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13

Voamos envoltos pelo amor de Mashara, suavizados com as imagens do seu belo planeta. Como pareceu bom ter amigos em outros mundos além do nosso!

Parte de nossa exploração fora fonte de alegria, outra parte tinha sido horrenda, mas as curvas de nosso aprendizado ascendiam com firmeza. Tínhamos visto e sentido coisas que não poderíamos ter imaginado nem em cem existências. Queríamos mais.

Os desenhos ganharam uma coloração rosa-claro, as trilhas fulgiram numa tonalidade dourada. Olhei para Leslie. Ela assentiu com a cabeça.

— Pronta para pousar?

— Quando quiser.

— Está pronta para o que der e vier?

— Creio que sim… — Leslie respirou fundo e juntou forças, olhando decidida para a frente.

Ao desaparecer a nuvem de borrifos, permanecíamos no interior do hidravião, flutuando suavemente na água. Olhamos em volta, perplexos. Aquilo não era um oceano, e os desenhos tinham sumido!

Era um lago de montanha, pinheiros e bétulas que desciam até a margem cor de mel, plácido como o deserto, a água reluzindo debaixo de nós, sol arrancando chispas na areia. Durante alguns instantes, tentamos adivinhar o que acontecia — Leslie! — exclamei. — É aqui que treino pousos na água, este é o lago Healey! Saímos dos desenhos!

Ela olhou ao redor, buscando algum sinal que desmentisse minhas palavras.

— Tem certeza?

— Absoluta. — Olhei em volta de novo. Encostas íngremes e muito arborizadas à esquerda, árvores baixas na extremidade do lago.

Para além das árvores seria o leito do vale.

— Viva! — exclamei, mas a palavra pareceu oca. Virei-me para Leslie. Seu rosto era uma máscara de desapontamento.

— Ah, sei que devia estar contente, mas acontece que estávamos só começando a aprender, ainda havia tanto o que descobrir!

Leslie tinha razão. Também me senti logrado, como se as luzes se tivessem acendido e os atores abandonado o palco antes do fim da peça.

Baixei o leme, apertei o pedal para tomar a direção da praia, e então percebi Leslie prender a respiração.

— Veja! — Apontava para alguma coisa.

Um pouco à frente na extremidade da asa direita, com o bico enfiado na areia, havia um anfíbio Martin.

— Ah! Ah! Mais uma prova — falei. Todo mundo treina aqui.

Realmente, estamos em casa.

Empurrei o manete à frente, e suavemente seguimos na direção do outro hidravião.

Não havia nenhum movimento, nem sinal de vida. Desliguei o motor e completamos em silêncio os poucos metros que faltavam. A proa roçou de leve a areia, a sessenta metros da outra máquina.

Tirei os sapatos e desci. A água chegava a meus tornozelos.

Ajudei Leslie a descer. Depois ergui a proa do avião e puxei-o um pouco mais para a terra.

Leslie caminhou na direção do outro Seahawk, enquanto eu prendia a âncora na areia.

— Olá! — gritou. — Olaf — Não há ninguém? — perguntei, indo ao seu encontro. Leslie não respondeu. Estava parada junto do outro avião, olhando para dentro da cabine.

O avião era gêmeo do Growly, e tinha a mesma pintura de neve e arco-íris que tínhamos criado. O interior da cabine era da mesma cor.

O mesmo tecido, o mesmo carpete no chão. Nada diferia, nem mesmo o vidro quebra-luz e as letras pregadas no painel de instrumentos.

— Coincidência? — perguntou Leslie. — Outro hidravião exatamente igual ao Growly — Esquisito. Muito esquisito. — Toquei a coberta do motor.

Ainda estava quente.

— Ah! Ah!… — comentei, sentindo invadir-me uma sensação esquisita. Peguei Leslie pela mão e voltamos juntos para nosso próprio avião.

No meio do caminho, ela se deteve e virou-se.

— Olhe só para isso! Não há pegada alguma, além das nossas.

Como é que uma pessoa pode pousar, descer do avião, desaparecer e não deixar nenhum vestígio?

Ficamos entre os dois Growlys, perplexos.

— Tem certeza de que estamos em casa? — perguntou Leslie.

— Parece que ainda estamos nos desenhos.

— Uma réplica do lago Healey? — perguntei. — E como é que nós deixamos pegadas, se somos fantasmas?

