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— Por quê? — exclamei. — O que pode haver de tão maravilhoso no assassínio em massa que durante dez mil anos ninguém na história do mundo descobriu alguma solução melhor para os problemas do que matar todos que discordam? Será esse o limite da inteligência humana, ainda somos homens de Neanderthal? Og tem medo, Og mata! Será… Não consigo acreditar que todo mundo tenha sido sempre tão… estúpido! Que ninguém jamais…

A frustração impede o fim das frases. Olhei para Leslie, para as lágrimas em seu rosto. A mesma causa que me levara a uma fúria sem fim, nela provocara uma tristeza infinita.

— Tatiana… — disse ela, abalada como se tivéssemos esperado as bombas. — Ivan… Que pessoas… Ah, meu Deus! — Rompeu em soluços.

Peguei os controles e segurei a mão dela. Como gostaria que Pye estivesse ali! O que ela diria para mitigar nossa cólera e nossas lágrimas?

Maldição, pensei, precisamos morrer assim como idiotas?

Apesar de toda a beleza que podemos alcançar, de toda a grandeza que tantos já atingiram, será crível que a morte sobre venha quando um imbecil qualquer aperta um botão e acaba com a luz? Não haverá alguém naquele desenho lá embaixo que já tenha imaginado alguma coisa…

Ouvi ou imaginei?

Vire à esquerda. Siga em frente até o desenho se tornar âmbar.

Não saberia dizer se Leslie ouvira as palavras ou não, mas ela não perguntou por que tínhamos feito a curva ou para onde íamos.

Tinha os olhos fechados, e ainda assim as lágrimas rolavam-lhe pelo rosto.

Apertei a mão de Leslie, despertando-a do desespero.

— Vamos, meu amor — falei. — Acho que vamos ver como é um mundo sem guerras.

Verifiquei as rodas, puxei o manete para trás. A quilha tocou a água, o mundo transformou-se em borrifos e…

Estávamos de cabeça para baixo, provavelmente a seis mil pés de altitude, o avião com o nariz apontado para baixo.

Por uma fração de segundo passou por minha mente a idéia de que nosso hidravião se descontrolava, mas logo percebi que não era Growly que descia a pique. Estávamos num potentíssimo avião de caça.

A carlinga era pequena. Se Leslie e eu não fôssemos fantasmas, não caberíamos ali como estávamos, um ao lado do outro, atrás do piloto.

Bem à nossa frente, isto é, quinhentos pés abaixo, outro caça manobrava, tentando escapar desesperadamente. O que víamos pelo pára-brisa gelou-me o sangue: um círculo brilhante superposto às asas do outro aparelho, o ponto reluzente de nosso visor de mira bem em cima de sua carlinga.

Um mundo sem guerras? Depois do que havia acontecido em Moscou, estávamos prestes a ver alguém ir pelos ares!

Uma metade de mim encolheu-se, horrorizada, a outra a tudo assistia impassível. Isto não e um avião a jato, notou a segunda metade, também não é um Mustang, um Spitfire ou um Messerschmitt, isto não é nenhum avião que já tenha existido. O piloto de caça que eu fora também observava, aprovador. Boa técnica, pensei. O piloto buscara o alvo, aproximara-se dele, acompanhara o alvo como se estivesse colado nele, investira novamente.

Leslie estava rígida a meu lado, a respiração presa, com os olhos pregados no avião lá embaixo, enquanto a terra se aproximava velozmente. Passei o braço ao redor dela, apertei-a com força.

Se eu pudesse pegar o manche e desviar o avião, se pudesse puxar o manete para trás, teria feito isso. Havia barulho demais na carlinga para gritar alguma coisa a um piloto absorto no ataque.

Nas asas do avião enquadrado em nosso visor viam-se as estrelas vermelha e azul da República Popular da China. Ah, meu Deus, pensei, por acaso a insânia espalhou-se para todos os mundos existentes? Estamos em guerra com a China também?

O avião chinês assemelhava-se em tudo a um aparelho de acrobacias, pintado de azul-claro na parte de baixo, de verde e marrom na de cima. E apesar de todo o ruído e da ação, nosso indicador da velocidade do vento indicava apenas 550 quilômetros por hora. Se isto é uma guerra, pensei, onde estão os jatos? Em que ano estamos?

O alvo deu uma guinada, com tanta força que das pontas das asas saíram trilhas de vapor. Nosso piloto guinou também, não sendo apanhado de surpresa. Não sentimos a aceleração da gravidade que atuava sobre ele, mas víamos seu corpo esmagado pela compressão.

Sou eu, pensei. Sou um piloto outra vez. Malditas forças armadas! Quantas vezes terei de cometer o mesmo erro? Estou prestes a matar uma pessoa, e hei de me arrepender disso o resto de minha vida…

O alvo virou com força para a direita, e a seguir, desesperado, inverteu a curva. Caiu exatamente dentro do círculo brilhante de nosso visor de mira, e o eu-alternativo apertou o gatilho no manche.

Metralhadoras dispararam, fogos de artifício instalados nas asas, e imediatamente saiu um jato de fumaça branca da coberta do motor do avião que ia à frente. Nosso piloto falou duas palavras.

— Peguei! — disse. — Quase… — A voz era de Leslie! Não era um Richard alternativo que pilotava aquela máquina, era uma Leslie alternativa!

No visor, piscou uma mensagem: ALVO DANIFICADO.

— Droga! — exclamou a mulher. — Vamos, Linda… Em vez de afastar-se, ela acelerou e aproximou-se ainda mais do alvo que fora atingido, apertou o gatilho e disparou uma longa rajada. Sentimos o cheiro de pólvora na nacela.

Agora a fumaça branca transformou-se em negra, e o óleo do motor de sua vítima atingiu nosso pára-brisa.

ALVO DESTRUÍDO.

— Agora sim! Agora sim! — disse a pilota. Ouvimos o rádio, baixo.

— Líder Delta, guine para a direita! Agora! Agora/ Saia para a imitai A mulher não virou a cabeça para olhar, jogou o manche para a direita, mudou de direção como se sua vida dependesse daquilo. Tarde demais.

No mesmo instante nosso pára-brisa ficou negro, coberto de óleo quente de motor, e uma fumaça escura irrompeu da coberta do motor, que tossiu e parou. A hélice cessou de girar.

Soou uma campainha na nacela, como o sinal que encerra um assalto de boxe. ABATIDO, foi a mensagem que surgiu no visor de mira.

Imediatamente tudo serenou, e só se ouvia o silvo do vento do lado de fora, a fumaça que saía do depósito de óleo no motor.

Virei a cabeça para olhar atrás de nós, e o que vi foi um avião que se precipitava, rugindo, sobre nós, irmão gêmeo daquele que acabáramos de despachar. Seu piloto ria e acenava, feliz.

