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O amargo crónico só notava a sua doença uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como não tinham o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebiam que alguma coisa estava muito errada — já que a paz daquelas tardes era infernal, o tempo não passava nunca, e uma constante irritação manifestava-se livremente.
Mas a Segunda-feira chegava, e o amargo logo esquecia os seus sintomas — embora blasfemasse contra o fato de que nunca tinha tempo para descansar, e os reclamasse que fins-de-semana passavam muito rápido.
A única grande vantagem da doença, do ponto de vista social, é que já se transformara numa regra; portanto, a internação não se fazia mais necessária — exceto nos casos onde a intoxicação era tão forte que o comportamento do doente começava a afetar os outros. Mas a maioria dos amargos podiam continuar lá fora, sem constituir ameaça a sociedade ou aos outros, já que -por causa das altas muralhas construídas ao redor de si mesmos -estavam totalmente isolados do mundo, embora parecessem partilhar dele.
O Dr. Sisgimund Freud descobrira a libido e a cura para os problemas causados por ela — inventando a psicanálise. Além de descobrir a existência do Vitriolo, o Dr. Igor precisava provar que, também neste caso, a cura era possível. Queria deixar seu nome na história da medicina, embora não se iludisse quanto as dificuldades que teria que enfrentar para impor suas ideias — já que os «normais» estavam contentes com suas vidas, e jamais admitiriam sua doença, enquanto os «doentes» movimentavam uma gigantesca indústria de asilos, laboratórios, congressos, etc.
«Sei que o mundo não reconhecerá agora meu esforço», disse para si mesmo, orgulhoso de ser incompreendido. Afinal, este era o preço que os génios precisavam pagar.
— O que aconteceu com o Sr.? — perguntou a moça a sua frente. — Parece que entrou no mundo de seus pacientes. Dr. Igor ignorou o comentário desrespeitoso. — Você pode ir agora — disse.
Veronika não sabia se era dia ou noite — o Dr. Igor estava com a luz acesa, mas ele fazia isso todas as manhãs. Entretanto, ao chegar no corredor, viu a lua, e deu-se conta que dormira mais tempo do que o que imaginara.
No caminho para a enfermaria, reparou uma foto
emoldurada na parede: era a praça central de Lubljana , ainda sem a estátua do poeta Preseren, mostrando casais passeando -provavelmente num domingo.
Reparou a data da foto: Verão de 1910.
Verão de 1910. Ali estavam aquelas pessoas, cujos filhos e netos já tinham morrido, capturadas num momento de suas vidas. As mulheres usavam pesados vestidos, e os homens estavam todos de chapéu, paletó, gravata (ou pano colorido, como chamavam os loucos), polainas, e guarda chuva no braço.
E o calor? A temperatura devia ser a mesma dos verões de hoje, 35° à sombra. Se chegasse um inglês de bermudas e mangas de camisa — vestimenta muito mais apropriada para o calor — o que estas pessoas pensariam?
«Um louco».
Tinha entendido perfeitamente bem o que o Dr. Igor quisera dizer. Da mesma maneira, entendia que sempre tivera em sua vida muito amor, carinho, proteção, mas lhe faltara um elemento para tornar tudo isto numa benção: devia ter sido um pouco mais louca.
Seus pais continuariam a ama-la de qualquer maneira, mas ela não ousara pagar o preço de seu sonho, com medo de feri-los. Aquele sonho que estava enterrado no fundo de sua memória, embora vez por outra fosse despertado num concerto, ou num belo disco que escutava ao acaso. Entretanto, sempre que o seu sonho era despertado, o sentimento de frustração era tão grande, que ela logo o fazia adormecer de novo.
Veronika sabia, desde criança, qual era sua verdadeira vocação: ser pianista!
Sentira isso desde a primeira aula, com doze anos de idade. Sua professora também percebera seu talento, e a incentivara a tornar-se uma profissional. Entretanto, quando -contente com um concurso que acabara de ganhar — dissera a mãe que ia largar tudo para dedicar-se apenas ao piano, ela a olhara com carinho, e respondera: «ninguém vive de tocar piano, meu amor. «
«Mas você me fez ter aulas!»
«Para desenvolver seus dons artísticos, só isso. Os maridos apreciam, e você pode destacar-se nas festas. Esqueça esta história de ser pianista, e vá estudar advocacia: esta é a profissão do futuro.
Veronika fizera o que a mãe pedira, certa de que ela tinha experiência suficiente para entender o que era realidade. Terminou os estudos, entrou na faculdade, saiu da faculdade com um diploma e notas altas — mas só conseguiu um emprego de bibliotecária.
«Devia ter sido mais louca». Mas — como devia acontecer com a maioria das pessoas — descobrira tarde demais.
Virou-se para continuar seu caminho, quando alguém segurou-a no braço. O poderoso calmante que lhe haviam aplicado ainda corria em suas veias, por isso não se reagiu quando Eduard, o esquizofrênico, delicadamente começou a conduzi-la numa direção diferente — a sala de estar.