— Tem razão. E se pousarmos no desenho, teremos de encontrar algum aspecto alternativo de nós próprios — concordou Leslie. Ela ficou em silêncio por um momento, olhando em volta. — Mas talvez haja um motivo para não vermos ninguém aqui.

— Se continuamos no desenho, é um teste. Como parece não haver ninguém por aqui, a lição poderia ser de que estejam mesmo aqui, em alguma outra forma. Não podemos estar separados de nós mesmos.

Nunca estamos sozinhos, a menos que acreditemos nisso.

Um clarão de raio laser de rubi brilhou a três metros, e ali estava nossa alter-ego indiana, de jeans pretos e blusa xadrez.

— Por que eu a amo? Porque você se lembra! — Estendeu os braços para Leslie.

— Pye! — exclamou minha mulher, correndo para abraçá-la.

Naquele lugar, estivéssemos ou não no desenho, não éramos fantasmas, e ao se abraçarem elas tocaram pessoas sólidas.

— Que bom revê-la! — disse Leslie. — Não pode imaginar por onde estivemos! As coisas mais lindas, e as mais feias… Ah, Pye, há tanto para lhe contar, tantas coisas que precisamos saber!

Pye virou-se para mim.

— Que bom você ter voltado! — falei, abraçando-a também. — Por que foi embora tão de repente?

Ela sorriu, caminhou até a beira da água e sentou-se de pernas cruzadas. Bateu na areia, num sinal para que sentássemos ao lado dela.

— Porque eu tinha certeza do que iria acontecer — respondeu.

— Quando se ama alguém e se confia nela, quando se sabe que essa pessoa está pronta para aprender e crescer, a gente a solta. Como vocês poderiam aprender, sentir suas experiências, se soubessem que eu estava junto, como um escudo entre vocês e suas escolhas? Pye virou-se para mim, sorridente. — Isto é mesmo o lago Healey alternativo. O avião é para lazer.

Você me fez lembrar do quanto gosto de voar, e por isso dupliquei seu Growly, fiz uns treinos e procurei achá-los Uma surpresa, não é, pousar de rodas baixadas na água? — Percebeu meu horror e levantou a mão. — Lembrei-me a tempo! Um pouquinho antes de pousar, recorri à perícia do meu aspecto mais versado em hidraviões, e você gritou recolher rodas! Obrigada. — Pye pôs a mão no ombro de Leslie. — Como você foi perspicaz ao notar que não deixei pegadas na areia. Foi para lhe lembrar que deve escolher seu próprio caminho, seguir seu supremo sentido de dever, e não o de outra pessoa. Mas você já sabe disso.

— Ah, Pye, como podemos seguir nosso supremo sentido de dever — disse Leslie —, o que podemos fazer num mundo que…

Conheceu Ivan e Tatiana?

Pye fez um gesto afirmativo.

— Nós os amamos! — exclamou Leslie, com a voz embargada.

— E foram americanos que os mataram! Pye, fomos nós!

— Não foi você, querida. Como pode pensar que seria capaz de matá-los? — Pye levantou o queixo de Leslie, olhou dentro de seus olhos. — Lembre-se, nada no desenho é fortuito, nada é destituído de razão.

— Que possível razão? — repliquei. — Você não estava lá, não sentiu o terror! — A noite em Moscou precipitou-se como que numa catadupa. Era como se tivéssemos assassinado nossa própria família na escuridão.

— O desenho não é cruel — disse ela, suavemente. — É um esquema de todas as possibilidades, de absoluta liberdade de escolha.

— Pye tocou meu joelho. — Richard, o desenho é um livro aberto.

Cada acontecimento é uma palavra, uma oração, parte de uma história sem fim. Cada letra permanece para sempre na página. O que muda é a consciência, e ela escolhe o que ler e o que deixar sem ler. Quando você chega a uma página sobre a guerra nuclear, desespera-se ou aprende o que o texto tem para lhe ensinar? Você morre por ler a página, ou passa para outras páginas, mais sábio?

— Nós não morremos — respondi. — E esperamos que estejamos mais sábios.

— Vocês dividiram uma página com Tatiana e Ivan Kirilov, e ao chegarem ao fim da leitura, a página foi virada. Ela ainda existe, neste exato momento, esperando para mudar o coração de alguém que desejar lê-la. Mas depois de ter aprendido, você não precisa reler a página. Você a passou, e eles também o fizeram.