Nossa pilota levantou o visor do capacete e acenou de volta.

— Ora, dane-se, Xiao — resmungou. — Você vai pagar por isso!

O outro passou por nós, numa mancha indistinta de cores berrantes. Depois o nariz de seu avião se levantou, descrevendo uma apertada curva ascendente, a fim de encontrar nosso ala, que investia contra ele, louco por vingança. Em meio minuto, as duas aeronaves, traçando semicírculos uma em volta da outra, tinham sumido de vista.

Não havia chamas em nossa carlinga, apenas um fio de fumaça que subia agora do depósito de óleo, e para uma pessoa que tinha acabado de perder uma batalha, nossa comandante estava mais que calma.

— Líder Delta! — veio pelo rádio. — Sua câmara está desligada!

Uma luz aqui avisa que você foi abatida. Diga-me que não é verdade!

— Desculpe, chefe — disse ela. — Às vezes se ganha, às vezes se perde. Foi Xiao Xien Ping, ele me pegou.

— Desculpe, desculpe. Conte isso a seus fãs. Apostei dez dólares em que Linda Albright voltaria hoje com uma tríplice vitória, e agora eles bateram asas! Onde vai aterrissar?

— Xangai Três é o mais próximo. Posso ir para o Dois, se você quiser.

— Vá para o Três mesmo. Ligue para mim quando pousar, certo?

— Tudo bem. — A voz dela parecia infeliz. — Sinto muito, chefe. — A voz suavizou-se. — Não se pode ganhar todas.

O céu estava límpido, com apenas uns fiapos de cúmulos de verão, e tínhamos altitude mais que suficiente para planar até o aeroporto. Mesmo com o motor parado e com o vidro coberto de óleo, não seria difícil aterrissar.

— Xangai Três — chamou ela —, aqui é Líder Delta Estados Unidos. Peço permissão para pouso.

A torre de controle estivera à espera de sua chamada.

— Líder Delta Estados Unidos, tem permissão para pouso de emergência.

— Obrigada. — Ela suspirou, afundando no assento. Atrevi-me, então, a lhe falar: — Você se importa de me explicar o que está acontecendo?

Se eu fosse ela, teria tomado um susto suficiente para saltar do avião, mas Linda Albright respondeu com raiva, pouco se lixando para quem tinha falado.

— Perdi um dia para nós — respondeu, zangada, esmurrando o painel. — Todo mundo diz que sou a superestrela e coisa e tal, e acabo de perder dez pontos nas semifinais internacionais! Não me interessa o ala, não me interessa ninguém, eu nunca mais… Eu vou olhar olhar olhar olhar para trás de mim! — Linda soltou o ar dos pulmões, com força, e logo atentou para o que estava dizendo. Virou a cabeça depressa, para olhar atrás… para nós. — Quem são vocês?

Expliquei-lhe, e assim que ela acabou os procedimentos de aproximação, já havia aceito o que dizíamos, como se as pessoas de universos paralelos a visitassem com freqüência. Ela continuava com o pensamento voltado para os dez pontos.

— Isso é um esporte aqui? Vocês transformaram os combates aéreos num esporte! — indaguei.

— Dizem que sim — respondeu, carrancuda. — Aerojogo. Mas não é um jogo, é uma grande indústria! Assim que uma pessoa sai das ligas locais, ou quase isso, torna-se um profissional nas redes de televisão mundiais. Eu o derrubei nas simples do ano passado, derrubei Xiao Xien Ping em 26 minutos, mas droga! Acabei de deixar esse sujeito me pegar, só porque não prestei atenção, e virei jornal de ontem!

— Linda baixou a alavanca do trem de pouso com violência, como se isso alterasse o acontecido.

— O trem de pouso está puxado e preso — disse ela, furiosa.

A função do ala consiste em se manter na espreita em combate, mas seu ala a avisara tarde demais. O caça chinês surgira de repente, vindo em direção do sol, e a pegara numa única passagem.

Fizemos a aproximação final em direção à larga pista branca. As rodas roçaram de leve o concreto, paramos junto a uma linha vermelha perto do fim da pista, acompanhados por câmaras de televisão.

O que havia à nossa volta era menos um aeroporto que um enorme estádio, com imensas arquibancadas de ambos os lados de pistas duplas, Deviam estar ali cerca de duzentas mil pessoas, e dez telões gigantescos mostravam a mesma imagem.

Perto da linha vermelha estavam dois outros caças americanos e o avião chinês que Linda abatera. Tal como o nosso, cada aparelho estava todo coberto de óleo negro, da coberta do motor até a empenagem. Equipes de mecânicos trabalhavam nos outros aviões, limpando-os, trocando os geradores de fumaça e óleo. Os outros, porém, não tinham fileiras de marcas de vitórias pintadas sob o nome do piloto, na carlinga.

Um repórter aproximou-se, apressado, acompanhado por três operadores de câmara.

— Odeio essa parte — disse a pilota. — Nesse exato minuto, no mundo inteiro, o canal da guerra está noticiando que Linda Albright levou a pior, derrubada por trás por algum novato qualquer. — Suspirou. — Ora, muito bem. Linda, agüente firme e sorria.

No momento seguinte o pequeno avião tinha sido focalizado em close-up, um mosquito sob microscópios. Nos enormes telões surgiu a imagem de Linda no momento em que ela abria a cabine e tirava o capacete, sacudindo os cabelos ruivos. Estava aborrecida, insatisfeita consigo. Não aparecíamos na imagem.

— A Campeã Classe A americana Linda Albright! — anunciou o repórter ao microfone. Falava um inglês perfeito. — Vitoriosa na excelente batalha contra Chung Li Huan, vítima infeliz de Xiao Xien Ping, de Szechwan! Pode falar sobre suas batalhas de hoje, Srta.

Albright?

Do outro lado da linha vermelha acotovelava-se uma multidão de torcedores do aerojogo, a maioria deles com chapéus e jaquetas que traziam insígnias de esquadrões de caça, na maior parte chineses.

Degustavam o momento, olhando para os telões e saboreando a oportunidade de ver ali Linda Albright em carne e osso. Como era bom vê-la, aquela celebridade! Sob sua imagem nos telões surgiu o nome LINDA ALBRIGHT, uma fileira de notas, em geral 9,8 e 9,9, mais uma fileira de caracteres chineses. A multidão silenciou.

— O honorável Xiao conta-se entre os mais valentes jogadores que ornamentam os céus do mundo — disse ela, enquanto suas palavras eram traduzidas através de alto-falantes. — Estendo minha mão em respeito à coragem e à perícia desse grande piloto! Os Estados Unidos da América se sentirão muito honrados se uma pessoa humilde como eu conquistar o direito de defrontar-se com ele novamente nos céus de nosso belo país.