A lua continuava em quarto crescente, e Veronika já se sentara ao piano — o pedido silencioso de Eduard — quando começou a ouvir uma voz que vinha do refeitório. Alguém que falava com sotaque estrangeiro, e Veronika não se lembrava de ter escutado aquele sotaque em Villete.
— Não quero tocar piano agora, Eduard. Quero saber o que está acontecendo no mundo, o que conversam aqui ao lado, que homem estranho é esse.
Eduard sorria, talvez sem entender uma só palavra do que estava dizendo. Mas ela lembrou-se do Dr. Igor: os esquizofrênicos podiam entrar e sair de suas realidades separadas.
— Eu vou morrer — continuou, na esperança de que suas palavras fizessem sentido. — A morte roçou suas asas no meu rosto hoje, e deve estar batendo na minha porta amanhã, ou depois. Você não deve se acostumar a escutar um piano todas as noites.
«Ninguém pode se acostumar com nada, Eduard. Veja só: eu estava gostando de novo do sol, das montanhas, dos problemas -estava mesmo aceitando que a falta de sentido da vida não era culpa de ninguém, exceto minha. Queria de novo ver a praça de Lubljana, sentir ódio e amor, desespero e tédio, todas estas coisas simples e tolas que fazem parte do cotidiano, mas que dão gosto à existência. Se algum dia pudesse sair daqui, iria permitir-me ser louca, porque todo mundo é — e piores são aqueles que não sabem que são, porque ficam repetindo apenas o que os outros mandam.
« Mas nada disso é possível, entendeu? Da mesma maneira, você não pode passar o dia inteiro esperando que venha a noite, e
que uma das internas toque piano — porque isso acabará logo. Meu mundo e o seu estão no final.»
Levantou-se, tocou carinhosamente no rosto do rapaz, e foi até o refeitório.
Ao abrir a porta, deparou-se com uma cena insólita; as mesas e cadeiras tinham sido empurradas para parede, formando um grande espaço vazio no centro. Ali, sentados no chão, estava os membros da Fraternidade, escutando um homem de terno e gravata.
— ...então convidaram o grande mestre da tradição sufi, Nasrudin, para dar uma palestra — dizia ele.
Quando a porta se abriu, todos na sala olharam para Veronika. O homem de terno virou-se para ela.
— Sente-se.
Ela sentou-se no chão, junto a senhora de cabelos brancos, Mari — que fora tão agressiva em seu primeiro encontro. Para sua surpresa, Mari deu um sorriso de boas-vindas.
O homem de terno continuou:
— Nasrudin marcou a conferencia para as duas horas da tarde, e foi um sucesso: os mil lugares foram todos vendidos, e ficaram mais de seiscentas pessoas do lado de fora, acompanhando a palestra por um circuito fechado de televisão.
«As duas em ponto, entrou um assistente de Nasrudin, dizendo que, por motivo de força maior, a palestra ia atrasar. Alguns levantaram-se indignados, pediram a devolução do dinheiro, e sairam. Mesmo assim ainda continuou muita gente dentro e fora da sala.
«A partir das quatro da tarde, o mestre sufi ainda não tinha aparecido, e as pessoas foram — pouco a pouco — deixando o local, e pegando seu dinheiro de volta: afinal de contas, o expediente de trabalho estava terminando, era chegado o momento de precisavam voltar para casa. Quando deu seis horas, os 1.700 espectadores originais estavam reduzidos a menos de cem.
«Neste momento, Nasrudin entrou. Parecia completamente bêbado, e começou a dizer gracinhas a uma bela jovem que sentara-se na primeira fila.
«Passada a surpresa, as pessoas começaram a ficar indignadas: como, depois de esperar quatro horas seguidas, esse homem se comportava de tal maneira? Alguns murmúrios de desaprovação se fizeram ouvir, mas o mestre sufi não deu nenhuma importância: continuou, aos brados, a dizer como a menina era sexy, e convidou-a para viajar com ele para a França.»
Que mestre, pensou Veronika. Ainda bem que nunca acreditei nestas coisas.
«Depois de dizer alguns palavrões contra as pessoas que reclamavam, Nasrudin tentou levantar-se e caiu pesadamente no chão. Revoltadas, as pessoas resolveram ir embora, dizendo que
tudo aquilo não passava de charlatanismo, que iriam aos jornais denunciar o espetáculo degradante.
«Nove pessoas continuaram na sala. E, assim que o grupo de revoltados deixou o recinto, Nasrudin levantou-se; estava sóbrio, seus olhos irradiavam luz, e havia em torno dele uma aura de respeitabilidade e sabedoria. «Vocês que estão aqui, são os que tem que me ouvir», disse. «Passaram pelos dois testes mais duros no caminho espiritual: a paciência para esperar o momento certo, e a coragem de não se decepcionar com o que encontraram. A vocês eu vou ensinar.»
«E Nasrudin compartilhou com eles algumas das técnicas sufi.»
O homem deu uma pausa, e tirou uma flauta estranha do bolso.
— Vamos agora descansar um pouco, e depois faremos a nossa meditação.
O grupo ficou de pé. Veronika não sabia o que fazer.