quarto, desapertei a gravata e atirei-me em cima da cama, embora não estivesse cansado. Contra o cansaço matinal, pensei, rindo, experimente dinheiro. Ah, a influência dos comerciais da televisão na maneira de pensar do homem moderno!
O bookmaker não tardou a aparecer. Era um homem enorme de gordo, metido num terno amassado, com três esferográficas no bolso do paletó. Ofegava e falava numa voz fina, quase de soprano, tanto mais surpreendente por sair daquele corpanzil.
– Oi, amigo – falou, ao entrar no quarto, seus olhos percorrendo tudo. Um homem preparado para enfrentar ciladas. Embora agisse à luz do dia, seu mundo era o mesmo do policial da radiopatrulha. – Morris me disse que você está querendo fazer uma fezinha.
– Isso mesmo – confirmei. – Quero apostar em Ask Gloria… – Hesitei um momento. – Trezentos dólares no primeiro lugar do segundo páreo, em Hialeah. Segundo os catedráticos, ela é um azarão. – Sentia uma euforia estranha, como se estivesse num avião aberto, sem oxigênio, e de repente tivesse subido a sete mil metros.
O homem tirou do bolso uma folha de papel dobrada, desdobrou-a e percorreu-a com um dedo.
– Posso dar-lhe doze por um – falou.
– Ok – disse eu, passando-lhe as três notas de cem.
O bookmaker pegou as notas, examinou-as cuidadosamente e deitou-me um olhar em que percebi respeito, uma certa cautela delicada.
– Meu nome é… – comecei.
– Já sei o seu nome, Sr. Brown. Morris me disse – atalhou o homem, enquanto escrevia com uma das canetas na folha de papel. – O pagamento é às seis, no bar lá embaixo.
– Até as seis, então – disse eu.
– Esperemos – retrucou ele, sem sorrir. Colocou as notas que eu lhe dera num bolo de outras, que prendeu destramente com um elástico. Suas mãos eram pequenas, gordas e ágeis. – Morris sabe sempre onde me encontrar, Sr. Brown – acrescentou, já na porta.
Assim que ele saiu, abri as malas e comecei a arrumar minhas coisas. Quando estava tirando a escova de dentes e os apetrechos de barba, a gilete caiu no chão, atrás de uma cômoda. Ajoelhei-me para apanhá-la, apalpando com a mão debaixo da cômoda. Junto com a gilete e um montinho de poeira, veio também uma moeda. Um dólar de prata. Soprei a poeira da moeda e guardei-a no bolso. "Não capricham muito na limpeza, neste hotel", pensei. Ótimo! Eu estava mesmo com sorte.
Olhei para o relógio. Quase meio-dia. Peguei no telefone e dei à telefonista o número do St. Augustine. Como de costume, passaram-se quase trinta segundos antes que atendessem. Clara, a telefonista, considerava todas as chamadas como interrupções descabidas na sua vida particular, que consistia, pelo que eu tinha podido ver, em ler revistas sobre astrologia. Utilizava a demora em atender como maneira de protestar e punir os chatos que interrompiam sua procura do horóscopo perfeito, riqueza, fama e um desconhecido e simpático jovem.
– Alô! Clara? – falei. – O Sr. Drusack já chegou?
– Claro – respondeu a telefonista. – Esteve toda a manhã em cima de mim para eu ligar para o senhor. Qual é mesmo o seu número? Não consegui encontrá-lo. Liguei para o hotel que constava aqui como seu endereço e disseram que nunca tinham ouvido falar no senhor.
– Isso foi há dois anos. Mudei. – Na verdade, desde então eu havia mudado quatro vezes. Americano típico, procurara sempre novas fronteiras, cada vez mais ao norte. A riqueza do Yukon, via East Eighties, Harlem, Riverdale, a tundra gelada. – Não tenho telefone, Clara.
– Como é que é? O senhor está brincando?
– Não. Não tenho telefone.
– O senhor é que é feliz, Sr. Grimes!