Ser uma estrela do aerojogo exigia mais que saber o momento exato de apertar o gatilho. A multidão delirou.

O entrevistador levou a mão ao fone no ouvido, fez um sinal com a cabeça.

— Muito obrigado, Srta. Albright. Estamos gratos por sua visita ao Estádio Três, esperamos que se divirta durante sua visita à nossa cidade e desejamos-lhe boa sorte na continuação desses jogos internacionais! — Virou-se para a câmara. — Passamos agora para Zuan Kai Lee, que se acha num avião na zona quatro, onde se desenrola neste momento uma importante batalha…

Os telões focalizaram uma vista aérea, três caças chineses que procuravam interceptar oito americanos. Ou os três tinham autoconfiança infinita ou estavam desesperados em busca de pontos e glória, mas assistir àquela demonstração de coragem era uma coisa magnetizadora. Todos os olhos se voltaram para a ação no momento em que ela teve início, e o estádio calou-se.

A batalha era transmitida de câmaras instaladas em cada um dos 11 caças, e ainda por aviões da rede de televisão. O diretor de televisão dispunha de uma dúzia de imagens, à sua escolha. E mais outras viriam.

Da pista subiram num ronco ensurdecedor duas esquadrilhas de quatro caças chineses, apressando-se para participar da batalha, modificar a perspectiva de derrota antes que o embate da zona quatro se tornasse apenas parte da história desportiva.

Linda Albright desafivelou as correias do ombro e desceu do avião, muito garbosa num traje de seda cor de fogo, justo como uma malha de bailarina. Vestia uma jaqueta de cetim azul com estrelas brancas, com um lenço listrado de vermelho e branco.

Esperamos enquanto um jornalista gravava com ela uma entrevista de dez minutos. Seu treinamento decerto compreendera aulas de tato e cortesia, tanto quanto de acrobacias e manejo de armas.

Para cada pergunta, tinha uma resposta inesperada, ao mesmo tempo modesta e segura. Quando chegou ao fim da entrevista, uma verdadeira multidão pressionava-a com outras perguntas, estendia-lhe programas do torneio em chinês, no qual aparecia uma foto dela em página inteira, pedindo autógrafos. Linda assinou o nome várias vezes antes de sair dali.

— Se é isso que acontece quando ela perde num país estrangeiro — comentou Leslie —, como será quando vence em sua própria terra?

A polícia ajudou-a a abrir caminho até uma limusine, e meia hora depois estávamos a sós e em tranqüilidade. O estádio-aeroporto aparecia emoldurado numa das janelas da suíte de cobertura do hotel, a cidade e o rio em outra. Era uma cidade muito parecida com a imagem que fazíamos de Xangai, porém maior, mais alta e mais moderna. A televisão mostrava cenas das disputas do aerojogo daquele dia, e fazia comentários.

Linda Albright mexeu no console de controles, desligando a televisão, e caiu no sofá.

— Que dia!

— Como foi que aconteceu? — perguntou Leslie. — O que a fez…

— Quebrei minhas próprias regras — respondeu a Leslie alternativa. — Viaje sempre atrás! Xiao é um magnífico piloto, poderíamos ter tido uma batalha maravilhosa, mas…

— Não — disse minha mulher. — O que eu queria saber era outra coisa. Como foi que os jogos começaram? E por quê? O que significam?

— Vocês são de outra época, certo? — disse a pilota. — Alguma utopia onde não há competição, não c? Um mundo sem guerra? Muito monótono!

— Não somos de um mundo sem guerras — respondi —, e ele não é monótono, é estúpido. Morreram milhares de pessoas, milhões.

A política nos assusta, as religiões causam guerras…

Ela afofou uma almofada atrás da cabeça.

— Milhares de nós morremos, também — disse, chateada. — Quantas vezes pensa que já fui morta em minha carreira? Não muitas depois que me profissionalizei (bato na madeira!), mas dias como o de hoje de vez em quando acontecem. Em 1980, toda a equipe americana aérea foi abatida… a equipe inteira, durante três dias seguidos! Sem cobertura aérea durante três dias, podem imaginar o que aconteceu na parte terrestre e naval! Os poloneses e os romenos… Bem… — Linda levantou as mãos, balançando a cabeça. — Não havia como detê-los, varreram-nos da competição internacional. Três divisões. Isso significa trezentos mil competidores! Riscaram do mapa toda a equipe americana. Zero!

Referir-se ao episódio pareceu minorar sua fúria com o que tinha acontecido naquele dia.

— Não que estivéssemos sozinhos na derrota — continuou. — Os poloneses aniquilaram a União Soviética, acabaram com o Japão e Israel. Quando, por fim, derrotaram o Canadá e ganharam o troféu de ouro, podem imaginar o que houve. Os poloneses enlouqueceram, o país inteiro entrou em delírio. Chegaram a comprar um canal próprio só para comemorar! — Narrando tudo isso, ela parecia orgulhosa, por algum motivo.

— Você não compreende — disse Leslie. — Nossas guerras não são jogos. Não matamos os competidores apenas no papel. Em nossas guerras, as pessoas morrem de verdade!

O ânimo dela abateu-se.

— Nas nossas também isso acontece, de vez em quando. No aerojogo ocorrem colisões aéreas. Ainda no ano passado, os ingleses perderam um navio nos jogos navais, durante uma tempestade. O navio e toda a tripulação. E os jogos terrestres são os piores, pois utilizam máquinas velozes em terreno difícil. Se quer minha opinião, quando estão sendo televisados demonstram mais coragem do que bom senso. Mas sempre haverá acidentes mesmo.

— Não entende o que Leslie disse? — perguntei. — Não estamos falando de jogos. Na vida real, as coisas se tomam mortalmente sérias para nós.

— Ora, para nós também são sérias na vida real — insistiu ela.

— Temos agora o caso da estação marciana com os soviéticos, no próximo ano haverá a missão de Alfa do Centauro, praticamente todos os cientistas do mundo estão envolvidos com ela. Enquanto houver nações, enquanto todos estiverem tentando realizar alguma coisa, a vida será perigosa e mortalmente séria! Mas, afinal de contas, uma atividade na qual estão envolvidos muitos trilhões de dólares não vai parar por causa de alguns acidentes.

— Não há mesmo jeito de fazer você entender, não é? — retrucou Leslie. — Não nos referimos a acidentes, nem a jogos ou competições. Estamos falando de assassinatos deliberados, premeditados, por atacado.

Linda sentou-se e olhou para nós, estupefata.

— Meu Deus! — exclamou, de repente. — Você se refere à guerra! — A idéia era tão absurda que ela nem pensara na possibilidade.

De um instante para outro, mostrou-se compadecida, preocupada.

— Ah, desculpem. Nunca imaginei… Nós também tivemos guerras, faz muito tempo. Guerras mundiais, até entendermos que a seguinte significaria o fim de todos nós.

