40400.fb2 Veronika decide morrer - читать онлайн бесплатно полную версию книги . Страница 18

Veronika decide morrer - читать онлайн бесплатно полную версию книги . Страница 18

Começou a falar, a dizer coisas impensáveis, que seus pais, seus amigos, seus ancestrais considerariam o que havia de mais sujo no mundo. Veio o primeiro orgasmo, e ela mordeu os lábios para não gritar de prazer.

Eduard a encarava. Havia um brilho diferente nos seus olhos, parecia que estava compreendendo alguma coisa, nem que fosse a energia, o calor, o suor, o cheiro que exalava do seu corpo. Veronika ainda não estava satisfeita. Ajoelhou-se, e começou a masturbar-se de novo.

Queria morrer de gozo, de prazer, pensando e realizando tudo que sempre lhe fora proibido: implorou ao homem que a tocasse, que a submetesse, que a usasse para tudo o que tinha vontade. Quis que Zedka estivesse também ali, porque uma mulher sabe como tocar o corpo da outra como nenhum homem consegue, já que conhece todos os seus segredos.

De joelhos, diante daquele homem em pé, ela sentiu-se possuída e tocada, e usou palavras pesadas para descrever o que queria que ele lhe fizesse. Um novo orgasmo foi chegando, desta vez mais forte que nunca, como se tudo a sua volta fosse explodir. Lembrou-se do ataque do coração que tivera aquela manhã, mas isto não tinha mais nenhuma importância, ia morrer gozando, explodindo. Sentiu-se tentada a segurar o sexo de Eduard, que se encontrava bem diante do seu rosto, mas não queria correr nenhum risco de estragar aquele momento; estava indo longe, muito longe, exatamente como Mari dissera.

Imaginou-se rainha e escrava, dominadora e dominada. Em sua fantasia, fazia amor com brancos, negros, amarelos, homossexuais, mendigos. Era de todos, e todos podiam fazer tudo. Teve um , dois, três orgasmos seguidos. Imaginou tudo que nunca imaginara antes — e entregou-se ao que havia de mais vil e mais puro. Finalmente, não conseguiu mais conter-se e gritou muito, de prazer, da dor dos orgasmos seguidos, dos muitos homens e mulheres que tinham entrado e saido do seu corpo, usando as portas de sua mente.

Deitou-se no chão, e deixou-se ficar ali, inundada de suor, com a alma cheia de paz. Escondera seus desejos ocultos de si mesma, sem nunca saber direito por que — e não precisava de uma resposta. Bastava ter feito o que fizera: entregar-se.

Pouco a pouco, o Universo foi voltando ao seu lugar, e Veronika levantou-se. Eduard se mantivera imóvel o tempo todo, mas algo nele parecia ter mudado: seus olhos demonstravam ternura, uma ternura muito próxima deste mundo.

«Foi tão bom que consigo ver amor em tudo. Até mesmo nos olhos de um esquizofrênico. «

Começou a colocar suas roupas, e sentiu uma terceira presença na sala.

Mari estava ali. Veronika não sabia quando ela havia entrado, o que escutara ou vira, mas mesmo assim não sentia vergonha ou medo. Apenas olhou-a, com a mesma distância com que se olha uma pessoa próxima demais.

— Fiz o que você sugeriu — disse. — Cheguei longe. Mari permaneceu em silêncio; tinha acabado de reviver

momentos muito importantes de sua vida, e sentia um certo mal-estar. Talvez fosse hora de voltar para o mundo, enfrentar as coisas lá fora, dizer que todos podiam ser membros de uma grande Fraternidade, mesmo sem nunca terem conhecido um hospício.

Como aquela garota, por exemplo — cuja única razão por estar em Villete era ter atentado contra a própria vida. Ela jamais conhecera o pânico, a depressão, as visões místicas, as psicoses, os limites que a mente humana nos pode levar. Embora conhecesse tantos homens, nunca experimentara o que há de mais oculto em seus desejos — e o resultado é que não conhecia nem metade de sua vida. Ah, se todos pudessem conhecer e conviver com sua loucura interior! O mundo seria pior? Não, as pessoas seriam mais justas e mais felizes.

— Por que nunca fiz isso antes?

— Ele quer que você toque mais uma música — disse Mari, olhando para Eduard. — Acho que merece.

— Farei isso, mas responda: por que nunca tinha feito isso antes? Se sou livre, se posso pensar em tudo que quero, por que sempre evitei imaginar situações proibidas?

— Proibidas? Escute: eu já fui advogada, e conheço as leis. Também já fui católica, e sabia de cor grande parte da Biblia. O que você quer dizer com «proibida»?

Mari aproximou-se dela, e ajudou-a a vestir o suéter.

— Olhe bem nos meus olhos, e não esqueça o que vou lhe dizer. Só existem duas coisas proibidas — uma pela lei do homem, outra pela lei de Deus . Nunca force uma relação com alguém, que é considerado estupro. E nunca tenha relações com crianças, porque este é o pior dos pecados. Afora isto, você é livre. Sempre existe alguém querendo exatamente a mesma coisa que você deseja.

Mari não estava com paciência de ensinar coisas importantes a alguém que iria morrer logo. Com um sorriso, disse «boa noite» e retirou-se.

Eduard não se moveu, esperando sua música. Veronika precisava recompensa-lo pelo imenso prazer que ele lhe dera, só pelo fato de permanecer diante dela, olhando sua loucura sem pavor ou repulsa. Sentou-se no piano e recomeçou a tocar.