– Também acho, Clara. Agora, passe o telefone para o Sr. Drusack, por favor.
– Meu Deus, Grimes – disse Drusack, tão logo se pôs ao telefone. – Em que rolo você me meteu! Acho melhor vir logo para cá e me ajudar a sair da confusão.
– Sinto muito, Sr. Drusack – respondi, procurando parecer mesmo sentido. – Estou terrivelmente ocupado. O que aconteceu?
– O que aconteceu? – gritou Drusack. – Vou dizer-lhe o que aconteceu. A Western Union ligou para aqui às dez horas. Não há nenhum John Ferris no endereço que você lhes deu, eis o que aconteceu.
– Foi o endereço que ele deu.
– Pois então venha dizer isso à polícia. Os tiras estiveram aqui uma hora inteirinha, esta manhã. E também dois caras vieram perguntar por ele, e, se não estavam armados, eu sou candidato a Miss América 1983. Falaram comigo como se eu estivesse escondendo o diabo do velho. Perguntaram se o sujeito tinha deixado algum recado para eles. Ele deixou algum recado?
– Que eu saiba, não.
– Bem, eles estão querendo falar com você.
– Por quê? – perguntei, embora soubesse muito bem.
– Eu lhes disse que o recepcionista da noite é que tinha encontrado o corpo. Falei que você entraria de serviço às onze da noite, mas eles disseram que não podiam esperar tanto tempo e me perguntaram qual era o seu endereço. Grimes, sabe que ninguém, neste hotel, tem idéia de onde você mora? Naturalmente, os dois sujeitos não acreditaram nisso. Disseram que iam voltar às três da tarde e que era melhor você estar aqui. Ameaçadores. Não do tipo bandidos comuns. Cabelos curtos, vestidos como corretores da Bolsa. Falando baixo. Pareciam espiões de cinema. Mas não estavam brincando. De jeito nenhum. Por isso, esteja aqui às três horas… porque eu vou demorar muito no almoço.
– Era sobre isso que eu queria falar, Sr. Drusack – disse eu calmamente, sentindo prazer em falar com o gerente pela primeira vez desde que começara a trabalhar para ele. – Telefonei para me despedir.
– O que você quer dizer com isso? – berrou Drusack. – Para se despedir? Quem se despede assim, sem mais nem menos?
– Eu, Sr. Drusack. Decidi, ontem à noite, que não gosto da maneira como o senhor dirige o hotel. Estou me despedindo… aliás, já me despedi.
– Como! Ninguém se despede assim! Pelo amor de Deus, estamos na terça-feira. Você tem coisas aqui. Meia garrafa de uísque, a sua Bíblia…
– Pode ficar para a biblioteca do hotel – atalhei.
– Grimes! – rugiu Drusack. – Você não pode me fazer isso! Vou mandar a polícia procurá-lo. Vou…
Desliguei suavemente o telefone e depois saí para almoçar. Escolhi um bom restaurante de frutos do mar, perto do Lincoln Center, e mandei vir uma grande lagosta grelhada, que me custou oito dólares, com duas garrafas de cerveja Heineken.
Sentado no restaurante aquecido, saboreando o ótimo almoço e a cerveja importada, percebi que, pela primeira vez desde que a prostituta descera correndo do sexto andar do hotel, eu tinha tempo para pensar no que ia fazer. Até então, tudo se passara mais ou menos mecanicamente, as ações decorrendo sem hesitar, uma após outra, meus movimentos ordenados e precisos, como se eu estivesse seguindo um programa aprendido e assimilado havia muito. Agora, era chegada a hora de tomar decisões, de considerar possibilidades, de examinar o horizonte à cata de prováveis perigos. Ao mesmo tempo em que pensava nisso, vi que algo no meu subconsciente me fizera escolher uma mesa onde podia sentar-me de costas para a parede, com uma visão clara da porta do restaurante e das pessoas que entravam. Aquilo me divertiu. Com alguma chance, todo homem se transforma no herói de sua própria história policial.