— O que vocês fizeram? Como pararam?

— Não paramos. Nós mudamos. — Linda sorriu, lembrando-se.

— Foram os japoneses que começaram tudo, vendendo carros. Há trinta anos, a Matsumota começou a participar de corridas aéreas nos Estados Unidos… Num golpe de publicidade, instalaram o motor dos carros Sundai num avião de corridas. Colocaram microcâmaras nas asas do avião, para as corridas aéreas nacionais, fizeram algumas excelentes tomadas e as transformaram nos primeiros anúncios do Sundai Drive. Ninguém tomou conhecimento de que eles terminaram em quarto lugar, e as vendas do Sundai dispararam.

— Isso transformou o mundo?

— Aos poucos, sim. Logo depois disso, Gordon Bremer, o promotor de espetáculos aéreos, teve a idéia de instalar microcâmaras de televisão e canhões computadorizados em aviões, redigiu as regras e ofereceu grandes prêmios a pilotos de combate. A coisa virou um programa local durante cerca de um mês, mas de repente o combate aéreo virou um esporte de grande audiência, uma coisa que nunca se viu. É um jogo de equipe, que reúne toda a estratégia do caratê, do xadrez, da esgrima e do futebol americano em três dimensões, muito veloz e barulhento, com toda a aparência de enorme perigo.

O que quer que atraíra Linda Albright para esse esporte ainda a fascinava. Não era de admirar que fosse uma campeã.

— Aquelas microcâmaras colocavam os torcedores bem dentro das carlingas, não havia nada igual! Era como se, toda semana, acontecesse o Kentucky Derby, as 500 milhas de Indíanápolis e o Superbowl num único espetáculo. Quando Bremer passou a transmitir o show em cadeia nacional, foi como se tivesse ateado fogo num rastilho. Em pouco tempo era o segundo esporte em audiência nos Estados Unidos, logo depois era o primeiro, e aí a coisa passou a ser televisada para o mundo inteiro. Um sucesso!

— Dinheiro — disse Leslie.

— Bote dinheiro nisso! Cidades compravam licenças para inscrever equipes de combate aéreo, depois surgiram equipes nacionais.

E não demorou muito para começarem as competições internacionais, uma espécie de olimpíada aérea, e foi quando as coisas realmente mudaram. Dois bilhões de televisores ligados durante sete dias, enquanto todos os países que dispunham de aviões combatiam feito loucos. Alguns países pagaram suas dívidas externas com a receita daquela primeira competição.

Ouvíamos fascinados.

— Não podem imaginar com que rapidez isso aconteceu. Cada cidade onde houvesse um aeroporto organizou sua equipe amadora, e daí a alguns anos garotos de favelas eram ídolos esportivos. Se você se considerasse rápido, vivo e corajoso, se estivesse interessado em ser uma estrela da televisão, ganhava mais dinheiro do que um presidente consegue imaginar.

“Enquanto isso”, prosseguiu Linda, “a Força Aérea estava perdendo seus melhores elementos. Assim que completavam seu tempo de serviço, os pilotos largavam a Força Aérea e aderiam ao jogo.

Evidentemente, ninguém se alistava mais. Quem deseja ser um oficial mal remunerado, obrigado a obedecer a disciplina militar em alguma base aérea nos cafundós do mundo, cercado sobretudo por homens, acumulando horas em simuladores que representam mais tensão e exames do que vôos, treinando em aviões enormes e perigosos, e ainda mais com a certeza de que será um dos primeiros a morrer quando começar uma guerra? Poucos!

Claro, pensei. Se houvesse equipes de demonstração aérea quando eu era garoto, uma oportunidade de voar com emoção e glória em outros aparelhos que não fossem os militares, o jovem Richard não se teria alistado na Força Aérea.

— Mas, se corre nisso tanto dinheiro assim, por que vocês estão utilizando aviões a pistão? — perguntei. — Estão voando aviões de, vamos ver, uns 600HP. Por que não usam jatos? Se a Força Aérea quisesse capitalizar…

— Os aviões têm 900HP — informou a pilota. — Os jatos são muito enfadonhos. A velocidade de ataque chegava a duas vezes a do som. Uma batalha curta durava meio segundo, uma longa podia chegar a 30 segundos, e durante a maior parte do tempo não se avistavam os aviões. Para quem estava vendo pela televisão, bastava piscar um olho que perdia o momento principal. Depois de se acostumarem com a novidade, os espectadores rejeitaram os jatos. Não é fácil torcer por um técnico universitário que voa um computador supersônico dotado de asas.

— Entendo o que era capaz de atrair pilotos, levando-os a sair da Força Aérea — disse Leslie. — Mas no caso do Exército e da Marinha, seria diferente.

— Não por muito tempo. O Exército dispunha de tantos tanques e soldados na Europa que eles pensaram: por que não instalar algumas câmaras neles e tirar proveito de toda essa agitação? E, evidentemente, as Marinhas não iam ficar de fora. Entraram na dança com toda vontade: duas semanas de jogos navais naquele primeiro ano.

Deram àquilo o nome de Jogos Terceira Guerra Mundial, mas a participação militar era pesada e um pouco enfadonha. Na televisão não se ganha com réplicas incapazes de pensar por si ou com máquinas que não funcionam, ganha-se atingindo alvos. A novidade envelheceu depressa.

“Foi então que a indústria privada criou equipes civis para os jogos terrestres e navais, mais leves, mais rápidas e mais hábeis. Os militares acabaram alijados dos jogos. Não conseguiam manter nas fileiras soldados, condutores de tanques e comandantes de navios, quando o dinheiro e a fama estavam nas equipes civis de combate.

Notei quatro luzes que piscavam no telefone de Linda. Ela não lhes deu atenção.

— Em breve não restava mais ninguém para lutar. Ninguém se interessava por luta, quando havia tanto o que planejar e tanta necessidade de treinamento para os jogos. Era inútil planejar uma guerra que talvez só acontecesse num futuro remoto, quando havia vantagens imediatas em combater agora e, além-mar, ganhar bastante dinheiro!

— Mas as forças armadas não deixaram de existir — falei. — Como foi que…

— Por fim, acabaram, sim. Foram obrigadas. Os governos continuaram a destinar verbas para seus exércitos, por questão de hábito, durante alguns anos, mas a rebelião tributária pôs fim a isso. As pesadas e enferrujadas máquinas militares, assim como seus modos convencionais, transformaram-se numa grande piada.

— E assim as forças armadas acabaram — comentei. — Graças a Deus!

— Não! — replicou ela. — As pessoas as recuperaram.

— As pessoas o quê? — admirou-se Leslie.