— Fizeram? — perguntou Leslie, com uma ponta de esperança.

Pye sorriu.

— Linda Albright não lhe lembrou um pouco Tatiana Kirilov?

Por acaso Krysztof não lhe lembrou, de certa forma, seu amigo Ivan?

Os pilotos do aerojogo não transformaram a guerra, que de terror que era passou a ser um entretenimento? Não salvaram o mundo deles da destruição? Quem você pensa que eles são?

— Os mesmos que leram aquela página conosco a respeito de uma noite terrível em Moscou?

— Isso! — concordou Pye.

— E eles são nós, também? — perguntei.

— Isso! — Os olhos de Pye brilharam. — Você e Leslie. Linda e Tatiana e Mashara e Jean-Paul e Átila e Ivan e Atkin e Pye, nós todos, somos uma só pessoa!

Minúsculas ondas batiam na areia, e ouvíamos o murmúrio suave do vento nas árvores.

— A cada vez que vocês pousam no desenho, concentram-se numa página — disse ela. — Há uma razão para eu os ter encontrado, uma razão para vocês terem encontrado Átila. Preocupam-se com a paz e a guerra? Nesse caso, pousam em páginas que lhes proporcionam uma visão melhor da paz e da guerra. Temem que se separem, ou que morram e percam um ao outro? Então pousarão em vidas que lhes ensinarão a respeito de separação e de morte, e aquilo que aprenderem mudará o mundo à volta de vocês para sempre. Amam o planeta e receiam que a humanidade o esteja destruindo? Escolhem ver o pior e o melhor do que pode acontecer, aprendem que tudo depende da escolha individual de vocês.

— Está afirmando que criamos nossa própria realidade? — perguntei. — Sei que se diz isso com freqüência, mas…

Pye riu, e apontou o horizonte a leste.

— É madrugada bem cedo — disse, com a voz ganhando subitamente um tom misterioso. — Escuridão. Estamos numa praia como esta. O primeiro sinal do alvorecer. Frio.

Estávamos a seu lado, no frio e na escuridão com ela, vivendo a história que narrava.

— Diante de nós está o cavalete e a tela, e temos nas mãos as tintas e os pincéis. — Diante daqueles olhos escuros, sentíamo-nos como que hipnotizados. Eu sentia a paleta na mão esquerda, os pincéis na direita, pincéis com ásperos cabos de madeira.

— Agora a luz aumenta no céu, vêem? — perguntou. — O céu está se transformando em fogo, caí um manto de ouro, prismas de gelo fundem-se em tons escarlates, convertem-se no nascer do sol…

Estonteados, víamos as cores.

— Pintem! — disse Pye. — Captem esse alvorecer em suas telas! Absorvam essa luz através de seus olhos, transportem-na para a tela! Depressa, agora, depressa! Vivam a madrugada com seus pincéis!

Não sou pintor, mas em minha mente eu sentia aquele ímpeto maravilhoso, transformado em pinceladas ousadas na tela. Imaginava o cavalete de Leslie, via sua própria aurora, de magnífica delicadeza, raios cuidadosos mesclados a uma explosão de cor.

— Pronto? — perguntou Pye. — Guardaram os pincéis?

Assentimos com um gesto.

— O que criaram?

Eu devia ter pintado nossa mestra, aquele momento.

— Duas auroras muito diferentes — falou Leslie.

— Não são duas auroras — retrucou Pye. — São duas pinturas!

O artista não cria a aurora, cria…

— Ah, sim, é claro! — exclamou Leslie. — O artista cria a pintura!

Pye concordou.

— A aurora é a realidade, a pintura é a maneira como a representamos? — perguntei.

— Exatamente! — concordou Pye, — Se cada um de nós precisasse criar nossa própria realidade, pode imaginar o caos tedioso que resultaria? A realidade ficaria limitada àquilo que cada um de nós conseguisse inventar!

Concordei com a cabeça. Como criar a aurora se eu nunca a tivesse visto? O que fazer com um negro céu noturno para começar o dia? Por acaso eu teria imaginado um céu? Ou o dia e a noite?

— A realidade nada tem a ver com nossa estreita maneira de ver — continuou Pye. — A realidade é o amor expressado, o amor puro e perfeito, intocado pelo espaço e pelo tempo.

