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Em seguida mandou entrar a primeira visita — a mãe da tal paciente que tentara o suicídio.
— Sou a mãe de Veronika. Qual o estado de minha filha?
O Dr. Igor pensou se devia ou não dizer-lhe a verdade, e poupa-la de surpresas inúteis — afinal de contas, tinha uma filha com o mesmo nome. Mas decidiu que era melhor ficar calado.
— Ainda não sabemos — mentiu. — Precisamos de mais uma semana.
— Não sei porque Veronika fez isso — dizia a mulher a sua frente, em prantos. — Nós somos pais carinhosos, tentamos dar a ela, a custa de muito sacrifício, a melhor educação possível. Embora tivéssemos nossos problemas conjugais, mantivemos nossa familia unida, como exemplo de perseverança diante das adversidades. Ela tem um bom emprego, não é feia, e mesmo assim...
— ... e mesmo assim tentou matar-se — interrompeu o Dr. Igor. — Não fique surpresa, minha senhora, é assim mesmo. As pessoas são incapazes de entender a felicidade. Se desejar, posso lhe mostrar as estatísticas do Canadá.
— Canadá?
A mulher olhou-o com surpresa. Dr. Igor viu que havia conseguido distrai-la, e continuou.
— Veja bem: a senhora vem até aqui não para saber com vai sua filha, mas para desculpar-se pelo fato de que ela tentou cometer suicídio. Quantos anos ela tem?
— Vinte e quatro.
— Ou seja: uma mulher madura, vivida, que já sabe bem o que deseja, e é capaz de fazer suas escolhas. O que isso tem a ver com seu casamento, ou com o sacrifício que a senhora e seu marido fizeram? Há quanto tempo ela mora sozinha?
— Seis anos.
— Está vendo? Independente até a raiz da alma. Mesmo assim, porque um médico austríaco — Dr. Sigmund Freud, tenho certeza que a Sra. já ouviu falar dele — escreveu sobre estas relações doentias entre pais e filhos, até hoje todo mundo se culpa de tudo. Os Índios acham que o filho que se tornou assassino é uma vitima da educação de seu pais? Responda.
— Não tenho a menor ideia — respondeu a mulher, cada vez mais surpresa com o médico. Talvez ele tivesse sido contagiado pelos próprios pacientes.
— Pois eu vou lhe dizer a resposta — disse o Dr. Igor. -Os indios acham que o assassino é culpado, e não a sociedade, nem seus pais, nem seus antepassados. Os japoneses cometem suicídio porque um filho deles resolveu se drogar e sair atirando? A resposta também é a mesma: Não! E olha que, segundo me consta, os japoneses cometem suicídio por qualquer motivo; outro dia mesmo li uma noticia de que um jovem se matou porque não conseguiu passar no vestibular.
— Será que eu posso falar com a minha filha? — perguntou a mulher, que não estava interessada em japoneses, índios ou canadenses.
— Já, já — disse o Dr. Igor, meio irritado com a interrupção. — Mas antes, eu quero que a Sra. entenda uma coisa: afora alguns casos patológicos graves, as pessoas enlouquecem quando tentam fugir da rotina. A senhora entendeu?
— Entendi muito bem — respondeu. — E se o senhor está achando que não serei capaz de cuidar dela, pode ficar tranquilo: nunca tentei mudar a minha vida.
— Que bom — o Dr. Igor mostrava um certo alívio. — A senhora já imaginou um mundo onde, por exemplo, não fossemos obrigados a repetir todos os dias de nossas vidas a mesma coisa? Se resolvêssemos, por exemplo, comer só na hora em que tivéssemos fome: como as donas de casa e os restaurantes se organizariam?
«Seria mais normal comer só quanto estivéssemos com fome», pensou a mulher, que não disse nada, com medo que lhe proibissem falar com Veronika.
— Seria uma confusão muito grande — disse ela. — Eu sou dona de casa, e sei do que está falando.
— Então temos o café da manhã, o almoço, o jantar. Temos que acordar em determinada hora todos os dias, e descansar uma vez por semana. Existe o Natal para dar presentes, a páscoa para
passar três dias no lago. A senhora ficaria contente se o seu marido, só porque foi tomado de um súbito impulso de paixão, resolvesse fazer amor na sala?