— Nós adoramos as forças armadas! — exclamou Linda. — Todo ano, preencho a área destinada a elas em meu formulário de imposto de renda, e lhes destino uma fortuna, a maior parte do imposto que pago. Porque elas mudaram! Primeiro, começaram a ficar mais leves, livraram-se de tanta burocracia e pararam de gastar tanto dinheiro em porcarias. Compreenderam que a única possibilidade de conseguirem recursos era fazer alguma coisa que os jogos não podiam fazer. Um trabalho perigoso e emocionante, um trabalho que exigisse os recursos de toda a nação: colônias no espaço! Dez anos depois a estação marciana estava em operação, e agora estamos atacando o trabalho na colônia de Alfa do Centauro!

Isso poderia dar certo, pensei. Nunca passara pela minha cabeça que pudesse haver outra alternativa para a guerra senão a paz total.

Estava enganado.

— Isso poderia dar certo! — falei a Leslie.

— Dá certo — respondeu ela. — Está dando aqui.

— E há outra coisa — disse Linda. — O que os jogos representaram para a economia! Havia uma demanda gigantesca de qualidade nos jogos. Mecânicos, técnicos, pilotos, estrategistas, planejadores, grupos de apoio… O dinheiro envolvido é inacreditável, um jogador pode ganhar milhões para sua equipe, um campeão é capaz de ganhar dezenas de milhões. Quando se chega a ser um supercampeão. Bem. juntando os ganhos básicos e os prêmios por vitória, ganhamos mais dinheiro do que conseguimos gastar. Há perigo suficiente para nos conservar felizes, às vezes um pouco mais que o suficiente. Principalmente na rodada de abertura, ninguém quer ficar para trás, são 48 combatentes se engalfinhando na tela…

A campainha da porta tocou, com som melodioso.

— Há cobertura de imprensa suficiente para os mais vaidosos do mundo, como eu — disse Linda, indo atender. — E, naturalmente, ninguém precisa adivinhar quem poderá vencer a próxima guerra, tudo que fazemos é esperar o dia 21 de junho e vê-la pela televisão. Muitas pessoas apostam nos favoritos, é claro. Às vezes a gente tem a impressão de que se transformou num cavalo de corrida… — Linda abriu a porta.

O homem estava escondido atrás de uma cascata de flores de primavera.

— Coitadinha — ouvimos sua voz. — Não precisamos de um pouco de carinho esta noite?

— Krys! — Linda enlaçou-o com força, e o portal emoldurou dois vultos em reluzentes trajes de vôo, borboletas pousadas em flores.

Olhei para Leslie, perguntando em silêncio se não seria a hora de nos despedirmos. A Leslie alternativa ficaria embaraçada em continuar uma conversa com pessoas que seu amigo não conseguia ver.

Mas quando voltei os olhos para a porta, entendi que esse problema não existiria. O homem era eu.

— Meu querido, o que está fazendo em… — disse Linda. — Você devia estar em Taipé, estava cumprindo o terceiro período em Taipé!

O homem deu de ombros e olhou para suas botas de vôo, esfregando-as no tapete. Não nos notara.

— Mas foi um combate espetacular, Lindie! — comentou. Ela ficou pasma.

— Você foi abatido?

— Só danificado. O líder do esquadrão dos Estados Unidos é um piloto incrível. — Fez uma pausa, caiu na gargalhada. — Mas não o suficiente. Ele se esquece de que fumaça branca não é fumaça preta.

Em último recurso, solto as rodas, baixo os flaps, uso velocidade total, faço um tonneau rápido ao completar a curva, e pronto, ali está ele bem em meu visor. Pimba! Foi por sorte, mas o diretor disse que ficou ótimo na tela. Um combate de 21 minutos! A essa altura, Taipé está fora do meu raio, por isso chamo o Xangai Três. Só ao pousar é que vi seu avião estacionado, preto como uma ovelha negra! Assim que minha entrevista acabou, achei que minha mulher precisava de um pouco de ânimo… — Nesse instante, ele lançou os olhos em nossa direção, viu-nos e virou-se para Linda. — Ah! A imprensa. Desculpe. Quer que eu saía um pouco?

— Não são da imprensa — disse ela, observando suas reações.

Depois dirigiu-se a nós. — Richard e Leslie, este é meu marido, Krysztof Sobieski, o Campeão Polonês Número Um!

O homem era menos alto que eu, os cabelos mais escuros.

Usava uma jaqueta vermelha e branca, na qual estava gravado Pohzki Aereokgasz. Não fossem esses detalhes, era como se eu estivesse fitando meu próprio reflexo sobressaltado. Cumprimentamos o homem e explicamos quem éramos, da maneira mais simples possível.

— Entendo — disse ele, inquieto, mas nos aceitando porque Linda nos aceitara. — O lugar de vocês, de onde vieram, é parecido com o nosso?

— Não — respondi. — Temos a impressão de que vocês construíram seu mundo em torno de jogos. Como se seu planeta fosse uma feira, uma espécie de parque de diversões. Há de compreender que para nós ele parece um tanto extravagante.

— Você acabou de me dizer que todo o mundo de vocês está construído em torno da guerra, da guerra de verdade, o assassínio em massa, deliberado e premeditado, um planeta voltado para a autodestruição — atalhou Linda. — Bem, extravagância é isso¥ Krysztof apressou-se a explicar.

— Nosso mundo lhe parece um parque de diversões, mas por aqui há muito trabalho, prosperidade. Até mesmo a indústria de armamentos está auferindo altos lucros, mas os aviões, os navios e os tanques são produzidos com canhões de festim, lança-chamas e armas computadorizadas que só assinalam os “tiros” certeiros. Por que combater, por que nos matarmos por nada, se podemos ter as mesmas lutas só pela televisão e continuar vivos para gastar o que ganhamos?

Não faz sentido nos matarmos por causa de apenas uma batalha. Por acaso os atores se matam só para fazer um filme? Os jogos representam uma grande indústria. As apostas nos Jogos envolvem elevadas quantias. Algumas pessoas dizem que apostar dinheiro não d bom. Mas é melhor apostarmos, achamos, que… como dizer… nos desintegrarmos. — Krysztof conduziu a mulher ao sofá, e ficou segurando sua mão enquanto conversávamos. — E Linda não disse o alívio que é não odiar quem quer que seja! Hoje vi que minha mulher foi derrubada pelo piloto chinês. Por acaso sou tomado de fúria, odiando o homem que a abateu, odiando os chineses, odiando a vida?

A única coisa que eu detestaria é estar na pele desse homem da próxima vez que Linda o enfrentar no ar. Ela é a Campeã Americana Número Dois… — deteve-se ao vê-la franzir a testa, — Ela não lhes contou, não foi mesmo?