Sua alma estava leve, e nem mesmo o medo da morte lhe atormentava mais. Tinha vivido o que sempre escondera de si mesma. Tinha experimentado os prazeres de virgem e de prostituta, de escrava e rainha — mais de escrava do que de rainha.

Naquela noite, como por milagre, todas as canções que sabia voltaram a sua mente, e ela fez com que Eduard tivesse quase tanto prazer quanto ela.

Quando acendeu a luz, o Dr. Igor ficou surpreso ao ver a moça sentada na sala de espera do seu consultório.

— Ainda é muito cedo. E estou com o dia cheio.

— Sei que é cedo — disse ela. — E o dia ainda não começou. Preciso falar um pouco, só um pouco. Preciso de ajuda.

Ela estava com olheiras, a pele sem brilho, sintomas tipicos de quem passara a noite inteira em claro. Dr. Igor resolveu deixa-la entrar.

Pediu que sentasse, acendeu a luz do consultório, e abriu as cortinas. Ia amanhecer daqui há menos de uma hora, e logo poderia economizar os gastos com eletricidade; os acionistas sempre s importavam com despesas, por mais insignificantes que fossem.

Deu uma rápida olhada em sua agenda: Zedka já havia tomado seu último choque de insulina, e reagira bem — ou melhor, conseguira sobreviver ao tratamento desumano. Ainda bem que, naquele caso especifico, o Dr. Igor exigira que o Conselho do hospital assinasse uma declaração, responsabilizando-se pelos resultados.

Passou a examinar os relatórios. Dois ou três pacientes tinham se comportado de maneira agressiva durante a noite, segundo relato de enfermeiros — entre eles Eduard, que voltara para sua enfermaria as quatro horas da manhã, e recusara-se tomar os comprimidos para dormir. Dr. Igor precisava tomar uma providencia; por mais liberal que Villete fosse do lado de dentro, era preciso manter as aparecerias de uma instituição conservadora e severa.

— Tenho algo muito importante para pedir — disse a moça.

Mas o Dr. Igor não lhe deu atenção. Pegando um

estetoscópio, começou a auscultar o seu pulmão e coração. Testou seus reflexos, e examinou o fundo da retina com uma pequena lanterna portátil. Viu que ela quase não tinha mais sinais de envenenamento por Vitriolo — ou Amargura, como todos preferiam chamar.

Em seguida, foi até o telefone e pediu para a enfermeira trazer um remédio de nome complicado.

— Parece que você não tomou sua injeção ontem a noite -disse ele.

— Mas estou me sentindo melhor.

— Dá para ver no seu rosto: olheiras, cansaço, falta de reflexos imediatos. Se você quer aproveitar o pouco tempo que lhe resta, por favor faça o que eu mando.

— Justamente por isso que estou aqui. Quero aproveitar o pouco tempo, mas a minha maneira. Quanto tempo sobra?

O Dr. Igor olhou-a por sobre os óculos.

— O Sr. pode me responder — insistiu ela. — Já não tenho medo, nem indiferença, nem nada. Tenho vontade de viver, mas sei que isso não basta, e estou conformada com meu destino.

— Então o que quer?

A enfermeira entrou com a injeção. Dr. Igor fez um sinal com a cabeça; ela levantou delicadamente a manga do suéter de Veronika.

— Quanto tempo me resta? — repetiu Veronika, enquanto a enfermeira aplicava a injeção.

— Vinte e quatro horas. Talvez menos.

Ela abaixou os olhos, e mordeu os lábios. Mas manteve o controle.

— Quero pedir dois favores. O primeiro, que me dê um remédio, uma injeção, seja o que for — de modo que eu posso ficar acordada, e aproveitar cada minuto do que sobrou de minha vida. Eu estou com muito sono, mas não quero mais dormir, tenho muito o que fazer — coisas que sempre deixei para o futuro, quando pensava que a vida era eterna. Coisas que perdi o interesse, quando passei a acreditar que a vida não valia a pena.

— Qual o seu segundo pedido?

Sair daqui, e morrer lá fora. Preciso subir no castelo de Lubljana, que sempre esteve ali, e nunca tive a curiosidade de vê-lo de perto. Preciso conversar com a mulher que vende castanhas no inverno, e flores na primavera; quantas vezes nos cruzamos, e eu nunca lhe perguntei como passava? Quero andar na neve sem casaco, sentindo o frio extremo — eu, que sempre estive bem agasalhada, com medo de pegar um resfriado.

«Enfim, Dr. Igor, eu preciso apanhar chuva no rosto, sorrir para os homens que me interessam, aceitar todos os cafés para os quais me convidam. Tenho que beijar minha mãe, dizer que a amo, chorar no seu colo — sem vergonha de mostrar meus sentimentos, porque eles sempre existiram, e eu os escondi.

«Talvez eu entre na igreja, olhe aquelas imagens que nunca me disseram nada, e elas terminem me dizendo alguma coisa. Se um homem interessante me convidar para uma boate eu vou aceitar, e vou dançar a noite inteira, até cair exausta. Depois irei para a cama com ele — mas não da maneira como fui com outros, ora tentando manter o controle, ora fingindo coisas que não sentia. Quero me entregar à um homem, à cidade, à vida e, finalmente, à morte. «