— Já se sentiram assim, em uníssono com o mundo, com o universo, com tudo que existe, z um grau tal que são invadidos pelo amor?

— Pye olhou para Leslie e para mim. — Isso é a realidade. Isso é a verdade. O que fazemos dela compete a nós, tal como a pintura da aurora compete ao artista. No mundo de vocês, a humanidade afastou-se desse amor. Ela vive o ódio, lutas pelo poder. Continuem, e ninguém verá a aurora. O alvorecer sempre existirá, naturalmente, mas as pessoas nada saberão a seu respeito, e por fim até a lembrança de sua beleza desaparecerá.

Ah, Mashara, pensei, porventura seu passado será nosso futuro?

— Como podemos levar o amor a nosso mundo? — perguntou Leslie. — Há tantas… ameaças, tantos Atilas.

Pye deteve-se por um momento, à procura de uma história que pudesse elucidar a questão. Por fim, desenhou na areia um pequeno quadrado.

— Digamos que vivemos num lugar terrível, a Cidade das Ameaças — disse, tocando o quadrado. — Quanto mais permanecemos ali, menos gostamos do lugar. Há violência, destruição, não gostamos das pessoas, não apreciamos suas escolhas, não temos nada a ver com o lugar. A Cidade das Ameaças não é o nosso lar! — Traçou uma linha ondulada que, saindo do quadrado, descrevia volteios sem fim. Na extremidade dessa linha, desenhou um círculo. — Por tudo isso, um dia arrumamos nossas coisas e vamos embora, à procura da Cidade da Paz. — Acompanhou com o dedo todas as curvas e voltas da estrada serpenteante. — Seguimos para a esquerda e para a direita, tomamos estradas largas e atalhos, acompanhamos o mapa de nossas maiores esperanças, e por fim chegamos aqui, a essa cidadezinha tão agradável.

Paz era o círculo na areia, e foi ali que parou o dedo de Pye.

Enquanto falava, fincava na areia gravetinhos verdes, simulando árvores.

— Conseguimos uma casa em Paz e, à medida que começamos a conhecer as pessoas, percebemos que elas têm os mesmos valores que nos trouxeram para cá. Cada qual descobriu sua própria estrada, seguiu seu próprio mapa, vindo de onde estava para esse lugar onde não se imagina a destruição, onde as pessoas escolheram o amor, a alegria e a bondade… que canalizam para o próximo, para a cidade, para o próprio mundo. — Encarou-nos quase acanhada. — As pessoas de Paz aprenderam que o ódio é o amor sem os fatos. Por que dizermos mentiras que nos separam e nos destroem quando a verdade é que somos uma só pessoa? Quem mora na Cidade das Ameaças está livre para escolher a destruição, mas nós preferimos a Paz. Ouvíamos sua explicação atentos.

— Com o tempo — continuou ela —, os habitantes da Cidade das Ameaças talvez se cansem da violência, talvez sigam seus próprios mapas para Paz, façam a mesma escolha que fizemos: deixar para trás a destruição. Se todos tomarem essa decisão, a Cidade das Ameaças se transformará numa cidade fantasma. — Traçou um oito no chão, uma suave estrada entre Paz e a Cidade das Ameaças. — E um dia, os habitantes de Paz, curiosos, visitam as ruínas da Cidade das Ameaças e descobrem que, tendo os destruidores saído dali, a realidade mais uma vez se tornou visível: correntes frescas em vez de venenosas, exuberantes florestas novas que brotam de clareiras e minas a céu aberto, o gorjeio de aves no ar puro. — Pye plantou outros gravetinhos na Cidade das Ameaças. — E os habitantes de Paz retiram a tabuleta pendurada na entrada da cidade, a tabuleta que diz “Cidade das Ameaças”, e a substituem por outra: “Bem-Vindos a Amor.” E alguns retornam para remover os escombros, reconstruir as ruas feias, e prometem que a cidade fará jus a seu novo nome. Escolhas, meus queridos, estão vendo? Tudo se resume a escolhas.

Naquele momento, naquele local estranho, o que ela dizia fazia sentido.

— O que vocês podem fazer? — perguntou. — Na maior parte dos mundos, o que faz as coisas mudarem não são milagres repentinos.