— Vou ser a última se não tomar cuidado com o que acontece à minha volta. Nunca me senti tão boba, Krys. Nunca me senti tão…

Está tudo bem, e de repente vejo piscar a luzínha ABATIDA, e pronto! O motor pára! E Xiao passando por mim. rindo a valer…

Ficamos ali bastante tempo, fazendo perguntas e respondendo outras. Mas as luzes que de início haviam piscado ocasionalmente no console do telefone se tomaram mais insistentes. Por fim, as campainhas dos telefones soaram, um dilúvio de chamadas em inglês e polonês: produtores, diretores, chefes de equipes, autoridades municipais, solicitações da imprensa e da televisão, convites urgentes.

Se aqueles dois vivessem em nosso mundo, diríamos que eram estrelas do rock numa turnê.

Tanta coisa para perguntar, pensei, mas não só eles precisavam se preparar para o dia seguinte, como tinham de conversar, dormir.

Levantamo-nos enquanto ainda estavam ao telefone, e despedimo-nos deles em silêncio, com um aceno. Linda cobriu o fone com a mão.

— Esperem mais um pouco! Só vamos… Também Krys cobriu o fone.

— Esperem! Nós jantamos mais tarde! Por favor, fiquem!

— Obrigada, mas não — disse Leslie. — Vocês já nos deram muita atenção.

— Felizes aterrissagens para vocês — desejei. — E Sr.

Albright-Sobieski, de agora em diante, vamos prestar mais atenção às nossas costas, certo?

Ela cobriu o rosto, simulando vergonha, corando. E o mundo deles desapareceu.

De volta ao ar, começamos a conversar animadamente sobre Linda, Krys e a época deles, uma esplêndida alternativa às constantes guerras e preparativos para guerras que manietavam nosso próprio mundo em sua Idade Média tecnológica.

— Esperança! — exclamei.

— Contraste! — disse Leslie. — Isso nos faz ver o quanto estamos perdendo, quanta criatividade estamos desperdiçando em medo, desconfiança e guerra!

— Quantos outros mundos haverá, lá embaixo, tão criativos como o deles? — comentei. — Haverá mais mundos parecidos com o nosso ou com o deles?

— Talvez sejam todos criativos por aqui! Vamos pousar!

O sol era uma esfera de fogo brando avermelhado num céu violeta. Duas vezes maior que o sol que conhecíamos, porém menos brilhante. Mais próximo, porém tão quente quanto o nosso, ele envolvia a paisagem numa suave luz dourada. O ar recendia ligeiramente a baunilha.

Estávamos numa encosta, num ponto em que a floresta se transformava numa campina pontilhada de minúsculas flores prateadas.

Lá embaixo estendia-se, de um lado, um oceano quase tão escuro como o céu, e no qual desaguava um rio diamantino. Do outro lado alongava-se, até onde podíamos avistar, uma larga planície que terminava em colinas e vales virgens. Era como se revistássemos o Éden, deserto e sereno.

À primeira vista, juraríamos que estávamos abandonados numa Terra intocada pela civilização. Porventura as pessoas teriam se transformado em flores?

— Isto é… Parece jornada nas estrelas — comentou Leslie. Um céu estranho, uma terra estranha e linda.

— Não há vivalma — observei. — O que estamos fazendo num planeta ermo?

— Não pode ser ermo. Temos de estar aqui, em algum lugar.

Um exame mais detido mostrou que tínhamos nos enganado.

Na paisagem distante discernia-se alguma coisa como um tenuíssimo tabuleiro de xadrez, leves linhas escuras formando quarteirões de uma cidade, traçando retas e ângulos, como se no passado tivessem existido rodovias para um tráfego que há muito se desvanecera.

Minha intuição raramente falha.

— Já sei o que aconteceu. Descobrimos Los Angeles, só que chegamos atrasados um milhão de anos! Está vendo? Era ali que ficava Santa Mônica. Beverly Hills era ali. Acabou a civilização!

— Talvez — disse Leslie. — Mas Los Angeles nunca teve esse céu, ou teve? Ou duas luas? — Ela apontou para cima.

Sobre as montanhas, realmente flutuavam uma luz verme lha e uma amarela, cada uma delas menor do que a lua da Terra, uma nascendo na frente da outra.

— Hum… Não é Los Angeles — falei, convencido. — jornada nas estrelas.

Um movimento na mata do outro lado.

— Olhe!

O leopardo caminhava em nossa direção, vindo das árvores. O pêlo, cor crepúsculo, era cheio de malhas. Achei que fosse um leopardo por causa das manchas, embora o animal fosse do tamanho de um tigre, com redondos olhos dourados de tigre. Movia-se com certa dificuldade, esforçando-se por subir o morro, e ouvíamos sua respiração ofegante.

Não há, naturalmente, nenhuma possibilidade de ele nos ver ou atacar, pensei. Não parece estar com fome, ainda que, tratando-se de tigres, nunca se possa ter certeza.

— Richie, ele está ferido!

A andadura esquisita não se devia ao fato de se tratar de uma criatura alienígena, e o animal fora esmagado por alguma força terrível.

Ele se arrastava, tomado de dor, como se sua vida dependesse de atravessar a clareira e chegar até a floresta atrás de nós.

Corremos para ajudá-lo embora sem saber o que fazer, mesmo que fôssemos de carne e osso.

De perto, vimos como o animal era gigantesco. Quase da altura de Leslie, aquele gato imenso devia pesar uma tonelada.

Percebíamos o sofrimento em sua respiração e sabíamos que o infeliz não dispunha de muito tempo de vida. Havia sangue seco no dorso e nos flancos, e o animal sofrera fraturas internas. Caiu, rastejou um pouco e voltou a cair entre as flores prateadas. Nos últimos minutos de sua vida, pensei, por que tenta com tanto desespero chegar àquelas árvores?

Leslie ajoelhou-se ao lado da grande cabeça do animal.

— Richie, o que podemos fazer? — Seu olhar traduzia angústia.

— Coitado! Não podemos ficar aqui parados, sem fazer nada! — Estendeu a mão para consolar o exausto animal, mas evidentemente a mão passava através do pêlo, nem a criatura poderia ter sentido seu toque.

— Está tudo bem. amor — respondi. — Os tigres escolhem destinos, tal como nós, precisam chegar ao fim da vida tanto quanto nós… — Eram palavras verdadeiras, pensei, mas em nada consolavam.

— Não! Não podemos ter vindo até aqui para ver esse animal…

Para assistir à sua morte? Richie, não!

A fera estremeceu na grama.

— Querida, há uma razão. Sempre há uma razão. Só que não a conhecemos neste momento.

A voz que veio da beira da floresta era clara como a luz do sol, mas soou como um trovão pela campina.

— Tyeen!

Viramos a cabeça para olhar.

À beira das flores havia uma moça. A princípio julguei que fosse Pye, porém tinha a pele mais clara que a nossa guia, e os cabelos avermelhados eram mais compridos. Ainda assim, parecia-se tanto com nossa guia extraterrena quanto com minha mulher: as mesmas faces, o mesmo queixo reto. Usava um vestido verde-claro, e sobre ele uma capa de tonalidade esmeralda-escura, até o chão.