Divertido ou não, chegara o momento de fazer um balanço, de pensar na minha situação. Não podia continuar a depender de simples reflexos ou de algo, no meu passado, que me ajudasse a orientar o futuro. Sempre obedecera inteiramente às leis. Nunca fizera nada que me granjeasse inimigos… pelo menos, nunca inimigos como os dois homens que tinham ameaçado Drusack naquela manhã.., Naturalmente, pensei, dois sujeitos que vão a um hotel onde esperam receber cem mil dólares em dinheiro de alguém registrado ali, muito provavelmente sob um nome falso e certamente sob um endereço fictício, podem muito bem ir armados ou, pelo menos, parecer homens habituados a andar armados. Drusack poderia ter ficado um pouco histérico, mas não era idiota e estava há bastante tempo na indústria hoteleira para farejar problemas de longe. Ele não podia era ter idéia do perigo que os dois homens representavam e, provavelmente, nunca teria.
Uma coisa era certa, ou quase: a polícia não seria chamada, embora o caso pudesse interessar a um ou dois policiais corruptos. Com isso eu não teria que me preocupar. Não havia possibilidade de que o homem que dera o nome de John Ferris e os dois que tinham vindo ter com ele no hotel estivessem envolvidos numa transação legal. Devia ser um caso de suborno ou chantagem. Os escândalos da segunda administração Nixon estavam começando a vir à tona, e todos estávamos descobrindo que gente perfeitamente respeitável, pilares da comunidade, tinham criado o hábito de carregar enormes somas de dinheiro em pastas 007 e guardar centenas de milhares de dólares em gavetas de escritório. Por isso, não me ocorreu, como poderia ter acontecido mais tarde, que tudo aquilo fizesse parte de uma técnica política relativamente amadora e não perigosa. Tinha certeza de que me envolvera com profissionais empedernidos, gente que matava por dinheiro. "Como espiões de cinema", dissera Drusack. Eu duvidava. Tinha visto o corpo.
"Gângsteres", pensei. A Máfia. Apesar de, como todo mundo, ter lido e visto artigos e filmes sobre o bas-fond, tinha apenas uma vaga idéia do que era a Máfia e talvez um respeito exagerado pela sua onipotência, pelo seu poder de descobrir e destruir, pelos extremos a que poderia chegar para obter vingança.
De uma coisa eu estava certo. Agora, estava do lado deles, fossem eles quem fossem, e tinha que obedecer às suas regras. Em apenas um momento de uma fria noite de inverno, tinha-me transformado num fora-da-lei que só podia contar comigo mesmo para minha segurança.
A regra número 1 era simples. Não podia ficar parado. Teria de estar sempre em movimento, de sumir. Nova York era uma grande cidade, onde sem dúvida milhares de pessoas vinham se escondendo havia anos, mas os homens que àquela hora provavelmente estariam atrás de mim decerto já saberiam o meu nome, a minha idade, a minha aparência, e poderiam, sem muito trabalho e com um mínimo de esperteza, descobrir em que universidade eu estudei, onde trabalhei antes, quais as ligações da minha família. "Felizmente", pensei, "não sou casado, não tenho filhos, nenhum de meus irmãos nem a minha irmã tem a menor idéia de onde estou.''' Apesar disso, em Nova York sempre havia a chance de deparar com alguém conhecido, que pudesse dizer o que não devia para o homem errado.
Nessa mesma manhã, tinha havido o rapaz do hotel. Eu cometera o meu primeiro erro com ele. Tinha certeza de que se lembraria de mim. E, pelo seu aspecto, era muito capaz de vender a irmã por uma nota de vinte dólares. E o bookmaker do hotel. Erro número 2. Podia muito bem imaginar que espécie de conexões ele tinha.
Não sabia o que faria com o dinheiro guardado no subterrâneo do banco, mas pretendia gozá-lo. E não iria gozá-lo em Nova York. Sempre tinha querido viajar, e agora viajar seria não só um prazer, mas uma necessidade.