A mudança vem com o lançamento de um frágil e trêmulo fio entre países: os primeiros aerojogos amadores no mundo de Linda Albright, os primeiros bailarinos, cantores ou filmes soviéticos exibidos a platéias americanas no mundo de vocês. Lentamente, lentamente, não deixem de escolher a vida.

— Por que não da noite para o dia? — perguntei. — Não há nada que diga que é impossível uma coisa mudar depressa.

— É claro que uma mudança rápida é possível, Richard — respondeu Pye. — As mudanças ocorrem a cada segundo, independente de nossa percepção. No desenho, as mudanças iá estão feitas. Seu mundo, com seu primeiro fio de esperança de um futuro pacífico, é tão verdadeiro quanto seu mundo alternativo que acabou em 1962, quanto o primeiro dia da última guerra. Diferentes passados, futuros diferentes. Cada um de nós escolhe o destino de nosso mundo.

As mentes devem mudar antes dos acontecimentos.

— Então, o que falei ao tenente é verdade! — exclamei. — Um de meus futuros em 1962 era que os soviéticos não retrocederam.

Muitos de nós pensávamos que isso era inevitável. E comecei uma guerra nuclear.

— Claro. O desenho apresenta milhares de caminhos que acabam num determinado fim naquele ano, milhares de Richards alternativos que escolheram experiências de morte. Você não fez essa escolha.

— Não, espere — respondi. — Nos mundos alternativos que não sobreviveram ao desastre, não havia uma porção de gente?

Quando foram pelos ares, essas pessoas se congelaram, se vaporizaram, foram comidas por formigas ou o quê?

— Qualquer coisa dessas. Mas, Richard, foram eles que escolheram a destruição do mundo em que viviam! Alguns escolheram passivamente, pois não se importavam. Alguns escolheram isso porque acreditavam que a melhor defesa é o ataque. Alguns escolheram porque se julgaram incapazes de resistir. Um dos meios de se optar por um futuro consiste em crer que ele é inevitável. Quando escolhemos a paz — disse ela, indicando o círculo com as minúsculas árvores —, nós vivemos em paz.

— Haverá um meio de conversar com as pessoas que moram lá, um modo de conversar com nossas formas alternativas quando precisarmos saber o que aprenderam? — perguntou Leslie.

— Você está fazendo isso agora — respondeu Pye com um sorriso.

— Mas como podemos fazê-lo — insistiu Leslie —, sem sairmos pulando de um lugar para outro num hidravião e sem entrarmos numa dimensão diferente e encontrar você, o que só ocorreu porque acertamos com a oportunidade certa em um trilhão?

— O que você quer é um meio de conversar com uma forma alternativa sua que puder imaginar?

— Por favor — pedi.

— Não há nada de misterioso nisso — respondeu ela —, mas funciona. Imagine a forma alternativa que quer encontrar, Richard, faça de conta que pergunta a ele qualquer coisa que desejar saber. Faça de conta que escuta a resposta.

— Parece fácil demais — falei.

— E é. Tente.

De repente, fiquei nervoso.

— Eu? Agora?

— Por que não?

— Devo fechar os olhos?

— Se quiser.

— Nenhum ritual, não é?

— Se o ritual lhe for mais agradável… — admitiu Pye. — Respire fundo, imagine uma porta que se abre para uma sala cheia de luzes multicores, veja a pessoa movendo-se na luz ou numa névoa. Ou esqueça as luzes e a névoa e faça de conta que ouve uma voz. Às vezes é mais fácil para nós ouvir sons que visualizar uma imagem. Ou esqueça luzes ou sons, apenas deixe que o que aquela pessoa sabe invade seu ser. Ou esqueça a intuição e imagine que a próxima pessoa com quem você conversar lhe dará a resposta que procura, e pergunte.

Ou pronuncie uma palavra que seja mágica para você. Imagine o que bem desejar.

Escolhi a imaginação, e uma palavra. De olhos fechados, imaginei que, quando falasse, veria diante de mim uma forma alternativa minha que me diria o que eu precisava saber.

Relaxando, vi cores suaves. Quando eu pronunciar a palavra, verei essa pessoa, pensei. Não há pressa.

As cores passavam, nuvens atrás de meus olhos.

— Unicidade — falei.

Numa fração infinitesimal de segundo pude ver, antes de compreender que o verde era um campo de feno, e o azul era o céu. O homem estava parado ao lado da asa de um antigo biplano estacionado no campo de feno, quase em silhueta contra o sol. Eu não lhe podia ver o rosto, mas a cena era tranqüila como um verão de Iowa, e ouvi sua voz como se ele estivesse sentado conosco ali na beira do lago.