Enquanto a olhávamos, ela pôs-se a correr na direção do animal ferido.

A criatura agitou-se, ergueu a cabeça, lançou um último urro débil na direção dela.

A moça alcançou-o num redemoinho de verdes, ajoelhou-se a seu lado, sem medo, tocou-o de leve, e suas mãos quase sumiram junto daquela imensa cara.

— De pé, agora… — sussurrou.

O animal esforçou-se para obedecer, mas as patas não se firmavam.

— Moça, parece que ele está muito machucado — falei. — Com toda certeza não vamos poder fazer muita coisa…

Ela não escutou. De olhos fechados, aproximou-se lentamente da cabeça do animal e afagou-o de leve. A seguir, abriu os olhos e falou.

— Tyeen! Filhinha, de pé!

Com outro urro, o tigre levantou-se, atirando grama para todos os lados. Respirando fundo, agigantou-se sobre a mulher ajoelhada entre as flores.

Ela se levantou também e passou o braço pelo pescoço do animal, tocando-lhe as feridas e alisando-lhe o pêlo.

— Gata boba, Tyeen — disse ela. — Parece que não sabe nada.

Não é sua hora de morrer…

Desaparecera o sangue coalhado, nem havia mais poeira sobre a enorme e exótica criatura. O animal olhou para a moça, fechou os olhos por um instante e passou o focinho no colo dela.

— Eu a convidaria para ficar — disse a moça —, mas filhotes com fome não querem saber disso, não é? Vai. Vai, vai logo.

O animal emitiu um grunhido como o de um dragão, demonstrando relutância.

— Vai! E tenha cuidado nos penhascos, Tyeen! Você não é um cabrito-montês!

O gigantesco animal virou a cabeça na direção dela. Depois sacudiu-se e saiu, atravessando graciosamente a campina, desaparecendo entre as árvores.

A mulher ficou a observar o animal sumir, e a seguir voltou-se para nós, com toda naturalidade.

— Adora alturas — disse, resignando-se àquela tolice. — Sente-se atraída pelas alturas, mas não entende que nem toda pedra suporta seu peso.

— O que foi que você fez? — perguntou Leslie. — Pensamos que… Ela parecia tão mal, achamos que…

A moça virou-se e saiu na direção do alto do morro, fazendo um sinal para que a seguíssemos.

— Os animais saram depressa — comentou. — Mas às vezes precisam de um pouco de carinho, para ajudar. Tyeen é uma velha amiga.

— Nós também devemos ser velhos amigos, já que você nos pode ver — falei. — Quem é você?

Ela me examinou enquanto caminhávamos. Aquele rosto harmonioso, cujos olhos eram de um verde mais profundo que o de sua capa, examinou-me por um instante com a rapidez de um raio laser, lendo minha alma. Quanta inteligência naqueles olhos! Nada de pretensão nem artifícios.

Sorriu, como se de repente tudo se encaixasse.

— Leslie e Richard! — exclamou. — Eu sou Mashara! Como nos conhecia? Onde nos havíamos encontrado? O que ela significava para aquele lugar, e o que o lugar significava para ela? Minhas perguntas tornaram-se indistintas. Que espécie de civilização vive ali, invisível? Quais são os seus valores? O que aprendeu e que a nossa civilização não sabe? Quem é essa pessoa?

— Eu sou você em minha dimensão — disse ela, como se estivesse escutado minhas indagações. — Quem o conhece aqui o chama de Mashara. — Ela gracejava, dizendo-nos a verdade.

— Que dimensão é esta? — perguntou, Leslie. — Onde fica este lugar? Quando foi que…

Ela riu.

— Também quero fazer umas perguntas.

Pouco além da beira da campina ficava uma casa que não era maior que uma cabana de montanha, feita de pedras, sem argamassa, mas dispostas umas sobre as outras de tal forma que entre elas não entraria uma carta de baralho. Se havia vidraças nas janelas, não as víamos. Tampouco havia porta.

Uma família de aves seguia em fila indiana pelo quintal. Uma criatura emplumada e encarapitada num galho abriu os olhos por um momento ao nos aproximarmos, fechando-os de novo para dormir.

Ela nos convidou a entrar, passando pela porta primeiro. No interior, um animal que parecia ser uma jovem lhama, da cor de uma nuvem de verão, dormitava num tapete de folhas e palha perto da janela. Teve curiosidade suficiente para esticar as orelhas em nossa direção, mas não para se pôr de pé.

Não havia estufa, despensa, cama, mas ainda assim o lugar dava uma sensação de calor e segurança. Se eu fosse obrigado a adivinhar, diria que Mashara era a fada boa da floresta.

Levou-nos para bancos junto de uma mesa perto de uma ampla janela, da qual se descortinava um largo panorama de árvores, na campina e no vale.

— Meu espaço-tempo é paralelo ao de vocês — explicou. — Mas é claro que sabem disso. Planeta, sol, galáxia e universo diferentes.

Só que é o mesmo Agora.

— Mashara, aconteceu alguma coisa de terrível aqui, há muito tempo? — indagou Leslie.

Percebi o que ela estava pensando. As linhas na terra, o planeta transformado num ermo, animais destemidos. Seria Mashara a última sobrevivente de uma civilização que no passado dominara aquele planeta?

— Vocês se lembram! — disse ela. — Mas terá sido isso ruim para uma civilização que consome florestas, oceanos e ar, que estraga o mundo do leito marinho até a estratosfera, que envenena a vida por atacado, será ruim essa civilização perecer? Será ruim para um planeta curar a si mesmo?

Pela primeira vez senti-me pouco à vontade naquele lugar.

Imaginei como teriam sido seus últimos dias, gritando e gemendo para morrer.

— Será bom para qualquer espécie de vida morrer? — perguntei.

— Não morrer — respondeu Mashara, após um instante —, mas mudar. Havia em vocês certos aspectos que escolheram aquela sociedade. Aspectos que se compraziam nela, aspectos que buscavam desesperadamente mudanças. Alguns venceram, outros perderam, todos aprenderam.

— Mas o planeta recuperou-se — retrucou Leslie. — Olhe só para ele! Rios e ar puro, árvores e flores… É lindo!

— O planeta recuperou-se, as pessoas não. — Mashara virou o rosto. — Não conseguiram adiar a própria morte por tempo suficiente para construir uma colônia nas estrelas.

Percebi que ela não tinha vaidade, não havia modéstia nela.

Havia apenas a verdade do que acontecera.

A lhama pôs-se de pé, saindo lentamente pela porta.