«De que este homem está falando? Eu vim aqui ver minha filha!»
— Ficaria triste — respondeu ela, com todo cuidado, esperando ter acertado.
— Muito bem — bradou o Dr. Igor. — Lugar de fazer amor é na cama. Senão, estaremos dando mau exemplo e disseminando a anarquia.
— Posso ver minha filha? — interrompeu a mulher.
O Dr. Igor resignou-se; esta camponesa nunca ia entender do que estava falando, não estava interessada em discutir a loucura do ponto de vista filosófico — mesmo sabendo que sua filha tentara o suicídio para valer, e entrara em coma.
Tocou uma campainha, e sua secretária apareceu.
— Mande chamar a moça do suicídio — disse. — Aquela da carta aos jornais, dizendo que se matava para mostrar onde era a Eslovenia.
— Não quero vê-la. Eu já cortei os meus laços com o mundo.
Fora dificil dizer isso ali na sala de estar, na
presença de todo mundo. Mas o enfermeiro tampouco fora discreto, e avisara em voz alta que sua mãe a estava esperando — como se fosse um assunto que interessasse a todos.
Não queria ver a mãe porque as duas iam sofrer. Era melhor que já a considerasse morta; Veronika sempre odiara as despedidas.
O homem desapareceu por onde viera, e ela voltou a olhar as montanhas. Depois de uma semana, o sol tinha finalmente retornado — e ela já sabia isso desde a noite anterior, porque a lua lhe dissera, enquanto tocava piano.
«Não, isso é loucura, estou perdendo o controle, os astros não falam — exceto para aqueles que se dizem astrólogos. Se a lua conversou com alguém, foi com aquele esquizofrênico.»
Mal terminara de pensar isso, sentiu uma pontada no peito, e um braço ficou dormente. Veronika viu o teto rodar: o ataque de coração!
Entrou numa espécie de euforia, como se a morte a
libertasse do medo de morrer. Pronto, estava tudo acabado! Talvez sentisse alguma dor, mas o que eram cinco minutos de agonia, em troca de uma eternidade em silêncio? A única atitude que tomou, foi a de fechar os olhos: o que mais lhe horrorizava era ver, nos filmes, os mortos de olhos abertos.
Mas o ataque de coração parecia ser diferente daquilo que imaginara; a respiração começou a ficar dificil, e, horrorizada, Veronika começou a descobrir que estava prestes a experimentar o pior de seus medos: a asfixia. Ia morrer como se estivesse sendo enterrada viva, ou fosse puxada de repente para o fundo do mar.
Cambaleou, caiu, sentiu a pancada forte no rosto, continuou fazendo um esforço gigantesco para respirar— mas o ar não entrava. Pior que tudo, a morte não vinha, estava inteiramente consciente do que se passava a sua volta, continuava vendo as cores e as formas. Tinha dificuldade apenas de escutar o que os outros diziam — os gritos e as exclamações pareciam distantes, como se vindos de um outro mundo. Afora isso, todo o mais era real, o ar não vinha, simplesmente não obedecia aos comandos dos seus pulmões e de seus músculos — e a consciência não ia embora.
Sentiu que alguém a pegava e a virava de costas — mas agoira havia perdido o controle do movimento dos olhos, e eles rodopiavam, enviando centenas de imagens diferentes ao seu cérebro, misturando a sensação de sufocamento com uma completa confusão visual.
Aos poucos as imagens foram ficando também distantes -e, quando a agonia atingiu seu ponto máximo, o ar finalmente entrou, emitindo um ruido tremendo, que fez com que todos na sala ficassem paralisados de medo.
Veronika começou a vomitar descontroladamente. Passado o momento da quase tragédia, alguns loucos começaram a rir da cena
— e ela sentia-se humilhada, perdida, incapaz de reagir.
Um enfermeiro entrou correndo, e aplicou-lhe uma injeção no braço.
— Fique tranquila. Já passou.
— Eu não morri! — ela começou a gritar, avançando em direção aos internos, e sujando o chão e os móveis com seu vómito.
— Eu continuo nesta droga de hospício, sendo obrigado a conviver com vocês! Vivendo mil mortes a cada dia, a cada noite — sem que ninguém tenha misericórdia de mim!