— Todo ato humano é uma metáfora, Richard, antes de ser um ato — falou Pye. — Antes que passe muito tempo, você precisará recorrer a tudo quanto sabe a fim de desmentir as aparências, precisará lembrar-se de que Leslie não está apenas empurrando o manete em seu hidravião interdimensional, passando de um mundo para outro. Você necessita da força dela, Leslie necessita de suas asas. Juntos, vocês voam.

A cena dissipou-se, e abri os olhos, sobressaltado.

— Alguma coisa? — quis saber Leslie.

— Muita! — respondi. — Mas não sei ao certo como usá-lo. — Contei-lhe o que eu tinha visto e ouvido. — Não consigo entender.

— Você vai compreender quando precisar — disse Pye. — Quando você faz isso, quando adquire o conhecimento antes da experiência, nem sempre ele faz sentido de imediato.

Leslie sorriu.

— Nem tudo que temos aprendido por aqui é prático.

Pye retraçou o oito que tinha desenhado na areia.

— Nada é prático até compreendermos. Há certos aspectos de vocês que o cultuariam como a um Deus porque você pilota um Martin Seahawk. Há outros que se você próprio pudesse ver, juraria serem mágicos.

— Como você — falei.

— Como qualquer mágico — respondeu ela —, pareço fazer magia porque você não sabe o quanto treinei! Sou um ponto de consciência que se expressa no desenho, tal como você. E tal como você, nunca nasci e nunca poderei morrer. Até mesmo separar a mim de você implica uma diferença inexistente.

— Tal como você é a mesma pessoa que foi há um segundo ou há uma semana — prosseguiu Pye. — Tal como é a mesma pessoa que será daqui a um instante ou daqui a uma semana, também é a mesma pessoa que você foi há uma vida passada, aquela que é numa vida alternativa, aquela que você será daqui a cem vidas, no que chama de seu futuro.

Pye sacudiu a areia das mãos e levantou-se.

— Preciso ir andando — falou. — Vocês têm mais aventuras juntos, ainda. Não se esqueçam dos pintores e do alvorecer. Não importa o que suceder, independente das aparências, a única realidade é o amor. — Estendeu a mão para Leslie, abraçou-a.

— Querida Pye — disse Leslie. — Como é ruim vê-la ir embora!

— Ir embora? Posso desaparecer, meus queridos, mas jamais posso abandoná-los! Quantos de nós estão aqui, afinal?

— Um só, querida — respondi, despedindo-me dela com um abraço.

Pye riu.

— Por que amo vocês? Porque vocês se lembram… — E com isso, desapareceu.

Leslie e eu ficamos sentados por longo tempo na areia, ao lado do desenho de Pye, traçando o oito que ela riscara, apreciando suas cidadezinhas, as florestas e a história que ela contara.

Por fim, caminhamos até o Growly, enlaçados. Puxei a corda da âncora, ajudei Leslie a subir para a cabine, empurrei o avião para dentro da água e subi a bordo. O Martin balançava devagar, empurrado pela brisa. Liguei o motor.

Quando o motor esquentou, nossa verificação de decolagem estava pronta.

— O que virá a seguir, Leslie?

— É estranho, querido. Quando pousamos aqui e achamos que tínhamos saído do desenho, fiquei tão triste ao pensar que estava tudo terminado! Agora sinto exatamente o contrário. Voltar a ver Pye completou alguma coisa em mim. Aprendemos tantas coisas, e tão depressa! Gostaria de parar, voltar para casa e pensar nessas coisas, entender o que significam…

— Eu também, Leslie!

Olhamos um para o outro por muito tempo, e concordamos sem uma só palavra.

— Certo, querida. Vamos para casa. Só precisamos descobrir como fazer isso.

Levei a mão ao manete e o empurrei. Nada imaginei, nem tentei visualizar coisa alguma. O motor do Growly roncou, e o hidravião saltou para a frente. Por que esse ato simples era tão difícil quando eu não podia ver o manete com os olhos? pensei. Logo eu!

Assim que o Growly levantou da água, o lago desapareceu, e estávamos mais uma vez no ar, sobrevoando todos os possíveis mundos existentes.