— A evolução tornou a civilização o administrador desse planeta. Cem mil anos depois, o administrador se convertera não em defensor, mas em destruidor; não em protetor, mas em parasita. Assim, a evolução retirou sua dádiva, passou por cima da civilização, salvou o planeta da inteligência e entregou-o ao amor.

— Este… é seu trabalho, Mashara? Salvar planetas? — perguntou Leslie.

Ela assentiu.

— Salvar este. Para o planeta, sou paciência e proteção, sou compaixão e compreensão. Sou os objetivos supremos que os antigos viam em si próprios. Uma cultura magnífica em tantos sentidos, uma bela sociedade, atraiçoada por sua cobiça e falta de visão. Ela consumiu as florestas e as transformou em desertos, devorou a alma das terras em minas e lixo, sufocou o ar e os oceanos, esterilizou o mundo com radiação e venenos. Teve milhões de oportunidades para mudar, mas não quis. No solo, cavava luxos para uns poucos, trabalho para os restantes e sepulturas para os filhos de todos. Por fim, os filhos não concordaram, mas os filhos tinham chegado tarde demais.

— Como pode toda uma civilização ter sido tão cega! — exclamei. — O que você está fazendo agora… Você tinha a resposta!

Mashara virou-se para mim, o amor implacável.

— Não tenho a resposta, Richard. Eu sou a resposta.

Ficamos em silêncio por muito tempo. O sol tocou o horizonte, mas a noite ainda demoraria a cair.

— O que aconteceu às pessoas? — perguntou Leslie.

— Nos anos derradeiros, quando viram que era tarde demais, as pessoas fabricaram ecologistas reconstrutores planetários, construíram- nos em seus domos, ensinaram-nos a restaurar a terra, mandaram que saíssemos pelo mundo a fim de trabalhar num ar que não podiam mais respirar. A última atitude delas, desculpando-se ao mundo, foi dar-nos os domos para que salvássemos o que pudéssemos da vida. Depois, saíram todas juntas para o veneno, onde antes ficavam as florestas. — Mashara baixou o olhar. — E desapareceram.

A imagem era dolorosa, e ficamos, Leslie e eu, a escutar o eco de suas palavras, imaginando o que devia ter sido aquilo, a solidão e a tristeza que aquela mulher decerto suportara. As imagens demoraram a se dissipar.

Ela havia dito aquilo com tanta displicência!

— Mashara, eles a fabricaram? Você é um computador? — perguntei.

O rosto formoso voltou-se em minha direção, sem expressão.

— Posso ser descrita como um computador. Você também. Já enquanto eu fazia a pergunta seguinte, uma parte de mim sabia que estava perdendo o que havia de mais importante num estranho chauvinismo proteico.

— Você… — comecei. — Mashara, você é viva?

— Considera isto impossível? — retrucou ela. — Faz diferença se a humanidade fulge através de átomos de carbono ou de silício?

Existe alguma coisa que tenha nascido humana?

— Claro! Os piores… até os destruidores, até os assassinos são humanos — respondi. — Podemos não gostar deles, mas são seres humanos.

Ela fez um gesto negativo.

— Um ser humano é uma expressão da vida, que traz a luz e reflete o amor, em qualquer dimensão que ele resolva tocar, em qualquer forma que deseje assumir. A humanidade não é uma descrição física, Richard, é uma meta espiritual. Não é uma coisa que nos é dada, é algo que conquistamos.

Uma idéia atordoante, forjada na tragédia daquele lugar. Por mais que eu tentasse ver Mashara como uma máquina, um computador, uma coisa, não conseguia. Não era a química de seu corpo que lhe definia a vida e sim a profundidade de seu amor.

— Acho que estou habituado a considerar que todas as pessoas são humanas — falei.

— Talvez deva reformular seus conceitos — sugeriu ela. Uma parte de mim encarou a mulher através da névoa de seu novo rótulo.

Um computador! A curiosidade prevaleceu sobre a delicadeza, mas eu precisava colocá-la à prova.

— Quanto é 13.297 dividido por 2,32379001?

— Precisa saber?

Fiz que sim. Mashara suspirou.

— É 2462,407402584828063981… Quantas casas decimais deseja?

— Incrível! — exclamei.

— Como sabe que não estou inventando?

— Desculpe. Mas é que… você parece tão…

— Quer um teste final? — perguntou.

— Richard — interrompeu Leslie, num tom acautelador. A mulher dirigiu um olhar agradecido à minha mulher, mas estendeu a mão.

— Sabe qual é o teste final da vida, Richard?

— Não… Há sempre uma linha divisória entre…

— Responde uma pergunta minha?

— Claro que sim.

Ela me olhou firme nos olhos, a fada boa da floresta, sem medo do que estava por vir.

— Diga-me. O que você sentiria se eu morresse neste instante?

Leslie sobressaltou-se. Fiquei de pé, num salto.

— Não!

Senti-me atravessado por uma onda de pânico, com medo de que o maior amor que nosso ser alternativo podia escolher fosse se autodestruir, para que pudéssemos sentir a perda da vida que era ela.

— Mashara, não!

Não houve um único som. Ela tombou, leve como uma flor, e ficou imóvel, petrificada como a morte, os olhos verdes fixos no local onde eu estivera.

Leslie correu para ela — o fantasma de uma pessoa junto ao fantasma de um computador — e amparou-a com a mesma suavidade com que a fada boa amparara o grande felino que amava.

— E como você se sentirá, Mashara, quando Tyeen, seus filhotes, as florestas, os mares e o planeta que você recebeu para amar morrerem com você? Haverá de lhes honrar as vidas como honramos a sua? — indagou Leslie.

Lentamente, a vida retornou à forma, a cabeça maravilhosa virou-se para encarar a irmã que vinha de um tempo diferente.

Espelhos uma da outra, os mesmos valores altivos brilhando em mundos alternativos.

— Eu os amo — disse Mashara, sentando-se aos poucos, virando-se para nós. — Jamais pensem… que não me importo…

Leslie sorriu, com tristeza.

— Como poderíamos contemplar seu planeta e achar que você é indiferente? Como podemos amar nossa própria terra sem amar você, querida administradora?

— Vocês devem ir embora — disse Mashara, de olhos fechados.

E depois, num murmúrio: — Vão se lembrar?

Peguei a mão de minha mulher e fiz um gesto afirmativo.

— As primeiras flores que plantarmos a cada ano, as primeiras árvores, serão para Mashara — avisou Leslie.

A lhama entrou de mansinho pela porta, de orelhas em pé, olhos escuros, o focinho de veludo demonstrando preocupação pela mulher que significava o lar. Da última vez que a vimos, a fada boa da floresta abraçava o animal, e chorava.

A casinha dissolveu-se em borrifos e luz, enquanto Growly se lançava mais uma vez acima dos desenhos.

— Que mistério! — exclamei. — Um dos mais maravilhosos seres humanos que já conhecemos é uma máquina!