Acendi um charuto, reclinei-me na cadeira e pensei em todos os lugares que iria querer ver. Europa. As palavras "Londres", "Paris", "Roma" ecoaram agradavelmente no meu pensamento.
Mas, antes que pudesse atravessar o oceano, tinha coisas a fazer, pessoas que ver. Primeiro, teria de arranjar um passaporte. Nunca precisara de passaporte, mas agora ia precisar. Sabia que podia tirá-lo no Departamento de Estado, em Nova York, mas quem estivesse atrás de mim poderia deduzir que esse era o primeiro lugar aonde eu iria e poderia estar lá à minha espera. As chances não eram muitas, mas eu não queria arriscar uma que fosse.
"Amanhã", decidi, "vou a Washington. De ônibus."
Olhei para o relógio de pulso. Quase três horas. Os dois homens que tinham ameaçado Drusack pela manhã deveriam estar se dirigindo para o St. Augustine, ansiosos por fazer perguntas e prontos a obter de qualquer maneira as respostas. Sacudi as cinzas da ponta do meu charuto e sorri. "Este é o melhor dia que eu tenho há anos", pensei.
Paguei a conta e saí do restaurante, encontrei um pequeno estúdio de fotógrafo e posei para fotos de passaporte. O fotógrafo disse-me que elas estariam prontas às cinco e meia e aproveitei o tempo para ver um filme francês. Convinha ir-me desde já acostumando a ouvir a língua, pensei, confortavelmente instalado na minha poltrona, admirando as paisagens à beira do Sena.
Quando voltei ao hotel com as fotos no bolso (parecia um garoto), eram quase seis horas. Lembrei-me do bookmaker e fui até o bar procurá-lo. Estava sentado a uma mesa de canto, sozinho, bebendo um copo de leite.
– Como é que foi? – perguntei.
– Você está brincando? – retrucou o homem.
– Não. Por quê?
– Você ganhou – disse o bookmaker. O dólar de prata fora um bom augúrio. Minha dívida com o homem do St. Augustine ficava reduzida de sessenta dólares. Tudo numa tarde de sorte. O bookmaker não parecia satisfeito. – Você ganhou. Da próxima vez, diga-me de onde tira os palpites. E esse desgraçado do Morris. Por que lhe deu a dica? Não gostei.
– Simpatizo com os trabalhadores – falei.
– Trabalhadores! – resmungou o bookmaker. – Posso dar-lhe um conselho, amigo? Não deixe sua carteira onde ele a possa encontrar. Nem mesmo a dentadura. – Tirou uma porção de envelopes do bolso, passou-os em revista, deu-me um, guardou o resto outra vez. – Três mil e seiscentos dólares – falou. – Conte.
Embolsei o envelope.
– Não é preciso – retruquei. – Você tem um ar honesto.
– Sim. – O bookmaker bebeu um gole de leite.
– Posso oferecer-lhe uma bebida?
– Só bebo leite – respondeu o homem, arrotando.
– Acho que você escolheu o ofício errado, para um homem que sofre do estômago – comentei.
– Também acho. Quer apostar no jogo de hóquei desta noite?
– Acho que não – disse eu. – No fundo, não sou jogador. Até a vista, amigo.
O homem não respondeu.
Aproximei-me do bar, tomei um uísque com soda e saí para o hall. Morris, o rapaz das malas, estava de pé junto ao balcão.
– Ouvi dizer que o senhor ganhou uma bolada – disse ele.
– Nem tanto – respondi. – Mas até que o dia valeu a pena. Você seguiu a minha dica?
– Não – disse o rapaz. Via-se que era um homem que mentia pelo simples prazer de mentir. – Estive ocupado o dia todo.
– Que pena! – comentei. – Mais sorte da próxima vez!
Jantei um bife no restaurante do hotel, fumei outro charuto, tomei um conhaque depois do café, subi para o quarto, despi-me e deitei-me. Dormi sem sonhar doze horas a fio e acordei com o sol entrando-me pelo quarto. Não dormia tão bem desde que era garoto.